Conhecimento
Nos falta lucidez sobre a história para melhorar nossa perspectiva do que acontece com o universo carioca. De como e porquê se comportam o bandido e a polícia.

Não que a história explique tudo, porque o presente é único. Mas ameniza nossa cegueira: arrasa com as soluções prontas, pontuais, o desespero e a carência carioca por uma solução mágica, seu frenesi e, por que não dizer, sua disposição fanática e messiânica de entregar-se ao primeiro "pai salvador" que aparente saber que cabo dar ao Rio, não importando muito os meios.

Parabéns.
Pedro
Dom, 24 Ago 2008 15:51:17 GMT
o post de Julio Ludemir
É incrivel quando em meio a tantas sandices, denunciadoras da falta de rumo no assunto, aparecem, a um só tempo, um texto cristalino e um coméntário tão curto mas tão exato. Parabéns ao autor e o comentarista (Pedro).
claudio (trawn@ig.com.br)
Dom, 24 Ago 2008 18:12:52 GMT
Sr Julio:
Ao ler seu texto, percebi que o Sr está empolgado com UM livro sobre o cangaço no NE ocorrido no século XIX.
Diante da empolgação com o livro e da indignação com a atual conjuntura sócio-econômica V. Sª resolveu fazer uma COMPARAÇÃO dos dois pólos.
Comparar cangaceiro com traficante é algo SURREAL. Métodos de atuar, organização, ideologia, objetivos, etc... tornam impossível a comparação. Como o Sr lê bastante e é escritor creio não ser preciso entrar no mérito do que foi citado acima.
Agora, comparar os romeiros dos séc. XIX/XX com os evangélicos de hoje é simplismente impressionante (como nordestino, o Sr nunca foi ao Juazeiro?)!
Sr Júlio, o Juazeiro não foi fundado por romeiros, beatos ou coisa assim. Foi o próprio Cícero Romão Batista ( o PADIM CIÇO) que fundou. Ao contrário do que muita gente pensa, o Pe Cícero nasceu em Crato (13km do Juazeiro)em 24/03/1844. Ele foi pra lá (VILA DO "JOAZEIRO") acabar com o zona que ali estava instalada.
E, como o Sr mesmo sabe, naquela época não era qualquer um que entendia o latim em que eram celebradas as missas. Portanto eram conduzidas por alguém com um poder de persuasão incrível (o próprio Pe Cícero). Não havia monopólio da igreja na região, mas sim dos Senhores de engenho e donos de terras que recebiam o título de CORONÉIS (esses últimos mandavam muito).
A polícia -volante- era truculenta, mas não CORRUPTA. A perseguição ao cangaço (não só a Lampião) era feita, principalmente, por tropas do governo federal. Foi assim também na guerra de CANUDOS, onde quem começou com a degola foram os seguidores do CONSELHEIRO. Eles "penduravam em estacas" as cabeças dos soldados nas proximidades de seus acampamentos como imposição do medo (e funcionava). Mas voltemos ao CARIRI CEARENSE:
Em 1914, não seguiram rumo à Fortaleza esses tantos mil que o autor do livro - ou o Sr - citou.
É uma população muito acima dos que ali habitavam na época. O máximo conseguido por Pe. Cícero fora um Batalhão. No Juazeiro não se dá conta do efetivo. A propósito, o Governador era o Sr. Franco Rabelo.
Uma questão de Geografia e não de adivinhações ou crendices:
A região do CARIRI (seja ela cearense, pernambucana, paraibana...)pela sua localização é verde, ou seja, tem solo fértil. Não precisava nenhum beato ou adivinho (naquela época eram aos montes)dizer o que iria ocorrer na região. A seca não se dá de forma castigante na região CARIRIENSE. Hoje pode estar seco, mas basta um chuva rápida para o cenário ficar verdinho, verdinho.
O cariri cearense tem mais um expoente: A CHAPADA DO ARARIPE. Lá não há dia sem que amanheça tudo molhado. Sem falar nos rios e lençóis freáticos de pequeno porte que ali se encontram. Açude do Óros ( se o Sr for lá vai tomar um susto)é enorme!
Bem, não me alongarei falando das belezas do cariri. O assunto é a violência!
O carioca, ou melhor, o fluminense convive com a violência há muito tempo. Hoje só se fala dela (violência)porque a elite está sendo atingida. Ela passa de mera consumidora da COCAÍNA (pobre não tem CACIFE pra cheirar o ouro branco)a vítima disso tudo. É difícil lidar com o bandido em seu quintal!
Aí alguém tenta amenizar fazendo comparações que não fazem nexo (Colômbia, EUA, etc.).
Findando:
Esse câncer já está em estado terminal. Isso tudo porque o paciente nunca fez questão de se tratar.
É como um sujeito MACHO que por não querer fazer o exame de toque retal está fadado a morrer de câncer na próstata.
Pois é Seu Júlio, me perdoe por não concordar com o Sr, mas a história do cangaço é uma (com princípio, meio e fim) e a história CARIOCA está longe do meio...
No mais, tudo em paz.
ADSUMUS
Alexandre Freitas (corisco_1@hotmail.com)
Dom, 24 Ago 2008 21:29:24 GMT
ERRATA.
Onde Lê-se SIMPLISMENTE que se leia:
SIMPLESMENTE.
Grato.
Alexandre Freitas (corisco_1@hotmail.com)
Dom, 24 Ago 2008 23:45:53 GMT
Concordo plenamente com o Alexandre Freitas.

Como pode ele simplesmente dizer que os traficantes são uma "encarnação do mal", como se essa frase fosse absurda...

Ora!

Então o que se pode dizer de pessoas que decaptam, empalam, queimam, estupram, fuzilam, corrompem?

Ah! Já sei!

São focos de resistência de um governo mal e opressor.

Pare de demagogia seu Julio!

Eu nasci próximo de favela, sou pobre e tenho amigos que nasceram dentro da favela com oportunidades menores dos que eu tive, iguais ou até piores das que seus "heróis da resistência" tiveram.

No entanto, nem eu e muito menos meus amigos cometemos crimes para nos sustentarmos, muitos de nós já até passamos por privações, como a fome, e nunca recorremos ao crime.

Na verdade, seu Julio, seus "heróis" não passam de um bando de vagabundos que preferem a maneira fácil do crime de conseguir dinheiro a ter que trabalhar de segunda a sexta-feira de carteira assinada como a maioria dos moradores de favelas.

Digo maneira fácil sim, já que vir com arma na mão e roubar de outras pessoas seus bens materias que suaram tanto para conseguir é coisa de covarde, preguiçoso. Bem como "colar em boca-de-fumo", já que é muito fácil para qualquer um com cérebro de ameba e disposição de lesma pegar uma arma e ser "soldado do tráfico", "vapor", "fogueteiro".

Sem falar nos pais desses tumores sociais que entregam suas crias para serem "bandidos", "donos do morro". E depois dizerem com todo o orgulho que: -O meu filho é o "cara" lá na comunidade. Muito respeitado.

Garanto a qualquer um que ser criado em favela fosse sinônimo de se tornar criminoso, a situação da segurança pública no Rio estaria 100 vezes pior.

E foi muito triste, para não dizer preconceituoso, o senhor colocar a culpa desses bandidos no imigrante nordestino. Já que o senhor colocou com suas palavras que os criminosos do séc XIX la´do nordeste passaram a vir para a região sul com a criação das rodovias.
Freitas Neto
Ter, 26 Ago 2008 10:29:02 GMT
Do que estão falando?
Gente,

O Júlio Ludemir não "heroificou" bandido algum. Até onde eu entendi, não houve simplesmente nenhum julgamento de valores no texto dele. Isso ficou a critério da leitura do Freitas Neto.

E o texto nem parece ter sido lido até o final (ou lido com o estômago fervendo de agonia, anulando a lucidez), porque o autor diz: "Isso mereceria uma outra reflexão, que, como esta, pode ter tudo, menos o preconceito contra nós, nordestinos (aqui vos fala um homem criado em Pernambuco)". Ele está fazendo o contrário de ser preconceituoso ou pôr a culpa nos imigrantes. (Até porque seria ele mesmo um.)

É estranho como às vezes se lê simplesmente o contrário do que se está sendo dito.

A questão a ser debatida aqui é histórica. Se cabe ou não a analogia entre cangaceiros e traficantes, como analisou o Alexandre Freitas em seu comentário, mesmo discordando.


Eu, particularmente, acho que cabe alguma comparação. Por exemplo, pontos sem dúvidas tangentes entre essas duas realidades:

"Na Guerra de Canudos, por exemplo, o exército tinha o direito de esquartejar e decepar os seguidores de Antônio Conselheiro. O mesmo aconteceu com os macacos que deram cabo ao bando de Lampião. Eram bárbaros, porém, os bandidos que destruíam os corpos de seus inimigos."

A construção da moral pública sobre esses eventos é praticamente a mesma. Permitimos os mesmos meios, o uso das mesmas técnicas (às vezes cruéis e covardes), desde que seja pelos policiais, para fins distintos dos traficantes. E os "fins justificariam os meios"? Ou igualaria monstro à monstro?

As questões levantadas pelo Freitas Neto são outras e não têm nada a ver com o texto.

A propósito, sobre "demonizar" traficantes ou não: demonizar ou divinizar qualquer coisa é sempre dar um ponto final numa discussão que não acabou. Criar um tabu, uma opinião pronta para ser consumida, quando é um tema que ainda vai render muito. O que é isso? Medo de dar as próprias idéias à tapa?

Abraços,
Pedro
Ter, 26 Ago 2008 14:43:26 GMT
Caro Pedro...
Mais uma vez, me sinto no direito de discordar.
É que, como citei acima, quem cometia barbáries em Canudos eram os seguidores do Conselheiro. Eles emboscavam a tropa e arrancavam suas cabeças e as penduravam em estacas para aterrorizar os que tentassem a sorte. Daí o motivo do Governo mandar apoio da artilharia.
Claro que após a conquista, quem teve sorte foi o Conselheiro em ter morrido de doença, pois, aqueles que caíram nas mãos dos militares... não preciso entrar em detalhes é só pesquisar...
Pedrão, a ação do cangaço tem relatos no final do séc XVIII. Os cangaceiros (jagunços, cabras, etc) eram violentos em suas chegadas (ação de choque)mas acredite, eles ainda mantinham respeito por mulheres (casadas) e crianças, não abatiam nenhum animal sem que fosse para consumo e nunca, NUNCA fizeram as vezes de bons mocinhos distribuindo seus saques para os mais necessitados.
Quanto aos MACACOS:
A polícia, naquela época (assim como alguns de hoje) não possuía instrução alguma. Bastava o caboclo saber atirar, ser bom de mato e PIMBA! Estava pronto para sentar praça nas fileiras militares do Governo Brasileiro!
Aí eu lhes pergunto:
Se hoje, com o nível médio completo (alguns com faculdade)a polícia age como age, como o sr acha que agiam os policiais dos séc XIX e XX, quando em situação de risco?
Eles devolviam violência com mais violência.
Os cangaceiros não tinham o costume de arrancar cabeças, pois, não tinham valor algum.
Prêmio recebia quem matasse jagunço. Aí sim, a polícia arrancava cabeça e apresentava em praça pública como troféu!
Portanto sr pedro e srs leitores, venho confirmar o que escrevi acima em outra ocasião:
NÃO TEM COMO COMPARAR A HISTÓRIA DO CANGAÇO COM A ATUAL SITUAÇÃO CARIOCA.
No mais, tudo em paz!
ADSUMUS!

A propósito, alguém poderia citar os nomes das cabeças da foto?
Alexandre Freitas (ifcarcara@bol.com.br)
Ter, 26 Ago 2008 20:26:23 GMT
Acho que o nosso amigo, precisa ler com mais atenção a palavra de Deus,pois a mesma,faz menção ao joio e o trigo. Pense nisto.
Marcos Antonio de Oliveira (marcosanvix@gmail.com)
Ter, 26 Ago 2008 22:26:06 GMT
cangaceiros/traficantes
TODOS AÍ:No conforto do lar filosofando(rs); GOSTARIA DE VÊ-LOS, de arma na mão, agentes do estado(profissionais honestos cumpridores do dever), entrando ("NA ÁREA")em confronto com traficantes sanguinários que premiam e promovem seus subordinados toda vez que matam um "ALEMÃO" e se o "alemão" for capturado para ser queimado no "microondas" a premiação é maior. TEM RAZÃO QUEM AFIRMA QUE SÓ EXISTE TRAFICANTE PORQUE GENTE RICA COMPRA O PÓ, PORQUE PÉ-DE-CHINELO COMPRA FIJÃO... "verdades citadas" quem é "vagabundo" é por opção e não por necessidade, quem nasceu honesto sempre será, mesmo trabalhando duro...
RAK (r.a.klein@hotmail.com)
Qua, 27 Ago 2008 07:58:42 GMT
CABRA BOM NÃO BEBE ÁGUA!!!
Agora o camarada aí de cima falou tudo!!!
Na ora do pega pra capar é só o PM que olha nos olhos do marginal!
Já pensaram se todo coitadinho, excluído ou coisa do gênero se tornasse bandido?
O sujeito se torna bandido porque sua alma já vem bandida!
Ou não tem bandido rico?
E os políticos? E as lagostas de bangu 8?
E como já citei, quem vocês pensam que banca toda essa bandidagem?
É o porqueira do playboy, com recursos, que cheira até cair as ventas!Isso sem citar os artistas! Esses são os mais demagogos!
Quem vocês acham que levam as armas pro morro?
É a porqueira do governo que permite tudo isso!!!
A não ser que alguém acredite que o bandido desce o morro, vai até a fronteira (terra e mar), busca as PEÇAS e volta pro aconchego da boca sem ser notado...
Como se dão os flagrantes?
Ah, já sei! Existe uma inteligência quase britânica que sabe tudo o que acontece!
Se soubesse não engoliriam tanta mosca!
A coisa toda é mediante traição!!!
Alguém derruba o serviço de alguém e fica tudo bonito!
O bandido pobre só dispara a arma.
O bandido rico banca tudo.
Ou não há lucro com tudo isso?!
Bando de almas sebosas!!!
No mais, tudo em paz!
ADSUMUS!
Alexandre Freitas (ifcarcara@bol.com.br)
Qua, 27 Ago 2008 17:28:18 GMT
A Todos
"TODOS AÍ:No conforto do lar filosofando(rs); GOSTARIA DE VÊ-LOS, de arma na mão, agentes do estado (...)"

A proposta do blog é noticiar, debater e pensar. Às vezes, teorizar sobre a segurança pública. Ou para fazer isso eu preciso "empunhar uma arma e ir lá na 'área' matar bandido"?

Não escolhi essa profissão. E quem o fez, fez por suas próprias razões. Não foi obrigado. É por isso que eu não vejo o policial como um mártir, ainda que concorde com suas reivindicações de classe, mais que justas.

Quem não é policial, então, não pode falar sobre segurança pública? Esqueci que esse tema só diz respeito ao mundo de bandido e polícia, como numa brincadeira de bang-bang, e não existem engenheiras Patrícias, balas perdidas, assalto à mão armada, famílias e amigos sofrendo, o Salgueiro tendo tiroteio agorinha aqui atrás de meu apartamento. Leigos ou autoridades, estamos todos no mesmo saco.

Ou o caso é que existem coisas muito mais importantes a se discutir, do que este post? Eu até concordo, mas se for o caso, apenas ignorem o tema deste post do Ludemir. Outros posts atendem melhor esse gênero de comentários.

Parece que não faz diferença um post do Ludemir para um do Gustavo, do Emir Larangeira ou do Milton Corrêa. Os comentários são os mesmos, às vezes totalmente alheios ao conteúdo.

Ou vocês só lêem e só falam do que faça apologia ao "quão difícil é a vida do policial, mal pago e morrendo para bandidos cruéis"? Eu concordo inteiramente que isso seja uma verdade a ser exposta. Agora, do meu ponto de vista, se vocês ficarem se lamentando enquanto esperam pela boa vontade governamental ou que a "ingrata sociedade civil" se levante para lhes dar apoio, o máximo que vão ganhar é a solidariedade de alguns poucos bem intencionados que acompanham as mazelas de vocês, como jornalistas e leitores assíduos desse blog, como eu.

Em suma: o óbvio é óbvio. Policial é mal pago. Não haveria traficante se não houvesse usuário e, por sua vez, sempre, na história da humanidade, houve usuário de drogas e entorpecentes. Aqui está outra discussão que poderia render, mas ao invés disso me mandariam "ir viver como um policial", ou invocariam puramente a memória de colegas mortos na guerra ao tráfico, como se a guerra precisasse continuar por uma questão de honra.

Bandido mata e a pobreza não o absolve, é uma opção de caráter e não uma condição social determinada. Satisfeitos?

Agora que todo mundo concordou com o óbvio (que sequer era tema deste post, sequer foi discordado por este post), poderíamos discutir questões interessantíssimas, como a questão do ciclo do cangaço ter se encerrado e as pessoas acharem que essa época não teria um fim. Tal como não vislumbramos um fim para o tráfico.

"É possível viver sem o tráfico", concluiu o autor, mas o cara ali em cima disse que ele estava heroificando bandido e sendo preconceituoso com nordestino. É pedir demais para que se leia?

Poderíamos discutir? Ou diremos apenas que o Sérgio Cabral deveria resolver tudo e que o policial sofre muito?

Agora, se a "filosofia" incomoda alguém a ponto de valer unicamente a promoção do "estilo de vida" de ir matar traficante, enchendo a boca ao dizer que não precisa se pensar a respeito disso, então temos o seguinte problema:

Não precisamos de blogs, de discussão. Apenas cumprir a obrigação. Fazer o trabalho e não pensar. Ser soldado, e só.

Eu espero uma PM bem melhor que isso para minha cidade.

Abraços,
Pedro
Qui, 28 Ago 2008 00:35:11 GMT
Sobre Lobos, Cabras e Cordeiros
Não sei se o que nos falta seja exatamente "lucidez sobre história para melhorar nossa perspectiva" do que acontece no Rio de Janeiro.Muito embora considere indiscutível o peso nada desprezível de fatores históricos no reflexo presente da realidade, não só brasileira como de qualquer povo, creio que a consciência da relação desses fatores com as componentes de causa das tristes mazelas cariocas são mais limitadas do que querem os sociólogos, nos esforço de alteração do quadro.

Evidentemente, nossa história pode explicar a razão pela qual até hoje a massa de eleitores tolera a pletora de cargos públicos comissionados, e o extraordinário sortilégio de prerrogativas e benesses reservadas a detentores de cargos eletivos no Brasil(mormente quando comparados a qualquer país razoavelmente decente das Américas ou da Europa).

Não vejo, contudo, grandes méritos em se identificar os pontos de convergência entre o cangaço e o tráfico carioca - e eles, para mim, até existem, na mesma medida em que podemos estabelecer semelhanças, em qualquer ponto da história, entre grupos de ladrões e assassinos espalhando terror indistintamente entre os miseráveis e os bem aquinhoados, alimentado uma vaidade monstruosa ao passo que os rastro das suas "proezas" vão se alastrando nos limites de seus círculos de ação; entre tais grupos, e um estado brutalmente repressor quando lhe convêm, lançando mão dos mesmos ignóbeis métodos que os de uso corrente dos marginais, para combate-los.

Para mim, em suma, as semelhanças ficam por aqui. Até porque diferenças existem (e não poucas) entre os casos em questão:por exemplo, hoje, por mais críticas que façam por merecer os tiras, não se vê nenhum deles cortando cabeça de traficante, nem incinerando vapor em pilha de pneus...E as estórias de traficantes-assassinos que entraram para o mundo do crime em virtude de alguma injustiça ou mesmo atrocidade cometida contra qualquer membro da família, são em bem menor número do que querem acreditar os sociólogos e romancistas - mas isso só mesmo crescendo numa comunidade dessa aqui no Rio para saber. Passando a infância e /ou juventude em outra cidade, de outro estado, naturalmente, é bem mais difícil.Por outro lado, nesse caso, fica mais fácil enxergar em todas essas comunidades grupos inteiros de Lampiões e Coriscos urbanos, vitimados pela sociedade, pela "volante", pelo capitalismo, pelo consumismo, pelo álcool, pelas drogas, pelos papais, pela mamães, pelas namoradas que meteram-lhes chifres...

Em outras palavras, se bem esquarinharmos, encontraremos um ervanário de razões, ou fundos (ou, como preferem alguns, justificativas) de ordem psico-sócio-econômico-cultural para toda sorte de perversidades cometidas contra indivíduos ou grupos - e se o conhecimento dessas matrizes reserva potencial para a definição de meios que façam por evita-las (as perversidades), por outro lado entendo que a dialética produz pouco efeito nas tentativas de solução da batata incandescente que temos em mãos. A essa altura, não apenas no Rio mas no Brasil, até chegarmos ao sonho de Isaías (que é o mesmo dos sociólogos), com lobos e cordeiros pastando juntos a mesma comida com gosto de aurora, levaremos umas 3 gerações, no mínimo, de cordeiros devorados - caso não sejam tomadas medidas em caráter excepcional e, (desculpem-me os sociólogos), lamentavelmente, de força, para então passarmos a usufruir de toda a teorização (de todos os matizes, inclusive o histórico) preventiva com foco no equilíbrio da distribuição de renda, melhoria das condições de educação, saúde, e mesmo segurança a que aspiramos todos(ou quase todos...).

Não obstante concordar com o Pedro quanto ao disparate de aguardamos "messias" ou "soluções mágicas" (embora muitas das soluções propostas por sociólogos me pareçam justamente tais), também me identifico com as as opiniões de outro comentarista acima, que parece ter a mesma origem que eu. Quem creceu em comunidade pobre não deixa de ler com espanto as formulações teóricas sobre crimes e criminosos dessas comunidades - embasadas, não raro, por autores de reputação acadêmica indiscutível em se tratando de sociologia, direito ou psicologia - da parte de quem só adentrou favela a passeio ou sequer jamais pisou em uma.

O Pedro, em outro post, mencionou o "frenesi" reacionário de um extrato da sociedade, "tremelicando" ante as assustadoras notícias que vão se trivializando nos jornais cariocas, a exigir pena de morte para furto de mp3.No mesmoo post, apontava como um das causas desse "frenesi" um "certo calvinismo" (associação do "trabalho à idéia de homem de bem").Eu respondi àquela postagem, mas por alguma razão, a resposta não foi publicada. Como ela tem relação com o que tratamos hoje, menciono, em síntese, o que acredito ter escrito na ocasião: confesso mui modestamente minha prosaica admiração por essa faceta da ética protestante.Onde vivi, à época, era o que eu tinha(e outros que de igual modo, não sonhavam com uma vida frugal como os hippies ou grupos semelhantes, nem cogitavam roubar para ter acesso a bens de consumo)a meu favor.Embora não veja problema algum em não trabalhar(desde que não se desrespeite o direito do próximo; inclusive, tenho amigos de infância nessa situação, os quais sequer completaram o ensino fundamental e vão muito bem obrigado), o que consegui, consegui estudando e trabalhando. Admito mesmo que sou consumista(pretendo em breve, frequentar teatro a 50 paus todo fim de semana...estou em vias de arrumar mais um emprego para aumentar minha renda),e o consumismo não favoreceu em mim,qualquer nuance de tendência à violência.Mas o Sr Julio Ludemir acredita que se os meninos pobres das favelas fossem mimados com pares de tênis a 300,00 cada, o tráfico hoje não teria tantos soldados.Deve achar talvez, que, se os 3 franceses da Ong em Copacabana que auxiliava meninos de rua tivessem dado R$ 80 mil ao funcionário(retirado das ruas, quando menino, pela própria Ong), ele não os teria assassinado com requintes de perversidade, tal como fez há não muito tempo.

Sabemos que, por dever de ofício, sociólogos jamais vão admitir que armas de fogo nas mãos da polícia, a essa altura, são imprescindíveis a contenção da violência - por eles, a policia subiria os morros munidos apenas de técnicas de defesa pessoal.Mas está certo o outro comentarista que diz (mais ou menos nesses termos) que quando a "chapa esquenta" é o agente que está lá "olhando nos olhos do bandido", e isso, DEFINITIVAMENTE, não é fácil. Os teóricos, não podem, não devem, nem precisam entender essa realidade, plenamente díspare das suas, oníricas, em que pouco falta para se abolir de vez a figura da instituição e do agente policial, e em que todos os bandidos agem no melhor estilo "Charles Anjo .45". O "frenesi" aludido pelo Pedro, patente em discursos reacionários de todos os tipos, não é menor que o dos sociólogos quando se fala em "confronto" com marginais e uso de armas de fogo.

De minha parte, estou certo que a despeito do equilíbrio entre a ótica dos policiais e a dos teóricos-sócio-antropólogos, inclusive no que toca às raízes históricas da nosa realidade, uma legislação mais dura para crimes contra vida e, claro, um sistema penal eficiente são imprescindíveis à pretensões de reversão do assombroso espetáculo de desrespeito à vida, a que nos acostumamos por aqui. Isso proque estou convencido de que é necessário estar vivo para ensinar, curar ou proteger quem quer que seja.

Cordialmente,
Leandro Ribeiro (proflribeiro@hotmail.com)
Qui, 28 Ago 2008 11:26:48 GMT
Leandro
Oi, Leandro!

Lembro de ter lido sua resposta sim, refutando a minha idéia da ditadura do "homem de bem" e tudo mais. Só não lembro se foi no mesmo post que falei do episódio do ônibus e do mp3 roubado...

Eu concordo com sua análise, e não tenho nada contra sua simpatia por esse "estilo de vida", admiro os bons exemplos que você teve, mas isso não anula o que eu disse antes. Simples: você não é um estereótipo, é um cara pensante. Tem pessoas que se comportam como estereótipos. É muito comum. Que vestem uma camisa, uma fórmula de pensar e encarnam, robotizados, o reacionário típico, "pai de família morrendo de medo por seus filhos, peloamordedeus alguém mate esses bandidos". Eu, sim, que tenho medo, por haver um alimento e tanto para esse estereótipo.

Quanto aos estereotipados sociólogos utópicos, ainda que eu discorde da postura deles (ou pelo menos não encarne nessa categoria), não me incomodam tanto simplesmente porque me parecem ter menos poder ofensivo em termo de decisões públicas.

Acho que não tem como discutirmos "mapeando" um ao outro em pólos diferentes. Não reflete a nossa realidade. Não acho que você tenda para a "direita", ainda que defenda a polícia e creia que a solução esteja em penas mais duras (ao que eu já disse concordar, no tocante à crimes contra a vida). E se tender para a "esquerda" significa não defender a polícia, ou heroificar o bandido (puxa, mas muita gente entra no tal frenesi se as pessoas ao menos humanizarem o bandidão um pouquinho...), eu não sou de esquerda. Então, esses pólos não dão cabo da verdade.

Não acredito que substituir armas letais por armas não-letais seja solução. Mas as duas podem ser usadas concomitantes. Carregar um fuzil não te impede de carregar spray de pimenta, ou uma maquininha daquelas de choque, não sei. E te dá recurso de render um bandido que não esteja no fogo cruzado, com menor potencial ofensivo, sem precisar estourar os miolos dele - ou será que perdoamos essa arbitrariedade e vamos preferir o pragmatismo do "passar o rodo"?

Na verdade, nós concordamos bastante. Como você já reparou, só discordamos das medidas prioritárias.

Eu acho que a formação cultural do tráfico envolve aquilo de "vou morrer mesmo, mas vou levar dez comigo". Não é uma carreira grata, é lei do cão, do forte, selvagem etc. Eles vivem bem com o medo. Nesse contexto, acho que penas mais severas são úteis, mas intimidariam gerações futuras (jovens que estão para entrar no tráfico), a certo longo prazo, já que não é só a impunidade que os mantém sendo como são. É uma tradição, uma "ética".

Por outro lado, sinceramente, não enxergo uma medida a curto prazo efetiva.

As penas duras funcionariam, ao meu ver, concomitante com outras medidas. Eu tenho a sensatez de reconhecer que não tenho A solução mágica, ao contrário de muitos. E nem tenho a ilusão de que pagamos o Sérgio Cabral pra tê-la, e que por isso vou relaxar e seguir minha vida.

Acho que uma combinação próxima da ideal, ou menos problemática, seria a seguinte:

Legalização pelo menos da maconha + lei que defina que parte dos impostos arrecadados com este consumo destine-se à polícia, a outra parte à saúde pública + aumento para a polícia + penas mais duras + finalmente, aí sim, ações táticas visando o desarmamento (a fim de impedir que o tráfico se reorganizasse para refazer sua renda de outro modo, como assaltos) e quebrar as bocas de fumo (debilitadas de grana).

Claro que tudo isso tem seus próprios problemas técnicos. Mas se é para escolher entre isso e enxugar gelo, perpetuando uma guerra cujas raízes ninguém está interessado em cortar fora (e é ÓBVIO que o bandido não surge do nada, ele tem um espaço para isso), prefiro a primeira opção.

Resumindo, acho que é isto.

Abraços,
Pedro
Sex, 29 Ago 2008 15:35:16 GMT
"Inquieta-me, por fim, uma pergunta: será que, como o cangaço, é possível dar um fim ao ciclo do tráfico? Tenho eu a impressão de que o cangaço era tido como indestrutível, como hoje o tráfico o é. E, no entanto não é exatamente por causa de personagens temíveis como Lampião que as boas famílias do sertão nordestino têm o seu sono intranqüilo. É verdade que os cangaceiros, como os traficantes, não são o mal em si e não surgiram do nada. Mas mesmo que se deva duvidar de uma sociedade que produz esse tipo de bandido em uma escala industrial, o fato é que, mesmo que no fundo, a única mudança no sertão tenha sido a construção das estradas que permitiram que o peão se mandasse para o sul antes de se tornar um cangaceiro, hoje o cangaço deixou de ser uma instituição nordestina.

Digamos que ele tenha apenas mudado de lugar, indo para as favelas cariocas como o que os criminologistas chamam de mancha de óleo do crime. Isso mereceria outra reflexão, que, como esta, pode ter tudo, menos o preconceito contra nós, nordestinos (aqui vos fala um homem criado em Pernambuco). O que importa, e o que há de mais objetivo a ser levado em consideração, é que é possível viver sem o cangaço, digo, o tráfico."

Nesses dois últimos parágrafos, Pedro, o autor deixa claro que as estradas construídas no sertão deram fuga aos peões para as favelas, não dando tempo de se tornarem cangaceiros...

Mesmo ele ter sido criado em Pernambuco (e eu li isso também), não diminui o sentido preconceituoso que você diz que eu interpretei sem ler.

Também entendi um dos contextos que seria o fim inimaginável do tráfico, assim como foi o do cangaço.

Outro contexto que não passou despercebido, por esse que digita e como você disse que não leu o post ou não sobe ler, foi a comparação da ação dos militares da época com a atual polícia.

Ora!

Na época eram militares do Exército contra os inimigos, ou seja, era guerra civil.

Hoje também há uma guerra civil, pois traficantes usam táticas de guerrilha e terror para manter seu poderio, isso incluí a tortura e destruição dos cadáveres de seus inimigos para servirem de exemplo. Que além de não ser declarada, é combatida apenas com a polícia. Que por sua vez é composta por seres humanos que estão em conflito belicoso com tais marginais. Por tanto o que autor do post chama de arbitrário em sua comparação das forças do Estado nas duas épocas, é considerado por estudiosos de guerra ações e reações de ambos os lados, que infelizmente os nossos atuais líderes fingem que não acontece e vem com esse discurso hipócrita do autor de chamar isso de truculência, abuso do poder policial, etc.

E o que me levou a interpretar nesse post que eu li na integra, é ele botar na sociedade a culpa desses marginais fazerem o que fazem, sem a menor consciência ou como rebeldes de um Estado opressor e ditador. Fora outros comentários.

Se fosse isso verdade, eu e toda família seriamos composta por marginais da Lei e, no entanto não somos.

Eu acredito que isso possa ter fim, mas temos que parar com a hipocrisia de considerar quem comete crime ser uma vítima da sociedade. E os nossos governantes tomarem vergonha na cara e começarem a mandar para as áreas carentes não apenas a polícia para entrar em confronto com o marginal. Mas enviar a polícia para ocupar, patrulhar e defender a vida e todos direitos dos moradores de bem dessas comunidades, assim como se faz nas áreas nobres do estado.

Bem como enviar também profissionais da saúde, infra estrutura urbana, educação e outros serviços os quais qualquer cidadão tem direito e é sonegado a quem mora em favela.
Freitas Neto
Sab, 30 Ago 2008 15:16:11 GMT
Pedro
Prezado

Nada tenho a acrescentar a esse teu post (muito objetivo, aliás), a não ser minha concordância, em inteiro teor, "ipsis literis".

Abraço.

Leandro
Leandro (proflribeiro@hotmail.com)
Dom, 31 Ago 2008 13:32:33 GMT

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