27/07/2008 16:11:00

Acadêmicos do Samba: O Bruxo em Padre Miguel

Colunista Bruno Filippo exalta escolha do enredo da Mocidade e ressalta a importância de se contar a história de Machado de Assis na Avenida

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)


Anunciada como enredo da Mocidade, a homenagem ao centenário de Machado de Assis é a mais importante notícia do carnaval de 2009. Levar para a avenida a vida e a obra não de um grande escritor, mas do maior escritor brasileiro nos faz voltar ao tempo em que os enredos tinham uma finalidade cultural, sem estarem atrelados à busca predatória por patrocínios.

É verdade que o Bruxo só estará iluminado pela estrela de Padre Miguel porque empresários chilenos desistiram de patrocinar a escola; mas o que importa é que a Mocidade, com isso, escreveu certo por linhas tortas: buscar recursos para o enredo, e não enredo com recursos - invertendo a lógica atual que, em detrimento da qualidade, prioriza quaisquer caraminguás que, quem sabe com muito esforço, possam dar samba.
 
Mas a satisfação de saber que literatura estará representada no carnaval não pode transmitir ao público e aos torcedores da escola a sensação de um enredo fácil de ser elaborado. Tanto a vida quanto a obra de Machado de Assis são de difícil carnavalização, e isso pode levar às armadilhas da falta de criatividade e dos lugares-comuns a que já assistimos no carnaval.
 
Sofreu esse problema a última escola do Grupo Especial a homenagear um escritor. Foi a Unidos da Tijuca, em 2001, com Nélson Rodrigues, um escritor cuja vida e obra têm mais elementos de carnavalização do que Machado - do que, talvez, todos os escritores brasileiros. E a escola do Borel deixou a desejar, exceto pela comissão de frente, que representava a peça “Vestido de noiva”.

O que se viu, em certos momentos, foi previsível: bandeiras e uniformes de times de futebol, para lembrar seu fascínio pelo esporte, para torná-lo, por meio de um assunto comum, mais palatável perante o público. (E até nisso falhou, pois as referências ao Fluminense, grande paixão de Nélson, foram extirpadas em virtude da ligação da Unidos da Tijuca  com o Vasco).  
 
A vida de Joaquim Maria Machado de Assis é monótona, se cometermos o erro de tentar espelhar nela a grandeza de sua obra. (As estripulias juvenis não o fazem diferente de nenhum outro jovem) A ascensão do menino mulato, gago e epilético, nascido no Morro do Livramento, à condição de maior escritor brasileiro de todos os tempos não pode dimensionar excessivamente sua baixa condição social.

José Guilherme Merquior lembrou, num ensaio notável, que Machado era filho de pais agregados, um fenômeno da sociedade senhorial brasileira, e por isso pôde ser protegido por uma família de status econômico e intelectual. O que não diminui sua notável mobilidade, tampouco lhe permite classificar-se entre aqueles condenados ao fracasso que venceram na vida.
 
Homem de vida pacata e discreta, sem grandes atribulações, encontrou na solidão da atividade literária seu sentimento de mundo. E em sua literatura está a grande dificuldade de traduzir a densidade, a sofisticação de uma obra construída nos momentos capitais da história brasileira no século XIX; a ironia machadiana que revelava as contradições, as mesquinharias - e também as grandezas - do gênero humano; as características psicológicas de suas personagens.
 
Talvez isso explique o título do enredo: "Estrela em poesias! Livros de contos, crônicas e fantasias... Mocidade apresenta: Clube Literário Machado de Assis". A sinopse ainda será divulgada; no entanto, segundo o carnavalesco Cláudio Cebola, a Mocidade abrirá o leque, falando também dos imortais da ABL e, no fim, prestará uma homenagem a Guimarães Rosa, escritor cujo centenário de nascimento se comemora este ano.

Cebola, com isso, tentará contornar essa dificuldade estética. Mas pode incorrer no erro de pulverizar seu grande homenageado, prendendo-se a questões genéricas ou secundárias; e, além disso, a referência a Guimarães Rosa é problemática, posto que se trata de um escritor, em todos os sentidos, diferente do Bruxo do Cosme Velho.
 
A Mocidade terá pela frente o seu maior desafio nos últimos anos. E Cláudio Cebola, a oportunidade que não lhe cairá nos ombros duas vezes. Machado de Assis é o nosso único escritor universal. Sem ele, a literatura brasileira se apequena. Merece um carnaval à altura de sua grandeza. 


* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval da Estácio

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