![]() |
|
Memória da Folia: A primeira vez que vi Candeia Luis Carlos Magalhães homenageia os 30 anos de morte do sambista portelense e se emociona ao lembrar da primeira vez que viu o poeta O carnaval era o de 1965, do quarto centenário da cidade. Meu primeiro carnaval de gente grande. Pelo menos era isto que eu achava que era: gente grande. As coisas andavam meio complicadas por aqui. Fazia poucos anos que o Rio já não era capital; aqui somente os vestígios, muitos... a gente mal percebia que a capital era Brasília. Fazia um ano do golpe militar, tempos nada parecidos com o AI-5 que viria depois. Viria e parecia não mais ir embora. Mal sabia eu que aquele carnaval me marcaria tanto... Aqueles já eram os anos Salgueiro. No ano O ano anterior a cidade inteira , todo o país cantava Chica da Silva, gravada por Monsueto: “(...) do cativeiro zombou-ô ô ô ô. No arraial do tijuuco.lá no estado de Minas (...)” Mangueira tirou terceiro, mas o mundo do carnaval ficaria para sempre encantado com o samba que levaria o Império ao quarto lugar: Aquarela do Brasil, de Silas. Um carnaval que tinha Capela, Lucas e Cabuçu no grupo principal, na Candelária. Na poeira, desfilando na Rio Branco, Beija-Flor, Tijuca, Imperatriz e Vila; Vila que ainda não era de Martinho, ele que ainda era o Martinho da Boca do Mato. Mas ali já eram os anos Salgueiro. Antes de Chico Rei veio Chica da Silva. Antes ‘O Descobrimento do Brasil’, de Arlindo Rodrigues, precedido por ‘Aleijadinho’ de Pamplona, em 1961, sua estréia. Eram os anos vermelhos do Salgueiro. Até ali o carnaval era como uma torneira de onde saiam sambas de grande qualidade, personagens mitificadas a cada ano, passistas magníficos em profusão. Era o império do chão. A partir de então, progressivamente, da tal torneira jorrariam novas formas, cores e dimensões, principalmente dimensões. A criação do carnaval escapava das mentes nascidas das próprias comunidades. Saia do chão para as alturas. Novas culturas, novos valores transformaram a festa em plataforma de infinita imaginação e criatividade. Nada mais seria como antes. Candeia assistia a isto tudo ... Aqueles anos, os sessenta, foram demais; com o carnaval não seria diferente. Já em 1960 um desfile com cinco campeãs: as quatro grandes e mais Capela. A Portela havia somado mais pontos, sem descontar o atraso decorrente das chuvas de toda a noite. Só o Salgueiro não perderia os pontos. Ao perceber isto Natal propôs o empate. Foi então que todas as outras foram campeãs, a Portela assim pôde comemorar seu tetra campeonato. Eu freqüentava Vila, Mangueira e Salgueiro, pela proximidade de casa. Principalmente Salgueiro, por razões hormonais, digamos; e também para assistir ao concurso de passistas que a escola promovia em todos os ensaios de domingo, na quadra do Clube Maxwell. Era o melhor da noite. E a gente ficava ali vendo a disputa entre Vitamina, Gargalhada, Narcisa. Ouvindo os sambas de terreiro de Noel Rosa de Oliveira, Geraldo Babão, Anescarzinho, Djalma Sabiá e tantos outros de uma ala de compositores verdadeiramente formidável. Laíla era pouco mais que um menino, pouco mais de 20 anos. E muito mais, melhores tempos do Pedro II, tempos de Pelé, Garrincha...éramos de verdade os reis do futebol. Em 1965 Samarone estreava no Fluminense. Era a primeira vez que eu ia à Portela. As primeiras eliminatórias na Portelinha, a finalíssima no Imperial. Eu estava lá. O clube, muito grande, cheíssimo. Eu lá em cima, ainda menino, olhando aquilo tudo. Ouvia pela primeira vez falar de Paulo, de Claudionor. Aquele samba do Monarco: ‘juro que não posso me lembrar’... Quem seria o Claudionor que (com Paulo) “...quando entravam na roda de samba agitavam, todos corriam p’ra ver (...)”. Achei tão bonito, tão forte quando Monarco dizia (que) “...no livro de nossa história, tem conquistas a valer (...). Nunca mais ouviria uma frase musical mais bonita, mais forte ...mais marcante; “(...) juro que não posso me lembrar, se for falar da Portela, hoje não vou terminar.” Que noite ... E vi Tijolo, vi Vilma, vi seu Manacéia. Vi Natal. Monarco era tão novinho... Já depois de meia-noite, ao terminar o samba do Monarco, o locutor mandava: ‘obrigado pastoras, obrigado bateria’. E passou a anunciar o resultado. Não ouvi direito quem era, de tantos aplausos. Só vi um negro corpulento, bem alto, largo, andando entre mesas, sendo abraçado, beijado: era o vencedor. Era um policial. Vencedor de seis sambas de sua escola. Ninguém segurava o cara... Senti uma sensação muitíssimo estranha, pois sua fisionomia me era conhecida. Ali ouvi que seu nome era Candeia. Ali percebi que aquela não era a primeira vez que via Candeia. A imagem daquele rosto, aqueles jeito de olhar, aquela atitude... tudo veio à luz, como um ‘flash’. A partir daquele ano a Portela nunca mais sairia da minha cabeça. Mesmo que por muito tempo eu permanecesse mais Mangueira que Portela. Mais Cabuçu que as duas juntas. Um pouquinho Vila, também. E império...muito Império Serrano. Um ano que marcaria a vida de Candeia até sua morte, 13 anos depois, há exatos trinta anos passados.. E agora eu conto como foi. Foi um dia perdido de um ano que não consigo identificar. Como um menino pode esquecer o dia em que uma amiga de sua mãe dizia a ela que ‘já era hora de eu começar a usar cueca’? Por isso eu lembro a roupa que eu vestia. Um único short amarelo, descalço, sem camisa e, pela última vez, sem cueca. Era começo de tarde. Eu estudava pela manhã e logo após engolir o almoço eu ia jogar pelada como pessoal do morro do Amor, do Barro Preto e Barro Vermelho, morros formadores da Escola de Samba Unidos do Cabuçu.. A Rua Dona Francisca estava sendo ‘manilhada’. Os carros se espremiam entre o meio-fio e as manilhas, em meia rua. Eu ali, sentada em uma manilha, esperando a garotada chegar, esperando a bola quicar. Depois da morte de Mineirinho, o bandidão da cidade naqueles dias era o Neném Ruço, que era de longe dali, do Engenho da Rainha. Ele circulava por ali porque tinha uma namorada no morro da Cachoeirinha, tido como o lugar mais perigoso da cidade, algo assim como o morro do Alemão é hoje. Para os nossos dias, Neném Ruço seria considerado um pobre diabo, com seu único revólver 38. Pois foi assim, naquela rua, sentado na manilha que naquele dia via se aproximar um camburão da polícia. Muito velho, aquele fordão preto e branco que tanto assustava a rapaziada. O carro se espremeu pela rua esburacada, passando rente à manilha onde eu estava sentado. Na janela traseira esquerda um negro corpulento, sentado, de boné, com um enorme braço esquerdo pendurado para fora, passou a centímetros da minha cara cravando aquele olhar arrogante, ameaçador. Aquele mesmo olhar que vi na Portela em 1965, olhar então vencedor, orgulhoso, não menos forte, arrogante. Senti muito medo naquele momento, medo mesmo; o nome daquilo que senti ali é medo, meu camarada. Naquela noite na Portela tive certeza que era ele, mas sempre ficava a dúvida. Terá sido ele mesmo. Como saber... Naquele mesmo ano, em seu final, Candeia era atingido por cinco tiros que o levariam à morte. Na Marquês de Sapucaí, ironia pura. Waldir 59 estava com ele, sempre estava com ele. Tá tudo contado em detalhes no livro que seu amigo e biógrafo, João Baptista Vargens, está relançando decorridos 30 anos da morte de seu tão querido companheiro. Treze de dezembro de 1965, de madrugada: um no braço, um na medula, dois nos pulmões e um de raspão. Ficou no hospital até março seguinte. Aquele, o pior carnaval de sua vida. Nunca mais se levantaria. Do trono de rei para a cadeira de rodas. Candeia havia passado em um outro concurso Conta João Baptista que na noite anterior ao incidente a festa rolou solta no Clube Imperial, armada pelo pessoal da Portela e pelos companheiros da Invernada de Olaria. Aquele mesmo Imperial que meses antes inteiro aplaudia o Candeia vencedor, ali mesmo, na Estrada do Portela. Vida que segue. Depois, conheci a obra e a luta de Candeia. Mais tarde conheci João Baptista Vargens. Li em seu livro, ‘Luz da Inspiração’, agora relançado, que foi Candeia quem prendeu Neném Ruço. Perguntei a ele em que delegacia Candeia estava lotado então. A resposta veio curta e firme: 20 ª D.P., a mesma com jurisdição sobre meu bairro. E não tive mais dúvidas. Na Portela em 1965 não fora a primeira vez que vi Candeia. Naquele dia perdido de minha adolescência eu via o artista que tanto marcaria minha vida, para sempre. Um dia perdido em minha adolescência que nunca pude esquecer, afinal... a primeira cueca a gente nunca esquece.
Sugestões para ouvir: Samba: Vem p’ra Portela (o mais triste de todos)
|
|
|
|||||||||||||||||||||||||||
|