01/08/2008 17:22:00

Bruno Filippo: 'Que faz Sarney no enredo da Mocidade?'

Colunista do Dia na Folia critica pontos da sinopse da verde-e-branco e diz que a presença de Sarney no enredo 'é um mistério que nem a genialidade de Machado e Guimarães, juntas, seria capaz de decifrar'

Bruno Filippo
Colunista do Dia na Folia
 

A sinopse da Mocidade Independente reafirma os temores que eu expus em minha coluna intitulada "O Bruxo em Padre Miguel ". De imediato, é impossível não notar o desleixo tanto lingüístico quanto metodológico: o mínimo que se esperava de um texto que trata da vida e da obra do maior escritor brasileiro era redação caprichada e pesquisa bem feita. Nada disso se encontra na peça que tem por função delimitar o enredo e orientar os compositores.

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Parece que foi escrito às pressas, depois do fracasso das negociações com empresários chilenos, e apoiado numa pesquisa superficial que apenas repete clichês batidos sobre Machado de Assis. Se a homenagem a Machado era a segunda opção da escola, deveria o carnavalesco ter-se preparado com antecedência para a possibilidade de essa opção tornar-se concreta.
 
Como explicar a presença de Guimarães Rosa no enredo, a não ser pelo fato de ter vindo mundo no mesmo ano em que Machado saía dele? São dois escritores sem pontos de interseção, diferentes em tudo: época, linguagem, temática. Segundo a sinopse,
 
Dos fenômenos celestes tecidos na trama da magia, Machado de Assis e Guimarães Rosase encontram na poesia. Tal encantamento acontece no encontro dos Brasis do olhar de Machado e Guimarães sobre o Brasil e suas realidades, complexidades, loucuras e/oucaricaturas e verdades.
 
Sobre os seus vários brasis. O enredo promove um memorável encontro entre mar (do carioca Machado de Assis) e o sertão (Grande Sertão: vereda - obra que imortalizou o mineiro Guimarães).
 
Promove na alegria o encontro entre o Brasil Real e o Brasil Oficial interpretado a partir da literatura e das obras de Machado e Guimarães Rosa. "O Brasil Real, esse é bom, revela melhores instintos, mas o Brasil Oficial, esse é caricato e burlesco" Machado de Assis.
 
Tecidos na trama da magia? Fenômenos que se encontram na poesia? Embora escrevessem poesias, o valor (desigual) da literatura de ambos apóia-se na prosa, não no verso. A pergunta é um pouco agressiva, mas necessária: o carnavalesco e o pesquisador do enredo já leram algum livro de Machado de Assis e Guimarães Rosa? Que referências bibliográficas utilizaram?
 
Mas as esquisitices prosseguem: encontro entre mar e sertão? Desde quando o mar é um dos pontos de reflexão da literatura machadiana? Só porque era carioca?! Se for assim, pela nacionalidade do escritor, aí é que esse encontro não se sustenta, pois, como a própria sinopse salienta, Guimarães Rosa era mineiro.
 
Diz a última parte da sinopse:
 
"Eu sou o samba, sou natural daqui do Rio de Janeiro. Sou eu que levo a alegria para milhões de corações brasileiros" - Zé Ketti.
 
Rio de Janeiro é a cidade do samba, é o celeiro de bambas... A celebração irradia quando a estrela de luz que nos guia ilumina a nossa Velha-Guarda, que traz os nossos "academicistas do samba" e na avenida contagia.
 
Como na poesia do Toco, nosso compositor imortalizado por seus memoráveis sambas, a Ala da Velha-Guarda da Mocidade conta e canta o enredo da "literatura no carnaval" ao lado de nomes que pra sempre deixarão saudades: Mestre André, Aroldo Melodia, Cartola, Paulo da Portela, Jamelão, Carlos Cachaça, Jackson Martins, Nei Vianna, Ari Barroso, Pinxinguinha, João da Baiana, Jovelina Pérola Negra, Tia Ciata, Molequinho, Silas de Oliveira, Mestre Louro, Noel Rosa, e tantos outros...

A idéia de classificar os componentes da Velha Guarda como imortais do samba, à semelhança dos imortais da Academia Brasileira de Letras, é simpática e de fácil assimilação. Mas o carnavalesco há de ter muito cuidado para não descontextualizar o enredo – e isso é a primeira impressão que se tem ao ler esse trecho. Misturar, em enredo sobre Machado de Assis, Ari Barroso, Jovelina Pérola Negra, Noel Rosa e Jackson Martins lembra o samba do crioulo doido.
 
Mas a maior esquisitice desta sinopse é, sem dúvida, a referência a ... José Sarney! Sua presença é um mistério que nem a genialidade de Machado e Guimarães, juntas, seria capaz de decifrar. O fato de ser o mais antigo imortal (foi eleito em 1980, quando militava nas hostes da ditadura militar, e seus dotes literários suscitavam um pouco mais dúvidas do que hoje) não quer dizer absolutamente nada. Sarney não tem relevância literária, e ele só se tornou imortal das letras porque a ABL sempre teve portas abertas para a politicagem. (Hoje, talvez, um pouco menos). A não ser que... Bem, quem sabe alguma empresa do Maranhão resolve patrocinar o enredo?
 
A confecção da sinopse é apenas uma das etapas de preparação do carnaval. Uma sinopse repleta de erros não necessariamente redunda em desfile e samba medíocres, da mesma forma que uma sinopse bem construída não assegura boa colocação, tampouco sambas antológicos. A homenagem a Machado de Assis, como escrevi, é a melhor notícia do carnaval de 2009. Gera muita expectativa - e a sinopse, da maneira como foi apresentada, decepciona, pois se prende a espectos genéricos e secundários, quando não desconexos. Mas esperemos o samba e o desfile. A Mocidade tem pela frente um grande desafio.
 
* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval

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