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Sérgio Cabral, pai: 'Não entendo mais de escola de samba. Não tenho por elas o amor que tinha antes' Escritor, pesquisador e ex-comentarista de desfiles critica o carnaval da Sapucaí e exalta o renascimento dos blocos Bruno Filippo Rio - Ao fim da tarde de uma segunda-feira de janeiro, Sérgio Cabral está atarefado. Em sua residência, numa bucólica rua de Copacabana, o telefone interrompe a entrevista várias vezes. São convites para participar de programas de televisão e para opinar sobre carnaval e samba. Os cinqüenta e um anos de carreira na imprensa lhe permitem hoje o seguinte sarcasmo: “Outro dia veio uma repórter aqui tão bonita. No meu tempo os repórteres eram todos feios.” Sérgio Cabral chega aos 70 anos com vida nova. A começar pelo nome. Para não confundi-lo com o filho político, acrescentaram-lhe um distintivo. Virou Sérgio Cabral, pai. Para as gerações que se formaram lendo seus textos sobre música popular na imprensa carioca, ele voltou a ser o mesmo. Escreveu, com Rosa Maria de Araújo, a peça Sassaricando: e o Rio inventou a marchinha, sucesso da temporada passada que acaba de reestrear. No fim do ano passado, lançou a biografia de Grande Otelo. E voltou aos jornais como cronista esportivo. Mas o autor de Escolade Samba – o quê, quem, como, onde e porque e As Escolas de Samba do Rio de Janeiro – duas referências para pesquisadores de carnaval – carrega grande mágoa há 17 anos, por causa de seu afastamento da transmissão da antiga TV Manchete. “Não tenho mais pelas escolas de samba o amor que tinha antes”, revela. Limita-se a acompanhar o desfile pelos jornais e pela televisão. “Não entendo mais de escola de samba. Só as de antigamente.” Nesta entrevista, em que discorreu sobre fatos e personagens da música brasileira e pincipalmente do carnaval, Sérgio Cabral, pai faz outra revelação, que para alguns soará como surpresa: “Não sou saudosista. O maior exemplo de que o carnaval do Rio se renova é o ressurgimento dos blocos. O povo voltou às ruas.” Sérgio Cabral – Completamente. Primeiro porque o samba-enredo deixou de ser samba há muito tempo, e como conseqüência a bateria, para acompanhá-lo, passou a tocar de uma forma pela qual não conseguimos ouvir os instrumentos. Não se ouve mais o som da cuíca, do pandeiro. No andamento antigo, o som permitia identificar, de longe, de que escola era a bateria. Hoje todas produzem o mesmo som, tocam da mesma maneira, exceto a Mangueira, que mantém o surdo sem resposta. O samba cantado de maneira tão apressada prejudicou a dança do samba, que é a outra atração que as escolas deixaram de oferecer. Além disso, há o aspecto racial. Uma vez eu estava participando de uma transmissão pela TV Manchete quando o Paulo Stein (narrador das transmissões de carnaval da extinta emissora) pediu um comentário final de cada um dos comentaristas. Eu disse: “Brancos, devolvam o carnaval aos negros.” É claro que não estou a fim de fazer divisões racistas, entre brancos e negros, mas os negros estão, sem dúvida alguma, sumidos das escolas. Então está certo Fernando Pamplona, que em entrevista que me concedeu classificou o samba-enredo como gênero decadente? Sérgio Cabral - Agora mesmo a Martinália fez um disco e pediu a vários compositores que escolhessem o samba-enredo de sua preferência. O mais novo era “Os sertões”, da Em cima da hora, de 1976. Concordo inteiramente, é um gênero decadente e lamento muito por isso, pois sei que há compositores excelentes que não conseguem fazer bons sambas porque as circunstâncias atuais exigem essa maneira apressada. Que, aliás, é uma maneira paulista. Eu me lembro de que freqüentava as escolas de samba no início dos anos 70 e eu brincava com eles dizendo: ”vocês correm muito, parecem que estão com pressa, que vão trabalhar amanhã cedo.” Hoje as escolas cariocas correm mais do que as paulistas. Com isso, podemos dizer que a beleza do desfile ficou restrita ao aspecto estético? Sérgio Cabral – Com quatro, cinco mil pessoas e um tempo curto para desfilar, as escolas adotam a correria, de maneira que a beleza se restringe às alegorias, às fantasias e às meninas bonitas. Você vê possibilidade de essa situação mudar? Sérgio Cabral – Não vejo vontade, não vejo disposição. As escolas estão totalmente divorciadas do samba. Estou há anos falando isso e nada muda. Mas quem sou eu para mudar? Sérgio Cabral – Alguns, sim, e não é de agora, não. O Cacique de Ramos foi um desses espaços, no fim dos anos 70. Uma geração de compositores foi formada pelo Cacique, pessoas que se reúnem até hoje para fazer roda de samba. Um dos sintomas de que as escolas passaram a tratar mal o samba foi o fim do samba de terreiro. Sou do tempo em que nos ensaios de escola de samba se tocava samba de terreiro. Só nos dias próximos ao carnaval é que passavam a tocar samba-enredo. A Lapa hoje é um desses espaços? Sérgio Cabral – Sem dúvida. A Lapa é um local de resistência, e hoje vive o melhor momento de sua história. Melhor do que os anos de ouro do bairro, nas décadas de 30 e 40? Sérgio Cabral – Muito melhor, disparado! Os anos de ouro da Lapa são os anos de hoje. Você foi um dos últimos cronistas carnavalescos da imprensa carioca. Por que os cronistas desapareceram? Sérgio Cabral – Como desapareceram? Você é um cronista, é a prova viva de que os cronistas não desapareceram. Mas é diferente. A imprensa carnavalesca está restrita aos sites e às publicações alternativas, e também a alguns programas de rádio; e desapareceu da grande imprensa. A figura do cronista como mediador de dois universos distintos não existe mais. Sérgio Cabral – Talvez porque isso seja um coisa antiga, superada. Eu me conformo, sou um senhor de 70 anos (risos). A imprensa teve muitos cronistas importantes. Eu mesmo comecei a escrever sobre o carnaval no “Jornal do Brasil” junto com Luis Gutemberg, que depois se tornou um grande jornalista político, autor da biografia de Ulisses Guimarães. Ou os jornais estão equivocados, ou os leitores não se interessam mais por isso. Costumo dizer que não há campo mais propício ao saudosismo do que o carnaval e, em particular, as escolas de samba. Eu evito saudosismo. Provavelmente, o tempo desse cronista tenha acabado, não desperte mais interesse. Eu preferia que houvesse. Mas, repito, sou um senhor de 70 anos. Talvez superado. Como avalia a cobertura atual da imprensa? Sérgio Cabral – Aguardo com grande ansiedade os jornais da Quarta-Feira de Cinzas. Leio e confronto com a minha opinião. Eu pesquiso a história das escolas de samba, sei como elas nasceram, quem foram as pessoas que as fizeram. Quando vejo que a projeção hoje não é para ninguém que não sejam as madrinhas de bateria e os carnavalescos - profissionais que mudam constantemente de escola, gostaria que fosse diferente. Gostaria que o foco estivesse nas comunidades. Você falou que evita o saudosismo. Mas o comentário que acabou de fazer também não é saudosista? Sérgio Cabral – Acho que não. É uma radiografia. Claro que eu estou me reportando ao passado, às pessoas que construíram a história das escolas de samba. Não sou saudosista. O maior exemplo de que o carnaval do Rio se renova é o ressurgimento dos blocos. O povo voltou às ruas. Você é o autor, juntamente com Rosa Maria de Araújo, do musical “Sassaricando – e o Rio inventou a marchinha”, que acaba de reestrear. A peça é um sucesso, assim como é sucesso o concurso de marchinhas que a Fundição Progresso promove anualmente. Como fazer com que esse interesse e essa nova produção cheguem às rádios, se massifique? Ou, como disse recentemente João Roberto Kelly, a indústria fonográfica não se interessa mais por esse tipo de música? Sérgio Cabral – O Rio de Janeiro padece há muitos anos de um mal terrível: as emissoras de rádio não são emissoras cariocas. Na Bahia, você liga o rádio e constata que é uma rádio baiana. Aqui, as rádios não têm o menor apreço pela música do Rio de Janeiro. A música de carnaval foi muito prejudicada pelo jabá. Houve uma época em que mais de 1200 músicas de carnaval eram lançadas, e muitos tentavam, por meio do jabá, fazer com que uma determinada música fizesse sucesso. Essa situação chegou a tal ponto que as emissoras pararam de transmitir música de carnaval, porque era vergonhoso, era sinal de que a rádio fora subornada. Isso foi fatal para a música de carnaval, sambas e marchinhas, e estabeleceu um vazio que é muito difícil de superar. A Secretaria de Turismo tentou promover um festival, mas as emissoras não tocaram as músicas. A TV Globo, em parceria com a Som Livre, lançou disco com músicas de carnaval, que no entanto só eram tocadas às vésperas do carnaval, o que não adianta nada. (Cabral se refere aos dois LPs chamados “Convocação Geral”, lançados em meados dos anos 70, em que grandes nomes da música brasileira cantavam músicas inéditas de carnaval) Edigar de Alencar, no livro “O carnaval através da música”, diz que as marchinhas são produto da mistura rítmica da polca ao one-tep e ao reg-time. Seriam então as marchinhas a primeira influência da música americana no Brasil? Sérgio Cabral – As marchinhas, de fato, passaram por essa influência. Mas sua origem está nas marchas militares. É claro que, com o tempo, ela foi incorporando outros elementos – até que, com João Roberto Kelly, houve a influência do iêiêiê e de toda a diversidade dos ritmos americanos que surgiram na década de 1960. Aquela marchinha que diz “Mulata bossa nova/Caiu no huly-guly”, faz referência a uma dança que era muito conhecida nos Estados Unidos. O Brasil é assim, e ainda bem que é assim, vai absorvendo influências estrangeiras. A música americana influenciou a música, e a música brasileira só foi influenciar a americana com a bossa-nova. Você escreveu biografias de grandes nomes da música brasileira. A lista é grande: Tom Jobim, Pixinguinha, Elisete Cardoso, Ary Barroso, Nara Leão, Almirante. Como biógrafo, como enxerga a polêmica envolvendo o cantor Roberto Carlos e o escritor Paulo César de Araújo? Sérgio Cabral – O que Roberto Carlos fez foi uma indignidade. Foi uma coisa tão ingênua que eu fico até com pena dele. Dizer, por exemplo, que quem pode falar dele é ele mesmo, isso significa acabar com a profissão de jornalista, de escritor, de pesquisador. E depois entrar na Justiça dizendo que revelações foram feitas, quando na verdade não havia novidade, tudo tinha sido tirado de jornal. Gosto dele, não o vejo há muitos anos, mas achei realmente lamentável. É por isso que todos os seus biografados já estavam mortos quando você começou a escreveu a vida deles? Sérgio Cabral – Exatamente. Até porque há revelações, por mais pueris que sejam, que são constrangedoras para quem está vivo. Na biografia do Tom, informo que ele arrumou uma namorada nos Estados Unidos. Se ele estivesse vivo, eu sei que ficaria muito chateado comigo, ainda que ele estivesse solteiro na época. Fale sobre seu mais recente livro, a biografia de Grande Otelo. Sérgio Cabral – Grande Otelo chegou ao Rio de Janeiro no domingo de carnaval de 1935. Portanto, ele ouviu o povo cantar “Chorar/Só adeus/Mesmo assim/Eu não penso sofrer”; viu o povo cantar “Cidade Maravilhosa”, e acabou virando um personagem do carnaval. Desfilou na Mangueira, e depois foi enredo na Estácio. Na biografia do Ari Barroso, eu reproduzo um diálogo entre os dois. “Gosto tanto de você que, só de vê-lo, fico com vontade de chorar”, disse Ari a Otelo, que respondeu: “Que coisa! Eu tinha isso quando via Ari Barroso”. Tenho grande admiração por ele, e me surpreendi com a riqueza de sua vida. Se tivesse de escrever um livro de 1800 páginas, escreveria (O livro tem 290 páginas). Sérgio Buarque de Hollanda, para a geração nascida a partir dos anos 60, tornou-se o pai do Chico. Como é tornar-se, para as novas gerações, o pai do político – atualmente governador do Rio de Janeiro – Sérgio Cabral? Sérgio Cabral – Eu me lembro que, logo assim que o Chico surgiu, o Sérgio Buarque contou que certa vez estava no aeroporto de Lisboa para voltar ao Brasil e, quando apresentou o passaporte, o funcionário do guichê olhou para o documento, depois se virou para ele e perguntou: “É pai dele?”. Sérgio respondeu: “Sou. Sou o avô d`A banda!”. Eu me sinto orgulhoso, torcendo e sofrendo muito pelo meu filho. Você costumar ir ao Sambódromo no carnaval? Sérgio Cabral – Não. Em 1991, eu iria comentar o carnaval pela TV Manchete, quando eu, o Pamplona e o Albino Pinheiro fomos afastados da transmissão devido às críticas que costumávamos fazer aos rumos do carnaval. Era uma emissora tão sem caráter que acabou. As pessoas não me defenderam, ninguém defendeu o Pamplona e o Albino. Nós três merecíamos uma defesa por parte do pessoal das escolas de samba. Aquilo me deu uma tristeza muito grande. Senti-me como os versos de Cartola: “Acontece que meu coração ficou frio/E o nosso ninho de amor.” Não tenho mais pelas escolas de samba o amor que tinha antes. É mesmo?! Sérgio Cabral – Eu sofri muito com isso, muito!, você não pode imaginar. Foi uma vida dedicada a pesquisar e estudar as escolas de samba. No ano seguinte, a Globo me chamou para comentar, e eu só aceitei o convite porque o considerei uma deferência à minha pessoa. Mas eu não quis mais. Além disso, não entendo mais de escola de samba. Só entendo as de antigamente. Você foi um espectador privilegiado das mudanças do carnaval do Rio de Janeiro. Se tivesse o poder de intervir diretamente no curso da história, o que faria? Sérgio Cabral – Não deixaria que as escolas desfilassem com mais de 1200 pessoas. O auge das escolas de samba – auge porque mantinha certa tradição e ao mesmo tempo apresentava novidades – foi nos anos 60 e 70, quando desfilavam com no máximo 1500 pessoas. Com isso, o samba-enredo voltaria a ser cantado em seu ritmo certo. Onde passa o carnaval? Sérgio Cabral – No meu sítio, em Paraíba do Sul, com tranqüilidade, ouvindo músicas antigas de carnaval.
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