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Memória da Folia: Decidido o enredo do Império Serrano Luis Carlos Magalhães É bem verdade que ainda falta algum nível de definição. Parte da escola sugeriu “A Pequena Notável na praia dos lençóis”. Outra corrente prefere Carmem Miranda visita Bantos e Iorubás. Outros querem “É de perder o tamanco: Hollywood mandou me chamar”, este já descartado para já, mas com grande chance para o carnaval de 2012. De certo mesmo apenas para março a inauguração da imagem da Carmem ao lado do S. Jorge que está no fundo da quadra, acima do busto pintado de Mano Elói Anthero Dias, tamanha a devoção à nova santa de Vaz Lobo e Madureira (ou será ela uma nova Orixá ?). Da outra vez que foi evocada o Império vivia uma fase igualmente difícil. Seu último título era de 1960; o enredo campeão foi “Medalhas e Brasões”, um tema pra lá de tumultuado para uma escola cheia de problemas administrativos. Sua sede era a mesma do período da fundação lá no Morro da Serrinha na rua Balaiada. Isto até 1958 quando uma forte chuva pôs tudo a perder. Os ensaios passaram a se realizar em um clube nas proximidades. O enredo original era a “Retirada da Laguna”, episódio sangrento da Guerra do Paraguai em que milhares de soldados brasileiros, acometidos de Tifo, Cólera e Beri-Beri, foram forçados a se retirar da frente de combate com perda da grande maioria da tropa. Uma tragédia militar. O enredo e o samba de Silas e Mano Décio faziam referências muito pouco elogiosas ao país vizinho, segundo o Embaixador na época, fato que gerou a questão diplomática entre os dois países. Como resultado dos entendimentos o samba foi modificado e adaptado às boas relações com aquele país já tão sacrificado por uma guerra que aniquilou sua população masculina. De Retirada da Laguna o enredo passou a ser “Medalhas e Brasões”. Império em 1º lugar. Daí pra frente, a escola ficaria 12 anos sem saborear um campeonato, amargando vários vices, mesmo contando e cantando enredos formidáveis como Aquarela Brasileira (1964, perdido por 5 pontos negativos em punição por atraso), Cinco Bailes da História do Rio (1965, perdido para Eneida, do Salgueiro) e Heróis da Liberdade (1969 – perdido para Bahia de Todos os Deuses, do Salgueiro de Pamplona e Arlindo), todos com sambas de Silas, este último com Mano Décio, isto só para citar os mais marcantes de uma década memorável da história dos carnavais cariocas. Década incomparável para a instituição Império Serrano por contar com aquele que, por unanimidade, seria considerado nos anos posteriores o maior compositor de sambas-enredo de todos os tempos, sem sombra de superação até nossos dias. Vida que segue... E veio a década dos anos 1970, aquela dos cabelos esquisitos, costeletas acentuadas, calças boca-de-sino e horrorosos sapatos masculinos de saltos mais altos, moda que faz ruborizar quem quer que se veja em uma foto daqueles tempos. Mas o carnaval também mudava. O Império resistia em sua-maneira-de-fazer-carnaval e levava já em 1970 seu primeiro tombo. Obteve pela primeira vez em sua então já gloriosa história um inédito 8º lugar, certamente desonroso para a escola sempre classificada entre as quatro grandes. O enredo foi “ARTE EM TOM MAIOR”, último sob a batuta do lendário presidente Sebastião Molequinho. O samba foi assinado por Nina Rodrigues e Aidno Sá que derrotaram Silas. Era também o samba-enredo que se modificava, tal como nossos cabelos, nossas calças, nossos sapatos e costeletas. O ano de 1971 chegava com novidades. Vindo de Pernambuco sem formação acadêmica, chegava à Madureira o jovem Fernando Pinto aos 23 anos de idade, trazido pela direção da escola na tentativa de “atualizar” seu carnaval. O primeiro trabalho teve como tema sua região de origem: Nordeste, seu canto, seu povo, sua glória. Silas mais uma vez era derrotado com seu “lençol” de dezenas e dezenas de versos, por um samba de Wilson Diabo, Heitor e Maneco ainda hoje muito cantado pelas rodas de samba da cidade. Império ficou em terceiro. Muito melhor que o oitavo do ano anterior e belo começo para Fernando que estreou logo em um brilhante e disputadíssimo carnaval vencido por “Festa Para Um Rei Negro”, do salgueiro, desenvolvido por Joãozinho Trinta e pelas tão estreantes quanto ele Maria Augusta e Rosa Magalhães., todos supervisionados por Fernando Pamplona. Era o carnaval também de “Lapa em três tempos”, da Portela (2º lugar) e de “Modernos Bandeirantes”, da Mangueira (4º lugar), sem contar o não menos memorável “Misticismo da África ao Brasil”, do Império da Tijuca (8º lugar). Belos tempos, aqueles... O pós-adolescente pernambucano ali...só olhando aquela beleza, aquela força criativa das escolas. No ano seguinte o enredo por ele apresentado foi “Alô...Alô...Taí, Carmem Miranda.” Silas concorreu e viu sua definitiva derrota. Foi o momento dos 5x0 que a história registrou como o último degrau do fim da era Silas de Oliveira, o mais brilhante compositor de todos os carnavais, da mesma forma em que registrava o segundo degrau da trajetória de Fernando Pinto, uma das mais brilhantes de todos os carnavais. Os vencedores do samba foram os mesmos que derrotaram Silas no ano anterior: Wilson Diabo, Heitor e Maneco.
Silas morreria meses depois humilhado não pela derrota de seu samba mas por uma derrota desmoralizadora, rejeitado pela editora de sua inigualável obra que lhe recusara um adiantamento em plena pior crise financeira de sua vida familiar. Nos tempos heróicos do carnaval, da velha Praça XI, - “berço das nossas fantasias” – as figuras de destaque eram os mestres de canto, os improvisadores que no gogó, sem microfone, lançavam o samba para dentro do desfile. Nas décadas seguintes, os compositores eram os destaques das escolas (Silas, Babão, Candeia, Darcy), depois superados pelos carnavalescos. Nesta época aqui contada, mais uma vez o facho de luz da história mira no Morro da Serrinha; o momento em que o samba perde Silas de Oliveira e ganha Fernando Pinto. E chega o dia do desfile. Fernando Pinto trouxe uma, duas...cinco, sete Carmens Miranda, entre elas Leila Diniz , então musa de Ipanema.
Quem esteve lá conta que a escola chegou à concentração com carros desfantasiados, no osso; aos poucos foram sendo desembrulhadas folhagens, coqueiros, bichos, “..transformando os esqueletos das alegorias em uma deslumbrante e linda floresta...” A vitória veio sobre a Mangueira que na época consumia suas forças e recursos na construção de sua majestosa sede, o Palácio do Samba. Era a primeira vitória de um jovem carnavalesco que marcaria sua trajetória pela brasilidade emprestada a seus temas, o bom-humor e, sobretudo, a medida exata, o perfeito equilíbrio entre imaginação/concretização/comunicação, desafio maior do carnaval. Madureira, Vaz Lobo, a Serrinha, todos comemoraram muito. Era um pedaço da história imperiana que estava sendo reafirmada naquele carnaval. Na verdade, sabe como é esse povo do Império...esta era a verdadeira vitória. Uma vitória absoluta depois de tantos anos já que a outra, aquela de 1960, de “Medalhas e Brasões”, fora conquistada “empatadamente” com a Portela, a Mangueira , o Salgueiro e a Unidos da Capela.
Os Imperianos sabiam que aquela vitória tinha um gosto amargo. Acreditavam ter sido manobra do astuto Natal que conduziu o resultado para o empate. Como a Portela vinha de um tricampeonato, a vitória conjunta faria quatro campeãs e uma única tetracampeã. Uma vitória engasgada. Fontes: · Serra, Serrinha, Serrano: Império do Samba. Raquel e Suetonio Valença, editora José Olympio, 1981 Sugestão para ouvir: · Nordeste, seu povo, seu canto e sua gloria. Obs.: samba duplamente histórico que marca a escalada de Fernando Pinto e o fim da era Silas de Oliveira. Sugestão para ouvir depois: · Site oficial do Império Serrano: www.imperioserrano.com Fotos (arquivo pessoal): 1) Momento do anúncio do resultado final;
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