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Memória da Folia: Paulo da Portela volta para casa quase 70 anos depois Luis Carlos Magalhães relembra como conheceu a história do sambista e celebra a reinauguração do busto do maior mito da história da Portela, desta vez dentro da quadra Luis Carlos Magalhães
Era também a primeira vez que eu havia ido à Portela. Naqueles tempos, ainda menino, eu freqüentava muito mais a Mangueira, muito mais perto de minha casa, e o Salgueiro, no Clube Maxwell, mais próximo ainda. Não havia ainda o Portelão. Se a Portelinha era pequena para os ensaios comuns que dirá para a grande final de samba-enredos daquele ano. A decisão foi no Imperial Basket Clube, ali mesmo na estrada do Portela onde é hoje o Ponto Frio. Eu estava lá. Para quem foi a dois ou três ensaios na Portelinha, o Imperial era gigantesco; mesmo assim pequeno demais para aquela noite. Era o carnaval do quarto centenário.
Sambas memoráveis como “Os cinco bailes da história do Rio” de Silas de Oliveira, Ivone Lara e Bacalhau; História do Carnaval Carioca – Eneida , de Geraldo Babão e Valdevino Rosa, tremendo “lençol”, 48 versos, e sambas belíssimos de Lucas e da Capela.. A Portela decidia ali o samba para o enredo de Nelson Andrade “Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão”. Nunca vou poder esquecer esse dia. Eu e os outros meninos da minha distante rua, sem que nossos pais tivessem idéia de onde estávamos naquela noite de um sábado de 1965. Lá pelas tantas, ao ser divulgado o resultado final, em meio àquela imensa euforia, os compositores vencedores foram chamados ao palco. Vi então um negro enorme, corpulento, com olhos muitos expressivos, entre- passando as mesas do salão. Um sorriso muito largo e forte saudava a todos que o aplaudiam. Era Candeia, talvez em seu último dia de glória como sambista, com seu parceiro Waldir 59. Não era a primeira vez que eu o via pela “primeira vez”, mas este é um tema para oooooutra conversa.. Foi também naquela mesma noite _ Que noite!_ que ouvi pela primeira vez falar em Paulo da Portela. Eram dois sambas de quadra de autoria do então jovem Monarco que já ali assumia seu comovente mister de ser o contador das histórias da Portela _ As mais bonitas histórias da Portela. Monarco contava e cantava em um dos sambas sobre um menino chamado Paulinho que, segundo ele, era o sucessor do outro Paulo. Um samba era “Passado de glórias”, o outro “De Paulo da Portela a Paulinho da Viola, ambos em parceria com Chico Santana. De Paulinho, o da viola, eu já ouvira falar. Havia visto um show ou dele ouvido algum samba. Do outro Paulo, o da Portela, eu nada sabia. E fiquei ouvindo Monarco dizer que “Paulo e Claudionor (passista lendário, maior de seu tempo) quando chegavam às rodas de samba todos corriam pra ver”. E Monarco seguia “... no livro de nossas histórias tem conquistas a valer”. E concluía cantando que se fosse ali contar todas as glórias da Portela aquela noite não ia terminar. Aquele samba tão marcante seguia dizendo que “... Paulo, com sua voz comovente cantava ensinando a gente com pureza e prazer”. Eu ficava ali... olhando aquilo... tanta história bonita... fiquei emocionado quando Monarco se referiu a Paulinho da Viola: “Ó Deus, conservai esse menino que a Portela do Seu Natalino saúda com amor e paz”. Comovido ao ouvir : “...quem manda um abraço é Rufino, pois Candeia e Picolino lhe desejam muito mais”. Vida que segue... Naquele ano o Salgueiro foi campeão na Candelária com enredo de Pamplona e Arlindo Rodrigues, cantando o belíssimo samba do carnaval do Rio de Janeiro de Eneida. Depois, no final daquele mesmo ano, Candeia seria baleado com ferimentos múltiplos que lhe tirariam, no início, a mobilidade das pernas e anos depois sua própria vida. Outras histórias...contadas depois... De minha parte segui minha vida pelos terreiros de samba procurando aqui e ali informações sobre Paulo, o sambista das histórias que Monarco contou naqueles sambas tão marcantes. Um artigo de jornal aqui, um samba que falava nele ali, até que um dia chegou às minhas mãos o formidável livro de Marília Barboza e Lygia Santos: "Paulo da Portela - Traço de União entre duas culturas". Só me lembro que devorei todas aquelas páginas em um único dia. Não vou aqui resumir o livro. Hoje ele se encontra esgotadíssimo. Posso dizer é que eu que fui roqueiro da adolescência, blueseiro na juventude, jazzeiro na maturidade e sambista por toda vida, passei a ter em Paulo Benjamim de oliveira meu maior ídolo. Posso resumir sua importância em dois momentos. Para fazermos o filme sobre a vida de Paulo, baseado no livro citado, estive em São Paulo entrevistando José Ramos Tinhorão, o mais cioso, severo e rigoroso crítico da música brasileira.
Li para ele, lá pela página 296, o trecho em que ele se referia a Paulo da Portela. Fiquei impressionado porque naquele momento era a primeira e única vez que Tinhorão adjetivava um nome citado. Ao se referir a Paulo, Tinhorão emoldurou: “...o legendário Paulo da Portela”. Foi então que eu perguntei a ele o porquê disso. E no filme ele explica. Em outra oportunidade, também na elaboração do mesmo filme, Monarco conta um diálogo seu com Cartola quando a conversa girava em torno de Paulo da Portela. Em seu depoimento para o filme Monarco diz ter ouvido de Cartola que ‘... eu fiz muito pela Mangueira, mas o Paulo, o Paulo fez muito por todas as escolas”. Como sabemos, Paulo morreu mergulhado em mágoa e tristeza, oito longos anos depois de ter deixado sua Portela, razão maior de sua existência, escola cujo nome se confunde com seu próprio nome, cuja história se confunde com a história do samba e com sua própria história. Ao morrer seu enterro foi o maior já visto no subúrbio carioca, cerca de 15 mil pessoas, sem qualquer outra divulgação que não fosse o boca-a-boca dos amigos e admiradores. Natal quis fazer passar o corpo de Paulo pela Portelinha. Sua mulher Elisa não deixou... “ele não voltou para a Portela em vida, não voltará agora” Neste sábado Paulo voltará para sua escola quase setenta anos depois; seu busto estará ao lado de Natal, outro galho daquela mangueira que está lá até hoje. Todos nós devemos estar lá no Portelão, todo o povo do samba, portelenses ou não. Devemos levar nossos filhos... E homenageá-lo como se estivéssemos ali querendo dizer a ele, nós e nossos filhos, que seu nome jamais cairá no esquecimento.. Ali ao lado de Natal estará Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela. O maior de todos os bambas. 1- Capa da livro "Paulo da Portela" . Crédito: Reprodução Internet ************************************** De Paulo da Portela a Paulinho da Viola SUGESTÃO PARA VER: FILME: PAULO DA PORTELA: O TEU NOME NÃO CAIU NO ESQUECIMENTO
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