11/3/2008 09:37:00

Acadêmicos do Samba: 'Sei lá, Mangueira' ou 'Foi um rio que passou em minha vida'?

A dúvida e a confissão de um portelense

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)

Lá pelos anos 80, minhas madrugadas não eram as mesas de bar, nem os lábios que eu, com os desejos púberes a aflorar, nunca beijara e sonhava beijar, nem as mãos que eu nunca afagara. Todos os dias, à meia-noite e meia, eu tinha encontro marcado com o radinho de pilha, ao lado do qual recostava a cabeça, à espera do sono contra o qual sempre lutava, à custa de muitas broncas maternas.

Se dormisse antes das três da manhã, quando terminava o programa de Adelzon Alves na Rádio Globo, acordava pensando nos sambas que eu deixara de ouvir, nas histórias que o “Amigo da Madrugada” sabia contar como poucos, com sua retórica persuasiva, ao mesmo tempo coloquial e empolada, sofisticada e popular.  

Não lembro se, no dia em que tocou “Sei lá, Mangueira”, dormi antes de o programa terminar. Mas a voz rascante de Elza Soares, sua interpretação singular que percorria as ondas do rádio, levaram-me a um estado de êxtase que sempre se renova, ainda que a música de Paulinho da Viola e letra de Hermínio Bello de Carvalho esteja na voz de outros intérpretes.

Alguns anos depois, com o ouvido mais apurado, “Sei lá, Mangueira” me mostraria a excelência a que uma obra musical podia chegar em imagens poéticas. Como os versos iniciais:

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão

A metáfora não era nova. Décadas antes, Orestes Barbosa, em “Chão de Estrelas”, idealizando a vida que um pobre habitante de um barracão de zinco no morro do Salgueiro levava ao lado da amada que depois o abandonou, escrevera o verso que Manuel Bandeira considerava o mais bonito que conhecera: Tu pisavas os astros distraída. A continuação da primeira parte da letra de Hermínio, no entanto, é mais emblemática:   

Sei lá,
Em Mangueira a poesia fez um mar, se alastrou
E a beleza do lugar, pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar
Sei lá não sei...
Sei lá não sei...

A poesia se fazendo mar, alastrando-se por Mangueira, é a imagem que evoca um mistério:  como explicar a presença de tantos poetas e músicos populares, surgidos em meio à pobreza e às privações? A letra diz Em Mangueira, sem a contração do artigo com a preposição; portanto, amplia a pergunta, pois não se refere à escola, e sim ao morro da Mangueira, de que a Estação Primeira é fruto. A resposta: Sei lá não sei...

A ausência de resposta racional deve nos levar a um exercício de humildade – aceitar que a vida tem lá seus mistérios, os quais só compreenderemos se nos curvarmos à nossa incapacidade de apreendê-los. 

Não sei se toda beleza de que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe e desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De sonhar, de pensar e sofrer
Sei lá não sei, sei lá não sei não
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação

Quando “Sei lá, Mangueira” foi composta, era comum a música brasileira retratar de maneira idílica morros e favelas, realçando o contraste entre as condições materiais de existência e a  beleza, interna e externa, de seus habitantes.

Canções como “O morro não tem vez”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Feio não é bonito”, de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri, ilustram essa tendência, que ganhou contornos ideológicos à medida que a situação política do Brasil se deteriorava.  Nesse sentido, da segunda parte da letra, extrai-se uma pequena obra-prima: Em Mangueira a poesia/Num sobe e desce constante/Anda descalça ensinando/Um modo novo da gente viver.

* * *

Se me ativesse somente à beleza poética e melódica de “Sei lá, Mangueira”, estaria, no entanto, escondendo sua história inusitada, que acabou por gerar outro clássico da  música brasileira.

Elza Soares defendeu-a no Festival da Rede Record de 1968, não tendo obtido boa colocação. Paulinho da Viola ficara preocupado quando soube que a música havia sido escrita no festival por Hermínio: este lhe dissera que seria usada num show que estava produzindo.

João Máximo, no perfil que escreveu Paulinho da Viola para a coleção Perfis do Rio, relembra o fato:

Certa tarde, indo ao apartamento de Hermínio Bello de Carvalho, viu sobre a mesa uma letra que o parceiro pensava em usar num show, tão logo fosse musicada. Paulinho da Viola pediu para tentar trabalhar uma melodia em cima daqueles versos. (...)

Enfim, uma declaração de amor de Hermínio à Estação Primeira, sua escola. Paulinho da Viola musicou-a, e bem, gravando-a num fita que passou ao parceiro. Ficou surpreso – e, mais do que isso, preocupado – quando soube que Hermínio não usaria num show, mas naquele festival em que Elza Soares defendeu-a bravamente. Tinha só um pensamento: “O que vai dizer o pessoal da Portela?” Ele, presidente da ala dos compositores, tecendo loas à Mangueira, seria no mínimo uma traição.            
  
O epílogo da história é feliz e conhecido: Paulinho da Viola, sozinho, para agradar à Portela, compôs aquela que é sua música mais conhecida: “Foi um rio que passou em minha vida”. Seu sucesso retumbante acabou por relegar “Sei lá, Mangueira”, ou apenas por situá-la historicamente como a responsável pelo hino de amor à Portela.

Minha paixão pela criação de Paulinho e Hermínio deixou-me, por muito tempo, com uma angústia existencial. Não torcia, e não torço, pela Mangueira: Clara Nunes me fizera apaixonar-se por sua antípoda, a Portela. Como podia eu gostar tanto de “Sei lá, Mangueira”? (Com a nova hegemonia das escolas de samba, a rivalidade histórica entre Mangueira e Portela hoje parece algo desbotado, sem a força de outrora, sobretudo ante os torcedores mais jovens)

Hoje, quando me perguntam qual das duas é mais bonita, responde sem pestanejar: sei lá, não sei. Assim mesmo, com minúscula.  

* Bruno Filippo é jornalista e coodenador do Insituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá

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