4/3/2008 12:07:00

Memória da Folia: 'A festa - e o busto - de Paulo da Portela'

Luis Carlos Magalhães celebra a festa de inauguração do busto do fundador da azul-e-branco, mas diz que ficou desapontado com o resultado final da estátua

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


Foi bonita, a festa!

Bonita como a frase final do discurso de Monarco; a frase que ficou presa na
garganta. A voz que não saiu...a lágrima que desceu..Foi muito bonita a festa.

Bonita como a roupa de linho rosa com aplicação de bordado de Dona Neném do Seu Manacéia, certamente um traje que só sai do armário em dias especiais. Dias
especiais como aquele. Ela que foi testemunha, ela que estava lá, ali, na hora, no desfile da Portela de 1941, fatídico, quando Paulo desfilou pela última vez, ou melhor, nem chegou a desfilar.

Ninguém contou pra ela; ela viu tudo.
 
Bonita como a expressão facial de cada portelense naquela quadra repleta, todos esperançosos com o resultado do carnaval e com a presença de Paulo ao lado de Natal, na entrada principal.

Bonita como a visão magnífica de toda aquela gente cantando o samba do Bubu, acompanhando Paulinho da Viola e Marisa Monte: '...quando vem rompendo o dia...'. Bonita, mais ainda, porque é a Portela se reinventando.

Um velho samba de terreiro, talvez o samba de terreiro mais cantado da história da Portela, fazendo sucesso tantos e tantos anos depois de Jamelão ter gravado, agora na voz da filha de um portelense e de um portelense que tão bem conheceu Jorge Bubu; um dos 'Mensageiros do Samba', da turma do muro lá da estação de Oswaldo Cruz. Bubu da Portela ('...essa doce melodia (...) naquelas lindas noites de luar').

Bonita por ver tantos sambistas prestigiando o evento, rever Nei Lopes com um sorriso-moleque-o-tempo-todo como querendo dizer que 'só Paulo da Portela para tirá-lo da sua toca Seropédica'. O mestre estava tão sereno que não dava conta de estar sentindo falta de Vila Isabel e de Irajá.

Acho que só a Portela, hoje, é capaz de realizar uma festa como aquela. E acho que isto se deve muito a Monarco.

Nenhuma escola tem, hoje, um sambista tão representativo de suas tradições, tão identificado com a Portela, tão respeitado pela sua dignidade de guardião, como Monarco. E que esteja em pleno vigor de sua carreira, ora fazendo shows com a Velha-Guarda, ora cantando seus inúmeros sucessos com Ratinho tornados interncionalmente conhecidos por Zeca Pagodinho.

Nenhuma escola é capaz de reunir, hoje, em seu palco tantas gerações de
portelenses que desfilem suas cores azul-e-branco no carnaval, tal como reuniu ontem para inaugurar o busto do seu ídolo maior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Feliz da escola que teve um líder como Candeia; mais feliz ainda uma escola que teve um líder como Natal. Muito mais feliz, uma escola que teve como líder Paulo da Portela.

Quem poderá segurar uma escola cujo futuro é iluminado pela luz de lideranças tão fortes como Candeia, Natal e Paulo. Ou não é o passado a luz que ilumina o futuro?

Estavam lá, além dos já citados Monarco, Paulinho da Viola e Marisa Monte,
portelenses como Zeca Pagodinho, Ratinho, Dorina, Surica, Casquinha e toda a Velha Guarda - a mais querida do Brasil - Mauro Diniz, Marquinhos Diniz, Noca.

Sentidas as ausências, até a hora em que me retirei, de Tia Dodô, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Wanderley Monteiro, Tereza Cristina, Cristina Buarque, Walter Alfaiate, Wilson Moreira, os jovens compositores nota 10 do carnaval.

Outro grande momento de alegria, o anúncio das obras de remodelação da quadra, notícia há muito esperada pelos portelenses. Quanto aos novos carnavalescos anunciados - Lane Santana e Jorge Caribé - ficou no ar a esperança de que a direção da escola, mais uma vez, acerte ao indicar novos nomes.

A alegria de ver Tia Eunice e Casquinha, saindo de momentos tão difíceis, não medindo esforços para reverenciar o 'Professor' Paulo. De saber que autoridades públicas atuais, o vice-governador Pezão, o secretário de Transportes Júlio Lopes e o de ciência e Tecnologia Alexandre Cardoso, todos são portelenses e estavam lá.

 

 

 

 

 

 

 


Alegria de ver João Baptista Vargens, ele biógrafo de Candeia, conseguindo
realizar seu sonho maior de se tornar mouro, desfilando seu corpanzil bronzeado-quase-negro como o grande Comandante Saladino do tempo das Cruzadas.

Curiosidade por saber o quê tanto conversavam Carlos Monte, diretor cultural, com o Cônsul da Dinamarca. Pelo gestual, a conversa animadora girava em torno do algo que os animava muito. Será que vem por aí mais um enredo infantil de Hans Cristian Hardersen, ou seria um novo tema do tipo 'Da Groenlândia ao Estácio, a verdadeira história do samba'?

Quanto ao busto...tudo bem! Paulo voltou para casa quase 70 anos depois. Está lá agora simbolicamente ao lado de Natal, bem ali na entrada principal.

Valeu a iniciativa, a ação do presidente Nilo. Tive notícia de que a encomenda do busto foi uma das suas primeiras medidas ao tomar posse. Pode parecer um gesto óbvio e inevitável, mas que ninguém tinha tomado. As glórias são para ele, portanto.

Claro que foi uma bonita festa!

Mas não dá, não dá mesmo, pra deixar passar em branco o fato de as feições do busto terem decepcionado tanta gente. Não sei quem o fez e nem quero aqui desrespeitar um artista, quem quer que seja ele. Também não sei qual foi a foto que deram a ele como modelo.

O que sei, o que afirmo é que aquele que está lá só é identificado como Paulo da Portela pelo traje e porque seu nome está escrito embaixo.

Não fosse isto...

Quero dizer que se colocarmos o busto inaugurado, sem a indumentária e sem a legenda, no centro de Madureira, e convidássemos mil portelenses para identificá-lo, penso que muito pouca gente acertaria.

Podemos também fazer a brincadeira do jogo-dos-7-erros com o busto. Identificar nele os caracteres fisionômicos ali presentes e não encontrados no original.

Para começar, dou os primeiros passos:

 

 

 

 

 

 

 

 

1) Paulo tinha o nariz aquilino, adunco como as águias, inclusive a nossa.
Curvado como o de Maria Bethânia, Bob Dylan e meu filho;

2) Paulo tinha o couro cabeludo quase pleno, sem aquelas tão definidas entradas que estão no bronze;

3) Paulo não tinha bochechas acentuadas;

4) A expressão do olhar de Paulo não está presente no busto inaugurado;

5) A delineação de seus cabelos, o penteado, muito pouco sugere o original.

Deixo os outros dois 'erros' para os leitores mais atentos. Em desfesa do
escultor, tenho a impressão de que lhe faltou um cuidado maior em trabalhar com mais de uma foto e até conversar com alguém que o tenha conhecido, como Tia Dodô e Dona Neném para tirar dúvidas ou para consolidar certezas.

Correndo o risco de estar exagerando e até ferindo suscetibilidades, ouso
sugerir que os bustos sejam trocados. Que o novo vá para a praça em frente à Portelinha e que o da praça venha para o Portelão.

Legenda das fotos (pela ordem)

1- Paulo da Portela antes de um desfile na década de 30
2- Candeira, Waldir 59 e Darci na Ala dos Impossíveis
3- Natal da Portela
4- Os dois bustos de Paulo da Portela

SUGESTÃO PARA OUVIR:

'Esta Melodia'
Samba de terreiro da Portela.
Autor: Bubu da Portela
Cantor: Grupo Mensageiros do Samba (Picolino, Candeia, Casquinha, Casemiro, David do Pandeiro, Jorge do Violão e Arlindão Cruz)

SUGESTÃO PARA VER:

FILME: PAULO DA PORTELA: O TEU NOME NÃO CAIU NO ESQUECIMENTO
Direção: Demerval Neto
Roteiro: Nick Zarvos
Realização: Carlos Monte, João Baptista Vargens, Luis Carlos Magalhães, Marília Barboza e Lygia Santos.

• E-mail para contato: lcciata@hotmail.com

* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

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