03/11/2008 12:04:00

Artigo: O samba, o sambista, as eleições e o novo prefeito

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)



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Se há uma autoridade pública, eleita pelo voto popular, dotada de relevante importância para os sambistas e para o samba, esta autoridade é o prefeito municipal.

Dona de importantes espaços públicos, com poder absoluto sobre o carnaval, aí incluídos os momentos pré e pós, a municipalidade há muito deixa os sambista s a ver navios.

Aquela velha história: o samba vai bem e o sambista vai mal.

Quem convive razoavelmente com sambistas conhece bem a realidade de quem fez a sua parte, produziu sambas, e vê a absoluta carência de cantores para dar-lhes voz.

Vai longe o tempo em que o compositor compunha e o cantor cantava... vai  longe... muito longe mesmo.

Bons tempos de Clara, Roberto Ribeiro, Elza, Emílio Santiago, Beth , Jorginho do Império, Eliana Pitman, Jair Rodrigues, Alcione: cantores,cantores. Como o Odvan: zagueiro, zagueiro. E ainda tínhamos os ‘Originais’, Fundo de Quintal, entre outros grupos.

A realidade do sambista hoje é que tem que ser virar como pode. Quem tem ‘vinte merrés’ de voz tem que se cuidar e ir à luta.. Quem tem só dez, fica ao deus dará.

Nesse quadro aí, de imensas dificuldades no âmbito das gravações, aliadas às outras decorrentes da pirataria, resta ao artista como perspectiva a busca de contratos para shows.

E vieram as eleições. 

Balizadas pelos números das pesquisas muito mais do que pelo perfil ideológico ou partidário dos candidatos, cada segmento da sociedade passa a ser cortejado, seduzido, para que os novos números melhorem a cada conquista, a cada pesquisa.

È hora de firmar compromissos, portanto.

Sem querer ensinar padre a rezar missa, até por que muitos são muito experientes, fica a impressão que a escolha de lado em função de ser ou não suburbano, não foi o melhor caminho.

Que pré-disposição foi obtida junto à nova administração? Que compromissos de audiência, de co-participação, de co-sugestão ?

Só pra citar um exemplo e considerando ser esta cidade o berço do samba, como justificar que um espaço tão importante como o “TERREIRÃO DO SAMBA” junto ao sambódromo fique 99  % de seu tempo anual ab-so-lu-ta-men-te sub-utilizado, enquanto o sambista vaga pela noite cantando em troca de migalha, 

E também não adianta entregar o espaço à administração dos artistas. Quem sabe a melhor solução seria licitar o espaço, entregando a geração de shows a empresários do setor, com programação  sob olhares atentos e vigilantes de um conselho gestor formado por pessoas indicadas pelo s sambistas ?

Quem sabe uma presença e-fe-ti-va da municipalidade nos destinos da Lapa?

Limpando-a, disponibilizando banheiros químicos, disciplinamento de vagas de estacionamento, segurança, igualmente licitando um espaço, um casarão daqueles, para que os sambistas se revezassem mostrando seus trabalhos, dando inclusive espaço para novas gerações e sambistas ainda não reconhecidos.

Quanto ao outro lado, o das escolas, excluindo-se tanto a Liesa quanto  a Lesga, já com caminhos próprios, fortalecer a  Associação das escolas menores de forma a consolidar seus carnavais; transformá-las para valer em oficinas de novos profissionais do carnaval, tanto na parte técnica quanto administrativa.

Que compromisso foi tirado dos candidatos quanto ` a vergonhosa e lamentável condição dada ao público e aos foliões dos blocos de embalo da Rio Branco; verdadeiros heróis da resistência a desfilar sem banheiros , sem iluminação, sem sonorização decente e sem segurança para as famílias que para lá se dirigem em todos os três dias: uma vergonha. A prova cabal da mais absoluta falta de respeito e consideração com o carnaval do folião mais humilde.

Será que alguém conversou com o ‘Prefeito-amigo-dos-suburbanos’ para dar uma olhadinha no carnaval de Pilares, de Madureira, da Leopoldina, da zona Oeste?

É tão pouco: basta acender uma fogueirinha, o resto do incêndio é com eles,

Na verdade, estamos mal ou nada representados... não pedimos nada ...

Como justificar que toda uma campanha eleitoral tenha se passado e nenhuma vez, nenhuma mesmo, tenha se tratado da garantia do desfiles de sábados do tão combalido Bola Preta, este sim maior orgulho do folião carioca (aqui não estou me referindo às dívidas do Cordão e nem da nova sede, que também devem ser acompanhadas, me refiro ao fantástico desfile das manhãs de sábado).
 
Isto aí não significa que uma boa e efetiva representação dos sambistas seja capaz de garantir alguma coisa, e nem que essas aí sejam melhores propostas. Serve pelo menos para deixar o prefeito “NO DEVO”, marcar presença dos sambistas e do samba não-espetáculo como sujeito de políticas públicas.

Quem sabe na outra....



* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

* E-mail para contato: lcciata@hotmail.com

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