Membro do Comad (Conselho Municipal Anti Drogas do Rio de Janeiro), fundador e conselheiro do IBDC - Instituto Brasileiro de Direito e Criminologia, doutorando em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino de Buenos Aires, delegado de Polícia Federal de Classe Especial, responsável pela prisão do publicitário Duda Mendonça na rinha de galo em 2004. Rayol dirigiu por anos a Delegacia de Entorpecentes da PF.
Procurador de Justiça, ex-secretário de Administração Penitenciária, ex-coordenador de Inteligência do Ministério Público estadual do Rio de Janeiro, responsável pela investigação da Propina S.A, entre outras.
professor universitário, dirige a Escola de Turismo e Hotelaria da UniverCidade,há 15 anos.Tem estudado ,nos últimos 18 anos,o impacto da segurança na atividade turistica.Implantou no Rio o primeiro Programa de capacitação para as forças de segurança turistica do Estado do Rio.Preside o Instituto de Pesquisas e Estudos do Turismo,que tem um Nucleo de Segurança Turistica,que faz um estudo comparado dos diversos sistemas no Brasil e no exterior.Sua tese de doutorado em Direito da Cidade versa sobre Um sistema de segurança Turistica para o Rio.
Jornalista e escritor, ex-TV Globo, atualmente na área de entretenimento do SBT, é autor dos livros Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado e CV-PCC-- A irmandade do crime, ambos pela Editora Record.
carioca, coronel da reserva, comandou a Tropa de Elite do Exército Brasileiro, o Batalhão de Forças Especiais. Sua última missão no serviço ativo foi o comando do Batalhão Brasileiro de Força de Paz, no Haiti, sendo responsável pela pacificação de Cité Soleil, até então, a região de maior risco (segurança pública) sob controle da ONU. Na área da Segurança Pública, foi o Chefe de Planejamento do Comando Militar do Leste. Para se comunicar com ele, escreva para kidbleu@gmail.com
tenente-coronel reformado da PMERJ, bacharel em Ciências Administrativas, torcedor do Flamengo, escritor com oito livros publicados (vide site: www.emirlarangeira.com.br)
Policial Civil no Rio de Janeiro, atuando há 22 anos no combate ao crime organizado, pesquisador e especialista em segurança pela Fundação Getulio Vargas.
Advogado, torcedor do Vasco da Gama, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, membro efetivo e Vice-presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Copacabana e Leme – AISP19, tem formação no Curso de Capacitação para Lideranças Comunitárias e Integrantes dos Conselhos Comunitários de Segurança ministrado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) e pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP). É um apaixonado pelo bairro de Copacabana, onde nasceu e foi criado, e também pela cidade do Rio de Janeiro. Acredita que toda mudança na qualidade de vida do cidadão passa necessariamente por uma maior participação da sociedade civil organizada, inclusive na questão da segurança pública.
Rapper e Mc, torcedor do Flamengo, formado no Curso de Liderança Comunitária Uerj e engajado na Cultura HipHop, sendo hoje vocalista da Banda Stereo Maracanã. Ativista da (ONG Posse Reagir Cidadânia e HipHop), consultor de Cinema ("Tropa de Elite") e Documentários (Rebeldes da Noite no Rio- Alemanha) que tenham como tema e pano de fundo as Favelas. Espera que esseTrabalho venha fomentar novás idéias, e discutir questões relevantes para todos. Pode ser contactado pelo email jovemcerebral@gmail.com
Julio Ludemir nasceu no Rio de Janeiro em 1960, mas foi criado em Olinda, Pernambuco. Tem cinco livros publicados - No Coração do Comando, Sorria, Você Está na Rocinha, Lembrancinha do Adeus, O Bandido da Chacrete e Mais um Pai. Tem a alegria de ser rubro-negro e a capacidade de fazer filhos lindos, de que Juliana e Pablo são provas incontestáveis. Adoraria escrever sobre paz, amor e sexo selvagem, mas a violência do Rio de Janeiro não permite.
delegado de policia civil de 1ª classe, mestre em ciências Penais pela Universidade Cândido Mendes, doutorando em Ciências Políticas na Universidade Federal Fluminense, autor do livro "Acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas", da Editora Revan.
Tenente-coronel da PM, ex-comandante do Bope, autor do livro "A Verdade da Tropa", trabalhou como assessor especial da Subsecretaria Operacional de Segurança Pública durante as operações na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão em 2007.
Coronel reformado da PM, trabalhou como assessor especial da subsecretaria operacional durante a gestão do general Nilton Cerqueira, no governo Marcello Alencar
Capitão da reserva do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Conclui tese na Universidade Federal Fluminense chamada A Glória Prometida. O Curso de Operações Especiais - Rito de Passagem dos 'caveiras'. Atualmente é secretário de Segurança Pública de São Gonçalo. Treinou os atores do filme Tropa de Elite, de José Padilha.
Carioca, Rubro-negro, coronel da reserva remunerada do Corpo de Bombeiros, ex-integrante do Conselho Estadual de Meio Ambiente, ex-integrante do Conselho Estadual de Controle Ambiental, Ex-diretor de Operações do Departamento Geral de Apoio Comunitário da Sedec-RJ, tendo sido responsável pelo Levantamento Estratégico, Informação e Planejamento para evacuação da população de Angra e Paraty em caso de acidentes na Central Nuclear Almirante Alvaro Alberto, fundador e Diretor Executivo do Instituto de Capacitação, Ação e Cidadania Pelicano.
Jornalista e Consultor de Políticas Públicas, ex-diretor de Fiscalização da COMLURB, Superintendente de Projetos Especiais da Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Turismo, Diretor Geral de Apoio Operacional do DETRAN-RJ. Em 1984, passou três meses na Nicarágua como correspondente de guerra na fronteira com Honduras. Em 1995, atuou como consultor/observador na equipe GGAB (Grupo do Gabinete) da
Polícia Civil em ações nas favelas do Rio. Mantinha o blog Falando a verdade mas tirou do ar após receber ameaças de morte de traficantes conhecidos como Bonde do Coelho.
Delegado de Polícia Civil, já chefiou a Divisão Anti-Sequestro, e a Divisão de Repressão aos Roubos e Furtos de Veículos, além de ter sido assessor especial da instituição. Na Secretaria da Segurança Pública foi diretor da Divisão de Operações e Analista do Centro de Inteligência (CISP) e diretor-geral de inspeção e correição; foi presidente (e hoje é secretário-geral) do Sindicato dos Delegados e colaborador da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP). É pós-graduado em Políticas Públicas de Segurança e Justiça Criminal pela Universidade Federal Fluminense e integra o corpo docente do Curso de Especialização em Segurança Pública, Cultura e Cidadania da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O juiz João Luiz Ferraz de Oliveira Lima cancelou nesta sexta-feira a nomeação dos novos inspetores - concursados em 2006 - de Segurança e Administração Penitenciária. A lista dos nomeados para o cargo tinha sido publicada quarta-feira no Diário Oficial do Estado, mas o juiz assinala em sua decisão que a Secretaria Penitenciária cometeu desrespeito a ordem judicial. Por conta disto, Oliveira Lima determinou que a SEAP publique até quarta-feira um ato suspendendo a convocação que publicou há dois dias. Se a medida não tor tomada dentro deste prazo, a multa fixada é de nada menos que R$ 300 mil diários. Um preço salgado. A coisa não pára por aí: o magistrado determinou que se cumpra decisões já tomadas nos tribunais superiores em Brasília, ou seja, que sejam convocados e nomeados os concursados que se classificaram em 2003, que lutam há cinco anos para serem admitidos. A batalha pode ter chegado ao fim - uma guerra que começou com as petições do advogado João Henrique Freitas. Houve algum ruído na comunicação entre Judiciário e Executivo, já que o despacho do juiz informa que o Estado foi informado no dia 25 de julho deste ano do acórdão proibindo a convocação dos concursados de 2006 enquanto não se esgotassem os aprovados no concurso anterior, de 2003. Um mês depois, foi publicada a lista dos nomeados contrariando o que a Justiça determinara. A notícia deve servir de alento para os policiais civis que passaram no concurso de 2005, fizeram oito meses de curso na ACADEPOL mas não conseguiram convocação até hoje. A conferir.
Nesta sexta-feira, completaram-se 15 anos da triste chacina de Vigário Geral, quando 21 inocentes foram assassinados da forma mais insana possível, em uma vingança sangrenta que tomou conta do noticiário internacional. A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio, lembrou a data, mas já é possível perceber que aos poucos a cidade vai deixando as trágicas lembranças da chacina para trás. Os atos vão sendo esvaziados. O noticiário na TV vai ficando mais ralo, e até mesmo os nomes de mortos e matadores vão sendo menos escritos. Até mesmo um dos matadores foi morto em maio, sem que se fizesse muito alarde disto. Vigário Geral e o Rio de Janeiro se refletem em um espelho, quando somam impunidade e injustiça. Uma das parentes de vítima teve a indenização negada no fim do ano passado pela Justiça, sem maiores explicações. É obrigação do Estado recorrer, como manda a lei. Mas surpreendeu que em última instância a vítima tenha perdido. É inexplicável. Trata-se de uma senhora que até hoje vive em Vigário, sem maiores perspectivas. Não sabe nem que a vida lhe foi injusta. Já não sabe o que é vida. Poucos sabem, mas há um PM no caso de Vigário Geral que acabou se tornando vitima. Trata-se de Sérgio Cerqueira Borges, conhecido como Borjão. Borjão foi um dos presos que em 1995 já eram vistos como inocentes, colocados no meio apenas por ser do 9º´BPM. A inocência de Borjão no caso era tão patente que ele inclusive foi o depositário de um equipamento de escuta pelo qual o Ministério Público pôde esclarecer diversos pontos em dúvida. Borjão foi expulso da PM antes mesmo de ser julgado pela chacina. Era preso disciplinar por "não atualizar endereço". Borjão conta até hoje que deu depoimento em seu Conselho de Disciplina sob efeito de tranqüilizantes, ainda no Batalhão de Choque. Seus auditores sabiam disto. "No BP-Choque, fomos torturados com granadas de efeito moral as vésperas do depoimento no 2º Tribunal do Júri, cujos fragmentos foram apresentados à juíza, que enviou a perícia. Isto consta nos autos, mas nada aconteceu", conta Borjão, hoje sem uma perna e com a saudade de um filho, assassinado em circunstâncias misteriosas, sem que ele nada pudesse fazer. "No Natal fui transferido para a Polinter. Protestei aos gritos contra a injustiça. e Me mandaram para o hospital psiquiátrico em Bangu mas, por não ter sido aceito, retornei e em dias fui transferido para Água Santa. Lá também fui espancado e informei no dia seguinte em juízo, estando com diversos ferimentos, mas sequer fiz exame de corpo delito. Transferido para o Frei Caneca, pude ajudar a gravar as fitas com as confissões e em seguida fui transferido para o Comando de Policiamento do Interior. Após a perícia das fitas fui solto. Dei entrevistas me defendendo e tive minha liberdade provisória cassada e me mandaram para o 12ºBPM a fim de me silenciarem. No júri, fui absolvido. Meus pedidos de reintegração à PM nunca foram respondidos". A história de Borjão ao longo de todos estes 15 anos só não supera mesmo a dor de quem perdeu alguém na chacina. Mas eu não estaria exagerando se dissesse que Sérgio Cerqueira Borges acabou se tornando uma vítima de Vigário Geral. "Tive um filho com 18 anos assassinado por vingança. Sofri vários atentados e um deles, a tiros, me fez perder parcialmente os movimentos da perna esquerda. Sofro de diabete, enfartei aos 38 anos e vivo com um tumor na tireóide. Hoje em dia tento reintegração à PM em ação rescisória, o processo é o número 2005.006.00322 no TJ, com pedido de tutela antecipada para cirurgia no Hospital da PM para extração do tumor. Portanto, vários atentados à dignidade humana foram cometidos. As pessoas responsáveis nunca responderão por diversas prisões de inocentes? Afinal foram 23 inocentes presos por quase quatro anos com similares seqüelas. A injustiça queima a alma e perece a carne!", desabafa Borjão. Borjão hoje conta com ajuda da OAB para lutar por sua reintegração. Mas o desafio é gigantesco.
Triste ironia do destino: o policial hoje mora em Vigário, palco da tragédia que o jogou no limbo.
A filha dele, no entanto, me contou há alguns dias que não houve tempo suficiente para esperar pela Justiça e pela PM - Borjão teve que operar às pressas o tumor na tireóide no Hospital Municipal de Duque de Caxias. A cirurgia foi bem. Sérgio Cerqueira Borges vai sobreviver mais uma vez. Sobreviver de forma quase tão dura como os parentes de 21 inocentes, estas pessoas que sobrevivem mais uma vez a cada dia, a cada hora. No Rio de Janeiro é assim: as tragédias têm vários lados e a tristeza de quem tem memória dificilmente se dissipa. Pelo menos nesta data, neste 29 de agosto que nos asfixia.
É comum que reportagens sobre grandes tragédias terminem com o questionamento aos familiares sobreviventes: pretende sair do Rio? O amor à cidade, neste caso, tem dois afluentes para o mesmo Rio. Um deles, dos que vão ficar, é o afluente daqueles que ainda querem um Rio melhor para se viver, sem corrupção, sem violência, sem miséria. Outro afluente, o que vai para fora do Rio, é o daqueles que amam tanto a cidade que não suportam vê-la como está hoje, dividida entre grupos paramilitares de diferentes vetores, soterrada sob a cultura do crime, asfixiada pela cobiça. Estes saem. Nunca mais voltam. Ou voltam para perder a saudade. O caso triste mesmo é daqueles a quem a tragédia vai buscar na fuga. É o caso da família do menino Lucas Pereira, de apenas 2 anos e seis meses, que desapareceu sem deixar vestígios desde o dia 24 de maio, na cidade de São Carlos, interior paulista. Lucas morava com os pais na Barra da Tijuca e talvez tivesse tudo para ser mais um carioca alojado entre condomínios de segurança máxima, com vigias particulares e sistema de câmeras (sim, esta é a cidade em que agora vivemos). Talvez Lucas chegasse aos 20 anos sem jamais ir a uma banca de jornais numa esquina ou sem saber o que é o Paço Imperial ou a Gafieira Estudantina, posto que é o destino dos cariocas: a vida intramuros, diante de enormes TVs de plasma e segurança 24 horas. Os pais, zelosos, decidiram dar a Lucas uma vida no mundo real, e começaram a planejar a ida para o interior. Trabalhando em alto mar na plataforma P-16 da Petrobrás, na Bacia deCampos, o pai Antonio Carlos Ratto, de 57 anos, tinha certeza de que a família ficaria mais segura em São Carlos. Mas um dia a família foi à casa dos avós de Lucas, na Rua Coronel Leopoldo Prado, bairro Jardim Beatriz, perto da mata da Pedreira Bandeirantes. E lá ele sumiu, deixando a cidade em pânico. A primeira suspeita é a de que Lucas tenha andado sozinho e se embrenhado na mata - o que motiva buscas incessantes do Corpo de Bombeiros. Mas um crime não está descartado, por isso, tanto PM quanto Polícia Civil estão empenhados no caso. A mata da Pedreira tem muitas sinalizações e cercas, tornando remota a possibilidade de que Lucas tenha se perdido em meio ao verde. A mãe dele, Marcelene Érika Pereira, 33 anos, vive entre o remorso e a dor. Deixou a criança com a mãe dela, Otacília Leonardo Pereira, e uma das cunhadas. Visitou uma prima e ao voltar, percebeu o sumiço. Em entrevista a um jornal de São Carlos, Marcelene disse que Lucas já era educado para não acompanhar estranhos. Não entraria no mato, pois tinha medo de bichos. "No Rio de Janeiro, reside em condomínio fechado, mora em apartamento, portanto não teria por costume entrar em matas", diz a reportagem. Lucas é um menino, branco, com traços de índio, cabelos pretos lisos e escorridos. Ao sumir, trajava camiseta com mangas compridas verde, shorts preto e tênis azul, do tipo que tem luzes piscantes nas solas.
A polícia em São Carlos pede à população que qualquer denúncia, mesmo anônima - desde que procedente - pode ser feita para os telefones (016) 3361-1314 (Plantão da Polícia Civil). Marcelene recebe ajuda pelo email erika_pereira4@yahoo.com.br. Um triste caso de uma família que, ao fugir da violência, vai de encontro a uma outra inimaginável.
Clique nas fotos de Lucas para salvar uma cópia e reenviar a seus amigos. Ajude.
O major André Batista participa às 19h deste sábado, 30 de agosto, de um debate após exibição do filme "Ônibus 174" (o documentário do José Padilha, não o longa novo). O evento será na Biblioteca Comunitária Oscar Romero (Rua Elpídio, 530 - Vila Emil - Mesquita), e terá entrada franca. Batista, que como capitão do BOPE esteve na hora e no local do seqüestro de ônibus que parou o Brasil inteiro por quatro horas, foi depois co-autor do livro "Elite da Tropa", que deu origem ao filme "Tropa de Elite". A projeção e o debate fazem parte do projeto Cineoteca - Cidadania na Tela promovido pelo grupo Cochicho na Coxia, que nesta terceira edição terá a participação da COM CAUSA - uma organização da sociedade civil que surgiu de pessoas que atuam coletivamente em questões culturais, ambientais e de consolidação da cidadania na Região Metropolitana do Rio desde 1997. O debate será coordenado pela socióloga Lene de Oliveira, coordenadora da ComCausa.
Outro dia citei neste espaço o novo relacionamento entre os moradores da Fonte da Saudade - na Lagoa, um pedaço de calma que virou angústia - e os policiais que trabalham na área. Mencionei como exemplo de tratamento cortês dos dois lados. O policial na porta da padaria, pedindo que os moradores fiquem tranqüilos pois ele estava ali para dar segurança tinha o mesmo valor emocional que o porteiro dando bom-dia ao tenente que passa fazendo sua supervisão. No Rio de Janeiro isto já se tornou comum: os grandes traumas geram pequenos acordos de amizade, paz e convivência. Depois da morte brutal dos dois PMs no atentado do mês passado, os moradores acordaram para a realidade: é difícil dar segurança sem tê-la. Eis que, passado mais de um mês do episódio brutal, há mais dois policiais fazendo o mesmo serviço que aqueles dois faziam quando foram vitimados. Mais dois sargentos, de cabelo branco e olhar atento, desconfiado. Os moradores passam e não entendem porquê voltaram a "basear" (jargão da PM) dois policiais naquele mesmo local. Alguns passam e entendem demais. Em comum, o olhar de medo e a sensação vertiginosa de se reviver uma manhã sangrenta.
A PM de Sergipe, no Nordeste brasileiro, promove neste sábado, dia 30 de agosto, o 1º Seminário sobre o Termo Circunstanciado. A Secretaria da Segurança Pública de Sergipe criou uma comissão dia 20 passado para analisar a possibilidade de adotar a lavratura do Termo Circunstanciado (TC) pela PM do Estado. O resultado dos trabalhos desta comissão será encaminhado a um órgão superior, responsável por desenvolver políticas de Estado - e não apenas de governo. Trata-se do Conselho Estadual de Segurança Pública, cujos integrantes não são nomeados pelo secretário e independem dele. O TC já foi adotado pelas polícias de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Para os leigos e que não sabem o significado, vale esclarecer: trata-se de uma medida que gera polêmica mas que ao mesmo tempo impactos positivos. No Rio de Janeiro, o TC é feito nas delegacias - inclusive nas federais. Quando o ex-craque argentino Maradona causou um tumulto no Aeroporto Antonio Carlos Jobim em 2007, o delegado da PF de plantão no momento obrigou-o a assinar um termo circunstanciado antes de liberá-lo. O TC é uma forma de registrar delitos de menor potencial ofensivo encaminhando-os diretamente para o Juizado Especial Criminal (ou o Cível). Com o TC, o policial militar não tem necessidade, por exemplo, de conduzir a uma delegacia de polícia judiciária os envolvidos em uma briga corporal ou em destruição de patrimônio público - um pichador, por exemplo. Isto poupa horas de espera em delegacia para registro de ocorrência e mantém o policial-patrulheiro na área pela qual ele é responsável. Hoje, no Rio, muitas vezes um setor está desguarnecido porque a viatura está em uma delegacia registrando ocorrência que poderia ser encerrada no local. Os opositores mais ferrenhos do TC argumentam que isto seria um incentivo à corrupção - os policiais teriam mais "poder de barganha" para exigir dinheiro de acusados. Em resumo, tal polêmica consiste no fato de que a lavratura do TC pelos PMs confere em tese demasiado poder ao agente de segurança pública na rua, no local. O seminário em Sergipe terá a presença de Álvaro Lazarini, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e professor de Direito Administrativo. Estará palestrando também o major Azor Lopes Júnior, bacharel em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, doutorado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública e mestre em Direito Público. O chefe do setor de Relações Públicas da PM de Sergipe, coronel Agnaldo Ramos, também deve se manifestar. No Rio, a idéia do Termo Circunstanciado lavrado pela PM é rejeitada pelos delegados de Polícia Civil e foi barrada no governo passado. O Supremo Tribunal Federal, no entanto, autoriza a PM a confeccioná-lo - mas deixa a critério de cada governo decidir se quer isto ou não.
Aos poucos a comunidade do BLOG DA SEGURANÇA no site de relacionamentos Orkut vai crescendo. Antes de serem abertos temas de discussão, já tem até uma denúncia anônima que, tenho certeza, será encaminhada às autoridades competentes. Quer participar da comunidade? É só clicar neste link: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=66264457
Abaixo, a denúncia: "Venho num ato de desespero pedir que nos ajudem, pois o Morro Camarista Méier está um inferno, e as autoridades preocupadas com política estão esquecendo de nós. Os traficantes daqui cortaram todos os telefones, o filho do chefe do tráfico, o tal de Juninho, sobe e desce o morro com carro roubado. Aqui está cheio de carros roubados, nós já não agüentamos mais. Já fizemos varias denúncias, e até agora nada. Pelo jeito há algo errado aqui, porque de alguma forma eles ficaram sabendo de nossas denuncias e cortaram os telefones na tentativa de nos calar e de nos censurar. Vivemos aqui nesta ditadura e sonhando por dias melhores. Pelo amor de Deus nos ajudem!!! Consta ainda que no alto do morro, na parte identificada como 200, um traficante fica dia e noite com um fuzil G3 vigiando o morro e uma casa com armamento e drogas. O filho do chefe do tráfico desta comunidade está sempre no ponto de moto-táxi na subida do morro e em um barzinho perto do moto táxi também com outro comparsa, só que fazendo a segurança dele."
A revelação de que a Secretaria de Administração Penitenciária abriu sindicância para apurar denúncias de mordomia em Bangu 8 - publicada com exclusividade na edição desta terça-feira em O DIA - teve ampla repercussão nas emissoras de TV, rádio, sites e blogs. A reportagem, de autoria da repórter Maria Mazzei, mostra que presos 'vips' da Penitenciária Pedrolino Werling de Oliveira estariam usufruindo de pequenos luxos gastronômicos. É o caso do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, que estaria saboreando lagosta e salmão encomendados em um restaurante na Barra da Tijuca. Na matéria, o secretário de Administração Penitenciária, Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, explica que a sindicância foi aberta para apurar se a entrada da refeição vip na unidade teve a conivência de inspetores. Ao comentar, nesta terça-feira, a reportagem de O DIA, o governador Sérgio Cabral afirmou que "o que vale para Chico, vale para Francisco", numa referência a que todos os presos de Bangu 8 - onde também estão o ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins, o deputado estadual Natalino Guimarães e seu irmão, o vereador Jerominho - devem ter o mesmo tratamento. É o que toda a sociedade espera. Afinal, como disse hoje o secretário Cesar Rubens, "uma lagosta em um presídio é algo que não combina muito".
Ao fim da reunião de hoje do Conselho de Acompanhamento da Violência Urbana, coordenado pela ONG Rio de Paz, do pastor Antonio Carlos Costa, fiz a proposta de redigir um documento único, uma série de informações sobre os principais problemas da Polícia Militar. Nenhuma das informações será produzida diretamente por mim, e sim por praças e oficiais que me escrevem habitualmente. Um soldado com oito anos de polícia me enviou um extenso relatório, muito bem dividido, que começo a publicar em série a partir deste momento. Além do relatório enviado pelo soldado, levarei os comentários mais construtivos e objetivos para o conhecimento daquelas autoridades. E se possível, encaminharei o resultado final também para a CPI da PM, quando esta for criada na Alerj.
Vamos à primeira parte:
ENTREVISTA COM UM FARDA AZUL - 1ª PARTE - ESCALAS DE HORÁRIOS
Soldado PM diz:
Há alguns anos relacionei alguns problemas pelo qual a nossa gloriosa PMERJ estava passando, na tentativa de enviar para alguém que pudesse tentar resolver alguma coisa. Acho que enviei para as pessoas erradas, pois até hoje, ninguém resolveu nada. O tempo passou e vejo que nós continuamos na mesma. Vamos tratar hoje de Escala de Horário.
ESCALA 1 - 12/24-12/48: São 12 horas de trabalho diurno e 24 horas de descanso e na sequência, 12 horas de trabalho noturno por 48 horas de descanso. Não sei se você está a par desta situação, mas vou tentar explicar:hoje comecei a trabalhar às 6h30 e parei ás 18h30 peguei meu carro e por causa da chuva cheguei em casa por volta das 20h. Amanhã quarta-feira, 8 de Novembro, irei começar a trabalhar ás 18:30 e só terminarei a minha jornada ás 6h30 de quinta-feira, 9 de Novembro. Folgarei na quinta-feira (quando chegarei em casa por volta das 08:30 horas) e na sexta-feira. No sábado, começa tudo de novo. Deu para entender !?! O que eu quero explicar, é que este é um dos motivos que morre tanto policial no "bico", pois nós chegamos muito cansados em casa e ainda temos que fazer "bico". A carga horária é de 192 horas por mês, sendo 96 horas de dia e 96 horas de noite, é muito sacrificante, sem falar que a escala é corrida, ou seja, não tem sábado, não tem domingo, não tem feriado, faça sol, faça chuva, estamos aí !!! Escala esta, que é usada pela maioria dos serviços motorizados, tais como: RÁDIO PATRULHA, PAMESP, CABINE SOBRE RODAS, CABINAS, etc...
ESCALA 2 - 24/48: São 24 horas de trabalho e 48 horas de descanso. Esta é mais fácil de compreender, é trabalhar 24 horas direto e chegar em casa "morto" de cansado, dormir toda a primeira folga e fazer "bico" na segunda para poder complementar o salário. Escala muito usada por PATAMO, GAT, GEAT, PPC, DPO, GUARDA DO QUARTEL, etc. A carga horária é de 240 horas por mês, sendo 120 horas diurnas e 120 horas noturnas. Muito sacrificante.
ESCALA 3 - 24/72: São 24 horas de trabalho e 72 horas de descanso. Esta é boa, mas é raríssima na PM, pois somente os subtenentes tem esta escala, tirando serviço de Oficial de Dia. Escala comum a toda a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) e do Departamento de Sistema Penitenciário (DESIPE). A carga horária é de 192 horas por mês, sendo 96 diurnas e 96 noturnas. Segundo informações, o governador acabou de vez com esta escala na PMERJ.
ESCALA 4 - 12/48: Vou dar um exemplo qualquer desta escala: começa a trabalhar hoje, dia 7 de Novembro, terça-feira ás 8h horas e termina ás 20h deste mesmo dia. Folga o resto deste dia(noite) e o dia 08 de Novembro inteiro. Volta dia 9 de Novembro, quinta-feira, ás 20h e vai até às 8h do dia 10 de Novembro sexta-feira. Regressa dia 12 de Novembro, domingo ás 8h e começa tudo de novo. Esta é a melhor escala para o policiamento do tipo: RP, PAMESP, CABINE SOBRE RODAS, CABINAS, etc, pois o serviço rende, dá para dirigir as 12 horas e atender as ocorrências tranquilamente (PM se contenta com pouco mesmo, não é não!?!). Esta escala é a que consta no nosso regulamento e a que deveria substituir a escala 12/24-12/48 que é extremamente sacrificante. No entanto, esta escala também é raríssima na PM. Sua carga horária mensal é de 144 horas mensais, sendo 72 horas diurnas e 72 horas noturnas.
CLT: 44 horas semanais, 176 horas mensais, com um dia de descanso semanal obrigatório, de preferência domingo. Feriado; não trabalha. Se passar da hora de ir embora; hora extra. Trabalho de noite; adicional noturno.
Vamos às conclusões:
O que é bom para a PM, como você já pôde observar, é raríssimo, e como já deu para perceber, a escala 12/24-12/48 tem que ser substituída pela 12/48. E a escala de 24/48 tem que ser substituída pela 24/72, pelo menos para chegar perto da CLT. O governador disse que acabaria com a escala de 24 horas na PM. Até concordo, mas só de exemplo, na escala de 24/48 são 3 (três) alas, ou seja, trabalho um dia, folgo dois e retorno novamente. Na escala de 12/48, que é a que consta no regulamento, mas nunca foi cumprida, por exemplo, precisa de 5 (cinco) alas. Efetivamente, isto significa que terá que providenciar muito mais policiais.
Se a Justiça libertou um major - recém-promovido - por falta de provas, é meu dever presumir que ele é inocente. Caberia no máximo aos órgãos competentes alocar este oficial em um batalhão diferente daquele de onde se originou o inquérito que se transformou em processo, já que inocentar por falta de provas não é a mesma coisa que atestado de bons antecedentes. O major, citado em um blog da concorrência esta semana e em colunas de outros jornais, foi preso por envolvimento com o tráfico. Quando era capitão e respondia ao inquérito, o subcorregedor era o mesmo coronel que comandava o batalhão quando aconteceu o sinistro. Findo o IPM e absolvido por falta de provas, não satisfeita em alocar o capitão no mesmo batalhão, a PM ainda o promoveu a major. Assim como fez com um tenente-coronel que chegou a coronel mesmo tendo ficado preso por anos. Sei o que vocês vão dizer: "Ora, ficou preso mas pode ser inocente". No Exército, dificilmente um oficial chega a general tendo sido preso uma vez ou mesmo investigado por ligação com o tráfico. Na PM, a regra é mais, digamos, flexível. É no mínimo curioso que a corporação PM tenha agido de forma diferente, com a mão pesada, no caso do cabo José Wagner de Oliveira, do 9ºBPM (Rocha Miranda), assassinado durante o serviço no PPC do Morro do Chapadão, em Costa Barros. Oliveira foi enterrado sem honras militares e sem receber o ato de serviço. Sem receber o ato de serviço, a família fica desamparada. O argumento é de que o policial poderia estar em "desvio de conduta". Ora, por que é correto presumir que o oficial é inocente e mantê-lo no mesmo batalhão, promovendo-o, e é incorreto fazer o mesmo e dar honras militares e ato de serviço a um policial assassinado EM SERVIÇO? No caso, o cabo está morto e quem recebeu a punição por seu desvio de conduta foi sua família. O cabo do 9ºBPM é acusado quando já não pode mais se defender e ainda tem a família punida, já que a viúva corre o risco de ficar na miséria (se é que já não estava). Me parece estranho este comportamento da corporação PM, sempre tão zelosa com suas informações e com sua imagem.
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Esta semana, se formaram os sargentos da "Turma Nova Geração". Eu chamaria de "Turma do HC", pois foi a turma em que aconteceu o episódio do habeas-corpus polêmico de que falei alguns posts abaixo. Na sexta-feira passada, o grande dia da formatura. Não houve as autoridades da sexta anterior, quando se formaram os soldados. Pouco importava. Muitos dos policiais formandos até sofreram um pouco mais, devido à distância do quartel de sua residência, e com isso tiveram que ficar como residentes - tal e qual acontecem com os oficiais na Esfo, só voltavam para casa no fim de semana. Corrigindo: voltavam, desde que não tivesse clássico cheio no Maracanã - caso contrário, haveria serviço de policiamento extra no Maracanã. A informação me foi passada por um aluno. Finda a formatura, a Turma Sargentos Nova Geração recebe o "presente": não um trenzinho de plástico, como os soldados, e sim a escala serviço no sábado (serviço interno no CFAP) e domingo de Policiamento Extra (Botafogo x Vasco) no Maracanã. Esses já entraram perdendo de 1 a 0. Ou 2, se considerar que nem é jogo do Flamengo, pelo menos.
Cabeças expostas (e pedidas) dos inimigos de Lampião Por Julio Ludemir, escritor, autor de Sorria, você está na Rocinha, Lembrancinha do Adeus e O Bandido da Chacrete
Leio Cangaceiros e fanáticos, de Rui Facó, com o qual fiquei particularmente encantado. Li-o do modo menos interessado possível, apenas para me preparar para a leitura de Os sertões, de Euclydes da Cunha. E, no entanto, esse verdadeiro tratado sobre o que o autor considerou a guerra civil nordestina, que vai do Conselheiro ao Padre Cícero, não apenas me deixou fascinado pela originalidade de sua leitura sobre os eventos que sacudiram o alto sertão entre a abolição da escravatura e a instauração do Estado Novo, mas também pela possibilidade de compará-la com o que estamos vivendo hoje, nas favelas do Rio de Janeiro. Os cangaceiros, por exemplo, nós poderíamos trocá-los pelos traficantes. Já os fanáticos religiosos daquela época correspondem aos nossos polêmicos evangélicos. Entre os dois, temos uma polícia altamente violenta, à qual tudo é possível em nome do combate ao mal, que, no entanto, nunca tem uma mesma face.
Vejamos as semelhanças entre o cangaço e o tráfico. A primeira delas, e a mais evidente, é a que mostra ambos como a própria encarnação do mal. Lá, como aqui, eles são tratados como bandidos sanguinários, capazes de absolutamente tudo, sedentos de sangue. Lá como cá, porém, eles são um pólo de revolta - uma forma de dizer "não" a tudo que está aí, não de modo a destruí-lo, mas seguindo uma lógica suicida do crime, a de que "morro sim, mas levo uns 10 comigo". Para o tráfico, é clara a consciência de que a morte espera a todos bem ali na esquina. Para o cangaço, essa sina pode ser traduzida na canção final de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha: "Só me entrego para a morte / de parabelo na mão."
Também fico pensando se não haveria semelhanças em relação à origem deles. No caso do cangaço, fica claro que ele foi gestado dentro do mesmo ninho que mais tarde veio a rejeitá-lo. Rui Facó ao menos não tem pudor de afirmar que eles são um desdobramento natural de uma outra figura muito comum no Nordeste, o jagunço, também chamado de cabra ou capanga. Exercendo esse papel, esses homens sacaram suas armas para grilar terras para os seus coronéis, que durante séculos ignoraram todas as leis do que chamamos de civilização e fizeram tudo o que lhes parecia conveniente. Já com a persona de cangaceiro, cinco mil homens rumaram do Cariri a Fortaleza para derrubar um governo que acenava com idéias modernizadoras e libertárias para o povo do Ceará.
Nós poderíamos comparar esse fenômeno com os matadores da Baixada, que foram armados por Tenório Cavalcanti para defender a ordem das elites do interior do estado do Rio de Janeiro e hoje dominam grande parte do nosso território. Mas eles não representam uma ameaça para o cidadão comum, assim como acontecia com o cangaço no passado e hoje se dá com o tráfico. É verdade que esses matadores foram perseguidos na década de 1980, quando Nilo Batista, na época secretário de Justiça do governo Brizola, tentou levar a civilização ocidental para a Baixada Fluminense. Eventualmente, a sociedade repudia esses matadores, mas apenas quando eles se excedem, como nas chacinas da Candelária e de Vigário. Em geral, eles são tidos como única alternativa ao tráfico. São apenas eles que podem evitar a instalação de uma boca de fumo na cidade. É a eles que a comunidade recorre, não à polícia. Essa discussão é particularmente pertinente nos dias de hoje, em que Fernandinho Beira-Mar espalha sua lei e sua lógica pela Baixada.
O jornalista Tim Lopes, morto em 2002 na Vila Cruzeiro
O antropólogo Marcos Alvito fala que os bandidos foram a primeira interface do estado com as favelas, para as quais o valentão era uma garantia de paz. Mas aí estamos falando de um estímulo, ou mais precisamente de um consentimento da paz bandida. Como o estado nunca se propôs a levar a civilização para as favelas, contentava-se em aceitar as lideranças que elas criavam para manter o seu delicado equilíbrio. Delas, o estado só queria o seu voto ou a sua presença nos comícios, para fazer número, ou no de seus adversários políticos, nesse caso para fazer baderna. Podemos falar então de uma conveniência, mas nunca de uma gestação. Também podemos falar que o combate ao tráfico, tal e qual aconteceu com o cangaço, é mais ou menos intenso ao sabor das circunstâncias. Sabemos todos que, enquanto se mantém na favela, a guerra do tráfico é tratada no máximo como um incômodo ao chope da Zona Sul. A disposição de enfrentá-la só vem à tona quando um Elias Maluco mata um Tim Lopes ou quando a boca desce, como fez no blackout de fevereiro de 2003.
O título do livro de Facó não faz referência à polícia, mas ela desempenha um papel fundamental em Cangaceiros e fanáticos. Além da importância dentro do livro, sua atuação é absolutamente igual à da polícia de hoje. Por várias razões. A primeira delas é que quando essa polícia mata ela está sendo heróica, mesmo quando o faz da maneira mais covarde. Na Guerra de Canudos, por exemplo, o exército tinha o direito de esquartejar e decepar os seguidores de Antônio Conselheiro. O mesmo aconteceu com os macacos que deram cabo ao bando de Lampião. Eram bárbaros, porém, os bandidos que destruíam os corpos de seus inimigos. Mesmo quando era o caso, citado por Facó, de terem que matá-los porque não tinham como alimentá-los. Porque, seguindo a estranha lógica de qualquer guerra, naquela em particular cada soldado vivo era um inimigo a mais para reforçar o cerco ao Monte Santo. Sei de um coronel da PM, por exemplo, que é tido como um herói da guerra ao tráfico com as 450 mortes em seus costados.
A polícia que atuava no sertão, como a que temos hoje na favela carioca, é altamente arbitrária. No caso do Cariri, sua estupidez fica mais clara no episódio da comunidade que o Beato Lourenço criou em uma terra que ganhou do Padre Cícero, dentro da qual surgiu uma paisagem verde como até então só era possível nas profecias de um Conselheiro. Esse milagre, no entanto, se tornou realidade através de uma simples cooperativa de agricultores. Pois bem, esse crime hediondo, que se tornaria uma verdadeira ameaça à ordem se o seu exemplo se espalhasse por aquelas plagas, recebeu um tratamento de choque da parte da polícia, que ateou fogo às plantações, derrubou os casebres construídos nos limites da propriedade e confiscou as perigosas armas usadas por aqueles bandidos - machados, enxadas e outros instrumentos por meio dos quais mudaram a cor da tórrida paisagem sertaneja.
Temos ainda a considerar o conceito de crime ou delito. Por exemplo, a tal ordem burguesa ainda hoje não atravessou as cercas desses latifúndios, dentro dos quais os coronéis continuam sendo, como nos primórdios dessa estranha civilização brasileira, senhores da vida e da morte. Ali dentro, tudo era possível, inclusive proteger os mesmos cangaceiros que a polícia estava procurando. E aqui a comparação entre esses dois períodos da nossa história é absolutamente possível. Por exemplo, só entendemos como uma ameaça ao sono de nossas famílias o tráfico das favelas, aquele que é dominado por negros desdentados. Praticamente ignoramos o Brasil como rota da droga entre a Colômbia e a Europa, cujo tráfico é controlado por personagens não apenas intocáveis, como de identidade ignorada.
Outro aspecto a ser abordado diz respeito às semelhanças entre os evangélicos de hoje e os fanáticos de ontem, particularmente os que criaram a mítica cidade do Juazeiro, muito mais dóceis do que os seguidores de Antônio Conselheiro. Já vi Alvito (sempre ele) comparando o fenômeno dos evangélicos com o dos puritanos ingleses, que criaram uma religião das mais rígidas para se proteger dos inúmeros crimes então punidos com a pena de morte. Há, porém, um aspecto em que os evangélicos de hoje se assemelham mais aos fanáticos do Padre Cícero.
Falo da total desesperança na vida terrena, na qual de nada servem todos os valores que o nosso povo aprendeu a cultivar ao longo dos séculos. Tanto nas nossas favelas como no Cariri, esses religiosos conseguiram criar uma paisagem social totalmente nova ao se tornarem seguidores não exatamente de Jesus, mas de um pastor ungido pelo Senhor. Hoje são prósperas as favelas ocupadas pelas igrejas evangélicas, que dominam o mercado da construção civil e o pequeno comércio dessas localidades. Não foi muito diferente o que aconteceu no Cariri, onde os romeiros criaram várias cidades com o rico comércio de imagens para os devotos do Padre Cícero e de alpercatas de couro, redes e outros utensílios domésticos, usados pela gente humilde que largava tudo para receber as bênçãos do Padroeiro do Sertão.
Inquieta-me, por fim, uma pergunta: será que, como o cangaço, é possível dar um fim ao ciclo do tráfico? Tenho eu a impressão de que o cangaço era tido como indestrutível, como hoje o tráfico o é. E no entanto não é exatamente por causa de personagens temíveis como Lampião que as boas famílias do sertão nordestino têm o seu sono intranqüilo. É verdade que os cangaceiros, como os traficantes, não são o mal em si e não surgiram do nada. Mas mesmo que se deva duvidar de uma sociedade que produz esse tipo de bandido em uma escala industrial, o fato é que, mesmo que no fundo, a única mudança no sertão tenha sido a construção das estradas que permitiram que o peão se mandasse para o sul antes de se tornar um cangaceiro, hoje o cangaço deixou de ser uma instituição nordestina.
Digamos que ele tenha apenas mudado de lugar, indo para as favelas cariocas como o que os criminologistas chamam de mancha de óleo do crime. Isso mereceria uma outra reflexão, que, como esta, pode ter tudo, menos o preconceito contra nós, nordestinos (aqui vos fala um homem criado em Pernambuco). O que importa, e o que há de mais objetivo a ser levado em consideração, é que é possível viver sem o cangaço, digo, o tráfico.
O artigo recentemente postado neste blog pelo coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, ilustre presidente do ISP - que por aqui escreve apenas na condição de coronel da PM - merece desdobramento intertextual, até porque sinto certa angústia ao perceber a superfluidade e a fragmentação das idéias e produtos que abarrotam a denominada mass media, que, com certeza, não ajudarão a mudar absolutamente nada na sociedade nem na segurança pública. Há quem inclusive renegue a teorização dos assuntos por puro capricho ou preguiça. É pena, pois a entropia nos ameaça a todos! Por outro lado, percebo prazeirosamente muitos comentaristas anônimos acrescentando excelentes idéias ao debate. Respeito o anonimato, mas não posso deixar de lamentar que bons comentários se percam na síntese em função da velocidade do próprio blog. Não pode ser diferente... Afinal, vivenciamos o "pós-moderno". Mas creio que devemos resistir e insistir no contexto e no processo como forma de destruir conceitos reducionistas que, na essência, objetivem valorizar preconceitos e mascarar as aberrantes crises instaladas na tessitura social, o que apenas destrói valores e empresta glamour aos estilos supérfluos e consumistas... A pichação contida no muro, que abre o artigo do ilustre articulista Mário Sérgio (parabéns pela merecida promoção!), e a referência dele ao pensamento baudrillardiano induziram-me à lembrança de duas veementes declarações de importante autoridade pública do RJ, em passado recente, sobre o Comando Vermelho, creio que noticiadas pelo próprio Jornal O DIA. Grosso modo, garantia a alta autoridade, que comandava a segurança pública cumulativamente com a vice-governadoria do Estado, que "o Comando Vermelho não existe!". Na segunda declaração, lembra-me a minha fraca memória que até se utilizou de um neologismo a desmerecer a organização criminosa: "O Comando Vermelho é um besteirol".
Claro que essas afirmações seguiam a "lógica de direitos humanos" do governante da época, e o fato de serem proferidas por quem deveria determinar ações policiais contra a criminalidade em favelas, cujos muros e paredes eram pichados com o famigerado símbolo do "CV", soavam como ameaça nada subliminar... Afinal, como poderia a polícia combater o que "não existe"?... Lembra-me ainda que os signos a marcarem os territórios dominados naqueles tempos eram exatamente "CV" (mais) e "TC" (menos), significando respectivamente as facções rivais "Comando Vermelho" e "Terceiro Comando". Mais que isso, era comum serem hasteadas nas comunidades dominadas as bandeiras vermelhas ou verdes, as primeiras com a frase "Paz, Justiça e Liberdade", e as segundas apenas com a cor verde a tremular significativamente...
O instigante artigo do presidente do ISP impeliu-me ao estudo e à relembrança das idéias de Jean Baudrillard. Dentre muitas referências ao pensador, encontrei na internet um texto primoroso, sob o título "JEAN BAUDRILLARD: importância e contribuições pós-modernas". O texto é assinado pelo Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira (Departamento de Ciências Sociais - Universidade Federal de Santa Maria - RS - UFSM) e publicado no Caderno MIX - Idéias - Jornal "Diário de Santa Maria" - edição de 31/03 - 01/04/2007. E não há como deixar de sublinhar um parágrafo em que o Prof. Holgnsi cita Baudrillard: "O poder de dominação, de fascínio, de hipnotização da televisão sobre os indivíduos, é expresso em seu dizer irônico que 'a imagem do homem sentado, contemplando num dia de greve sua tela de televisão vazia, constituirá no futuro uma das mais belas imagens da antropologia de nosso século'. Entendia os meios de comunicação de massa como veículos do fascínio bruto do ato terrorista, ou seja, na medida em que caminham para o fascínio são eles próprios terroristas, são manipuladores em todos os sentidos (uma vez que carregam consigo o sentido e o contra-sentido). Afirmou ser impossível encontrar um bom uso dos medias, em suas palavras: 'ele não existe'. (itálicos do autor). Esta inferência ainda poderia ser enriquecida pela conclusão de Baudrillard em "simulacros e simulações", igualmente sublinhada pelo autor: 'tudo se metamorfoseia no seu termo inverso para sobreviver na sua forma expurgada. Todos os poderes, todas as instituições falam de si próprios pela negativa, para tentar, por simulação de morte, escapar à sua agonia real'. (itálicos do autor). Quando analisamos o famigerado slogan do Comando Vermelho ("Paz, Justiça e Liberdade"), temos de concluir pelo seu "contra-sentido". Mas será que a massa absorve esse inverso ou passa a justificar as ações dos criminosos como necessárias ao alcance da "paz, justiça e liberdade" por eles apregoadas? E quando lideranças políticas buscam nesta meia-verdade sua posição oficial, negando o que existe e ignorando o fato de o slogan significar, no real, o seu oposto? Ah, é na meia-verdade que se fortalece a incerteza; nela, na incerteza, o real confunde-se com o imaginário e tudo se torna indeciso. E em meio à confusão estimulada por notícias fragmentadas, que funcionam como verdadeiro bombardeio da mente coletiva, as pessoas tendem à inércia, ao conformismo, à aceitação ridícula da idéia de ir para as ruas, vestidas de branco, a pedir paz sem saber se pedem uma paz real, em oposição à "paz" da bandeira do "CV", ou se pedem a "guerra" que igualmente representa a "paz" do "CV". Afinal, e segundo a percepção baudrillardiana, qual seria o "código" a prevalecer na mente das pessoas? Como conquistar aquela paz da passeata, seja lá qual for?... Sem guerra? Com guerra?... Seria o branco um "contra-sentido"?... Ora, sim, pois almejam uma "paz" impossível, eis que não é real a possibilidade de se conquistar nenhuma paz sem reação eficiente e eficaz num ambiente dominado pela violência generalizada, que, porém, culmina insolitamente reduzida a dois desastrados policiais matando uma criança na telinha da tevê, nas rádios, nas revistas e nos jornais, enquanto os bandidos expõem em seus feudos, ante o silêncio de uma população apavorada, suas vítimas despedaçadas em tortura e incineradas em "microondas pneumáticas", em aviso concreto de que eles são os sujeitos da ação, e não o Estado, e todo o mais (objetos sinistramente fascinantes) é a tal "paz", que na realidade significa matança impune, é a tal "justiça", que na realidade significa injustiça, e é a tal "liberdade", que na realidade significa opressão ilimitada. Enfim, opostos entrando em colapso e confundindo valores. Ah, vou ficando por aqui a torcer para que a foto do muro destacada pelo coronel PM Mário Sérgio, com aquelas gentes faveladas olhando o nada, como se assim estivessem "contemplando num dia de greve sua tela de televisão vazia", continue estimulando esta discussão específica! Afinal, ainda há muita gente interessada em que a massa conclua que o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando (TC), o Comando Vermelho Jovem (CVJ), o Terceiro Comando Puro (TCP), o Primeiro Comando da Capital (PCC), os Amigos dos Amigos (ADA), dentre outras facções criminosas atuantes, simplesmente "não existem"...
O trabalho é sério, merece destaque e deveria ser divulgado por toda a mídia responsável (até porque ainda tem um grande diferencial: não tem relação com nada do tráfico): neste domingo, 24 de agosto, na quadra do Morro da Mineira, a partir das 18h, favela e asfalto se unem para dar uma chance à paz. Um grande evento cultural é o resultado de uma parceria bem-sucedida entre a associação de moradores local, a ONG Posse Reagir, a produtora de eventos especializada em cultura Urbana "REPProdutorA" e a Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos (via Superintendência de Políticas para a Juventude). Haverá oficinas de hip hop, shows de rap, mural coletivo de graffiti e arraial. Mas a grande e novíssima aposta da parceria é o Favela Moda Urban, projeto-piloto de promoção de novos talentos no tocante à modalidade Desfile de Modas. Entra em cena a beleza real de um Rio que vive longe do asfalto e do glamour das fashion weeks. Modelos amadoras de faixa etária de 15 a 22 anos vão desfilar, exercendo por alguns minutos o sonho de toda uma vida. Por duas semanas, as dez meninas selecionadas para desfilar tiveram aulas de qualificação em desfile sob consultoria da Tatayo Modas, empresa especializada em desfiles de moda para modelos de categoria iniciante. O evento promete - e tem a participação do Jovem Cerebral, vocalista da banda Stereo Maracanã e nas raríssimas horas vagas articulista aqui do BLOG DA SEGURANÇA. Boa sorte para todos eles.
Manuel Antônio de Almeida, escritor de Memórias de um sargento de milícias
Título de um clássico da literatura brasileira, único, os restos mortais do seu autor, Manuel Antônio de Almeida, devem estar se virando e revirando no túmulo, com seu espírito imortal a destilar ira contra o mau uso da palavra "MILÍCIA" nos dias de hoje. Sim, especialmente hoje (21/08/2008), quando o Jornal O GLOBO grafa a matéria assinada pela ilustre jornalista Isabel Braga informando que tramita célere no Congresso Nacional uma lei considerando crime a "formação de milícias". Enfim, surge no mundo jurídico-penal o "crime de milícias", o que torna o "miliciano" um criminoso.
Deste modo supérfluo, imediatista e neologismado, "milícia" torna-se conotativo de crime consagrado em lei penal. E "miliciano" recebe a conotação neologismada de facínora ou equivalente. Atropela-se assim a história pátria, o vernáculo e o verdadeiro significado do vocábulo e suas flexões lingüísticas, algumas até de cunho religioso, o que poderá incluir uma novidade: a Lei apressada e situada acima e além da Linguagem Oficial e da Fé. Pois é certo que há as "Milícias de Cristo" (Koogan Houaiss: "MILÍCIA DE CRISTO (ORDEM DA), ordem militar portuguesa criada em 1318, cujo objetivo principal era a luta contra o islamismo."), que se integram à história do catolicismo; há a "Milícia" (Koogan Houaiss: "MILÍCIA s.f. Desde a Idade Média até o séc. XVIII, o termo foi usado para designar tropa levada às comunas para reforçar o exército regular. / Força militar de um país. / Força pública estadual."), cujo significado dicionarizado poderia ser enriquecido pelo Aurelião, que diz a respeito de "Milícia" e "Miliciano": "Milícia [Do lat. militia.] Substantivo feminino. 1. Vida ou disciplina militar. 2. Força militar de um país. 3. Qualquer corporação sujeita a organização e disciplina militares. 4. Congregação ou agrupamento militante: milícia partidária; milícia católica. ~ V. milícias. [Cf. melícia.] A milícia celeste. 1. Rel. Os anjos; os bem-aventurados." E "Miliciano [De milícia + -ano1.] Adjetivo. 1. Relativo a milícia. ~ V. oficial -. Substantivo masculino. 2. Soldado de milícias.
Criminalizando o vocábulo neologismado ("milícia"), como ficará a história dele? Como ficará a história das pessoas que assim denominadas ("milicianos") produziram feitos heróicos no passado?... Ora, o vocábulo "milícia", demais de se integrar às ordens constitucionais antigas, é componente histórico-literário brasileiro e português. No projeto de Constituição do Império de 1823, o vocábulo milícia é largamente utilizado como FORÇA DO BEM destinada a promover a paz no território pátrio. Assim foram denominadas as forças intermediárias componentes das "forças armadas terrestres", tendo como outras partes o "exército de linha" e as "guardas policiaes": (sic) "Art. 228. A força armada terrestre é dividida em trez classes, exercito de linha, milicias, e guardas policiaes." (sic): "Art. 233. As milicias são destinadas á manter a segurança publica no interior das comarcas."
Ora, esse modismo "pós-moderno" midiático tem produzido teratogenias perigosas à história e aos valores que as instituições militares estaduais representam quanto aos seus fins sociais. Porque, antes de tudo, as milícias são instituições formais destinadas a proteger os cidadãos. Não podem e não devem, por capricho de quem vem deturpando a sua função social voltada para o bem, transformar as milícias em "FORÇAS DO MAL". Melhor que busquem outras designações, sob pena de todo miliciano que tem orgulho de o ser transformar-se por lei em proscrito.
Em princípio, é direito do policial-militar (com hífen, mesmo, pois os dois vocábulos que formam o composto são substantivos) autodenominar-se ou ser denominado miliciano. E jamais em sentido pejorativo!... Mas o vocábulo, atropelando a história da língua portuguesa e sua evolução, cede vez ao neologismo depreciativo à própria lei, à doutrina, à palavra escrita e à fé. Pois, a permanecer numa lei que "milícia" é crime, e que "miliciano" é criminoso, até os Anjos do Senhor da "Milícia Celeste" serão "criminosos". Ah, nos tempos das heresias e da estaca a queimar hereges, quem intentasse contra as religiões receberia esse castigo extremo!...
A questão se resume ao seguinte: será que falta imaginação à mídia e sensibilidade aos políticos a ponto de cometerem distração tão danosa às instituições afetadas pelo neologismo "pós-moderno"? Será que a designação "paramilitar" não é mais que suficiente para designar quaisquer bandos armados a dominar territórios comunitários? Não bastaria uma lei regulamentando o Inciso XLIV do Art. 5º da CRFB ("constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático;")?... E nesse caso, incluindo também severas punições para os "tribunais de exceção" e para a tortura praticada por esses grupos armados que têm na anomia as suas "leis", não importando quem sejam seus membros criminosos?
Ora, senhores!... Por que incomodar o espírito do nobilíssimo escritor Manuel Antônio de Almeida? Por que atropelar suas "Memórias de um Sargento de Milícias", única obra do autor lapidada como um valiosíssimo diamante, e deste modo avaliada no âmbito da Literatura Brasileira? Por que, também, provocar a ira divina e sua "Milícia Celeste" formada de ANJOS? Não seria mais prático e justo poupar o vocábulo "MILÍCIA" e deixá-lo no seu patamar de FORÇA DO BEM, em vez de torná-lo teratogênico, em desserviço da História da Língua Portuguesa, e diabólico, em desserviço dos Valores Cristãos?
O Instituto de Segurança Pública promove no dia 27 deste mês de agosto o Seminário de Apresentação dos 12 Manuais de Procedimentos das Polícias Civil e Militar do Estado do Rio de Janeiro. Serão mostradas no evento as publicações desenvolvidas em parceria com a União Européia e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH). Ali serão abordadas normas de direitos humanos e que integram a redação técnica dos manuais e contribuem para o desenvolvimento das atividades exercidas pelos policiais. Abaixo, os temas dos manuais que serão apresentados:
Abordagem e Revista a Pessoas Abordagem a Veículos e Edificações Gerenciamento de Crises Negociação de Conflitos Atendimento a Ocorrências Biossegurança Primeiros Socorros Preservação do Local do Crime Atendimento ao Turista Ação Policial e Meio Ambiente Atendimento à Mulher Vítima de Violência Ação Policial contra a Discriminação: Racial, Étnica, Religiosa, Origem ou Procedência Nacional Uso da Arma de Fogo
Estarão no seminário o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, o presidente do ISP coronel PM Mário Sérgio de Brito Duarte, o vice dele, tenente-coronel Robson Rodrigues da Silva, o comandante-geral da PM, coronel Gilson Pitta Lopes, o chefe da Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro; o chefe da Assistência Técnica Européia, Jean François Olivier, e a diretora nacional do Programa de Apoio Institucional ás Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário, Isabel Figueiredo.
7% de credibilidade da PM e 9% de credibilidade da Polícia Civil junto à população....30% de aumento de roubos a pedestres...8 % de aumento salarial para as polícias... .
Ou seja, muito percentual com um resultado final próximo de zero. Redução na criminalidade e na sensação de insegurança são os principais fatores que contam nesta conta.
As polícias não podem reclamar muito destes 7% e 9%, apesar de eu estar incluído neles, pois o que acontece no dia-a-dia da população é o seguinte:
Nas Delegacias Distritais quando um cidadão vai registrar um crime ou pedir providências o atendimento é altamente burocratizado ( se for uma "Delegacia Legal" então... passa por atendente do Nuseg,etc.,etc.) ou então sente-se, em uma imensa maioria dos casos uma certa má vontade no atendimento e na intenção de se resolver o caso. Motivo? Baixos salários, péssimas condições de trabalho e uma "cultura" arraigada há anos que faz com que isso aconteça.
Ligar para 190... ? Nossa...tem vezes que os atendentes nos fazem sentir como se estivéssemos vivendo uma situação surrealista qualquer. Comigo mesmo, ao relatar um assalto, um "arrastão" na verdade, que aconteceu minutos antes em pleno anoitecer no bairro do Castelo, no coração do Centro do Rio, o atendente do 190 me perguntou se eu havia anotado as placas dos carros roubados ( eram três assaltantes armados de pistolas 9mm e fuzis AK-47). Como eu disse que não, ele singelamente me disse que nada então podia ser feito... .E em outras vezes para interromper menores infratores na sua faina de arrombar carros incessantemente eu tinha que ligar umas três vezes e insistir com energia pela presença de uma viatura.
Coisas como estas, pelas quais passa toda a população , e outras como a que foi alvo da reportagem de O Globo onde motociclistas achacavam rotineiramente motoristas com impostos atrasados no Aterro do Flamengo, são os fatores que mais pesam no descrédito da PM junto aos cariocas.
Envolvimento em crimes como tráfico de drogas e assaltos são fatos pontuais e possíveis de acontecer em qualquer segmento profissional, e por isso melhor absorvidos pela sociedade, até que pela repercussão pública as medidas corretivas são tomadas imediatamente.
A rotina da pequena corrupção, que no México era denominada de "mordidas" é que contribuem decisivamente para a desmoralização e o descrédito da PM.
Uma pena porque há uma parcela considerável de policiais civis e de policiais militares que são verdadeiros heróis anônimos de nosso dia-a-dia. São homens que mesmo ganhando pouco, mesmo vivendo com dificuldades e não tendo tempo para a família em virtude dos "bicos" arriscam suas vidas na nossa defesa, na defesa da sociedade.
Por isso, como disse no início, faço parte destes 7% que acreditam de fato em suas polícias.
Muito pouco, quase nada.
Mais ou menos como o aumento dado às nossas polícias.
A Associação dos Delegados de Polícia, via seu presidente Wladimir Reale, enviou telegrama extenso ao secretário-chefe da Casa Civil, Régis Fichtner, pedindo a restauração da prisão especial Ponto Zero, em Campo Grande, desativada no início deste ano. O pedido foi feito na segunda-feira, antes do ex-deputado Álvaro Lins se entregar à Justiça e ser encaminhado para Bangu 8. Em um dos trechos do telegrama, a Adepol propõe também o uso de salas especiais em unidades da polícia para o abrigo de agentes em desvio de conduta. "(....) a fim de que esses policiais sejam recolhidos em Unidades compatíveis da Polícia Civil e Judiciária, notadamente os delegados que poderão ficar alojados em Niterói, em Órgãos em nível Departamental, equivalentes às salas de Estado-Maior, até que seja restaurada a Custódia de Campo Grande (Ponto Zero). Nada impediria, destarte, como acontece em São Paulo, que a Prisão Especial para os policiais fique subordinada à Corregedoria de Polícia". Em outro trecho, o delegado Reale usa como exemplo o secretário de Segurança Pública. "(...)se, por oportuno, que qualquer autoridade pública hoje pode ser presa e vítima de arbítrio, inclusive, a título exemplificativo, o atual Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame que não está imune à decretação de uma prisão provisória considerando, sobretudo, que já vem sendo "acusado inclusive, de matador" (ornal do Brasil 31.07.08, pág. A-10), portanto, atacando em tese, a sua política de segurança que vem sendo marcadamente empregada com elevado número de mortes, em razão de confronto com os agentes do estado. Essa política de segurança, de competência do Secretário de Segurança, na forma da Constituição Estadual, a qualquer momento poderá ser interpretada como violação de crimes contra a humanidade"
Segue a íntegra da mensagem, publicada no site da Adepol:
Secretário de Estado da Casa Civil:Cumprimentando-o respeitosamente, a Associação dos Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro, por seu Presidente e Advogado, com fulcro no art. 5º, incisos XVII, XXXIV, "a" da Constituição Federal c/c art. 4º, IV e 55, VIII dos Estatutos, tem a honra de reiterar a V. Exª. o pedido de adoção das devidas providências visando a imediata revogação do Decreto nº 41.149, de 25.01.08, editado provisoriamente tendo em conta a flagrante violação do princípio da legalidade previsto na Lei Federal nº 5.126, de 20.09.66 que deu nova redação ao inciso XI, do art. 295 do Código de Processo Penal.Como sabe V. Exª, com a banalização da decretação de prisões provisórias que já atingiu até o atual Governador do Estado do Maranhão, essas prisões vêm sendo reiteradamente consideradas abusivas e ilegais, na maioria dos casos, pelo Supremo Tribunal Federal. As autoridades policiais e seus agentes também vêm sendo presos, no cotidiano, em certos casos até durante a fase de simples denúncia do Ministério Público. Relembre-se que no STF em cada dez denúncias oferecidas pela Procuradoria-Geral da República, oito denúncias são rejeitadas.Assim sendo, o Decreto nº 41.149, data venia, deve ser revogado, pois as autoridades policiais e seus agentes estão sendo recolhidos, a título precário, em prisão comum de segurança máxima (Bangu - 8). Posso testemunhar em visita recentemente feita ao estabelecimento referido, que as condições são péssimas e degradantes. Ressalte-se, por oportuno, que qualquer autoridade pública hoje pode ser presa e vítima de arbítrio, inclusive, a título exemplificativo, o atual Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame que não está imune à decretação de uma prisão provisória considerando, sobretudo, que já vem sendo "acusado inclusive, de matador" (ornal do Brasil 31.07.08, pág. A-10), portanto, atacando em tese, a sua política de segurança que vem sendo marcadamente empregada com elevado número de mortes, em razão de confronto com os agentes do estado. Essa política de segurança, de competência do Secretário de Segurança, na forma da Constituição Estadual, a qualquer momento poderá ser interpretada como violação de crimes contra a humanidade. Diante do exposto, a ADEPOL/RJ pede mais uma vez a V. Excelência as imediatas providências, a fim de que esses policiais sejam recolhidos em Unidades compatíveis da Polícia Civil e Judiciária notadamente os Delegados que poderão ficar alojados em Niterói, em Órgãos em nível Departamental, equivalentes às salas de estado-maior, até que seja restaurada a Custódia de Campo Grande (Ponto Zero). Nada impediria, destarte, como acontece em São Paulo, que a Prisão Especial para os policiais fique subordinada à Corregedoria de Polícia. Cordialmente, Wladimir Sérgio Reale - Presidente - OAB/RJ nº 3.803. Destinatário: Excelentíssimo Senhor Secretário de Estado da Casa Civil Senador Regis Velasco Fichtner Pereira Palácio Guanabara - Rua Pinheiro Machado s/nº Laranjeiras, Rio de Janeiro RJ, Brasil 22231-901
O Diário Oficial desta quarta-feira, dia 20 de agosto, informou os novos coronéis da PM. Foram promovidos ao posto mais alto da carreira os seguintes oficiais:
- Mauro Sergio da Silva Reis - Carlos Eduardo Millan Guimarães - Mário Sérgio de Brito Duarte - Luis Antonio Corso da Costa - Paulo Cezar Vieira - Pedro Paulo da Silva - Marcos Daflon Correa - Carlos Augusto Rodrigues dos Santos
Com a promoção, a tendência é de que haja mudanças em comandos e diretorias. A conferir.
Reportagem publicada nesta quarta-feira (20/08) em O DIA mostra que a população está cada vez menos confiante na Polícia Militar. São 7,3% de credibilidade para a PM, e 9,7% para a Polícia Civil. A pesquisa foi conduzida pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), que é presidido por um policial militar, portanto, é insuspeita. Até agora, não se viram dados do ISP com qualquer indício de manipulação - pelo contrário: alguns resultados mês a mês até "jogam contra" a Secretaria de Segurança Pública, como aumento do roubo de transeuntes. A pesquisa, no entanto, foi realizada na gestão anterior, entre fevereiro e setembro do ano passado, com a visita a 75 mil residências e entrevistas a 4.553 pessoas. O secretário criticou basicamente a mídia pelos resultados, inclusive pelo demonstrativo de que o carioca tem mais medo de bala perdida do que de assaltos. Peço vênia para discordar desta análise. A credibilidade da PM tem a ver, sim, com a divulgação de notícias desfavoráveis à imagem da corporação. Ora, mas que fazer diante de fatos desabonadores? Censurar em prol de "boa imagem"? Experimente trocar a palavra PM por "governo", "Câmara", "Senado" ou "políticos". Divulgar os fatos relacionados ao senador Renan Calheiros é "condenável" por "manchar a imagem" do senado? Não creio. Seria aceitável poupar o senador em prol de uma "preservação da imagem do senado"? Também não creio. A relação entre a PM e a mídia segue esta mesma regra. Que há excessos, sem dúvida os há. Mas note-se que o alto oficialato é que muitas vezes contribui para que a imagem seja prejudicada. O afastamento, os portões fechados, a compartimentação excessiva da informação, definitivamente não ajudam a PM. A PM está mais nas ruas, mais exposta, do que a Polícia Civil. Quando há um delito, o cidadão comum procura (e muitas vezes não acha) um PM, não exatamente um policial civil. Por isto a corporação paga também em cada ausência. A população condena a instituição PM se não houver nenhum policial no local de crime - mas não há a mesma "cobrança" da populacional se este mesmo crime não é resolvido pela polícia investigativa. Outro ponto a favorecer a imagem da PCERJ é o fato de gerir bem suas ações pontuais, principalmente na atual gestão. Pode-se dizer que a PCERJ está para o governo do Estado como a PF já esteve para o governo federal - seus coletes e estrelas aparecendo em grandes operações e de grandes resultados. Já a PM, apesar de trabalhar muito, ganhar pouco e se expor constantemente a riscos, acaba explorando seu potencial de mídia - principalmente porque a grande maioria de inocentes mortos em operações tombou em ações da PM. De qualquer maneira, a pesquisa do ISP mostra que é preciso haver aproximação mútua entre polícias e sociedade. E o acordo tem de ser bilateral, começando da menor parte - o bairro. Quando moradores e policiais firmarem o pacto do bairro, do distrito, o restante será viável.
O Blog da Segurança já tem perfil e comunidade no Orkut, onde as discussões poderão acontecer em tempo real, sem moderação e com linguagem mais livre. As postagens anônimas estão permitidas na comunidade. Os excessos, ofensas e xingamentos, no entanto, continuarão sendo controlados e sujeitos a serem deletados (no Orkut, depois de postados). Este é o link direto para a comunidade do Blog da Segurança no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=66264457
O que parecia ser apenas um espasmo de indignação acabou se transformando em algo real e que pode tomar a agenda política da Segurança Pública este ano. A Assembléia Legislativa pode aprovar até o fim do mês o projeto do deputado Flávio Bolsonaro (PP), que cria a CPI da PM. Sim, isto mesmo que você leu. Na verdade, a comissão tem um nome-palavrão: Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar falhas no processo de ingresso, aprimoramento e promoção, bem como o emprego operacional do PM do Rio de Janeiro. O capítulo promoção promete muitas emoções, na verdade, já que até o fim da semana saem os novos coronéis da PM. O parlamentar nesta quarta-feira enviará ofício ao comandante-geral da corporação, coronel Gilson Pitta, pedindo informações sobre fichas de movimentação de oficial, conceitos e ficha judiciária referentes aos tenentes-coronéis que compõem a promoção deste ano. O improvável aconteceu: os deputados mostraram independência e 43 deles já assinaram o pedido. A quantidade de deputados é suficiente para propor mudanças até na Constituição Estadual. Na justificativa, o parlamentar cita uma série de problemas de estrutura e vícios históricos: condução do processo seletivo, promoção, reciclagem e emprego operacional do efetivo da Corporação. O texto fala ainda sobre os policiais que mataram o menino João Roberto. Leia abaixo. Os grifos são meus:
"Com base nestas informações, a CPI buscará dados sobre as atividades dos policiais militares e de que forma são controladas, para que seja possível apurar as possíveis deficiências de formação e do emprego operacional do efetivo. Durante o mês de julho de 2008, foram publicadas notícias, nos principais órgãos de comunicação, sobre ações desastrosas realizadas por policiais militares, que resultaram na morte de inocentes. Tal situação demonstra a realidade precária e caótica em que se encontra a segurança pública e, em especial, evidenciam as deficiências estruturais da Polícia Militar. Ações pirotécnicas resultaram em um grande número de vítimas fatais, tanto de policiais, quanto de civis inocentes. O quadro contribui para a construção de uma imagem negativa da PMERJ, instituição que, na verdade, trabalha com grande esforço e sacrifício. Em virtude da aplicação inadequada do efetivo, de problemas de formação, baixos salários e condições inadequadas de trabalho, a imagem que se tem é de total abandono, verificando-se, como conseqüência, um afastamento gigantesco entre a Polícia Militar e a sociedade fluminense. (...) o objetivo desta CPI é abrir as portas do Quartel General da PM e permitir que nele entrem os representantes da sociedade - na busca de soluções que poderão reverter a atual tendência de descrédito da instituição e aproximá-la, uma vez mais, do cidadão comum, que passou a ter preconceito contra o policial sem conhecê-lo de perto. Neste momento, toda a sociedade exterioriza sua desconfiança e repúdio contra os policiais que atiraram contra aquela mãe e seus dois filhos pequenos, como se em sua ação pudesse encerrar-se toda a cadeia de responsabilidade, de culpados, pelo desastre - para o qual contribuíram a omissão e os desmandos de sucessivos governos, que jamais trataram da segurança pública de forma séria e profissional."
A menos que as assinaturas de 43 deputados sejam apagadas, nada parece impedir o surgimento da CPI da PM.
****** E falando em Bolsonaro, nesta terça-feira ele se saiu com um discurso no plenário da Alerj em que revela um detalhe curioso dos critérios de premiação dos nossos policiais (o negrito é meu).
"O governo do Estado brinda os melhores colocados no curso de formação da seguinte forma: o primeiro colocado recebeu, das mãos do governador do Estado, o brilhante prêmio de uma TV CCE 21 polegadas; o segundo colocado, como recompensa por seu esforço, recebeu de brinde uma torradeira elétrica; e o terceiro colocado de um curso de formação de que participaram 433 soldados, recebeu um "kit infantil", do qual constava um trenzinho de plástico. Este é o tratamento que o governo estadual dá aos nossos policiais! O que esperar da nossa Polícia? "
A imagem abaixo é do Morro do Dendê, na Ilha do Governador, e foi feita pelo avião não-tripulável Carcará, desenvolvido pela empresa Santos Lab. O Carcará é um VANT, ou seja, Veículo Aéreo Não-Tripulável, e foi testado recentemente pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais. A Santos Lab é a única empresa a produzir o utilitário no Brasil e, como tal, se credenciou inclusive junto aos órgãos reguladores de contratos públicos com um certificado que permite ao contratante dispensar licitação. Testado e aprovado pelo Bope, só falta mesmo a Secretaria de Segurança receber um OK da área de finanças do Estado para finalmente comprar Carcarás e assim mudar todo o perfil de operações policiais no Rio de Janeiro. Além de poder fazer levantamentos detalhados de todas as favelas, o Carcará ainda pode acompanhar as incursões de cima. Não faz barulho e voa, se necessário, a mais de 1500 metros de altura. Capta imagens em tempo real e transmite idem para uma central que fica em terra - em caso de uma operação, nada mais eficiente do que a central ficar, por exemplo, dentro de um veículo blindado.
O Carcará é uma forma de "entrar" nas favelas sem atirar e sem levar tiros. Não há risco de vida para se obter uma imagem como a acima (clique em cima dela para acessar um tamanho maior na conta do Blog da Segurança no Flickr). Esta do Morro do Dendê ainda é, digamos, uma imagem feita "de longe". É possível fazer tomadas mais próximas e detalhadas. Mesmo assim, no lado direito da foto, pouco acima do campo de futebol, pode-se notar um elemento suspeito numa das vielas, por exemplo (ainda que seja realmente necessário aproximar a imagem para dirimir dúvidas). O método já foi usado em favelas anteriormente, mas no Haiti. Durante a Missão Jauru, comandada pelo coronel do Exército Cláudio Barroso Magno Filho, aviõezinhos como o Carcará tinham a missão de sobrevoar as vilas tomadas por gangues armadas, fazer imagens e ainda espalhar panfletos de propaganda. Este material procurava incentivar a população a denunciar os líderes das gangues e ao mesmo tempo aproximava os haitianos dos brasileiros que lá estavam em missão de paz - ma non troppo. A missão de Barroso Magno foi extremamente bem-sucedida, tanto que no ano passado, o coronel foi chamado pelo secretário de Governo, WIlson Carlos, para uma audiência com o governador. Mostrou todo seu plano de segurança no Haiti. Deixou excelente impressão. Digamos, tão boa quanto a deixada pelo Carcará em seu teste no Bope.
Às vezes ocorrem críticas ferrenhas ao nosso estilo de apontar as falhas estruturais e conjunturais relativas à PMERJ, em especial com as pessoas questionando o porquê de não termos melhorado nada enquanto estávamos no serviço ativo. Também observo algumas injustas acusações contra os jornalistas moderadores do BLOG DA SEGURANÇA, que censuram ofensas anônimas das quais eu mesmo tenho sido vítima. Não sou contra o anonimato nem processaria o jornal O DIA se permitisse que anônimos me ofendessem. Mas, como as ofensas são desferidas contra pessoas identificadas (os articulistas), nada impede que um deles acabe processando o jornal. Daí a moderação, que é precondição para o blog da segurança funcionar sem prejudicar o debate sério e atingir seu objetivo de atender ao interesse público. O BLOG DA SEGURANÇA consigna o registro histórico de uma época. O emaranhado de debates, as convergências e divergências, as denúncias e os temas contraditórios servirão ao futuro. Esse é o principal papel de quem escreve: gravar para o futuro os erros e acertos do presente ou do passado, para que, num processo de estudo, isto possa contribuir para mudanças visando ao bem-estar da sociedade. Claro que, quem focaliza a sujeira do sistema sofre mais. Permita-me o leitor lembrar alguns autores que foram magistrais nessa visão prospectiva. Eis o que diz Nicolai Vassílievitch Gógol, - um dos imortais da literatura universal, - no seu clássico Almas Mortas:
"Feliz o escritor que, passando ao largo das personagens enfadonhas, repugnantes, que nos expelem com o seu triste realismo, aproxima-se das personagens que mostram a elevada dignidade humana (...). Todos o aplaudem e seguem em cortejo o seu carro de triunfo (...). Ninguém o iguala em seu poder - ele é um Deus! Mas diversa é a sorte, outro é o destino do escritor que se atreveu a descortinar tudo aquilo que está diuturnamente diante dos olhos, e o que não enxergam os olhos indiferentes - todo o terrível, espantoso limo de mesquinharia que enlameia a nossa vida, toda a profunda e assustadora frieza dos caracteres fragmentados e vulgares que pululam no nosso tantas vezes amargo e tedioso caminho terrestre (...). Não são para ele os aplausos populares, não lhe será dado ver as lágrimas de reconhecimento e o entusiasmo unânime das almas por ele comovidas (...); reservar-lhe-ão um recanto desprezível no rol dos escritores culpados de ofender a humanidade, atribuir-lhe-ão os vícios dos heróis por ele pintados (...)."
Para que não duvidem de que não tratamos de cultura recente nem exclusiva, retorno a Gógol, cujo pensamento prospectivo alcança o pós-moderno ("caracteres fragmentados e vulgares"), e sublinho um interessante trecho do seu supracitado romance em que se refere ao "soldado de polícia":
"(...) um soldado de polícia qualquer, postado lá longe junto da porta, bem na saída, que jamais sorrira em toda a sua vida, e que ainda um momento antes ameaçara o povo com o punho fechado, até ele, obedecendo à lei do reflexo, deixa transparecer em seu semblante uma espécie de sorriso, embora esse sorriso se pareça mais com o que acontece com quem se prepara para espirrar depois de uma forte pitada de rapé."
Isto lá pela metade do século XIX, na Rússia Imperial, época em que o autor instituiu o forte realismo de sua arte literária caracterizando personagens sem expressividade social, o que aqui entendemos por ralé e seus infindáveis sinônimos: arraia-miúda, choldra, escória, gentalha, gentaça, gentinha, patuléia, plebe, populacho, povaréu, vulgacho, zé-povinho etc. E, sem dúvida, o soldado de polícia já se poderia emoldurar, por conta desta inferior condição, como um Ackênti Popríshin Ivânovitch, personagem construído pelo mesmo escritor (Diário de um louco), ou como um mujique (campônio russo) piorado... Nesta mesma linha de preocupação em denunciar o errado, há um texto lapidar do mestre Érico Veríssimo. Em suas memórias (Solo de Clarineta) ele disse:
"Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."
O registro histórico de opiniões é fundamental ao conhecimento da evolução humana. Hoje, porém, com o advento do pós-modernismo e de suas narrativas fragmentadas abarrotando nossas mentes na proporção direta da velocidade das comunicações, tendemos ao discurso sem base nem conceito. Tendemos ao imediatismo e ao modismo de concordar com os "famosos". Tendemos a viver no continente das coisas, olvidando o conteúdo. Somos o resultado do marketing que nos faz consumir superfluidades. Somos meros consumidores de porcarias e não enxergamos a realidade cruel que nos está a sufocar diariamente. No início do mês, um jornal carioca destacava em manchete o seguinte título: "Rios viram principal rota do tráfico de drogas no Brasil". Ocorre que o assunto é mais velho do que Jó... No ano 2000, em romance de minha autoria denominado Operação Arabesco, ponho na ficção o resultado (pasmem!) de pesquisas baseadas em jornalismo investigativo que denunciam em detalhes essa prática pelo tráfico, referindo-se aos rios Solimões, Javari, Japurá, Içá, Caquetá e Putomayo (denominação última do rio Içá em território colombiano).
Na época, os dados foram oferecidos pelo serviço de inteligência da Aeronáutica, segundo as notícias catalogadas, que incluíam a denúncia de que índios da Amazônia vinham participando das atividades criminosas juntamente com traficantes e guerrilheiros colombianos. O texto desse livro está no meu site (http://www.emirlarangeira.com.br). É só conferir, sendo certo que eu recortei e analisei matérias de jornais e revistas durante um ano e meio para aproveitá-las numa ficção compromissada com a realidade, o que os franceses designam como literatura "à clef" ("à chave"): "Diz-se da obra literária em que se podem identificar situações e personagens tiradas da realidade. Romance à clef." (Koogan Larousse).
Ponho o fato como prova de que o debate travado no blog da segurança permite-nos rememorar fatos e fenômenos em espaço democrático, assim como nos leva a questionar determinadas situações que, de tão fragmentadas, se perdem no tempo e no espaço até mesmo dos organismos geradores das notícias, no caso a própria mídia nacional. Isto é ruim porque dificulta a visão dos problemas como um processo em que há variáveis antecedentes, causais, intervenientes e conseqüentes em relações permanentes e dinâmicas, de modo a permitir correções de rumo e evitar a entropia do sistema que é o cerne da nossa discussão: a Segurança Pública.
O conceito de um blog é basicamente uma fonte noticiosa que pode (e deve) ser corrigida, melhorada e acrescida de informações por seus leitores. Com o Blog da Segurança não poderia jamais ser diferente. Por isto, abro espaço para as correções de um comentarista do post anterior que parece ter muito mais (e melhores) informações do que eu tive sobre o episódio do habeas-corpus no CFAP. Peço desculpas portanto pela imperfeição das informações. Segue o esclarecimento:
Um esclarecimento Esse policial é do CFS que estou cursando e a história é quase essa divulgada. Quem viu o policial de cabeça baixa foi um aspirante, e não o prendeu a disposição, apenas mandou extrair um DRD para ele, o qual eu ajudei a responder. Porém, a autoridade competente para julgar o caso entendeu que o DRD não foi justificado a contento, e aplicou a punição de 10 dias de detenção. Então redigi um HC, com fundamento na prescrição da pretensão punitiva, descrita no art. 11, § 4º do RDPM, e aleguei também o desrespeito ao Princípio da Publicidade do ato administrativo, uma vez que não foi publicado no Boletim interno da Unidade a data de início e término do cumprimento do corretivo. Com esses fundamentos, procurei a Dra. Cláudia Taranto, Defensora Pública da AJMERJ, que entendeu que os argumentos estavam bem fundamentados, encaminhando o HC à Promotoria, que na Figura da Ilma. Promotora Isabella Pena Luca, ratificou o entendimento a respeito do assunto, dando parecer favorável a concessão do Alvará de Soltura e após a análise do caso pela Magistrada em exercício naquela Auditoria, esta concedeu a ordem para soltar o policial. Porém, a Autoridade responsável não está respondendo pelo Crime de abuso de Autoridade, pois não foi denunciado pelo MP. O despacho da Ilustre Magistrada foi o seguinte: "...desde a publicação do indeferimento da reconsideração de ato formulada pelo paciente, até o início do corretivo, em 30/05/2008, não houve qualquer publicação sobre este fato, estando evidente a ilegalidade, sanável via habeas corpus, não cumprindo a autoridade apontada como coatora os prazos para prática do ato administrativo". Rafael (sieiro9@hotmail.com)
Fica, portanto, meu agradecimento ao Rafael pelo excelente esclarecimento. E diga-se: apesar de alguns problemas ocorridos durante o Curso de Formação de Sargentos, já me informaram que o comando que mais investiu em infra-estrutura - como melhoria do rancho, aquisição de ar-condicionado, preocupação com instruções - foi o do coronel PM Ivan de Oliveira Muniz.
Sala de aula no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, em Sulacap. Um aluno está em tempo vago - não havia aula para seu pelotão. Com a cabeça baixa, ele descansa, mas sem dormir. Um oficial superior entra na sala e o vê de cabeça baixa - imediatamente determina que o aluno seja preso à disposição. Resultado: dez dias de detenção por estar de cabeça baixa na sala de aula. Vem a reviravolta: outros alunos e policiais, cursando universidade de Direito, se reúnem e discutem o que fazer. Montam então um pedido de habeas-corpus e remetem para o juiz da Auditoria da Justiça Militar do Rio. Segundo o pedido de HC, a prisão do aluno tem vários vícios, um deles o de não ter dado direito de ampla defesa e não haver publicado em Boletim Ostensivo (aquele que não é mais ostensivo). O juiz da AJMERJ defere o pedido de HC e manda soltar o policial. O oficial que puniu é convocado para depor por abuso de autoridade. A história é verdadeira e, pelo jeito, vai ser tema mesmo é de boletim reservado.
A Associação Juízes para a Democracia abre as portas para debater a Justiça. Será uma chance de se discutir, com pluralidade de opiniões e ideologias, formas de melhorar nosso Poder Judiciário e de que maneira fazer com que sua atuação se reflita na cidade-Estado-País. O seminário "A JUSTIÇA QUE NÓS QUEREMOS" será nesta sexta-feira, 15 de agosto de 2008, na Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro - EMERJ. Vários setores da sociedade civil falarão sobre a Justiça que gostariam de ter. O evento é aberto ao público e os juizes serão apenas ouvintes. As inscrições podem ser feitas pelo site http://www.emerj.rj.gov.br.
Por Pedro Paulo Lourival Carriello, defensor público
De acordo com a notícia veiculado pelo companheiro de blog e jornalista de O DIA Gustavo de Almeida, nessa quarta feira foi debatido na CCJ do Senado Federal o projeto de autoria do Senado Cristovan Buarque (PDT - DF) tratando de forma mais rígida e, ao nosso juízo, equivocada os delitos de trânsito, "pegas, direção com embriaguez.... De forma objetiva, o senador coloca na lei que o delito será doloso - ou seja, que o motorista terá sempre a intenção e a vontade de agir ferindo ou matando. Melhor dizendo, o condutor pega o veículo como uma arma fosse, da mesma forma que usa uma pistola ou mesmo transpassasse o automóvel no transeunte como faz como uma faca numa briga, acertando a região abdominal. Há na verdade uma equiparação de condutas no projeto de lei do nosso educador-senador, por mais diferentes que sejam as ações e os propósitos. Com toda excelência que merece nosso senador, não é na lei que se apura a intenção de uma pessoa no cometimento do crime - evidente que não, a não ser por mera presunção de culpa. O código já resolve quando afirma da existência dos crimes dolosos e culposos, cabendo o aplicador adequar as situações concretas. Colocar de imediato que todo motorista bêbado ou participante de "pegas" está com dolo homicida, com intenção de matar, é por demais caro à atual lógica penal e processual moderna. A presunção de culpa salta aos olhos. Vejo que toda esta circunstância acaba por ressuscitar a anacrônica responsabilidade penal objetiva - punição sem culpa na área penal. Não dá!!! Somente podemos culpar alguém a título doloso quando se tem a vontade de agir contra determinado bem (vida ou patrimônio) que a norma protege. A dor da perda de um ente é imensurável aos amigos e parentes, tanto em um acidente de trânsito sem culpa (atropelamento) ou num homicídio por tiro por razões políticas ou amorosas. Porém, para quem prática aquela ou essa conduta, há de ter um diferente tratamento! A sanção deve ser proporcional ao resultado, porém à vontade do agente, o elemento psíquico do homem na sua ação externada é essencial para separar o joio do trigo. Não se pode punir da mesma forma quem quer matar e mata; e quem não quer matar, porém por acidente, mata! O resultado é idêntico, a intenção é diametralmente diversa. Por mais que haja a evolução tecnológica dos veículos (alta velocidade e novos modelos de carros familiares); por mais que se tenha vendido tanto carro no Brasil nos últimos tempos, gerando maior fluxo; e, por outro lado, não ocorrendo políticas públicas de transporte coletivo e alternativo ao terrestre, as péssimas condições das vias e rodovias, não se pode imaginar que a diminuição das infrações ocorrerá em razão de mais uma lei. A produção legislativa neste nível é corrosiva aos padrões democráticos. Se por absurdo o projeto foi convertido em lei (o que não acredito), não reclamem depois do Supremo Tribunal Federal no julgamento de sua inconstitucionalidade, colocando ao lado uma matéria sobre acidente com mortes. Duas coisas, com certeza, não diminuem a criminalidade: algema e lei dura. Tô começando a achar que matéria sensacionalista também não!
Sites norte-americanos de discussão política se dividem no momento entre críticas e elogios ao governo Lula, por ter autorizado a venda - oficializada desde o dia 22 de julho passado - de seis aviões SuperTucano da privatizada (desde 1994) Embraer à companhia de segurança privada Blackwater USA, do multimilionário Erik Prince. No fim do ano passado, Prince foi aos tribunais americanos - nunca como acusado - responder pelo massacre de 17 civis inocentes iraquianos em Bagdá, entre estes idosos, mulheres e crianças. A chacina abalou o mundo inteiro, e até hoje a Blackwater sustenta que estava se defendendo de um ataque terrorista que utilizava um carro-bomba. Até hoje não se tem notícias ou testemunhos de terroristas no episódio. A história terrível do massacre, da carnificina, está descrita no livro Blackwater - A ascensão do Exército mercenário mais poderoso do mundo, um monumental trabalho jornalístico de 538 páginas do nova-iorquino Jeremy Scahill. O autor, um jornalista de televisão, entrevistou parentes e sobreviventes do ataque da Blackwater. Nos sites, os internautas criticam Lula pela autorização para que a Embraer vendesse os aviões. No site Democratic Underground (http://www.democraticunderground.com/), de orientação visivelmente democrata, se ataca Lula e ainda é anunciado o preço do SuperTucano: 9 milhões de dólares. "O governo americano deveria permitir que eu comprasse armas pesadas para me defender, no caso de eu ser atacado por um SuperTucano pilotado por um mercenário", critica um internauta. Já no blog Blackwater Facts, Lula é tratado como um benfeitor. É curioso que um blog que enaltece um dos ícones da gestão George W. Bush elogie o esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva. E, reparem: no blog pró-mercenários, o preço do avião é exatamente a metade, 4,5 milhões de dólares. Quem será que está certo? Para quem ainda não conhece, a Blackwater é uma empresa que protege diplomatas e americanos em serviço no Iraque desde 2001, quando os ataques da Al-Qaeda deram lastro político para Donald Rumsfeld e Dick Cheney levarem para a política externa americana os conceitos de força privada que desenvolveram em estudos de seu grupo PNAC (Project for a New American Century), uma organização ultraconservadora e protecionista americana com planos expansionistas nítidos. "Quando você quer que uma encomenda chegue rápido, o que você faz? Coloca nos correios ou manda via FeDex?", questiona Erik Prince, para justificar a presença da Blackwater, organização que reúne basicamente ex-policiais, ex-militares de Forças Especiais, e todo tipo de profissional de segurança que o Estado basicamente não soube manter. Hoje, das forças americanas no Iraque, os "contratados", ou seja, gente da Blackwater, ganham mais, muito mais do que os soldados da Nação. Sem contar que estão em maior número. Ainda hoje há dificuldades em imputar responsabilidades jurídicas à Blackwater. Em 2004, um diplomata americano ainda publicou uma medida provisória anexa ao pacto de governo provisório, mediante a qual funcionários de empresas privadas não podem ser julgados e condenados pelo governo do Iraque. No Rio, há pouco mais de um ano, o prefeito da cidade enviava e-mails (ex-Blog) discorrendo, tal e qual Erik Prince, sobre as "vantagens" da milícia nas favelas, como forma de "atalho" jurídico, uma reação do homem de estado à ausência de Estado. E no governo estadual, se argumentava com a "dificuldade" de combater as milícias, uma vez que os policiais estariam apenas em "desvio de conduta" se estivessem andando armados em uma favela, e, portanto, estariam inimputáveis do ponto de vista jurídico. A Blackwater e as milícias são atalhos utilizados por um Estado preguiçoso: não querem se responsabilizar pelo homem, pelo cidadão, não querem responsabilidade jurídica pelos atos de seus agentes, não querem pagar o salário que os agentes policiais merecem, não querem pagar processos. Contratam a Blackwater. Rumsfeld e Cheney, se perguntados, talvez apoiassem as milícias cariocas. Lula, pelo menos, demonstrou que apóia a Blackwater, ao permitir a venda do SuperTucano. As famílias de civis iraquianos assassinadas futuramente pela Blackwater podem agradecer ao nosso presidente.
A surpreendente cassação, por um voto, do deputado estadual Álvaro Lins (PMDB), já provoca intensa movimentação nos bastidores da área de Segurança Pública, principalmente entre investigadores federais. Um importante agente desta área de inteligência me garante que a PF deve deflagrar, nos próximos dias, uma megaoperação contra o esquema de transporte, venda e revenda de combustível adulterado. Se há alguma ligação direta entre o hoje ex-deputado e o grupo que explora combustíveis, não tenho como dizer. Mas de alguma maneira a PF se sente, neste momento, mais confortável para sair à caça.
Por Mário Sérgio de Brito Duarte, tenente-coronel da PM, Caveira 37 do Bope Foto de Paulo Araujo/O DIA
Vi a expressão ser usada pela primeira vez em 1990, num artigo do Coronel da polícia boliviana Edgar Prudêncio Medrano. O professor Oscar Vieira da Silva, da Polícia Militar de Minas Gerais, havia traduzido, para o português, o trabalho do oficial intitulado "El Narcoterrorismo". A tradução e notas explicativas haviam sido publicadas na revista O Alferes, da PM mineira.
Eu servia na CIOE, Companhia Independente de Operações Especiais, que mais tarde iria se transformar no BOPE. Já naquela época tínhamos uma "secreta intuição" de que algo muito grave iria acontecer à Segurança Pública do Rio de Janeiro. Os fuzis de assalto estavam chegando em quantidades razoáveis e, naquele início de década, algumas dezenas de armas já estavam nas mãos de traficantes de drogas que ensaiavam reação quando os agentes da lei buscavam desarmar-lhes, consoante a destinação constitucional que cabe ao Estado de detenção do monopólio das armas para uso legal e legítimo.
O texto, que não saberia dizê-lo um trabalho acadêmico ou técnico-profissional, alertava-nos para o risco da expansão da traficância internacional de drogas num formato diferenciado, para além da vontade de lucro e com um ingrediente explosivo de concepção ideológica: a participação subterrânea e operacional de grupos terroristas e guerrilheiros em ação na América do Sul, como as FARCs, o M19 e o Sendero Luminoso. Estes, segundo o coronel, estavam dando proteção aos narcotraficantes com cobrança de vultosas taxas sobre o lucro da produção.
É verdade que não temos isso no Brasil. Não temos, e espero que não tenhamos a ação terrorista-política com objetivos revolucionários ou insurrecionais. É verdade, também, que os narcotraficantes brasileiros não estão aparelhados política e ideologicamente e suas armas não estão a serviço de "exércitos populares". Todavia, temos aqui uma espécie de narcoterrorismo, posto que, para manutenção e divulgação de sua "ideologia de facção", os traficantes de drogas se utilizam fartamente de táticas de intimidação e terror. Se não pretendem uma "sociedade mais justa e igualitária", como afiançaram ser possível os festejados ideólogos das lutas de classes por processos fratricidas, pretendem, todavia, exibir seu poder de organização e força das armas para promoção da insegurança e do medo, e, para isso, queimam pessoas vivas, atacam e assassinam policiais em serviço e mutilam "inimigos", para, com seus pedaços, alimentar animais famintos em rituais horrendos de iniciação dos mais jovens.
Já se foi o tempo que o problema maior era o comércio da droga "viciadora". Já se foi o tempo que o maior problema estava nas armas de guerra. O risco de hoje é maior. O risco, a ameaça dos nossos dias é mil vezes pior, porque não necessita de objeto material para promoção de submissão e naturalização da loucura. O risco dos nossos dias é um ente metafísico, plasmado na idéia, diluído em pichações de muros e paredes das casas nos bairros, cantado nos "proibidões", exibido nas iniciais formadas com os dedos das mãos, exigida sua manifestação de adesão em comunidades, estabelecimentos penitenciários e cadeias.
O risco de nossos dias é baudrillardiano, pois está no valor de signo o cerne de sua existência.
A criminalidade, os delitos, a ordem, tudo isso cabe fundamentalmente ao sistema de segurança pública estatal manter sob controle, com os recursos de prevenção e repressão qualificada dos seus órgãos de polícia, como tem ocorrido de forma incansável por abnegados e intimoratos agentes da lei.
Identificar, prevenir e desconstruir a ideologia do medo e da servidão, cabe a todos nós, interessados no bem-comum.
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A polêmica do aumento exorbitante nas gratificações dos coronéis começou muito antes da queda do coronel Ubiratan Ângelo do posto de comandante-geral da PM. Já havia a intenção do governo de alinhar comandante-geral com o cargo de subsecretário, chefe do Estado-Maior da PM com o cargo de subsecretário-adjunto e todos os outros cargos (chefe de CPA, diretor, chefe de UoPE) com o cargo de diretor-geral. Em setembro, houve uma reunião de coronéis com o então comandante-geral, para avaliar o problema. Ubiratan teria dito nesta reunião que o projeto de aumentar as gratificações só teria sentido se de alguma maneira a tropa também fosse beneficiada com algum aumento. Houve discussões, e a conclusão foi a de que todos iriam pensar que os coronéis estavam se aproveitando, caso o aumento fosse aprovado. Ubiratan saiu da reunião decidido a protelar o aumento. O processo foi iniciado, mas o então comandante-geral foi, lentamente, esvaziando. Tanto é que a data de conclusão é a de 3 de março. Na reunião havia pelo menos três coronéis que hoje ocupam postos-chave na gestão da PM. Em resumo, ninguém pode dizer que foi surpreendido com a gratificação. Quanto à comparação recente com o salário da Marinha, é irônico o destino. "Quer ganhar bem, vai para a Marinha", disse um dos oficiais. Hoje, um coronel PM que esteja no cargo de diretoria ganha mais que o Almirante Quatro Estrelas, posto mais "antigo" de todas as Forças Armadas.
A Comissão de Constituição de Justiça do Senado analisará nesta quarta-feira, dia 13 de agosto, três projetos de extrema importância para a área de Segurança Pública, não só no Rio de Janeiro, como em todo o Brasil - ainda que na nossa cidade tudo pareça mais sensível. Na reunião que começa às 10h. a discussão começará cm o projeto 613/07, do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que arrocha o rigor contra os motoristas que se envolvem em acidentes de trânsito com morte. Pela nova lei, motoristas bêbados ou participantes de "pegas" podem ser condenados de quatro a 12 anos. Atualmente, a pena é de um a três anos de cadeia. O aperto proposto por Buarque determina ainda que mortes ou lesões corporais graves deixam de ser "culposas" e passarão a ser julgadas como crimes dolosos, ou seja, com a intenção de matar. Um acréscimo é que, nestes casos específicos, o juiz passará a ser comunicado imediatamente sobre o sinistro para que casse em caráter cautelar a carteira de habilitação do envolvido. Outro tema polêmico a ser examinado no Senado Federal é o projeto 186/06, do senador Geovani Borges (PMDB-AP). A nova lei simplesmente acaba com a exigência do Exame da Ordem, prova que todos os recém-formados em Direito a fim de receberem autorização para o exercício da profissão. Se por um lado é razoável o pleito, uma vez que quem faz um curso quer exercer a profissão, por outro é interessante a idéia de ujma prova para que o profissional se supere e possa prestar um melhor serviço à sociedade. A mesma comissão discutirá também o substitutivo do senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, que regulamenta o uso de algemas em todo o país. Para muitos especialistas na área de Segurança Pública, a discussão é um erro brutal. Curiosamente, quando o Supremo Tribunal Federal, semana passada, restringiu o uso das algemas, um PM do Rio foi morto exatamente porque o detido estava com as mãos livres. São três assuntos que devem tomar o noticiário na quarta-feira.
Uma obra definitiva e única está prestes a sair do prelo e promete mudar todo o pensamento sobre sistema carcerário-penal no Brasil. Trata-se de Enjaulado - O amargo relato de um condenado pelo sistema penal, livro do advogado criminalista e escritor Pedro Paulo Negrini, obra que ousa, sem maniqueísmos ou ranços ideológicos, descrever o sistema carcerário paulista e demonstrar como as organizações criminosas dependem, efetivamente, de presídios em decomposição. Enjaulado é a história verídica de Rogério, descendente de italianos que assume a culpa por um crime que não cometeu - tudo para salvar a pele de outro amigo, que ficaria em situação mais grave. A defesa de Rogério, no entanto, não consegue evitar que ele passe seis anos dentro dos presídios mais perigosos e abandonados de São Paulo - já começando, de cara, pelo de Taubaté, berço da organização criminosa Primeiro Comando da Capital. Lá, Rogério, um sujeito que jamais havia pensado em praticar um crime sequer, divide a mesma cela que o Sombra, um dos chefes do PCC. Enjaulado é uma obra que não fala sobre o erro da Justiça em prender Rogério nem o trata como coitado por ser inocente. Nada disso. Enjaulado fala apenas sobre o cotidiano, sobre a forma com que Rogério mergulha nas trevas infinitas de um sistema carcerário sempre em ebulição. Na tragicomédia de erros do presídio, Rogério leva até mordida de porco. Enjaulado não desmerece obras anteriores, como Estação Carandiru, de Drauzio Varella, ou o ótimo Cobras e Lagartos, do jornalista Josmar Jozino. Todas têm grandes méritos. No entanto, Enjaulado se distingue porque leva o olhar do homem comum, não especializado, não iniciado, ao poço profundo em que a única luz (?) parece vir do crime. É uma crítica corrosiva ao sistema e sua capacidade de formar marginais e criminosos. Rogério, por sorte, sobreviveu e vive honestamente. Mas ler Enjaulado mostra que isto, infelizmente, é apenas sorte.
(Advertência do Blog da Segurança: o texto abaixo contém "spoilers", ou seja, descreve fatos de um filme que são decisivos para seu desfecho. Se você pretender ver "Era uma vez" e faz questão de se surpreender com o filme, não leia este texto)
O playboy Breno Silveira produziu um dos filmes mais preconceituosos e reacionários da história do cinema brasileira. É uma profusão de clichês que não poupa o espectador da primeira à última seqüência. Como todas as obras estigmatizantes, Era uma vez baseia-se num total desconhecimento daquilo que o jornalista Zuenir Ventura batizou de Cidade Partida, livro equivocadamente citado ao longo da história. Mesmo com o tom de fábula sugerido pelo título, somente um idiota que jamais pisou no Cantagalo, com um imaginário totalmente contaminado pelas produções mais idiotas de Hollywood, vai acreditar que um bandido seria capaz de matar um morador só porque levou um drible no futebol ou cobrar pedágio de um trabalhador voltando de sua correria no asfalto. Se os frentes não matarem os menores que não respeitam a comunidade, choverão denúncias no batalhão mais próximo. É assim que funciona o morro.
Era Uma Vez: uma série de inverossimilhanças
Também revela uma ignorância cavalar o modo como o filme apresenta a relação entre morráqueos e patricinhas no trecho da praia que vai da Farme de Amoedo à Teixeira de Melo, onde o Cantagalo e Ipanema dialogam tanto por intermédio das barracas de coco quanto das quadras de areia perto das quais funcionam as esticas de uma das bocas mais poderosas da cidade. Essa proximidade faz com que ambos os lados, ao contrário do que acontece na relação entre o Romeu e a Julieta da história, assimilem os respectivos códigos. Isso é ainda mais verdadeiro quando o casal que protagoniza a história é cercado por um surfista que fuma maconha e por uma patricinha que, além de se drogar, é capaz de transar com o dono do morro. Também soam falsos o figurino de Dé e o seu vocabulário respeitoso, no qual só escapam algumas gírias quando está diante do irmão. Também dói no coração o extemporâneo desfecho da história, resolvido por aquilo que os gregos chamariam de deus ex-machine. A única coisa convincente do filme - o amor entre os dois irmãos -é destruída no momento em que Carlão seqüestra a cunhada que acabara de homenagear por causa de uma seqüência de dívidas que um chefe de um morro como o Gallo jamais acumularia. A propósito, a extorsão da polícia, que obrigou Carlão a seqüestrar a princesa Nina, consegue ser ainda mais inverossímil do que a quebra do mais sagrado código de honra do tráfico carioca, que é o respeito à família. Além disso, não existe a menor possibilidade de traficantes armados, mesmo sendo aliados, entrarem no morro sem que nenhum fogueteiro estoure um morteiro. O seqüestro, além de desconsiderar os códigos de honra que regulam as relações entre bandidos e comunidade, é de um amadorismo só comparável ao dos roteiristas que assinaram a história de Era uma vez. Não se pode negar que uma câmera nervosa dá emoção à trágica morte de Dé e Nina, mas me faltam adjetivos para qualificar a falta de imaginação de quem decidiu manter a refém no morro dominado pelo principal suspeito do seqüestro. Menos sagazes do que o local do cativeiro só a solução encontrada pelo casal no momento em que deveriam se entregar e o tiro que a polícia dispara contra Nina, ignorando o pequeno detalhe de que ela mora na Avenida Vieira Souto e de que toda a imprensa está reunida em frente ao prédio em que ela morava com o pai. Vale registrar o detalhe de que a platéia estava quase cheia, mesmo sendo um domingo à noite. Também saí com a impressão de que o público gostou do filme e pretende recomendá-lo. Tem gosto pra tudo.
Por Emir Larangeira, escritor e coronel PM reformado
A radiopatrulha (RP), nos bons tempos carinhosamente denominada "patrulhinha" ou "joaninha", consta ainda como base de todo o policiamento ostensivo-preventivo da PMERJ. Roda somente no asfalto. É uma espécie de "esponja", a absorver razoável quantidade de efetivo. Em vista da apertadíssima escala de 12x24 e 12x48, o rodízio é feito assim: quem trabalha no primeiro período - diurno - descansa as 12 horas seguinte. Quem trabalha no segundo período - noturno - descansa as 24 horas seguintes. E assim sucessivamente, sendo certo que há o revezamento de modo a que todos, no final das contas, trabalhem o mesmo número de horas. Deste modo, são então disponibilizados quatro homens por dia para manter ininterruptamente nas ruas uma patrulhinha, invertendo-se a ordem da escala de tempos em tempos, o que permite concluir que uma só patrulhinha absorve oito homens. A RP é também "esponja" a absorver combustível, e, neste ponto, inicia-se a invencível contradição: se aumentarem a freqüência do policiamento (viaturas rodando dia e noite, só parando em pontos-base ou em quartéis para troca de equipe ou satisfação de necessidades fisiológicas dos patrulheiros, situações inevitáveis), o gasto de combustível aumentará sobremodo e a sobrevida da viatura diminuirá deveras.
Antiga "joaninha", fusca de patrulhamento, durante exposição ano passado no Batalhão de Polícia Florestal e do Meio Ambiente
Nem se considera aqui o fato de haver a exigência de duas viaturas para embarcar sem interrupção esses oito homens em vista de inelutável manutenção (o ideal). Mas o real é que há somente uma patrulhinha, e, em enguiçando, o setor de patrulhamento a ela referente fica desguarnecido e seus roteiros ficam vazios. Isto sem contar o inevitável atendimento assistencial (ocorrências não-criminosas) pelas patrulhinhas neste Rio de Janeiro campeão em miserabilidade. Também os patrulheiros adoecem, entram de férias, faltam ao serviço, são punidos etc. Sejamos práticos: para que a população em todo o RJ veja a patrulhinha sempre circulando (sensação de segurança) e os marginais permaneçam assustados ante a possibilidade de a patrulhinha surgir de súbito a atalhá-lo (inibição de oportunidade), cada setor de patrulhamento necessita de duas viaturas e oito homens se revezando em escala exaustiva. Mesmo assim, apertando o cinto em demasia e desgastando o homem ao extremo, trata-se de modelo oneroso! Agüentar tal escala só para PM solteiro e que, por sorte familiar, não necessite fazer bico, coisa raríssima. O setor de patrulhamento é o ambiente mínimo a ser policiado, o que é ou deveria ser feito em roteiros planejados e tão diversificados a ponto de impedir que os meliantes controlem as andanças do policiamento. Claro que, num setor muito extenso, os roteiros serão longos, o que dificultará sobremodo a freqüência do patrulhamento e o apoio rápido de uma viatura à outra. Neste caso, nem o cidadão se sente seguro nem o bandido se sente ameaçado. Enfim, para garantir uma freqüência que justifique o que denominamos "prevenção pela presença", missão precípua da PMERJ, a movimentação das radiopatrulhas deverá ser de tal monta que jamais mantenha os patrulheiros ilhados, isolados uns dos outros e alheios ao que ocorre a sua volta. Para tanto, haja viaturas e homens!... Sem falar no telefone 190, redirecionando as patrulhinhas ao atendimento assistencial ou à repressão de delito já ocorrido. No primeiro caso, a patrulhinha mofa no hospital e na DP para encerrar a ocorrência, dependendo do que seja; no segundo, a patrulhinha mofa na DP e o ambiente (setor/roteiros) fica vazio de polícia ostensiva. Cá pra nós, nas atuais circunstâncias é quase impossível atender a objetivo tão custoso, e até agora só destacamos um modelo de policiamento já estrangulado em escala imprópria. Se antes havia três turnos de oito horas, o que propiciava ao homem uma falsa sensação de conforto, alterar o formato para dois turnos de doze horas com o mesmo número de homens seria como trocar meia dúzia por seis ("Se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude." - Giuseppe Tomasi di Lampedusa - escritor italiano).
Acima, o escritor Tomasi di Lampedusa
A PMERJ atua ainda em muitas outras frentes e com efetivos maiores (ocupando viaturas do tipo pickup, fechada e guarnecida com quatro ou cinco homens (GAT, PATAMO, PAMESP), em escala de 24x48 horas ou policiando apenas durante o expediente de oito horas. É patrulhamento de menor freqüência e de tendência repressiva. Em tese, atua em apoio às patrulhinhas e em operações planejadas. Demais disso, há os grandes eventos a exigirem o emprego de efetivos volumosos (a pé e motorizado), sendo desnecessário sublinhá-los. Tudo isso absorve grandes efetivos e meios materiais, mas, como os homens e os meios não são replicáveis (quem dera!), sufocam-se ainda mais as escalas, eliminam-se as folgas e os dirigentes da corporação às vezes vão à loucura na hora de suprir os meios materiais. Pois as cobranças externas por mais policiamento não se ligam às limitações da corporação, que, por culpa de muitos anos de desgoverno, estão beirando a entropia. Aqui começam as medidas "miraculosas", as tais operações "visibilidade", invertendo e subvertendo a doutrina de atuação da PMERJ enquanto polícia de manutenção da ordem pública, que tem ou deveria ter na prevenção pela presença nas ruas e logradouros a sua missão precípua. Hoje há menos exemplos de "visibilidade" (viaturas postadas em locais de grande circulação de veículos e pessoas, de modo a serem maximamente vistas). Entenderam? Não?... Pois bem: antes, os transeuntes parados viam as viaturas circulando; hoje, as viaturas "vêem" os transeuntes circulando. Foi por aí que começou a "caça aos patos", pois os patrulheiros, obrigados a permanecer em locais desprovidos das condições mínimas de conforto, dependendo até de pedir um mísero copo de água aos destinatários de seus serviços e escapulindo a risco de punição para atender às suas necessidades fisiológicas, vão à exaustão, dormem nas viaturas e são trucidados por bandidos que sabem não haver outras patrulhinhas por perto. E o poderio bélico do tráfico aumenta à custa da morte estúpida de exaustos e adormecidos patrulheiros... Mudou-se, por carência de meios materiais e humanos, o sentido do verbo "patrulhar". Da idéia básica de "fazer ronda em patrulha" passou-se à prática de "guarnecer ou vigiar em patrulha" (estacionada em "visibilidade"), sendo certo que a melhor definição para a radiopatrulha seria "percorrer sistematicamente uma área". Enfim, como na música, as patrulhinhas deveriam estar "rondando a cidade". Mas não estão! Estão apenas "visíveis", de tal modo que cabe lembrar o aforismo do poeta e pintor inglês William Blake: "O tolo não vê a árvore que o sábio vê."
O poeta e pintor William Blake
Ora, como se pode depreender sem esforço, o problema da segurança pública não se resume ao reducionista discurso do "fuzil versus fuzil", como assistimos atualmente! A questão se encerra assustadoramente nos PMs versus Sistema Estatal que os destrói como profissionais e como gentes de carne e osso, chefes de família cada vez menos detentores dos direitos que configuram a real cidadania do brasileiro. Nem vou falar do lazer que eles jamais gozam com seus entes queridos, nem da reciclagem profissional que não praticam regularmente, o que implicaria afastá-los das ruas. Impossível! Com efeito, não é fácil manipular a matemática para clarear as dificuldades por que passa a PMERJ para cumprir a sua atividade-fim de polícia ostensivo-preventiva, que tem (ou deveria ter) na máxima freqüência das radiopatrulhas a base de todo o policiamento. Pra começo de conversa, é complicado saber qual é o efetivo lotado na atividade-meio, primeiro número a ser abatido do efetivo real; esse efetivo é muitíssimo variável. Depois, há as férias, as licenças médicas, as licenças-prêmio, as restrições psiquiátricas ao serviço externo, as guardas dos quartéis, as guardas externas dos presídios, as guardas palacianas, os desvios de efetivo para órgãos públicos federais, estaduais e municipais, as detenções disciplinares, as prisões judiciais, os cursos obrigatórios, enfim, uma gama de fatores a diminuir o contingente operacional, de tal modo que até nos assusta fazer conta. Na verdade, essa "caixa-preta" da PMERJ é tão misteriosa que sua abertura talvez seja pior do que abrir a "caixa de Pandora" a descortinar seus males inelutáveis, nela permanecendo apenas a "esperança"... E quiçá por isso os dirigentes, de todos os tempos, sem exceção, todos eles "esperançosos", anseiem por mais efetivos para vencer uma realidade tão obscena que seria capaz de ruborizar o demônio. Ah, que fazer? O modelo estrutural é esse, a conjuntura não favorece a mudança do modelo estrutural da PMERJ; as regras do jogo não mudam e a obscuridade, invariavelmente resistente, supera facilmente a necessária transparência. A saída então é seguir a "lógica" de Giuseppe Tomasi di Lampedusa...
Três mulheres e um homem de meia-idade podem fazer Segurança Pública? Podem. Cleyde Prado Maia, da ONG Gabriela Sou da Paz, Helen Keller, presidente da Instituição de Cegas, Lucinha Araujo, da Sociedade Viva Cazuza, e o tenente-coronel Ricardo Pacheco, comandante do 12ºBPM (Niterói) fizeram Segurança Pública ésta semana, arrecadando uma tonelada de alimentos a serem repartidos entre instituições de caridade. Na tarde desta sexta-feira, eles se encontraram mais uma vez´em Niterói, para que Lucinha Araujo recolhesse a parte que cabe a suas instituições, entre elas, diversas que abrigam crianças com AIDS. Entre as representantes das instituições, muitas pessoas que jamais haviam pisado em um batalhão de polícia. - Fizemos questão das pessoas irem apanhar sua doações lá, para ficar bem evidente a parceria com o Batalhão - diz Cleyde Prado Maia, que concorreu ao prêmio Tudo de Bom, oferecido por O DIA segunda-feira passada. Desde a perda da filha, Gabriela, em 2003, Cleyde tem feito de tudo para aproximar os cidadãos da polícia e vice-versa. Pode ser um de milhões de passos. Mas nada faz com que deixe de ser um passo para a frente. Parabéns ao batalhão niteroiense pelo apoio a elas.
O tema "Concurso 2005 da Polícia Civil" gerou grande polêmica e dezenas de comentários, além de alguns emails recebidos na redação, que reproduzo aqui. Os policiais ditos excedentes protestam contra o que chamam de "calúnia". Não houve. O que houve foi reprodução de uma sentença, do processo nº: 2008.001.198257-8. Naquela decisão, o juiz faz clara referência ao inspetor que teria manipulado dados (de acordo com investigação e escutas telefônicas da PF) para aprovar concursados fora do número inicial de vagas. O que fica claro é que a ilegalidade não teria sido praticada, com toda certeza, por nenhum dos concursados, e sim por um candidato a deputado estadual (tal fato ainda está sob apuração). Quando os excedentes se indignam - até justamente - com a referência "Concurso dos Excedentes", se esquecem de que esta é apenas o que já foi dito que é: uma referência. E para o bem de todos, é bom que seja lembrado assim. Quanto aos concursados que estiveram dentro do número de vagas normal e cursaram a ACADEPOL, creio que estes têm um direito inalienável. Têm direito às vagas. Esta é, sim, uma opinião - e o inciso IV do artigo 5º da CF garante o direito de dar opinião. Se algum candidato (um deles registrou notícia-crime por eu ter reproduzido a sentença judicial!) desconhece este artigo, creio que começou mal a carreira. Se a promessa de aproveitar candidatos que fizeram boas provas - mas por centésimos de pontos ficaram como excedentes - ainda não foi cumprida, é uma outra história. Cabe, no entanto, permitir que estes desabafem e registrem seus protestos e opiniões, mesmo que contrárias - como diria Voltaire.
Sr. Gustavo, venho por meio desta protestar contra de sua matéria no blog do O DIA! Me senti pessoalmente ofendido com a matéria do cancelamento da prova da Policia Civil, no qual o senhor diz ser a "prova dos excedentes"! Fique o senhor sabendo que se em algum momento do certame nós tivéssemos sido prestigiados por qualquer autoridade já estaríamos formados! Achei desrespeitosa essa afirmação de que os excedentes teriam infrigido a lei! Sou aprovado e excedente, tenho acima de tudo minha reputação e honra!!! Me preparei para este concurso com todo meu coração, pois sou de origem humilde e estudei em casa! Infelizmente não fiquei no número de vagas, mas sei que a instituição não tem efetivo, por isso não desisto do meu maior sonho que é ser policial civil! Por isso eu peço encarecidamente ao senhor que abra espaço para uma resposta nossa para a sociedade! Não é justo que homens e mulheres que batalharam tanto sejam ofendidos e não possam se defender! R.S.
Caro Gustavo, os fatos por você imputados na matéria sobre o "concurso dos excedentes" estão distorcidos e são em grande parte mentirosos e venho informa-lhe que o tal "grupo dos excedentes" como o Srº faz questão de enaltecer, estará tomando as devidas medidas judiciais, e a devida queixa-crime já foi registrada em polícia. DENTRE OUTROS FATOS TAMBÉM POSTADOS ERRONEAMENTE PELO SENHOR. APAGAR DEPOIS QUE MILHÕES DE LEITORES FORMÃO SUA OPNIÃO NÃO ADIANTA. CALÚNIA É CRIME E O SENHOR RESPONDERÁ POR ISSO. ABRAÇOS MM.
Sr Gustavo, sou mais uma aprovada no difícil concurso da PCERJ 2005, e infelizmente não fiquei entre os 250, mas fiquei numa posição boa, no começo estaria entre os 400 aprovados e depois das outras etapas consegui chegar quase nos 300, mas nem por isso deixei de lutar por um ideal que como eu todos nós EXCEDENTES temos, servir um dia a nossa cidade tão maltratada e roubada! Sim, roubada, digo isso pois a Justiça parece não ajudar os honestos como nós, eu como todos os aprovados-excedentes, passamos honrosamente em todas as etapas.Lembro-me bem do dia do Taf, eu estava com o joelho machucado, dei minha alma e fui recompensada, incomoda demais depois de tantos gastos, tantas injustiças, ver que meu esforço foi em vão! Mas não foi não! Sabe por que? Porque assim como eu, todos meus colegas aprovados- excedentes confiam naquele que está lá em cima, que é maior que todos, DEUS, e ninguém vai tirar o que é de direito nosso. Não vale a pena falar de todas as maldades que estão fazendo com a gente, pois o senhor já deve ter em mãos tais fatos, falo por mim. Sou mulher, mãe de 2 filhas e sempre lutei por esse ideal, já passei em outro concurso da polícia e não corri atrás, mas esse luto com unhas e dentes, e nada vai me fazer desistir! Como falou nosso parceiro:¨¨Somos pessoas honradas e devemos lutar por nossa honra e exigir o devido respeito ao qual temos direito. ¨ Obrigado, por liberar seu email para as pessoas poderem expor suas opiniões, como o senhor pode observar esse nosso grupo é cheio de pessoas honestas, dispostas a dar a sua vida pela paz no RIO!. S.P.
Sr. Gustavo. Em primeiro lugar, boa noite! Segundo, gostaria de me apresentar. Meu nome é H., sou casado, tenho dois filhos e sou autônomo. Estudei e passei na prova para o cargo de Investigador da Polícia Civil do RJ, porém, não dentro das vagas do edital, por isso, sou considerado como "excedente", denominação esta, muito honrada, pois concorri com mais de 50.000 candidatos. Em 2006, o então candidato a governador do estado, SR. Sérgio Cabral Filho, se comprometeu e assumiu compromisso público, diante de mais de 5.000 pessoas, fato este gravado em vídeo, em convocar TODOS os aprovados do citado concurso para oxigenar o quadro funcional da polícia civil que anda em défIcit de mais de 50%. Gostaria apenas de solicitar ao senhor, que com certeza é um jornalista respeitado, pois, trabalha em um jornal de grande circulação, que não somente retifique seu erro ao falar do nosso grupo, mas que entre nesta luta ao nosso lado e lute conosco contra o MP, ou melhor, um promotor, que com motivos pessoais vem atravancando o nosso concurso e impedindo que homens e mulheres sérios e honestos possam trabalhar e ajudar a reduzir os grandes índices de criminalidade do nosso amado estado e principalmente que o senhor nos ajude a fazer com que o nosso governador cumpra com o compromisso assumido. Grato,H
Caros amigos, inimigos gratuitos Vocês com certeza sabem quem é o escritor e pesquisador Écio Salles, um carioca criado em Olaria, na orla do Complexo do Alemão. Ele começou a ganhar projeção na cidade quando se tornou um dos coordenadores do Afro-Reggae, ONG que por intermédio da cultura conseguiu o duplo feito de redesenhar a vida de Vigário Geral e dos próprios projetos sociais que invadiram as favelas da Cidade Partida a partir da década de 1990. Paralelamente a sua história em Vigário Geral, fez a pesquisa que resultou na dissertação de mestrado "Poesia revoltada", defendida na Universidade Federal Fluminense em 2002 e publicada em 2007. Depois de analisar as letras dos principais rappers nacionais, ele aceitou o desafio proposto por José Júnior e transformou seu espaço de trabalho em objeto de estudo. O resultado está no livro HISTÓRIA E MEMÓRIA DE VIGÁRIO GERAL, que dividiu com a historiadora Maria Paula Araújo.
Écio Salles começou a circular em Vigário Geral no ano da Operação Resgate, nome poético dado às ocupações policiais das favelas em que o tráfico mais se projetou na primeira metade da década de 1990. Como Marcos Alvito, autor de "As cores de Acari" e inspiração para essa história da comunidade contada por intermédio de seus moradores, Écio Salles não esperava ver policiais ganhando cafezinho e copo d'água de uma população que historicamente oscila entre a desconfiança e a hostilidade a uma polícia que primeiro atira e só depois procura saber de quem é o corpo em que a bala se alojou. Esse feito era particularmente estranho em uma comunidade traumatizada com os estragos provocados pelos Cavalos Corredores, o grupo de policiais responsáveis pela execução de 21 moradores de Vigário Geral em agosto de 1993. O artífice dessa ocupação foi o delegado Marcos Pedra, um dos entrevistados do livro. Apenas o estudo desse período já justificaria a publicação deste livro, principalmente num momento em que a polícia carioca produz mortes em escala industrial e, apesar dessa política vampiresca, não consegue se manter nas favelas dominadas pelo tráfico. Mas Écio Salles foi muito além, mergulhando na história tanto pregressa quanto posterior à ocupação policial de 1996. Articulando uma narrativa que vincula o destino de Vigário Geral aos grandes fatos nacionais, o livro mostra o que os autores chamam de os pioneiros chegando àquela comunidade formada sobre os charcos da Baía de Guanabara, na fronteira do Rio de Janeiro com Caxias. Os pioneiros, oriundos de três favelas recém-removidas, chegaram lá no início da década de 1950. Várias fases foram narradas por esses personagens. Uma delas foi o período em que, influenciados pelos líderes ferroviários que ali se instalaram devido à proximidade da linha de trem, Vigário Geral acolheu os clandestinos de esquerda.
Foto site Viva Favela
A longeva guerra com Parada de Lucas, que só conheceu uma trégua no período posterior à chacina, não podia escapar à curiosidade intelectual de Écio Salles. Testemunha ocular de seu trágico desfecho, o pesquisador chegou a abrigar alguns moradores de Vigário Geral em sua casa. Apesar do trabalho tanto do Afro-Reggae quanto do CIEP existente na chamada Faixa de Gaza, a rivalidade entre as duas comunidades só fez crescer entre 1983 e 2006, quando enfim o TCP conseguiu se impor ao CV e criou a Parada Geral - Parada vem de Parada de Lucas e o Geral vem de Vigário Geral. Mesmo tendo chegado à favela muitos anos depois, um dos melhores capítulos do livro é A guerra. Nele, Écio Salles e Maria Paula Araújo narram os fatos e as versões que transformaram uma simples pelada num divisor de águas das duas comunidades, com trágicos desdobramentos para bandidos, policiais e principalmente moradores. A narrativa daquela pelada pode ser vista como uma síntese do exercício intelectual de todos os elementos que tentam estudar as favelas cariocas, sempre baseado em versões absurdamente conflitantes. De acordo com uma das testemunhas, a rivalidade entre os bandidos das duas comunidades precedia aquela pelada. Outra testemunha afirmou que o jogo terminou empatado e, na disputa dos pênaltis, um bandido de Parada de Lucas teria executado o goleiro de Vigário Geral depois que ele defendeu uma das cobranças. Também se conta que esse mesmo goleiro morreu, mas durante o tempo normal do jogo e depois de levar um gol. Também não coincidem os relatos quanto à presença dos bandidos naquela pelada. Para um dos entrevistados, a pelada foi uma armadilha montada pela quadrilha de Vigário Geral. Por isso, a população desta favela não teria ido para a pelada. Os bandidos aguardaram no mato para fazer um ataque de surpresa contra bandidos e moradores de Parada de Lucas. O mítico Robertinho de Lucas, morto em 2006 depois de longos anos na prisão, estaria nesse jogo.
A armadilha possivelmente montada pelos bandidos de Vigário Geral na pelada de 1983 pode remeter à Chacina de 1993, que, além da violência em si, causou estranheza a Écio Salles pelo fato de os Cavalos Corredores terem entrado em Vigário Geral sem resistência alguma da boca. A suspeita de Écio Salles faz sentido não apenas porque naquela época Vigário Geral era um dos principais redutos do CV e por isso deveria estar mais protegida pelos bandidos dessa facção, mas porque a interminável guerra contra Parada de Lucas exigia um permanente estado de alerta. A promíscua relação com a polícia é tão presente nesse universo que uma das versões para a vitória definitiva do TCP de Parada de Lucas contra o CV de Vigário Geral é que Furica, morto na última sexta-feira, comprou o apoio da polícia por R$ 200 mil. Alguns moradores alegam ter visto os bandidos de Parada de Lucas acenando para os policiais do DPO ao entrarem em Vigário Geral. Os policiais se trancaram no DPO durante as sete horas da derradeira batalha. Há pelo menos uma grande ironia no fato de Furica ter redesenhado as duas fronteiras, criando a comunidade de Parada Geral. É que essa expressão foi cunhada por José Júnior no que, para Écio Salles, foi a noite mais importante dos movimentos sociais que atuam nas favelas cariocas. Foi na noite em que o espetáculo "Antônio e Cleópatra", cujo elenco tinha vários atores globais, foi encenada na fronteira entre Vigário Geral e Parada de Lucas. A noite do Parada Geral só teve um momento de tensão. Foi quando, depois da salva de fogos com que os bandidos de Parada de Lucas saudaram a chegada da mídia à Faixa de Gaza, os traficantes de Vigário Geral improvisaram uma resposta com tiros para o ar. No outro lado da fronteira, os tiros foram tomados como uma provocação. De lá, eles não podiam saber que faltara fogos em Vigário Geral. Acharam então que havia sido quebrada a trégua proposta pelo menos para aquela noite.
Foto André Gardenberg/Flickr
A falta de fogos de artifício na noite do Parada já era um reflexo do agudo processo de falência da boca de Vigário Geral, cujas finanças ficaram abaladas com a longa guerra com Parada de Lucas. O Afro-Reggae soube tirar amplo proveito desse desgaste, atraindo para seus projetos os jovens que num outro momento iriam saciar sua sede de emoções no tráfico de drogas. Não se pode negar que, sem dinheiro para promover os eventos assistencialistas com que o tráfico compra um lugar no coração dos mais jovens, os bandidos perderam grande parte do seu glamour. Mas seria igualmente leviano minimizar a influência do trabalho dessa ong, responsável pela emancipação cultural e principalmente financeira em um universo onde a opção pelo trabalho sempre implicou uma privação material, no imaginário da população jovem da favela. Écio Salles ainda não tem conhecimento dos desdobramentos da atuação do Afro-Reggae sobre a população jovem de Parada de Lucas, pois, embora a ong tivesse atravessado a fronteira desde o Parada Geral, só passou a ter a mesma capilaridade do outro lado da Faixa de Gaza depois da vitória definitiva do TCP de Furica. Foi nessa época que Écio Salles resolveu sair do Afro-Reggae e desde então tem notícias esporádicas de Parada Geral. Uma dessas informações diz respeito ao modo como Furica estava tentando vencer a desconfiança da população de Vigário, promovendo grandes bailes funks e adotando uma política mais assistencialista do que aquela que o tráfico vem praticando nos últimos anos. "Eles estão agindo como qualquer exército vencedor", conclui Écio Salles.
O juiz Cláudio Luiz Braga Dell Horto, da 3ª Vara de Fazenda Pública, suspendeu na tarde desta terça-feira o concurso dos excedentes para o cargo de investigador da Polícia Civil, sob pena de multa diária equivalente a 10 mil Ufirs. O concurso para o preenchimento de 250 vagas aconteceu em 2005, quando o hoje deputado Álvaro Lins (PMDB) era chefe de Polícia Civil. O juiz deve mencionar, possivelmente, em sua sentença, que a PF descobriu, através de escutas telefônicas, que o então vereador Francis Bullos - sogro do deputado Álvaro Lins teria pedido ao inspetor Mario Franklin Mustrange, o "Marinho" (preso em abril) que nomeasse os candidatos excedentes. A nomeação, segundo as investigações, aconteceria por meio de alterações dos resultados de exames psicotécnicos que seriam feitos pela FAEPOL, fundação que o Tribunal de Contas do Estado acabaria afastando, por encontrar irregularidades. Ainda não há informações sobre o que deverá acontecer com os 200 que passaram legalmente e cursaram a ACADEPOL. Update: como frisa bem o leitor Luiz Henrique, um dos concursados e aprovados, a decisão de hoje é LIMINAR e não é de mérito (como outras anteriores). Mas já sabemos que tal decisão acaba englobando os concursados aprovados que já fizeram até curso na ACADEPOL por oito meses, ou seja, infringe os direitos deles.
A terça e a quarta desta primeira semana de agosto serão de agenda cheia para quem tem interesse em acompanhar a discussão e os fatos da Segurança Pública do Rio de Janeiro.
**** Na Uerj, preparativos para as Américas Nesta terça-feira, às 13h30, estarão na Universidade do Estado do Rio de Janeiro para debater a questão da violência urbana o tenente-coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, presidente do Instituto de Segurança Pública, e o coronel PM da reserva Jorge da Silva, ex-secretário de Direitos Humanos do Rio. A Uerj terá em breve um papel importante na participação do Brasil na Organização dos Estados Americanos, e o coronel Jorge da Silva, professor da instituição, é um dos responsáveis. Na semana passada, o reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves, e o embaixador brasileiro e secretário de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos (OEA), Alexandre Addor-Neto, definiram diretrizes do pacto firmado para discutir e propor políticas de Segurança Pública nas Américas. Na quarta e na quinta-feira a Uerj estará representada por Jorge da Silva em um encontro na Guatemala que faz parte de uma série preparativa antecedendo a 1ª Reunião de Ministros de Segurança Pública do Hemisfério Sul. O evento desta terça-feira, portanto, ganha importância. Qual será o papel do ISP?
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Rio de Paz e o Blog da Segurança no mesmo evento Na quarta-feira às 15h o mesmo Mário Sérgio estará na Secretaria de Segurança Pública para a abertura do Conselho Permanente de Acompanhamento da Violência Urbana. Tive a honra e o prazer de ser o convidado do Instituto de Segurança Pública e certamente lá estarei, representando o Blog da Segurança e sua coordenadora, Ana Miguez, como assistente que sou neste espaço. Estarão lá nomes como o pastor Antonio Carlos Costa, do movimento Rio de Paz, a minha amiga Cleyde Prado Maia, do Gabriela Sou da Paz, o tenente-coronel Carballo Blanco, e vários outros nomes importantes para os estudos da Segurança Pública.
******* Policiais civis saem em defesa dos seus direitos constituídos Horas antes deste encontro, no entanto, os policiais civis que passaram no concurso de 2005 farão manifestação na porta do Ministério Público. A manifestação acontece por volta de 9h, e tem como objetivo buscar a nomeação de 200 agentes que estão prontos para trabalhar. O Ministério Público tem feito pedidos de liminares e com isto vem deixando esses 200 candidatos em dificuldades, já que gastaram dinheiro com cursos preparatórios e livros. O concurso de 2005 teve 50 mil candidatos para 250 vagas. Ao que consta, apenas 200 se formaram na Acadepol, depois de oito meses de curso de formação. "Tivemos aulas de cinco tipos de armas, sistema de informática da Polícia e fizemos Estágio nas Delegacias, após termos largado nossos empregos para cursar a Academia", me conta um destes detetives, por email. Após perderem emprego, dinheiro e tempo, o que eles pedem é um pouco de atenção das autoridades e também da mídia. Com exceção de O DIA, não vejo outros órgãos de imprensa destacando tal agressão aos direitos. Abaixo, um vídeo com fotos destes concursados e aprovados, recordando seus momentos de ACADEPOL. A música que abre o vídeo é sintomática - "Patience" (Paciência), da banda norte-americana Guns'n Roses:
Deve-se destacar que estes 200 de que falo e que aparecem no vídeo acima não são os excedentes - são aqueles que simplesmente têm direito desde o governo anterior. E que não foram chamados pelo governo anterior - distorção que o governo atual tem como corrigir, basta que o Ministério Público entre com ações civis públicas formatadas de maneira que não impeçam tal ato administrativo. "Temos recibos de todos os cursos e materiais de estudo. Nossa vaga foi conquistada com muito suor e tempo de dedicação. 90% dos candidatos ou tem o nível superior completo ou está cursando. E esse excelente material humano é impedido e desestimulado de trabalhar em uma profissão que já é mal vista e de imensos riscos, mas que estamos dispostos por gostar da mesma ou desejar seguir carreira dentro da área de segurança", me conta outro concursado. "Pedimos apoio de qualquer cidadão que deseja a melhora da Segurança Pública no Rio de Janeiro. Estivemos calados durante todo esse tempo pois ainda éramos alunos da Acadepol, impedidos de se manifestar nesta condição, mas agora que estamos formados e aprovados nas 4 avaliações da Academia com publicação no Diário Oficial vamos lutar pelo nosso direito e nossa dignidade, afinal de contas somos cidadãos, homens e mulheres que estão sofrendo uma injustiça pelos que deveriam agir em prol da sociedade", acrescenta.
***** Neste cinema, o lanterninha dorme no emprego Na quarta-feira, um pouco mais longe, na delegacia de Nova Iguaçu, será exibido dentro da carceragem o filme Veneno e o Antídoto: uma Visão da Violência na Colômbia. No filme o diretor Estevão Ciavatta mostra como o país implementou sua política de Segurança Pública e também revela o confronto entre paramilitares, guerrilha e governo. Depois da projeção haverá um debate com Ciavatta, Marcelo Yuka e integranes do Poder Judiciário. O projeto é realizado pelo delegado titular 52º DP, Orlando Zaccone, que tem realizado um trabalho de humanização com os presos. Zaccone, bem como o juiz João Baptista Damasceno, é leitor e articulista do Blog da Segurança. No dia 29 de junho membros da ComCausa visitaram a carceragem, e apesar de todos os problemas estruturais, ficaram bastante impressionados com as relações estabelecidas com os detentos e a disposição de Zaccone. A convite do delegado Orlando Zaccone, a ComCausa fará uma apresentação cultural de Malabares antes da apresentação do filme. A exibição acontece a partir da 17 horas. A 52º DP fica na Rua Capitão Gaspar Soares, 301, Centro de Nova Iguaçu.
O episódio lamentável com o brasileiro Jean Charles de Menezes no metrô de Londres pode ter dado a muitos brasileiros uma falsa impressão de incompetência e açodamento em relação à polícia britânica. Tal impressão, no entanto, é, como já disse, falsa e apenas uma infeliz coincidência: por ter sido um brasileiro a triste vítima da fatalidade, colocamos uma lente de aumento sobre o episódio. A dor da família é tanta que toda generalização em relação à polícia britânica é permitida.
Ilustração do jornal The Independent
Mas não se enganem quanto à capacidade britânica de organização e implantação de suas políticas de Segurança Pública. Um exemplo disto é a reportagem publicada hoje no jornal The Independent, sobre o ShotSpotter, sistema utilizado para detectar em menos de sete segundos a localização exata de um tiro ou explosão. A tecnologia é usada pelos EUA há anos, para rastrear snipers no Iraque e no Afeganistão. Os americanos já usam o ShotSpooter em 29 cidades, segundo o The Independent. Agora, os ingleses vão começar a testar o sistema na cidade de Manchester, em setembro. Se der certo, em seis meses começa a funcionar oficialmente e se estenderá a outras cidades britânicas.
O ShotSpotter consiste em uma complexa rede de microfones colocados em pontos da cidade como postes de luz, bueiros, sarjetas e cartazes públicos. São 15 a 20 microfones por "milha quadrada" (1,6km), ou seja, um quadrado onde caberia grande parte de Ipanema. Os ingleses de Manchester farão vários desses "quadradinhos" com os microfones do ShoSpotter. E é importante: agirão com a velocidade necessária porque o foco da organização deles é em cada um dos quadrados. O todo não é atribuição da atividade-fim, e sim dos analistas de governo. O conceito de jurisdição é levado às últimas conseqüencias. Os sinais são enviados por GPS. Em menos de sete segundos após um tiro ou explosão, o sistema o reconhece e transmite entre todos os outros pontos. Em menos de um segundo após completada esta fase, um sistema de vídeo paralelo pode fazer um zoom no local, identificando criminosos - afinal, em oito segundos, mesmo que o sujeito seja um fundista olímpico, é possível alcançá-lo, sim, com as câmeras. Em 15 segundos os operadores da Polícia Britânica serão avisados do incidente. E em menos que isso uma viatura ou baseamento será comunicado e enviado ao local. A tecnologia é privada - você pode aprender mais sobre o sistema no site da companhia, a Shot Spotter Incorporated: http://www.shotspotter.com/. A empresa desenvolveu o sistema em 1994, para detectar snipers em zonas de guerra - tal trabalho é feito até hoje no Iraque e no Afeganistão. Em 1999, o ShotSpotter teve seu batismo de fogo (literalmente) ao detectar a localização exata de um sniper-serial killer que atirava em motoristas na cidade de Columbus, estado norte-americano de Ohio. Depois disto, as cidades de Nova York, Chicago, Boston, Los Angeles, San Francisco, New Orleans, Philadelphia e Washington (capital) - esta última parcialmente - adotaram o sistema. Segundo a empresa, a redução nos crimes com armas de fogo é, em média, acima de 35%. No Rio de Janeiro, um ShotSpotter seria muito bem-vindo. Só não sei se aguentaria o tranco.
Por Pedro Paulo Lourival Carriello, defensor Público do Tribunal do Júri do Rio de Janeiro
Foto Minuano Online/Bosco
Este assunto já foi discutido no Rio de Janeiro, especialmente em relação à atuação estatal na preservação do preso. Quem prende, quem vivencia o flagrante do injusto penal e da violência urbana tem condições de cuidar do detido? Afinal, quem prende deve cuidar do preso? E os agentes penitenciários nesta história, estão qualificados para exercer a função? No sentido de trazer informação e buscarmos maiores comentários (reflexões), segue o litígio que está sendo tratado no Rio Grande do Sul sobre este tema (fonte: site da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Rio de Janeiro (Adperj)). O problema foi contornado pela Defensoria Pública daquele Estado, por meio de ação judicial solicitando a retirada da Brigada Militar do presídio localizado em Bagé. Vejamos o fato jornalístico:
RIO GRANDE DO SUL - Defensoria pede a retirada da Brigada dos presídios 01/08/2008 A defensoria pública do Estado em Bagé (DPE) protocolou, na tarde de ontem, uma ação civil pública contra o governo estadual, solicitando ao Poder Judiciário a retirada das tropas da Brigada Militar dos Presídios Regionais de Bagé.
A Defensoria vê problemas na atuação interna dos agentes, uma vez que a Constituição Estadual só autorizaria sua ação nos limites externos dos presídios. Um incidente incomum suscitou, ontem, uma onda de comentários que, se fossem reais, seguramente agravariam a situação já delicada que o aparato de segurança pública de Bagé enfrenta em fase de greve dos agentes da Superintendência de Serviços Penitenciários em todo o Estado. No fim do dia, o problema que seria um já tinha se transformado em dois com a ação civil pública impetrada pela defensoria pública do Estado. Mas lancem-se os fatos. Pela manhã, um furacão de comentários desencontrados dava conta de um conflito, e até suspeita de motim, no Presídio Regional de Bagé (PRB). Ao acompanhar o desencadear dos acontecimentos e mediante depoimentos das autoridades envolvidas foi constatado que houve alterações nas atividades. Contudo, a dimensão do problema reduzia-se ao de um desentendimento entre dois apenados que resultou em algum esforço policial, na interrupção momentânea das atividades de rotina e no registro de um boletim de ocorrência que aponta os dois envolvidos. O fato somou-se ao ambiente de greve estabelecido nas casas de detenção do Rio Grande do Sul e às notícias de conflitos em algumas das instituições carcerárias. O comando da Brigada Militar em Bagé nega, entretanto, que qualquer ocorrência tenha relação com as atividades dos grevistas ou que tenha sido resultado de inconformidade por parte dos presidiários. O clima de incerteza foi ainda auxiliado, coincidentemente, quando se difundiu a informação de que a defensoria pública do Estado apresentou, durante a tarde, uma ação civil pública contra o Estado, buscando a retirada dos 63 policiais militares que estariam prestando serviços nas dependências do PRB. A Defensoria vê problemas na atuação interna dos agentes, uma vez que a Constituição Estadual só autorizaria sua ação nos limites externos dos presídios. Não bastasse tal argumento, também é questionada a presença dos PMs na circunscrição do PRB enquanto o restante da população estaria sujeita à conseqüente limitação da vigilância e aumento de riscos de segurança. Apesar do contexto estar tranqüilizado, é possível perceber que a conjuntura deixa à mostra as incertezas estruturais e sociais que envolvem a questão carcerária no âmbito da segurança pública. Está na hora de decidir onde está o receio maior: dentro ou fora das prisões.
Quando se fala em arma ideal para uso pelo policial, vêm-me muitas indagações: o policial sabe desmontar, limpar e montar as armas que utiliza - do revólver ao fuzil? Treina o suficiente? Acerta com precisão o alvo imóvel ou em movimento? Consegue acertar o tiro com ele e o alvo em movimento? Pratica o tiro instintivo durante dia e à noite? Sabe como antes se abrigar para atirar depois? Sabe evoluir no terreno e ocupar locais seguros? Conhece adrede esses locais? Seus comandantes dominam as técnicas de "abordagem", "contenção", "cerco e estrangulamento", "martelo e bigorna", dentre outras (hoje, eu mesmo as desconheço) adaptadas aos mais variados problemas operacionais, tanto no asfalto como na favela? Há manuais sobre o exercício detalhado da profissão policial-militar? Eles são acessíveis à tropa? São freqüentemente atualizados? Os comandantes das operações (em especial oficiais intermediários e subalternos) treinam intensivamente com seus subordinados as possíveis ações considerando os obstáculos a serem vencidos e os objetivos claros a alcançar? Nos quartéis, antes das operações, há reuniões com o apoio da inteligência (P.2)? As Ordens de Serviço vêm acompanhadas de todos os dados de inteligência referentes às ações, incluindo fotos e folhas penais de marginais procurados, mandados de busca e apreensão e mandados de prisão? É elaborado para cada ação em favelas um plano especificando os objetivos e listando as guarnições participantes? Há previsão de início e fim das operações, independentemente de se alcançar ou não seus objetivos? No final das operações, em gerando a necessidade de condução dos resultados à Delegacia de Polícia, cópias desses planos e ordens são anexadas ao RO e ao Inq. Pol. para demonstrar que as operações não foram precipitadas? Em razão das escalas de serviço apertadas, há tempo para tudo isso?...
Muito bem, o que se pretende aqui é esclarecer que há inúmeros fatores a serem levados em conta no planejamento de operações preventivas e/ou repressivas de manutenção ou restauração da ordem pública, dentre os quais a escolha do armamento ideal a ser utilizado, de modo a garantir superioridade de força em relação ao oponente, que deve ser conhecido em concretude e não baseado em suposições. Pode-se e deve-se até promover operações somente como demonstração de força a abalar psicologicamente o contendor, mas sempre em visível superioridade de meios, o que implica conhecer minimamente a realidade. Até mesmo anunciar operações e não fazê-las, de modo a atemorizar os marginais, desgastando-os física e psicologicamente, é procedimento saudável e somente a polícia possui esse trunfo. As operações psicológicas, de inegável utilidade, podem ser deflagradas com sucesso, desde que entremeadas por operações reais e inopinadas (inopinadas para o bandido, não para os policiais). Discutir a questão do combate ao banditismo urbano sem considerar essas e outras premissas, reduzindo-se o discurso ao "fuzil versus fuzil", é no mínimo ingenuidade. Pois não há como se pensar na arma e ignorar o resto. Mas hoje, infelizmente, as discussões prendem-se a esse caminho unívoco. Isto não é bom. Muitos saíram condenando a "Carabina .30" sem saber que padrão de eficiência ela possui em relação às operações em favelas ou no asfalto. É, com efeito, um perigoso senso comum defender como única possibilidade de equilíbrio de forças o confronto do tipo "fuzil versus fuzil", como se as operações em favelas fossem uma espécie de "guerra de trincheira" em que tiros são trocados entre homens fixados em seus abrigos e o povo inocente no meio, na frente ou na retaguarda dos atiradores, com a obrigação de não morrer atingido por balas perdidas ou "estilhaços" que não identificam a posteriori os autores do tiro. Essa lógica da "igualdade de condições" baseada no tipo de arma permite-nos supor que dentro em breve chegarão aos bandidos e à polícia fuzis tão modernos que não erram jamais o alvo, nem de dia nem de noite, como talvez o sejam alguns modelos em uso por tropas internacionais em Cabul (Afeganistão) ou no Iraque, por exemplo. Mas esses projéteis, tais como os desses fuzis hoje utilizados pela polícia e pelo tráfico no RJ, também não pararão no alvo, como se deu com dois policiais civis numa favela em Duque de Caxias não faz tanto tempo e se não me falha a memória. Eles atiraram em dois traficantes com os quais duelavam "de igual pra igual". Foram precisos e abateram os traficantes em legítima defesa. Mas os projéteis de suas armas mataram dois inocentes lá longe, bem distantes. A imprensa anunciou na época que os policiais civis foram presos. Não sei se ainda respondem a processo, se foram absolvidos ou condenados. Mas, cá pra nós, não seria o caso de punir quem lhes permitiu o uso dos fuzis estatais?