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Memória da Folia: 'Uma flor amorosa de três raças' Luis Carlos Magalhães volta à virada dos anos 60/70 para lembrar e reviver o magnífico período de enredos culturais da Imperatriz Luis Carlos Magalhães Era uma rodinha de velhos amigos lembrando de 1968. P'ra quem não morreu disso, p’ra quem não sofreu muito, p'ra quem não perdeu nenhum amigo querido, nada melhor que , passados 40 anos, recordar aqueles dias. E aí, lá pelas tantas, alguém fixou um momento do tempo: '_Não, isso foi depois, isso era no tempo que a gente ia ao samba da Imperatriz.' Depois eu fui embora, com a cabeça vagando pelo tempo lembrando aquele grande momento. Longe, mas muito longe mesmo de ser essa Imperatriz vitoriosa de hoje, a escola alternava maus e ruins resultados, nada mais que isso. Mas o que era tão bom então, o que havia de tão especial a ponto de nos levar – jovens universitários - para a distante Ramos, sair de lá de madrugada, sem carro, duros, chegar em casa ainda mais tarde e ainda ficar esperando o sábado seguinte? Respirava-se política. Ou melhor: respirava-se Política (assim mesmo com 'P' bem maiúsculo). Todos éramos militantes, nem sempre da mesma organização, todas clandestinas naqueles tempos pós AI-5. A Imperatriz tinha uma marca bem própria. Os enredos eram definidos por um Departamento Cultural. Uma ala de compositores qualificadíssima. Uma quadra super serena, tranqüila se comparada à Mangueira, à Portela e ao Salgueiro daqueles tempos. Quadra de chão, sem cobertura, cerveja barata e, acima, mas muito acima de tudo muita menina bonita. O enredo era 'Oropa, França e Bahia', 1970, originalíssimo, com samba de Carlinhos Sideral e Mathias de Freitas, sexto lugar, tudo bem, mais foi muito lindo:
Portela 'passou o rodo'; foi campeã com “Lendas e Mistérios da Amazônia”. Em 1971, a classificação foi pior ainda – sétimo – mas o carnaval, e o enredo, foi mais bonito ainda: 'Barra de Ouro, Barra de Rio, Barra de saia', sambaço de Niltinho e Zé Catimba que fazia a gente se acabar na quadra: “(...) quando aventureiros vindos d’além mar Em 1972 foi Martin Cererê. Um quarto lugar muito comemorado. 'tudo era dia Samba de Niltinho e Zé Catimba que agente ficou cantando muito tempo depois do carnaval, mesmo tendo naquele ano Aquele foi o último ano de Imperatriz, não sei bem, não lembro por quê, nenhum de nós voltou mais lá. Essa história aí começou no carnaval de 1969. E ficamos ali discutindo o quanto éramos tão melhores do que somos hoje. Como acreditávamos no futuro, quanto apostávamos nisso. Éramos jovens. Pouco antes, quando éramos crianças, nos disseram que o Brasil era o país do futuro. Não sei se p’ra vocês chegaram a dizer isso. Naqueles anos de Imperatriz não só acreditávamos nisso como nos considerávamos os agentes dessa transformação. Talvez por isso íamos para Ramos, duros, sem carro, respirar aqueles ares, aqueles enredos, aqueles sambas. Tudo era muito “nós”, muito Brasil, muito nossa gente, nosso povo. Como se falássemos de nós mesmos, de nossos irmãos. Embora alguns momentos daqueles anos fossem de extrema rudeza, de enfrentamento e de medo, de muito medo, confesso aqui, meio pateticamente, que alimentava o sonho de participar de um grande movimento popular para pôr o país no eixo. E depois da vitória desse movimento, minha missão seria subir o Rio São Francisco alfabetizando as populações ribeirinhas. Eu e, é claro, uma maravilhosa morena mestiça, com cabelos longos e grossos com sorriso-de-quinhentos-dentes-na boca-de lábios-grossos. Só pensávamos Brasil. Quem nos levou para a Imperatriz foi um jovem estudante de medicina que era de lá. Acho que Fernando, militante como nós. Era o carnaval de 1969: o primeiro do carnaval do AI-5. Tempos difíceis, fechados, o golpe dentro do golpe.
Aquele carro de Iemanjá de espelhos...A Mangueira de 'Mercadores e suas Tradições' e o Império Serrano com 'Heróis da Liberdade'. Quantas e quantas vezes saíamos da Imperatriz e passávamos na Mangueira. Até o dia amanhecer, sem contar que, meninos ainda, não ´éramos bem chegados no “Só para quem pode” ou seria “Só pára quem pode”? O samba de Hélio Turco, do Jurandir que se foi e do Darci que vai agora. Que beleza, como alguém pode esquecer. Contávamos nossa história, falávamos de nós mesmos e acreditávamos nisso. Não havia Coari, não havia Macababa, sabíamos o que cantávamos;
Em Vila Rica os mercadores Looonnnge, ao longe então se ouvia Sem contar Martinho que contava a história de IaIa do Cais Dourado, dando mais um passo na trajetória da Vila em sua luta para virar “gente grande”. Pouco importavam as outras escolas. A Imperatriz trazia um outro país: um país-música...um país-flor. Uma flor amorosa. Uma flor amorosa de três raças. Até aí tudo bem, sempre soubemos disso, sempre cantamos isso. Mas a Imperatriz falava de uma flor que era a música brasileira definindo-a como A flor amorosa de três raças tristes. Caramba, três raças tristes? Então somos tristes? Na verdade quem definiu assim não foi o Departamento Cultural da escola. 'Tens, às vezes, o fogo soberano Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza És samba e jongo, xiba e fado, cujos E em nostalgias e paixões consistes, Que e quanta beleza! Será que Bilac tem razão, somos mesmo assim...nossa alma... que importa tirar em primeiro... a fantasia mais bonita... que importa em quantos minutos a Imperatriz desfilará, que importa a punição... O que importa é que é carnaval; que a Imperatriz pode não estar ali a mais bonita. Importa que ela ali é a mais bonita. Se perguntando, perguntando a sua gente, à toda a Candelária colorida: somos mesmo tão alegres e felizes como aqui na pista ou somos mesmo herdeiros de nossas matrizes índia, africana e portuguesa? A poracé, o banzo e a Trova (ou o fado, pergunto eu ?) portuguesa? Que importa ter tirado em oitavo, que importa se a resposta não veio, que não virá. Tomara que não venha nunca. Será sempre nosso mistério: nossa tristeza-alegre, nossa alegria-triste sempre temperada pelo samba, o samba que bem sabe o quanto é melhor ser alegre que ser triste, o samba, como um samba, como esse samba que a Imperatriz cantou naquele ano, mais bonito impossível. E sobre ele (que só agora percebi tão triste) e sobre Bilac retornaremos na próxima semana.
Brasil, Flor amorosa de três raças Vejam de um poema E assim, na cor de nossos ancestrais Venham ver o sol dourar Vejam o luxo que tem a mulata Ouçam o trio guerreiro das matas Dos garimpos aos canaviais Ô meu Brasil, Fotos: 1) O casal da Portela em 1970, Irene e Zequinha.
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