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Memória da Folia: Heróis de Ontem e de Hoje Luis Carlos Magalhães aproveita a polêmica do caso Wantuir para questionar onde estão os heróis e baluartes gerados nas escolas de samba nas últimas décadas Luis Carlos Magalhães O caso recente do cantor Wantuir assediado e "capturado" de sua escola pela Grande Rio trouxe grande polêmica. Do ponto de vista humano, fico feliz e parabenizo o ex-tijucano. Vendo-o como um trabalhador brasileiro, negro, vindo de família modesta, Wantuir subverteu seu destino de menino pobre e vai poder dar a sua família conforto e educação safisfatórios, ao contrário do que provavelmente ocorreu com seus pais e, mais ainda, com seus avós. Como sabemos, Wantuir não é exatamente um tijucano de coração, é um profissional do samba. Vai esperar seu "passe" se desvalorizar para se transferir? Ou vai pegar esse oportunidade? Já pegou! Pelo menos, como caxiense que é, vai ficar pertinho de casa. Virou futebol mesmo. É o "pega pra capar" em busca da vitória. O campeonato passou, já vem passando, aliás, a ser o valor maior. Que co-irmãs, que nada! Tal como acontece aos treinadores e com jogadores de futebol, a ética se submete à lógica da conquista de títulos. Só para esquentar...Será que a Tijuca faria o mesmo com a Grande Rio, submetida às mesmas condições de pressão e temperatura? É com vocês... Bem a propósito do que acontece com puxadores e com mestres-salas e porta-bandeiras neste pós carnaval, trago ao espaço desta coluna as ponderações do estudante de comunicação Nil Guimarães que, por e-mail, demonstra certa apreensão quanto ao fato de, em suas palavras, sua escola - Beija-Flor - ser ora aqui, ora ali, identificada como "...sem tradição, sem brilho, puramente comercial, sem símbolos do tipo: Cartola, Paulo da Portela, etc..." Sem poder entender exatamente o sentido da expressão "sem brilho" vinculada àquela que é atualmente a escola mais brilhante, entendo que o jovem estudante se refere à ausência de baluartes em sua galeria de imortais, comparativamente à Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro. Entendo que um primeiro ponto a ser observado é o fato de a escola não ter sido forjada na época dos tempos heróicos das escolas de samba, como Mangueira e Portela. O Império, todos sabemos, é de 1947 mas é resultado da cisão de uma outra escola - o Prazer da Serrinha - que não só era do mesmo local mas também formada, dirigida e liderada pelos mesmos personagens: Silas de Oliveira, Sebastião Molequinho, Mestre Fuleiro, Mano Décio, Mano Elói, Olegária, Aniceto, Calixto do Prato, D. Eulália, Vó Maria Joana, estes com fama reconhecida fora da escola, sem falar daqueles outros de grande prestígio no âmbito interno da escola: Gradin, Mocorongo, Zacarias, ec.
O mesmo se deu com o Salgueiro que, como sabemos, é resultado da união de outras escolas do morro como a Depois Eu Digo, e a Azul e Branco do Salgueiro de onde saíam, de uma ou de outra, Casemiro Calça Larga, Antenor Gargalhada, Neca da Baiana, Geraldo Babão, Anescarzinho, Djalma Sabiá, Paula, Mercedes Batista, Noel Rosa de Oliveira, Narcisa, Vitamina e tantos outros. Outra questão a ser observada é a verificação de quantos ídolos desse quilate, dessa envergadura, brotaram nas últimas décadas em cada uma dessas escolas, mesmo sendo as mais tradicionais. É bom lembrarmos que surgiram, isto sim, personagens "ligados" a essas escolas, sem que que haja uma relação "umbilical" desses sambistas com suas escolas. É o caso de citarmos Beth Carvalho, Alcione, carlinhos de Jesus, Zeca Pagodinho, até mesmo Clara Nunes, Almir Guineto, até mesmo Roberto Ribeiro, Arlindo Cruz, isto para ficar entre aqueles que por muito tempo desfilam ou desfilaram por um mesma escola. Em meu entendimento, e se nenhum desdouro para os citados, trata-se aqui de "ídolos midiáticos", ídolos muito diferentes daqueles com relação orgânica com suas escolas como Candeia, como Natal, Paulo, Manacéia, Monarco, Cartola, Jamelão, Delegado, Neide, Carlos Cachaça, Neuma, Zica, Espinguela, Waldomiro, Juvenal Lopes, nomes estes que ora somamos aos citados em relação aos baluartes do Império e Salgueiro. Muito tempo sem rádio, mais tempo ainda sem televisão, a história de cada escola e de seus ídolos foi formada no chão, no terreiro de suas quadras, na infinita dificuldade de se colocar o carnaval nas ruas naqueles tempos. Os destaques da vez, hoje, revelados pela imprensa para o grande público, são Adriane Galisteu, Luciana Gimenez, Adriana Bombom, Juliana Paes, Gracyanne Barbosa e todos os artistas da Grande Rio, nomes com alguma, nenhuma ou muito pouca relação com as escolas em que desfilam.
A mais permanente de todas é Luiza Brunet, que está aí na pista de 1982. Muito antes delas Gigi da Mangueira, mesmo não sendo rainha de nada, encantava o público, mangueirense ou não, pelo seu pioneirismo. Foi figurinha carimbada na Mangueira de 1961 até 1980. Mas do que ela brilhou Maria da Penha Ferreira Ferreira, uma tal de Pinah, do ano de 1977 até 1990 - "a Cinderela negra que ao príncipe encantou". Veja, caro estudante, que a única que não precisei identificar a escola foi Pinah; por que será? Acho que Gigi também não precisava, pelo menos para os mais cascudos. Houve um tempo em que o destaque de uma escola era seu versador, no tempo em que se desfilava com a primeira parte do samba. Tempos depois foram os compositores que reinaram: tempos de Silas, de Candeia, de Anescarzinho do Salgueiro, de Hélio Turco, de Martinho, só para citar um de cada escola. Depois vieram tempos de glória dos mestres-salas e das porta-bandeiras. Tempos de Vilma e Benício, de Delegado, de Neide ou Mocinha, só para citar a maior rivalidade. Em meio a isso, com o advento da TV, ficaram célebres personagens das comunidade que se revelavam com passistas - eles também tiveram seus dias de reinado - Tijolo, Vitamina, Careca, Gargalhada e moças como Maria Lata D"Água, Nega Pelé, entre outras. A partir da década de 1960 tem início o reinado - e desta vez absoluto - dos carnavalescos, nomes mais que presentes em qualquer noticiário pós-carnaval de dança das cadeiras. Mais que qualquer outro segmento, o de alegorias e adereços foi o que mais se profissionalizou, a exemplo do que vem acontecendo agora com a coreografia das comissões de frente, quesito que mais se modificou na história dos desfiles. Poucos são os carnavalescos hoje que não passaram pelo menos por quatro ou cinco escolas. Portanto, meu caro estudante, tal como um dia pudemos identificar Candeia e Vilma com a Portela, Cartola e Delegado com a Mangueira, Martinho com a Vila, como alguém poderá identificar os ídolos de hoje com alguma escola. Em que galeria de imortais estarão Fernando Pinto, João Trinta, Renato Lage, Max Lopes; e tantos outros. Certamente Pamplona estará na galeria do Salgueiro. Rosa Magalhães, não por exclusividade, mais por tão longa permanência estará na galeria da Imperatriz. Pode ser até que Joãosinho fique na galeria da Beija-Flor, e Laíla com mais motivo ainda (ou ficará na galeria do Salgueiro, apesar de tanto tempo?). E até Fernando Pinto na Mocidade pela força daqueles carnavais. Quem mais? Que cantores das últimas décadas poderão ser vinculados às suas escolas atuais. Certamente Jamelão, Neguinho, Preto Jóia...Quem mais? Diga aí... Portanto, meu caro, contente-se e orgulhe-se de sua escola que, entre todas, é aquela que mais está preparando uma bela galeria de imortais para posar orgulhosamente ao lado de Cabana. Uma escola que teve o mérito de dar o primeiro passo no sentido de reverter o rumo dos desfiles. Desfiles que nos anos 60/70 passaram a ser quase apropriados pela classe média, muitas vezes excluindo as pessoas mais ligadas às escolas, principalmente pelos altos valores alcançados por fantasias cada vez mais caras.
A Beija-For, meu caro, teve esse fluxo revertido fazendo com que progressivamente todas as suas alas sejam vestidas com recursos da escola destinando-as a seu próprio público, transformando os sambistas, antes excluídos, em seu principal trunfo no carnaval. As outras estão vindo atrás. Confie, pois, com o tempo; a história certamente fará justiça à Beija-Flor. Quanto ao "pega pra capar" da "dança das cadeiras", espero que os nossos atuais ídolos do samba se preservem desse "bundalelê" e continuem a se respeitar, a torcer um pelo outro, mestres de bateria, mestres-sala, porta-bandeiras, passistas, compositores, todos enfim, que elevam acima de tudo a bandeira do samba. Eles que se unam, se respeitem e se confraternizem. Do contrário serão as maiores vítimas. Mas voltando ao parágrafo lá atrás, onde pergunto onde estão os novos deuses das velhas escolas, dirijo-me a você meu caro estudante, para perguntar. Agora é minha vez de perguntar... Perguntar, não para você, mas para todos, sobretudo para os deuses do carnaval: Que tempos são esses, os nossos? Qual a razão da inexistência de novos heróis? Será a televisão, já que tudo é culpa dela? Será culpa dos tempos interativos, tempos orkúticos, tempos i-phônicos, celuláticos? Por que razão não surgem em nossos tempos ícones como Paulo, Natal, Cartola, Maçu, Saturnino, Molequinho, Mano Elói, Fuleiro, só para citar os mais citados interna e externamente...E não é só na Beija-Flor não; em qualquer escola... Ídolos como Manoel Macaco, que foi da Depois eu Digo do Morro do Salgueiro e depois da Azul e Branco do mesmo morro. Onde está alguém como Calça Larga, que não foi nem da Azul e Branco e nem da Depois Eu Digo, fazendo sempre a folia da Unidos do Salgueiro, mesmo depois da unificação das duas primeiras que resultou no Acadêmicos. Independente disso, teve seu nome de tal forma ligado à cultura do samba do morro que a quadra comunitária da escola recebeu seu nome. Que dizer de Antenor Gargalhada, fundador da Azul e Branco, mesmo morrendo tão jovem, aos 32 anos. Pelo Azul e Branco foi Cidadão Samba de 1938, compondo para sua escola o emblemático "Asas do Brasil" tido como um dos primeiros sambas-enredo da história. Que sambista terá marcado tanto sua escola e sua comunidade a ponto de a agremiação não sair no ano de sua morte. Nunca foi da Acadêmicos e tem seu nome marcado, a marca do seu morro. Terá sido porque foi um dos grandes batuqueiros dos tempo da "Balança"? Onde estão os batuqueiros? Quanta gente hoje acha que batuqueiro é quem sai na bateria...
Batuqueiros como Neca da Baiana, imbatível na "Balança", como Gargalhada; ele de camisa listrada e lenço no pescoço e chinelo "charlot". Foi da Azul e Branco e fundou o Salgueiro. Negão de porte privilegiado, foi o Zumbi do carnaval de 1960; foi Chico Rei, em 1964. Foi o rei do Congo na Festa Para Um Rei Negro de 1971. No fim da vida, só saia da sua tendinha, lá no alto do morro, para compor a comissão de frente de sua escola, isto no tempo em que gente como Neca da Baiana tinha vaga em uma comissão de frente. Legenda das fotos (pela ordem) 1- Calça Larga do Salgueiro • E-mail para contato: lcciata@hotmail.com
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval
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