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Memória da Folia: 'Um filme parecido que eu vi' Luis Carlos Magalhães volta no tempo dos clássicos das multidões no Maracanã para comparar a recusa de Jorge Ben Jor para ser enredo do Salgueiro com a polêmica história envolvendo 'Fio Maravilha' Por Luis Carlos Magalhães
Difícil dizer p’ra vocês aí desse lado da tela, muito mais novos, o que era para um menino como eu viver aquelas noites. Jantar com a família, pedir dinheiro ao pai, descer, encontrar com os amigos, tomar o bonde 75, Lins de Vasconcelos, e ir ao Maracanã (ou ao estádio, como dizia meu pai). É assim como se o campo não tivesse iluminação, não precisava... A camisa do Santos era alva, branquíssima, como nada. As meias e calção pareciam mais brancos ainda. A bola naquele tempo também era branca nos jogos noturnos. De tudo emanava luz. Mas nada se comparava ao clarão, à aura que acompanhava aquele ainda-quase-menino negro que usava a camisa número “10” e que era a razão de estarmos todos ali. Sei, meninos, que vão achar que estou exagerando, não ligo. Como deve ter sido bom para alguém ter sido contemporâneo de algum gênio.
Fui contemporâneo de Pelé. Posso dizer que se Pelé jogou cem vezes no Maracanã eu e meus amigos estávamos lá em oitenta delas. Muitas vezes na arquibancada, bem lá em cima, bem panorâmico. Outras vezes na saudosa geral para ficar, bem perto, tentando aprender e talvez até para entender o que víamos em campo. Minha melhor, mais inesquecível, lembrança desse tempo, foi um Rio-São Paulo, quarta feira à noite, contra um Botafogo fortíssimo. Foi 6x2 e eu nunca vi um goleiro pegar tanto. Uma das melhores partidas do negão. Manga foi inacreditável, juro! Assim era com Garrincha. Muito difícil dizer p’ra vocês o que eram as tardes de domingo quando não-importa-quem rolava a bola, que era vermelhíssima – G-18-, para o lado direito do ataque do Botafogo: delírio, alegria, carnaval. Festa, festa, festa...e não raro a festa maior do gol depois do cruzamento da linha de fundo. Garrincha: A alegria do Povo! Tão bom quanto isso, só Samarone, mas aí já é outro papo. Conto essas coisas a propósito da recusa de Jorge Benjor, do enredo do Salgueiro, essas coisas. Como não acompanhei direito, deixei p’ra lá. Agora lendo o artigo do Gustavo, no 'Galeria', o assunto despertou minha memória do futebol, embora indiretamente tenha a ver com a 'Memória da Folia' que é minha praia. Acho engraçado como às vezes a história se repete, não como farsa mas de cabeça virada para baixo. Vocês, principalmente os flamenguistas, ao estarem vivendo o que talvez seja o melhor, o mais encantado momento da torcida, podem imaginar, até pelo fenômeno Obina, o que eram aquelas mesmas tardes, naquele mesmo estádio, o que a torcida do Flamengo aprontava quando Fio desempatava um jogo e levava o time à vitória, tal como aconteceu contra o Benfica. A partir dali, Fio ficou conhecido como “Fio Maravilha”. Só que aquele jogo havia sido em Lisboa. Vibração, só pelo rádio. O Fio, vocês sabem...o folclore em campo, aquela “dentuça”, aquele ir-levando-a-bola tropeçando, desengonçadamente, tudo dando certo: o gol.
Fio, estava lá..., a torcida do Flamengo...'vocês acham que podem imaginar'. E veio a década de 1970. Brasil Tri. Ditadura fechada, pós AI-5. Festivais por toda parte. No Rio era o FIC, festival Internacional da Canção. Para quem não sabe, não é possível contar a história da década de 60 sem falar daquela “aparição” absolutamente original, aquele samba superbalançado, um disco todo de sucesso. Caetano Veloso foi o primeiro a conceder-lhe status superior na MPB, não bastasse “país Tropical” para imortalizá-lo. Para a fase nacional, o então Jorge Bem compôs e Maria Alcina cantou, ou melhor, incendiou o Maracanazinho, cantando: 'Fio Maravilha, Tantas músicas já se havia feito para o futebol. Mas ali era diferente. Jorge Bem narrava todo o lance, toda a jogada, como a tornar possível que a torcida pudesse cantá-la, reproduzi-la nas tardes de domingo: '(...tabelou, driblou dois zagueiros, Tudo isso aí é muito fácil de contar. Difícil é contar o que aquela torcida fazia quando cantava aquela música “...aos 33 minutos, do segundo tempo” quando Fio, daquela maneira que sabemos, desempatava e levava o time à vitória: muito melhor que o Eto’o. Foi aí que tudo aconteceu. Eu vi tudo... Talvez um dia todos nós possamos vir a saber o que se passou na cabeça de Jorge Benjor que o tenha levado a recusar uma homenagem de sua escola querida, recusando uma exposição tão grande para todo o Brasil em horário nobre, e para muitas partes do mundo, que faria tão bem, que certamente renovaria tão brilhante carreira.
Repito que eu vi tudo. Eu era estudante de direito, primeiro ano, e disputava o campeonato universitário que tinha os jogos nas tardes de sábado. Já pela manhã íamos todos para Botafogo, para uma cobertura na General Severiano onde morava um dos estudante, atacante do nosso time. Seu pai era um advogado muito bem sucedido e que era uma referência para todos nós. Almoçávamos lá e íamos para o confronto. Esse advogado era procurador de vários jogadores do Flamengo e do Botafogo, sendo que muitas moravam ali no prédio ou bem perto: Jairzinho, Wendel estavam sempre lá conosco, Fio aparecia algumas vezes. E foi assim, no auge do sucesso, com seu nome na maior evidência – a música, altamente dançante, era sucesso nas boates- que o advogado convenceu o jogador a Provocar um acordo com o compositor, - pasmem – pelo uso de sua imagem. O resto vocês já sabem. Fio foi derrotado e condenado em custas e honorários. Nada em relação à pena maior que foi o colossal Mico que pagou. Benjor, acho até que mais por vontade própria do que por decisão judicial, substituiu “FIO” por “FILHO”. Depois, Fio consertou os dentes e foi para a América trabalhar com pizzas. Tentou se retratar com Benjor e o autorizou 'gratuitamente' a usar seu apelido. Micaço. Em tempo: pra quem se interessar, nosso time perdeu a semi final para a Faculdade de Engenharia do Fundão. Fui expulso com mais três e o jogo acabou: um gol com a mão vergonhoso..
Fio Maravilha E novamente ele chegou com inspiração Tabelou, driblou dois zagueiros Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa Fio maravilha, nós gostamos de você
2) O gol de Flávio no Fla x Flu de 69. Livro: Fla x Flu- O jogo do século. Autor: Roberto Assaf e Clóvis Martins. Editora: Letras e Expressões; 3) Fio, no Flamengo de 1969, no treino.
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