* Bruno Filippo
Em meados dos anos 90, O Dia publicou uma série de reportagem sobre a influência do tráfico de drogas nas escolas de samba. Salvo engano, foi a primeira vez que a grande imprensa tratou o tema com o destaque que merece. As reportagens eram contundentes: mostravam que, à medida que o tráfico de drogas crescia nos anos 80, as agremiações não poderiam ficar imunes a ele, visto que quase todas as escolas estão sediadas em comunidades dominadas pelo narcotráfico.
O que fez a imprensa carnavalesca diante do fato? Num programa de rádio, o apresentador denunciou “a existência de uma campanha com o objetivo de denegrir a imagem das escolas de samba.” A maioria, no entanto, preferiu o silêncio – postura que sempre se repete quando emergem os incômodos dos subterrâneos do carnaval. Como quando, há poucos dias, soube-se que o ex-chefe do tráfico do Morro da Mangueira, Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, é um dos autores do samba da Estação Primeira de Mangueira para o carnaval de 2008. Condenado a 43 anos de prisão por homicídio, Tuchinha está em liberdade condicional desde julho do ano passado.
O ilustre compositor ocupou a primeira página dos jornais e de alguns sites especializados em cobertura de carnaval – aqueles comandados pela nova geração da imprensa carnavalesca, preocupados com a informação e com a imparcialidade da análise – no momento em que a vivissecção feita pelo filme Tropa de Elite expôs a hipocrisia da sociedade brasileira, e a sórdida, porque extremamente velada, cumplicidade entre bandidos letrados, bandidos iletrados e bandidos fardados. Não há mocinhos no filme. Nem o Capitão Nascimento, o anti-herói com caráter, antípoda de Macunaíma. É por isso que Capitão Nascimento incomoda. Tem postura de herói, é incorruptível, denuncia a podridão policial. Tem caráter - mas tortura, mata, humilha, subjuga. Não oferece soluções, mas paliativos cada vez mais ineficazes. É a maior personagem do cinema nacional.
A obra-de-arte é autônoma em relação ao artista. Ganha vida própria. Independe dos valores morais de quem a produziu, mas depende de seus valores estéticos. E são os valores estéticos que devem basear o julgamento da obra. O samba da Mangueira não é pior, nem melhor, nem diferente por causa de Tuchinha, que tem todo o direito de tornar-se compositor, e, caso realmente esteja regenerado, como afirma, que ele encontre na música o caminho de reintegração à sociedade. O problema é outro.
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Uma das reportagens d’O Dia intitulava-se “O tráfico de outros carnavais”. No dia 20 de outubro de 96, à página 20 da editoria de polícia, o repórter Ricardo França escreveu:
A ligação entre o tráfico de drogas e as escolas de samba no Rio é um enredo antigo. Nos tempos do Bumbum Paticumbum Prugurundum — tema do último carnaval campeão do Império Serrano, em 1982 —, o Império do Pó já desfilava impunemente com as cores do crime organizado pelas quadras das escolas do Grupo Especial.
Como recordar é viver, o delegado Nerval Goulart, titular da Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE), está montando um álbum sui generis ,que coloca lado a lado, em fotografias diversas, traficantes como José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha (preso em Bangu 1) e Antônio José Nicolau, o Toninho Turco , (morto na operação Mosaico em 1988) com personalidades do mundo do samba.
O objetivo do álbum — que começa com cinco fotografias da pesada — é estabelecer um histórico da atuação do tráfico no samba, traçar a espinha dorsal do Império do Pó, com seus foliões mais ilustres, e fundamentar o inquérito aberto por Nerval por ordem do chefe de Polícia Civil, delegado Hélio Luz. As cinco primeiras fotografias foram pinçadas da coleção particular do detetive Mário Augusto Berquó, que possui quatro pastas com fotos de seqüestradores, homicidas, traficantes e estupradores.
Uma das fotos mais importantes é a que registra Toninho Turco ao lado dos compositores Beto Sem Braço (morto), e Carlos Expedito Sena, o Carlinhos PM, vencedor da disputa do samba este ano no Império Serrano. Carlinhos teve a prisão temporária decretada na sexta-feira pela Justiça Federal, por tráfico de armamento bélico. Na mesma foto, aparece o compositor Denir de Lima, parceiro de Zeca Pagodinho .
As fotografias que mais chamaram a atenção dos agentes da DRE foram as de Escadinha durante um show de pagode na prisão. Freqüentador assíduo dos ensaios do Império Serrano, o traficante aparece esfuziante, vestindo uma camisa estampada colorida, arriscando passos de samba e posando para fotografias ao lado de Beto Sem Braço e Almir Guineto. Até o malandro do bom partido, Bezerra da Silva — com uma bolsa à tiracolo — foi fotografado ao lado do ex-chefe do tráfico do Morro do Juramento.
A amizade de Bezerra da Silva com Escadinha foi imortalizada e virou sucesso. Na composição Meu Bom Juiz , de autoria de Beto Sem Braço e Serginho Merity, Bezerra chama o traficante de "rei coroado pela gente". Em um dos versos, ele pede ao juiz para não bater o martelo nem proferir a sentença. "Pois este homem (Escadinha) não é tão ruim como o senhor pensa". O refrão do samba faz a associação direta do traficante com seu morro de origem: "Eu vi todo o Juramento, triste chorando de dor, se o senhor também presenciasse, chorava também".
Segundo Mário Berquó, as fotografias foram encontradas durante operação policial numa favela de Inhaúma, há cerca de cinco anos, e foram tiradas no final dos anos 80. Com base nas fotos, os compositores também serão chamados a depor na DRE. Caso seja comprovado que algum compositor usou dinheiro do tráfico para se promover, ele pode ser processado por conivência com o tráfico.
Laudemir Casemiro, o Beto Sem Braço, desfilava com desenvoltura entre o mundo do tráfico e as sucessivas vitórias no samba do Império. Antes de morrer de tuberculose em abril de 1993, Beto Sem Braço, que nasceu no dia 29 de julho de 1941, deu o título de campeão do carnaval à escola do coração com o samba-enredo Bumbum Paticumbum Prugurundum , composto em parceria com o amigo AluísioMachado.
Em 1992, um ano antes de morrer, Beto Sem Braço ganhou novamente a disputa do samba no Império, com o enredo “Fala Serrinha, a Voz do Morro Sou Eu Mesmo, Sim, Senhor.”. Em 1983, ele também ganhou com “Mãe Baiana Mãe” ; em 1985, foi vencedor
com “Samba, Suor e Cerveja” ; em 1989, com “Com a Boca no Mundo — Quem Não se Comunica se Trumbica” ; e, em 1989, com “Jorge Amado axé Brasil” .
A polícia sempre acompanhou, de longe, os passos de Beto Sem Braço e suas amizades no mundo do crime. Em setembro de 1990, encontrou o nome e o telefone dele na agenda do seqüestrador Washington de Oliveira, o Ostinho , filho de outro criminoso, Francisco Viriato de Oliveira, o Japonês — que, por sua vez,
é amigo de Escadinha , em Bangu I.
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A conivência nos faz sórdidos: acostumados que estamos aos problemas, deixamos de vê-los como problemas, ou fingimos desconhecê-los. Não conseguimos concatenar nossas atitudes, ou a falta delas. Estendemos faixas com pedidos de paz no Sambódromo, fazemos enredos sobre futuros promissores, homenageamos grandes personalidades e grandes momentos da história do Brasil.
Chamem o Capitão Nascimento.
* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval