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André Gomes

Segunda-feira, 7 Abril, 2008

CANTORES, ATORES, SEXO E UMA TORTA DE BLUEBERRY

Estou de férias, assim como o blog, mas num fim de semana na companhia de Norah Jones, Jude Law e Marianne Faithfull fica difícil resistir a um comentário. Cinema, não teatro, eu sei, é que os dias de descanso pedem outras paisagens. Na de ‘My Blueberry Nights’, um reencontro, onde fiz as pazes com Jude, de quem fiquei fã lá atrás, em ‘O Talentoso Ripley’. Entre as metáforas - com portas abertas e trancadas e o que fazer das chaves de cada um - que passeiam pelo filme de Wong Kar Wai, abre-se um Jude novo, nos moldes dos velhos tempos: enquanto galanteia em segredo Norah Jones, passamos a acreditar que o amor, mesmo ingênuo, esparramado, ainda vale a pena. Embalado pela voz dela e de Cat Power, mais ainda. Power participa do filme, numa cena rápida, triste e feliz, real.
NORAH JONES E JUDE LAW
Amorosa também é a jornada de 'Irina Palm', em que uma avó se vê obrigada a trabalhar numa casa de sexo para pagar o tratamento do neto prestes a morrer. É um filme sobre julgamentos morais, a fragilidade que reside neles e o peso de quem julga. Meu julgamento sobre o terceiro filme do pacote destes dias é – por que não? – amoroso. ‘Chega de Saudade’ é tão bom que dá vontade de sair do cinema, parabenizar cada um dos atores e dizer a Laís Bodanzky que o que ela fez foi filmar a saudade, essa palavra que temos aqui e tanto trabalho nos dá. Impossível vê-lo sem sentir saudade de um tempo em que cortejar, flertar, eram palavras fundamentais no dicionário amoroso pré-era do 'ficar'. Tonia Carrero, Leonardo Villar, Betty Faria, Maria Flor e tantos outros passeiam pelo salão que serve de cenário ao filme e nos convidam a dançar. Mesmo sentados no cinema, dançar. Dois pra lá, dois pra cá. Dois pra lá...pra lá, pra cá....

Sexta-feira , 4 Abril, 2008

'OS PRODUTORES': MUSICAL LUXUOSO, SEM VOZES POTENTES

Não, a Broadway não é aqui. Apesar de toda a badalação em torno da estréia da franquia brasileira do musical 'Os Produtores', o Vivo Rio mostrou - a exemplo do que acontecera no primeiro dia de 'Sweet Charity - que não está preparado para receber superproduções musicais. A estréia, ontem, da montagem estrelada por Miguel Falabella, Juliana Paes e Vladimir Brichta, sofreu com o som baixo da casa. O resultado foi que os atores cantavam e suas vozes não preenchiam o espaço. Uma pena. Melhorou passados 40 minutos de encenação, mas prejudicou bastante, ainda mais se considerarmos que esse espetáculo possui característica peculiar: é um musical sem vozes potentes. Falabella, todo mundo sabe, não é ator-cantor. É um ator que se arrisca a cantar. Tampouco Brichta o é. E o que falar de Juliana Paes? Esforçadíssima, ela dá conta do recado como Ulla, a dançarina sensual vivida no cinema por Uma Thurman, mas é claro seu esforço para esconder as deficiências da voz bastante limitada. Juliana tem carisma, é inegável, mas seu número inicial sofre por falta de graciosidade nas coreografias, o que ela consegue consertar nas aparições seguintes. Dos três, é Brichta quem tem o melhor momento musical, na descoberta de seu personagem, o atrapalhado Leo Bloom, de que pode realizar seu sonho de se tornar produtor da Broadway. Ele entoa a versão brasileira de 'I Wanna be a Producer' seguro da coreografia, finalmente conseguindo projetar a voz. A tradução das canções, é bom que se diga, é irregular: boa parte delas perde o brilho na passagem para nosso idioma nesta montagem.
O Max Bialystock de Falabella não tem nada de diferente em relação aos tipos cômicos que o ator emplaca na TV: é Caco Antibes, sem vergonha de ser Caco Antibes, como prova o monólogo da prisão, em que o ator finge ser uma senhorinha de van da Ilha do Governador louca para abandonar o teatro antes que a peça acabe.
E então fica a pergunta: como pode dar certo um musical sem ninguém que realmente cante no elenco principal? Serve para quem está disposto a usufruir mais do humor da história de Mel Brooks que das canções. Muitas de suas letras saem atropeladas na interpretação de parte do elenco: um exemplo é o experiente Sandro Cristopher, que faz o diretor gay Roger De Bris. Tem voz, mas ontem, pouco se entendia o que cantava. A cena na casa de Roger, aliás, merece ajustes. É sem dúvida a mais engraçada de 'Os Produtores', mas algumas marcações estão atrapalhadas e a aparição de sua equipe de colaboradores sem o impacto necessário.
Mesmo com tantas limitações, 'Os Produtores' se impõe pela graça da história e o carisma do trio, o que garante seu espaço como inegável opção de diversão na temporada carioca - a venda de ingressos vai muito bem, obrigado.
Os desacertos tornam algumas cenas cansativas, fazendo com que o total de 3 horas de duração pese. Uma montagem cara, luxuosa, de saldo final mediano. Segunda-feira, no Caderno D, mais comentários.

Quinta-feira, 3 Abril, 2008

MESTRE DA CENOGRAFIA EM CURSO

O Teatro Poeira, um dos mais simpáticos da cidade, volta e meia abre espaço para que grandes nomes do teatro nacional ministrem palestras e cursos. O nome da vez é o cenógrafo Hélio Eichbauer, responsável por cenários históricos, como o da montagem de 'O Rei da Vela', de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinez. Um exemplo mais recente de seu trabalho foi a casa de praia de 'Um Dia no Verão', com Renata Sorrah, em ambientação clean e de espantoso realismo na criação do mar que surgia por trás da janela e das portas giratórias laminadas. As aulas acontecerão quartas-feiras e sábados. Quartas, de 9h às 12h; sábados, de 10h às 13h. O curso começa 26 de abril. Custa R$ 150. Curriculum e carta de intenção para teatropoeira@teatropoeira.com.br.

Quarta-feira, 2 Abril, 2008

BOLAS DE GUDE

Fernanda Takai tem olhos de bola de gude, repare bem. Segunda-feira, durante o primeiro show que ela fez no Rio cantando as músicas do recém-lançado CD solo, lembranças de infância me visitaram. Seu jeito delicado e fofo já admiro desde o primeiro show que vi do Pato Fu (!!!), mas agora, com o repertório retirado de clássicos gravados por Nara Leão, Fernandinha se supera. Seu canto econômico é um bálsamo nestes tempos em que cantoras da MPB vociferam ou se contorcem no palco. É como se ela acarinhasse seu público. Quanto canta o amor, é quase como se nos falasse ao ouvido. Tá bom, o combinado aqui é falarmos de teatro, mas hoje é Fernandinha quem está neste palco. No Rival, segunda-feira, durante o show para gravação de um programa de rádio, ela avisou que em maio o traz inteirinho para o Rio. Estarei lá.