24/01/2009 14:00:00

Artigo: O Samba e o Carnaval ou o rolo compressor da Vila

Luis Carlos Magalhães assiste ao ensaio da Vila e quase é 'atropelado' pela máquina azul-e-branco

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


No último final de semana assistimos aos ensaios técnicos de várias escolas, entre elas a nossa tão querida Vila Isabel.

Quem tem acompanhado esta coluna sabe que o samba deste ano, bem como os últimos da escola, não está exatamente entre aqueles que me fazem abrir uma cervejinha e ficar quietinho no meu canto admirando e curtindo sambas formidáveis.

Aliás, se há uma coisa difícil na minha vida é conseguir elencar os sambas preferidos entre tantos e tão formidáveis que conhecemos. Realmente muito difícil.

Curioso destacar que entre os meus favoritos, entre aqueles que considero exemplos do gênero, está um de Vila Isabel, pelo menos um. E não estou falando de Kizomba e nem dos memoráveis sambas de Martinho dos anos 60/70. Estou me referindo agora ao samba da Vila de 1994, aquele que tem um nome imenso, também de um dos autores vencedores deste ano, e que conta a história do bairro: muito prazer, eu sou a Vila.

Letra harmoniosa, rica, perfeitamente ajustada em sua função descritiva equilibrando-a com sua outra missão de conduzir, de encantar e emocionar. Música fácil de cantar e, sobretudo, com melodia envolvente que traz ao componente a alegria maior do carnaval que é cantar e dançar. Um samba que dá ao componente, ao sambista que está  ali fantasiado, aquilo que talvez seja o que de melhor e mais bonito marque a nossa festa: um samba  em que o componente sinta o mais absoluto prazer de brincar o carnaval..

Mas aquele ensaio técnico da Vila me impressionou muito. Com certeza não só não vi nada semelhante neste ano  como  suponho não ter visto algo parecido em nenhum outro ano.

Saí dali pensando naquele entusiasmo, aquela gente toda cantando sem parar, pulando, acenando, deixando um comentário na pista na voz de Miro Ribeiro: um rolo compressor.

Um desfile arrebatador que encontrou na frase de Miro sua melhor definição. 

Fiquei muito confuso, pensativo... parecia até que o tal rolo tinha me atropelado. 

Mas por que isto?

Fiquei me imaginando como julgador oficial do desfile no carnaval. Seria justo não dar nota10 ao canto tão intenso da escola?  Seria honesto não dar nota 10 à evolução, ao conjunto? Seria justo não dar nota 10 em harmonia? No desempenho e na contribuição que o samba dava para aquela ‘performance’, aquela euforia incomum?

Na verdade, na verdade, confesso que fico feliz por estar somente diante de uma hipótese. Se tal fato ocorresse eu ficaria mesmo muito dividido. Primeiro porque a escola teria cumprido seu papel, teria cumprido o regulamento em todos os seus detalhes. Por outro lado estaria contrariando minha visão pessoal do carnaval, certo ?

Vou tentar explicar.

A Vila Isabel é hoje uma escola de ponta, até aí nenhuma novidade, certo? Muito distantes daqueles tempos  iô-iô que nem estão tão longe assim. 

Tem muito chão,  belíssima bateria com mestre bastante ‘cascudo’ que não tem nada que aprender com ninguém. Dispõe de um carnavalesco que representa o futuro e outro que representa o algo mais que o carnaval tanto precisa.

Tem uma administração que exibe hoje uma das melhores sedes, senão a melhor, da cidade. Promove atividades músico-comerciais atraentes que fazem fluir para seus cofres recursos em quantidade invejável para nossos dias. 

Conta com uma porta-bandeira com magnífica presença no desfile e que faz com seu par um casal que também não tem nada a aprender com ninguém. Além disto um ‘puxador’ que qualquer escola quer e, principalmente , uma jovem mas - já se pode dizer -   vitoriosa e experiente direção de carnaval  esbanjando a cada desfile  provas de competência.  

E um belíssimo enredo a contar.

Lá pelas tantas, fiquei imaginando, supondo, tentando adivinhar. 

A impressão que me ficou é que a escola, a partir de todos esses atributos, entendeu que já neste carnaval seu papel não vai ser disputar o título. Não, a impressão que fica é que seu desfile será não para disputar, repito, mas sim ganhar o carnaval: obstinadamente.

Mas e daí? Outras escolas também estão neste patamar. Ou não?

Decerto que sim, mas quero ir adiante. Repito, a impressão que me ficou é que  a escola “se fechou” de tal forma, desta vez a ponto de encomendar o tipo de samba que queria, que precisava para seu projeto;  aquele que sua harmonia desejava e “necessitava” para colocar na pista uma outra forma de carnaval. 

Um carnaval p’ra lá de compacto, um bloco avassalador com evolução rígida, contínua e frenética, sem cometer erros: um rolo compressor, enfim.

Mas, afinal, perguntarão vocês aí desse lado, qual o demérito disto? Em que isto não me entusiasma a ponto de ficar neste lenga-lenga?

Já repeti aqui tantas vezes que (Portela à parte) pouco me importa quem será o vencedor. O mais importante para mim neste jogo todo é que as quatro escolas mais tradicionais estejam bem, façam belos desfiles e sejam derrotadas, ou não, por uma das demais em uma vitória que valorize não só a ela própria ela como também, e principalmente, o próprio carnaval. Um carnaval que terá sido forte, disputado, e que, sempre, os fundamentos do samba estejam preservados..

Entendo que o desfile de escolas de samba só alcançou este nível de prestígio porque teve a qualidade, o mérito, de reunir, de misturar o “samba” e o “carnaval” em um único espetáculo. Um incomparável e inesgotável jogo de forças que se fortalece, que jamais se anulará, forças que se complementam e se nutrem mutuamente. Uma simbiose de fazer inveja à própria natureza.

Por outro lado, incorporou outras formas carnavalescas anteriores, formando a síntese da história da folia carioca. Do rancho, a forma processional, a exibição e proteção da bandeira. Das Grandes Sociedades, as alegorias. Dos bailes, o exibicionismo das frisas e camarotes dos bailes de teatros e de clubes. E das festas ‘de santo’, do jongo a incorporação do batuque vindo do Congo e de Angola.

Nesse caldeirão, nessa mistura, ao samba cabe garantir a perenidade da festa, com suas fundas raízes, sua infinita tradição ancestral. São fundamentos do desfile extraídos da mais dura, forte e resistente história sócio-cultural de uma gente que para cá foi trazida deixando marcas tão relevantes para todos nós.

Assim é o batuque das nossas baterias, mesmo com andamento tão forçado. Assim são as baianas, como as tias da Praça Onze.  Assim nossos passistas, com traços dos velhos capoeiras do passado, mesmo tão sem espaço em nossas quadras, mesmo tão escondidos nos desfiles atrás dos carros de som.

A beleza maior de nossas porta-bandeiras, com seus mestres-salas, a nos lembrar os ranchos da Pedra do Sal. Assim o samba, mesmo hoje tão marcheado, deixando a ‘síncopa’ - a marca do samba - cada vez menos perceptível, cada vez menos valorizada.

O resto é carnaval, e não é pouco, não!

Ao carnaval cabe a ‘glamourização’ da festa em luzes, cores, fantasia, alegoria, surpresa, descontração, irreverência e tudo mais que o sensualize na medida exata da nossa maneira de ser, sem os excessos que o vulgarize.

Espaço, aí sim, para modernidades com e sem aspas, experimentos, ousadias, maluquices de toda ordem pontuadas sempre pela beleza e pela marca da nossa cara.

Aí está a “chave”! 

A medida deste equilíbrio, de forças entre o carnaval e a tradição, está na marca da nossa cara, da nossa gente, da nossa mistura, da nossa história, da nossa diferença perante outros povos e outras culturas - nem melhor nem pior, sempre.

A convivência nestes espaços separadamente misturados faz a festa brilhar mais e mais; mesmo que  a reverência aos baluartes tenha se deslocado da frente da escola, dando lugar a coreografias ensaiadas relacionadas ao desenvolvimento do enredo.

Em sentido inverso, da incompatibilidade, estará a supressão de uma do ‘samba’ pelo carnaval, ou vice-versa, em razão do pragmatismo do desfile-para-jurado-ver. Não consigo imaginar o espaço do canto e da dança do samba ser transformado em pista de batalha de confete, ou de pula-pula de mãos acenando.

O “carnaval” da Vila certamente merecerá louvores. Mesmo seu rolo compressor se justificará em uma visão particularizada, unidimensional da festa: o ‘carnaval – carnaval’.

Meu receio é que do ponto de vista do “só carnaval” a Vila passe o rolo compressor na avenida, impressionando a todos como a mim mesmo; mas que do ponto de vista do “carnaval-samba” a escola não esteja no mesmo nível sem deixar espaço para a dança e para o canto do samba em suas melhores características, a despeito da qualidade já antes expressada de seus artistas ‘do samba’.

De todo o legado acima exposto, da parte ”samba” do carnaval, o samba propriamente dito, aquele que é cantado no desfile, é seu ponto maior, mais significativo. Este mesmo samba que, “suponho”, tenha sido premeditadamente valorizado pela escola no sentido de atingir a ‘performance’ que melhor lhe convinha, segundo o objetivo por ela definido. Um samba produzido a régua e compasso, com um fim muito bem definido.

E aí reside a minha questão, a minha visão de carnaval pouco vinculada aos resultados oficiais, fato que me torna, reconhecidamente, um mau conselheiro em matéria de desfiles.

Portanto, ao pessoal da Vila Isabel: ignore o que aqui está escrito, ponha o rolo compressor na pista, aposte em sua opção de desfile e... boa sorte.

De minha parte, prometo não torcer contra. Não conseguiria fazer isto com a Vila Isabel de Noel Rosa, com a Vila Isabel de meu pai. 

Mas também não prometo, pelo menos desta vez, torcer a favor.

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'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

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'Ratos e Urubus'
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