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| André Gomes |
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'A Mandrágora' com maior apelo erótico é o que promete o diretor Eduardo Tolentino na nova temporada do Grupo Tapa com o texto de Maquiavel. Será mesmo que os fins justificam os meios, como colocou o autor? Bem, a trupe está rodando com a peça pelo Brasil desde 2004 e já havia encenado a história há 20 anos. Desta vez, recebem como convidada Suely Franco. Eis a trama: jovem italiano rico se passa por médico para conquistar o amor de uma mulher casada. Ela não consegue engravidar e ele receita tratamento à base de mandrágora, raiz de propriedades afrodisíacas. Em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural.
Abaixo, a crítica do espetáculo 'Beatles num Céu de Diamantes', publicada na última sexta no Caderno D do DIA. A montagem ganha a partir deste fim de semana mais duas sessões no Sesc Copa: sábados às 18h30 e domingos às 17h, além dos horários normais, à noite. Se janeiro de 2007 foi das marchinhas de Carnaval, com ‘Sassaricando’, o de 2008 é do iê iê iê dos Beatles, sob condução dos onipresentes Charles Möeller e Claudio Botelho. Eles acertam mais uma vez, apoiados numa idéia simples e sofisticada: dar verniz teatral às canções da mais célebre banda do mundo no musical ‘Beatles num Céu de Diamantes’. A estréia, quarta-feira, num Sesc Copacabana lotado, evidenciou o potencial da montagem: não há texto e a dramatização se faz em algumas das músicas. Também não há cenário e os atores utilizam malas e guarda-chuvas no desenho das cenas. Mínimo, máximo, simplicidade que conquista. O início é tímido, mais para show que para musical, até chegar ao ponto em que as canções crescem, ganhando outros acentos e marcações pertinentes aos temas. O elenco de 11 atores-cantores é competente. Gottsha passeia sua exuberância – ‘Here There and Everywhere’ arrepia — e Marya Bravo, em estado de graça, faz versão incendiária de ‘While my Guitar Gently Weeps’. Quente também é a performance de Kacau Gomes, candidata a mais sexy da temporada teatral. Tatih Köhler, revelação de ‘7’, fecha o elenco feminino: ‘Hey Jude’ é dela, com suavidade e força. O elenco masculino — Cristiano Gualda, Cristiano Penna, Fabrício Negri, Jonas Hammar, Jules Vandystadt, Raul Veiga e Rodrigo Cirne — está entrosadíssimo e brilha em especial no medley com ‘A Hard Day's Night’. A pianista Delia Fischer e o violoncelista Luciano Corrêa completam a montagem de grande potencial emotivo. Beatles forever.
Já tinha comentado aqui no blog sobre a nova peça de Daniela Pereira de Carvalho, mas agora segue a crítica propriamente dita, publicada hoje no Caderno D, do DIA. E então você chega aos 30 e percebe que vive uma vida ordinária. O que fazer diante da constatação? Para a autora Daniela Pereira de Carvalho, a solução parece estar no confronto. É ele que norteia a relação dos dois principais personagens de ‘Por Uma Vida um Pouco Pouco Menos Ordinária’, 11ª peça desta que tem sido apontada como a principal dramaturga carioca da nova geração.
Na condução de seus personagens ‘outsiders’, contudo, a escritora esquece de dar-lhes substância e um conflito que alcance na platéia identificação. Enquanto o personagem músico de Eduardo Moscovis se droga, mata um taxista a partir de um disparo não-proposital e estupra uma jovem, sua irmã falida dedica seu tempo a reclamar, à exaustão. O espetáculo é impregnado por questionamentos morais e existenciais rasos, com citações pouco inspiradas a ‘Crime e Castigo’, de Dostoievski, e sinaliza a resposta simplória de que a culpa para os grandes males da sociedade atual está no sistema, no qual convivem harmonicamente corruptores e corrompidos. Neste cenário, há um policial vivido por Joelson Medeiros, que só pensa em salvar a própria pele. Seu monólogo é aborrecido, as discussões avançam e expõem as deficiências do texto em dois extremos: expiação da culpa e como conviver com ela. A vida menos ordinária, para a autora, só pode ser conquistada a partir da admissão dos próprios erros. O quebra-cabeça ético proposto na peça que tem direção de Gilberto Gawronski é pretensioso e fraco — claro que no meio de tantas questões sobrevivem momentos de reflexão, mas de fácil esquecimento. Não há força dramática. A montagem se apóia, contudo, em boas soluções cênicas, como o uso de baldes com areia presos em roldanas, na representação da cocaína e para medição do tempo. Trilha sonora e luz também são pontos positivos e o elenco se dedica com paixão aos personagens. Muito barulho por quase nada.
Ok, antes de me despedir neste domingo de calor intenso, outro comentário acalorado: o que foi a estréia de 'Dom Quixote de Lugar Nenhum'?. Formávamos, eu e amigos que no Villa-Lobos encontrei, um grupo grande. Ninguém gostou. Alguns dormiram, outros pensaram em sair, quem ficou pôde perceber que, passada uma hora, a peça melhora - a duração total é de 1h40. Mas, definitivamente, não dá pra trazer tais montagens e querer ter casa cheia. O texto do Ruy Guerra, que situa o anti-herói de Cervantes no sertão nordestino, não tem fluência narrativa e Edson Celulari, com pouca projeção vocal, parece perdido, mesmo que a direção do Ernesto Picollo seja o que de melhor há na montagem. Gostei do coro grego, do colorido das roupas, do dragão e a sede por ação era tanta que até curti o Sancho Pança transformado em Diabo, mesmo que seja over e afetadíssimo. O uso do cordel já enjoou e o Villa-Lobos não está bom de escalação: 'Frida', que lá estava, era mais uma peça sem condução dramática. E olha que são grandes produções, bem apoiadas e que captalizam bem...
De uns tempos para cá, estranhamente, resolveram celebrar a autora Daniela Pereira de Carvalho como uma das 'melhores' de sua geração no Rio. Ela acabou de fazer 30 anos e já tem no currículo 11 peças, número invejável num mercado teatral que quase não revela novos dramaturgos. Tudo bem, é louvável que uma jovem seja tão produtiva, mas o resultado de sua produção está longe de ter qualidade. 'Renato Russo', a peça que revelou-a para o grande público, tinha um rascunho de dramaturgia. Olha que sou fã dele, mas aquele texto não desceu bem. 'Não Existem Níveis Seguros para o Consumo Destas Substâncias' avançava - era uma boa idéia, mas com execução mediana e final que comprometia o todo. Agora, com mais uma peça de nome grande - 'Por Uma Vida um Pouco Menos Ordinária' - a autora mostra que está bem longe de ter tanto interesse por sua obra legitimado. Seu texto é pretensioso e ingênuo na abordagem de temas como 'a crise dos 30 anos' e o modo de vida egocêntrico e inconseqüente da sociedade atual. As saídas por ela apontadas para fugir desta 'vida ordinária' então, nem se fala: cheiram a auto-ajuda, mas destas encalhadas nas promoções das livrarias. Pior é chegar no fim da encenação e ver, no trio de atores, a sensação de que acabaram de se entregar a um trabalho denso. Realmente pensam que fazem, ali, o teatro como agente transformador. Ok, a encenação é bonita, graças ao cenário bem sacado, mas é só. Ainda falta aparecer na cena teatral carioca um autor realmente bom. Estamos aguardando, quem sabe na próxima, a própria Daniela acerte e a gente saia do teatro com aquela gostosa sensação de que algo bom aconteceu, algo mudou, algo virá. Que venha logo.
Juro que ontem não reconheci-a na estréia de ‘Beatles num Céu de Diamantes’. Mas lá estava ela, linda, decotada, sexy, muito sexy, até o último fio de cabelo. Falo de Kacau Gomes, uma das quatro atrizes-cantoras do elenco feminino do musical dos onipresentes Charles Möeller e Claudio Botelho. Todas cantam bem, mas Kacau vai além: cada aparição sua é permeada de uma atmosfera sensual que, desde já, coloca-a na dianteira como promessa de mais sexy da temporada teatral. Aí você se pergunta ‘tudo bem, mas e quanto ao musical?’ Bem, mais uma vez a dupla acertou. As canções do grupo musical mais célebre de todos os tempos ganharam verniz teatral, assim como aconteceu com as marchinhas de ‘Sassaricando’, sucesso do ano passado, que volta semana que vem à cena. A costura das músicas de ‘Beatles...’ é perfeita, não tem texto, não faz falta. Sem cenário, o elenco de 11 atores-cantores brilha. Marya Bravo tem um solo de arrepiar, lindo demais seu ‘While my Guitar Gently Weeps’. Gottsha coloca seu vozeirão a serviço de números criativos. Novatos de ‘7’ também se destacam, como Tatih Köhler e parte do elenco masculino. Entre os homens, Cristiano Gualda tem bons momentos. Os medleys são muito bem costurados, ‘Yellow Submarine’ surge delicioso e sapeca e ‘She Loves You’ e ‘I Want to Hold Your Hand’ aparecem deliciosamente bem-humoradas. O violoncelista Luciano Corrêa faz milagres com seu instrumento e o som que sai do piano de Delia Fischer e da percussão de Jonas Hammar é muito agradável. ‘Beatles num Céu de Diamantes’ é uma encenação bastante modesta, mas que prova a força de uma idéia boa, bem executada. Você pode curtir como um show, pode gostar do que nela há de teatro mas, antes de qualquer coisa, ativar sua memória sonoro-afetiva. Amanhã, no Caderno D, falo mais. Até lá.
Sexta-feira fui ao Maison de France para a estréia de 'Hoje me Chamo Dinorá'. A peça veio de São Paulo e é uma adaptação da Maria Carmem Barbosa para um texto de rádio-teatro da novelista Janete Clair. É bobinha? Sim. Tem humor fácil? Sim. Mas, quer saber, é diversão sem contra-indicação, que conquista com encenação bem-cuidada e trama pueril. Cininha de Paula dirige o elenco que tem a carismática Daniele Valente como a empregada que resolve se passar pela patroa quando ela é obrigada a viajar por causa da morte do pai. Fabiana Karla faz a amiga da farsante e seduz o público com caras, bocas e o requebrado do corpo avantajado. Laura Cardoso, em participação especialíssima, é a hilária mãe de Dinorah, papel de Nivia Helen. Amanhã conto mais no Caderno D. Até lá.
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