![]() |
|
|
Memória da Folia: Uma história mangueirense Luis Carlos Magalhães lembra a emoção de um encontro entre Zé Espinguela e Dona Neuma em uma tarde que nenhum mangueirense poderá esquecer Luis Carlos Magalhães Agora por ocasião dos 80 anos da Mangueira me veio uma idéia. E se fizéssemos um troféu “80 anos de Mangueira” para elegermos o sambista mais singular de todo esse período. Quem seria ele? Meu voto vai para Zé Espinguela. Feio p´ra caramba, bexiguento e mulherengo...pode? P´ra gente ver como o cara era competente ... E mais ... fundador da Mangueira...amigo de tiracolo de Villa-Lobos, além de conhecidíssimo pai-de-santo. Dizem até que namorava grande parte de suas filhas-de santo.
Participou daquela tal viagem do navio Uruguai em 1940, realizada por Villa-Lobos e pelo maestro Leopoldo Stokowsky, e que resultou na gravação do LP “Native Brasilian Music” (foto) com alguns dos maiores nomes da nossa música de então: Donga, João da Baiana, Jararaca e Ratinho, Pixinguinha, Luis Américano, Zé da Zilda, Cartola, Carlos Cachaça, além da figura lendária de Getúlio “amor” Marinho. O detalhe é que no disco, depois de Donga, que “emplacou” oito das dezesseis músicas, Espinguela foi o segundo “emplacando” três: duas macumbas e uma corima, todas em parceria com Donga. Sem contar sua mais fantástica proeza, já tantas vezes contada, da realização do primeiro concurso entre as (futuras) escolas de samba, no Engenho de Dentro, em 1929.
Para que se tenha uma idéia do nível de relacionamento de Espinguela com Villa-Lobos basta lembrar que o “Sodade do Cordão” (foto) , criado em 1940 pelo maestro para reviver os cordões dos antigos carnavais, tinha como cacique-chefe o próprio Espinguela, além de dois de seus filhos, sua esposa e um sobrinho. Espinguela morreu jovem, aos 42 anos, no ano de 1944 e, ao que parece, o “Sodade” sem ele nunca mais saiu. Brincadeira à parte, ao escrever esse texto, ao tratar da morte de Espinguela, me ocorreu fazer o seguinte questionamento: nesses oitenta anos qual foi a maior perda que a Mangueira teve? Ora eu pensava em um nome e via sua importância direcionada para o samba, para a história da escola como força do carnaval. Esse foi um dos critérios. Aí surgiam outros nomes cuja importância era medida pelo ponto de vista do morro como uma comunidade cheia de aspirações, conflitos, esperanças e tudo mais, assim como qualquer outro. Outro critério. Outro critério ocorreu em função do momento melhor ou pior vivido pela escola como um todo. Tivemos grandes presidentes, sem dúvida, que desenvolveram a escola em bons momentos ou deram rumo a ela em momentos difíceis. Depois de oitenta voltas, oitenta dúvidas, oitenta alternativas tentadoras meu voto ficou claro: a maior perda foi a de D. Neuma. E explico meu voto. Em quaisquer dos critérios apontados D. Neuma teria tirado muito boa nota. A média, portanto, ficou muito alta. E ficou mais alta ainda pelo fato de ser mulher e de ter sabido interferir com autoridade na vida, no futuro de tantos jovens, das tantas gerações do morro, tantos deles seus verdadeiros filhos da vida. Uma autoridade que veio do samba, pelo pai que teve, pelo tanto que dedicou à escola, por ter feito dela sua maior alegria - sua própria vida - por ter desfilado ainda no bloco do mestre Candinho, antes mesmo de a escola existir. Uma autoridade que veio do dia-a-dia do morro pela mãe que foi, pelas filhas que criou, pelo exemplo que dava a cada vida que cruzava seu caminho. Pela liderança, enfim, que exerceu por toda sua vida. E aí me vem à lembrança a crise que a escola viveu às vésperas do último carnaval. E se D. Neuma estivesse viva naqueles dias, qual teria sido o rumo e a intensidade dos acontecimentos? Ora, já expressei aqui neste espaço, no calor dos acontecimentos, minha opinião no sentido de não ter ilusão de que as instâncias da escola pudessem ter tido o necessário enfrentamento a ponto de ter evitado aqueles fatos. Não tinha, não tenho e não terei tal ilusão. Nem a Mangueira e nem nenhuma outra escola de morro. Entretanto, pelas razões expostas, pelos critérios levados em consideração, pela marca que tinha, o peso de sua voz, sua atitude, sua história e seu carisma, penso que, viva, D. Neuma por si só representaria um obstáculo, uma resistência. Uma voz diferente, diferenciada, que certamente seria considerada por todas as partes envolvidas naqueles acontecimentos. Mas isto foi só uma brincadeira-homenagem à D. Neuma nesses oitenta anos. Na vida real D. Neuma não estava mais lá, sua morte se deu em julho de 2000, como todos sabemos. De minha parte, nunca vou esquecer nem de Espinguela nem de D. Neuma. Mesmo não tendo conhecido um e ter conhecido tão pouco outro. Tudo que sei são as histórias e lendas do povo brasileiro. Com D. Neuma, cheguei a estar com ela uma ou outra vez, nada além disto. E aqui, mais uma vez, me socorro do livro sobre Paulo da Portela, de Marília e Lygia, para reproduzir um episódio da história da Mangueira, envolvendo os dois sambistas aqui homenageados. Trata-se da narrativa de D.Neuma contando o dia em que Espinguela, tendo pressentido sua própria morte, quis se despedir da vida e “de tudo que gostava” no morro onde estava a tão querida escola que dezesseis anos antes ajudara a fundar.
Com a palavra D. Neuma (foto): “Zé reuniu os filhos-de-santo, a caráter. Saltaram em Triagem, vieram pela rua Licínio Cardoso, chegaram na ponte da Mangueira e se armaram. Nós não vimos nada. Era madrugada. Ouvimos um surdo lento e o seguinte canto, um samba [Adeus, Mangueira] que ele fez (...)” E o samba é transcrito no livro, tal como está ao final deste texto. Consta ainda no livro que naquela noite não ficou um só barraco apagado. Todo mundo ficou cantando o samba do Espinguela com as luzes acesas E vida que segue... Em julho de 1999, cinqüenta e cinco anos após esse episódio e um único ano antes da morte de D. Neuma, foi gravado um grandioso trabalho de registro da memória da Mangueira. O melhor trabalho que considero em toda a discografia do samba. Voz pouco ouvida fora das rodas do morro, ali D. Neuma soltou a voz em várias faixas, mérito maior do registro para a história do samba e para nós que a perdemos logo, logo depois. Uma faixa mais bonita, mais pungente, mais emocionante/emocionada que a outra. Uma delas com especial beleza: a inesquecível “Adeus Mangueira” de Zé Espinguela, aquela mesmo citada lá atrás.
Um ano depois morria ela, filha de Saturnino, ela primeira-dama da mangueira. Sua despedida na quadra foi na missa de 7º Dia em uma tarde de clima ameno, daquelas de julho com a quadra muito cheia. Eu ali, à margem da quadra, assistindo àquele momento tão grave, tão dramático, tão emocionante dessa nossa história tão bonita, dessa nossa história da qual tanto nos orgulhamos e que tanto gostamos de contar. Assistiria ali, pouco depois, os deuses do carnaval marcando aquele encontro de dois mangueirenses tão marcantes. No momento final da cerimônia, com a tarde já indo, alguém da escola fez com que todos ouvíssemos aquele mesmo disco, aquele mesmo samba do Espinguela, naquela mesma voz emocionada de D. Neuma que ali se despedia diante de todos nós. “ (...) adeus, escola de samba, adeus, mangueira adeus!” E todos nos entreolhamos, emocionados na certeza de estarmos vivendo um momento memorável que será lembrado por tantas gerações futuras.
Samba “Adeus Mangueira” Letra do samba: Bem que eu quero expirar Adeus,escola de samba adeus!
Fotos: 1) Capa do disco “Native Brazilian Music”, arquivo pessoal; 2) Zé Espinguela, em primeiro plano, de camisa branca, tênis e gorro, no ensaio do “Sodade do Cordão”, em sua casa no Engenho de Dentro. Do livro “Villa-Lobos: Sodade do Cordão”, de Ermelinda Paz, Rio de Janeiro, ELF, 2000; 3) D.Neuma, com suas filhas Guezinha, Ceci e Chininha e sua neta Adayr. Tirada do livro “Fala, Mangueira”. De Marília Barboza, Carlos Cachaça e Arthur Loureiro Filho. José Olympio, Rio de Janeiro, 1980; 4) Capa do disco “Mangueira: samba de terreiro, e outros sambas”. Arquivo próprio.
• Comentários sobre cada tema no local próprio indicado
|
|
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|