![]() |
|
Memória da Folia: 'Dona História e a flor amorosa de três raças tristes' Luis Carlos Magalhães volta ao tema da Flor Amorosa de três raças, com a ajuda de D. História Luis Carlos Magalhães Desta vez foi ela quem ligou. - Alô... - Alô, quem fala? - Aqui é a história... - D. História, que alegria, que surpresa... - ”Baixei” aqui porque acho que você ‘tá precisando de ajuda, não é mesmo? - De quê que a senhora ‘tá falando? - Isso vem muito lá de trás. Aí eu fiquei com pena de você, porque você se meteu nisso? - Mas a Senhora acha que somos mesmo o resultado de três raças tristes? - Olha, se essa resposta fosse fácil eu não precisaria estar aqui. Veja que a coisa mais fácil do mundo é acharmos que o Brasil é o país da felicidade, mas será que é isto mesmo? _ E o que a Senhora acha? - Bom, a primeira coisa que eu faço questão absoluta de dizer é que acho o samba da Imperatriz muito muito lindo. Aquele desfile foi lindo, eu estava lá. Segundo que não vim de tão longe pra falar de felicidade. O poema de Bilac fala de tristeza. Essa que é a questão. - Eu confesso que fiquei surpreso. Sempre pensei que éramos um povo alegre. - Mas aí é que está... somos alegres, pelo menos eu também penso assim. Mas viemos de três povos tristes, e isso vem de longe, de muito longe, tão longe que você não poderia alcançar. Por isso estou aqui. Vê os negros, nossa matriz cultural mais importante, no sentido de “mais forte”, determinante no nosso canto, na nossa dança, na nossa alegria, portanto. - D. História, a Senhora está falando “somos alegres”; “viemos de três povos...” quer dizer que a Senhora é brasileira? - Eu disse isso? Tem certeza? Então foi sem querer? Claro que não sou brasileira, onde já se viu a História ser brasileira? - É eu devo ter entendido errado... - Mas a senhora estava falando dos negros. A Senhora acha que eles são tristes? - A questão não é “ser ou não ser” triste, “estar ou não estar” triste. Bilac vai muito além disto..Vamos ver...você, é claro, sabe o que vem a ser Banzo, não sabe? Pois é, o preconceito é tão perverso que quando a sociedade pensa o negro já o pensa “escravo”. Ainda hoje é assim. Não importa que todas as raças já tenham sido escravizadas um dia. Aqui, conosco, o escravo era negro. Quando alguém vê um negro e tem a intenção de inferiorizá-lo, ofendê-lo, diminuí-lo, vê-lo sem auto-estima, o vê como filho ou neto ou bisneto de escravos; Só as mentes elevadas podem vê-lo como homem, como ser comum, como qualquer de nós. - Mas na verdade, D. História, eles são ou foram filhos, netos ou bisnetos de escravos... - Daí que parte o preconceito. Nunca imaginamos que antes de ser capturado, feito escravo, o africano tinha uma vida comum. Tão comum à maneira deles como a que seu bisavô. Tinha pai, tinha mãe, tinha filho. Tinha namorada... Se divertia, sofria, cortava o pé, sangrava. Era altivo guerreiro, caçador, ferreiro, pastor. Tudo isso que para nós, preconceituosos, condicionados, é absolutamente inimaginável. - Pode’s crer nunca tinha pensado nisso... - Pois o banzo é uma dor na qual os não-negros não podiam acreditar, ou melhor, uma dor na qual não “conseguiam” acreditar. Sua formação sócio-cultural não deixa. Não porque sejam intrínsecamente maus, mas porque seus condicionamentos social e cultural os impede. Repito, só as mentes esclarecidas, as mentes elevadas conseguem libertar seu pensamento, formar seu próprio juízo sobre cada fato social. - Puxa! Será? - Pode crer, o Banzo é a saudade, a dor da saudade lá do lugar deles, da vida deles. Por mais que se pense que a vida daqui pudesse ser infinitamente melhor, e mesmo que fosse, aquela vida...aquela história ...é a “deles”: seus entes, suas entidades, suas mães, seus filhos, seus cultos seus mortos, suas saudades. Uma dor tão forte que os dizimavam pela inanição e pelo fastio sem que do alto de nossa “imensa superioridade” pudéssemos entender. - ????????????????? - Meu, filho, eu vi os “tumbeiros”. Não houve Shakespeare, nenhum Dostoyevski, nem Picasso que pudesse ter contado ou pintado o que era o horror de um “tumbeiro”. Um holocausto, não de judeus, de africanos em que (muitos) puderam sobreviver, mesmo sem jamais poderem ser as pessoas que eram antes. - A Senhora via isso? - E tinha a bandeira brasileira, a bandeira do Brasil, no mastro tremulando. - E ninguém gritava? - Ah! Sim, havia um jovem poeta baiano, apaixonado, vibrante. Eu me emocionava muito ao ouvi-lo, aos berros que “(...) existia um povo (o brasileiro!) que sua bandeira empresta para cobrir tanta infânia e covardia!(...)”: “Meu Deus, Meu Deus, mas que bandeira é essa, - Mas D. História, e os índios... Como alguém pode dizer que são tristes... - Taí, você fez a pergunta certa. Como podemos dizer isto se foram exterminados... Os negros estão aí; em algumas cidades são metade da população. Em Salvador muito mais. Mas o que dizer dos índios. Logo eles que sabiam viver de verdade. Caçar, dormir, beijar na boca, caçar, dormir, beijar na boca...Depois foram escravizados e depois catequizados. Que restou deles? Eram milhões, hoje centenas. Ou se escondem, ou vagam pelas estradas... - Bilac no poema fala na bárbara poracé, que é isso D. História? - Era muito interessante, eu gostava muito de ver. Era uma dança religiosa dos Tupis ao som de maracá, tambor e flauta. Rolava bebida fermentada, muito tabaco. Uma farra: dá até vontade de dizer que já era carnaval... - Fale mais sobre o poema, D.História. - Veja que Bilac diz que a música brasileira, que afinal representa a alma brasileira,” tem o fogo soberano do amor; que ela encerra na cadência, nos requebros e encantos, o feitiço do pecado”. Mas começa a advertir, a mostrar o outro lado. Que sobre essa volúpia passeia a tristeza dos desertos (dos negros?), das matas (dos índios ) e do oceano ( ó mar de Portugal...). A poracé, o banzo e o soluço da trova portuguesa. Qu samba, o jongo, a xiba e o fado” são desejos e orfandades” de selvagens (índios), cativos (negros) e marujos (portugueses). E que em resumo”(...) consistes em lasciva dor, beijo de três saudades. Flor amorosa de três raças tristes”. - É D.História, só falta falar de Portugal. Porque o poeta se fixa tanto em marujos, porque oceanos, porque soluços? _ Para essa resposta vou dar o exemplo de outro poeta, este português, e que está na pergunta que ele, Fernando Pessoa, fazia em seu poema: “Ó mar salgado... - Puxa D. História, agora foi lá no fundo da Alma. Fala mais... - Há uma explicação para o fado ser tão triste. Claro que não é a única. É apenas a que mais gosto. Eu, como A História, não interpreto nada, não é meu papel. Meu papel é só registrar. Mas acontece que quando falo do Brasil acabo me emocionando, que posso fazer? Segundo essa versão a tristeza e a saudade marcas portuguesas, vêm da saudade de mães, de irmãs, de filhas e de esposas que esperavam no porto, em vão, a volta de seus homens que iam ao mar; mas que iam ao mar para construir a glória de Portugal, realizar Aljubarrota. O mar foi a glória maior de Portugal. - Como aconteceu isto, quando? - Eu me lembro bem, mais ou menos no final dos anos 1400. Os turcos tomaram Constantinopla e virou o comércio europeu das especiarias de “cabeça para baixo”. Ninguém passava mais por ali. Para chegar às Índias e continuar vendendo mercadorias e ganhando fortunas, o comércio europeu teve que inventar outras rotas. E foi Portugal que fez isto. Dobrou o terrível cabo Bojador, depois o da Boa Esperança contornou a África e chegou às Índias; Depois chegou à América. Tornou-se o maior centro comercial da Europa e o país mais influente do mundo. A glória portuguesa, a epopéia lusa, foi cantada como ninguém por Camões: Os Lusíadas, jóia incomparável do pensamento humano. Depois de “Os Lusíadas” nenhum povo teve maior orgulho de si mesmo que o povo português. - Fala um pouco mais dele. - Camões, o maior escritor da língua portuguesa , ficou cego de um olho em combate. Não pense que Camões ficava em casa escrevendo, ele estava lá na viagem para as Índias, eu me lembro disto. Ele naufragou com os originais de “Os Lusíadas” nas mãos.Todo o orgulho de sua pátria estava ali, molhada, protegida por ele.. - E como ele publicou? - Ele salvou os manuscritos. Era o tempo de Dom Sebastião. A glória dos mares e a esperança de o jovem rei realizar o grande império anunciado na batalha de Aljubarrota. D. Sebastião tornou-se protetor de Camões e publicou sua obra, a epopéia portuguesa para chegar às Índias, o maior feito de uma nação`aquele tempo. _ E porque tudo isto acabou? - Foi uma tristeza que se sobrepôs àquela das mulheres. Senti isto quando li pela primeira vez o poema “mar portuguez” de Fernando Pessoa. Aquela era uma tristeza que pela pátria valia a pena, que pela pátria, para por ela conquistar todos os mares, a alma se torna imensa. A nenhum marinheiro português, a nenhum de seus familiares diante de um momento tão gloriosa, era dado ter a alma pequena: “Ó mar salgado, quanto do teu sal Quantas noivas ficaram por casar! _ Mas D.História, a senhora acha que essa é a marca maior? - Você fica pedindo para eu “achar”. Já te disse que não acho nada: Só vejo e registro. Mas acho que a marca maior veio com o desaparecimento de D. Sebastião no Marrocos na batalha de Alcácer-Quibir. - Aquela do enredo da Mocidade? - Isso. Portugal ficou sem sucessor e passou ao domínio Espanhol: a união ibérica que tanto decepcionou, amargurou e derrotou a alma portuguesa. - E Camões, como reagiu a isto? - Eu fiquei muito emocionada. Só um gênio das palavras como Camões seria capaz de resumir tão dramaticamente aquele momento da história lusa. Nessa época Camões estava em Portugal e estava morrendo. Disse ele ao morrer que se dedicara tanto á sua pátria que não se contentava em morrer “nela”; morria “com ela”. O país de tantas glórias jamais se recuperaria, ao contrário cairia nas garras sujas e afiadas da Inglaterra, perderia todos os bondes da história. - E, D. História, como a Senhora vê isso tudo hoje? - Bem, quer mesmo saber? Faça com eu. Ouço Amália Rodrigues cantando Lágrima (Por uma lágrima sua) e fico chorando também. Ouço Dulce Pontes cantando “O novo fado da Severa (fado do Capelão)” ou cantando “Lágrima”; outra hora ouço um instrumental Tupinambá (canide loune) ou ouço um blues, um jongo. Mas gosto mesmo é do samba da Imperatriz: (...) Vejam o luxo que tem a mulata - E acha triste? - Acho. Não queria que você perguntasse isso, eu me enrolo. Até esse samba lindo eu acho triste, quê que eu vou fazer? Mentir? Acho triste mesmo. E é por isto estou sempre te ligando, por isto gosto tanto do povo brasileiro. Amo o carnaval, é a alegria maior de todos esses séculos que já vivi. - Mas D. História, e onde está essa tristeza toda que não vejo, não sinto? - É isso que mais me encanta, esse povo dar essa volta por cima, com todas essa marcas, essas cicatrizes seculares, das armadilhas, dos tumbeiros, das tempestades e fazer essa festa tão importante para mim. Das músicas das matrizes originais à nova formação étnico cultural, essa diversidade fertilizadora que Darcy Ribeiro tão bem enxergou. - Então é só alegria? - P’ra mim, não. E acho que tenho um pouquinho da alma brasileira. Contraditoriamente as músicas brasileiras que mais gosto são a “Bachianas n° 5” de Villa –Lobos e ” Vou Vivendo” do Pixinguinha. E aí tenho que dar razão a Olavo Bilac: quase choro de tristeza. Acho tão lindo...tão triste. Mas vida que segue, alegre ou triste a gente vai indo, meu jovem, a História não pode parar. Como diz o poeta Fernando Pessoa, de quem tanto já falamos aqui, temos é que ir... ir...navegar. Navegar é mais importante que viver; ou como ele mesmo dizia: “ navegar é preciso...viver, não é preciso! Agora tô indo embora, vou desligar. - Peraí...peraí, D. História, posso pedir só mais uma coisa? - Rapidinho... - Só não some, tá?
Cheia de penas Desespero Se considero Se eu soubesse
Rua do Capelao Ó rua do Capelão Há um degrau no meu leito, Tenho o destino marcado
Vou Vivendo
E-mail para contatos: lcciata@hotmail.com
|
|
|
|||||||||||||||||||||||||||
|