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| Pedro Landim |
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Ao provar a textura aveludada do peixe curtido no limão, a acidez da fruta e as sensações que se revezam nas notas de coentro e pimenta, com a batata doce contradizendo os demais sabores, e um inesperado toque crocante de grãos de milho fritos, você vai entender o recado das panelas andinas. Ceviche, simples assim. Ou nada simples. Perfeito, preparado no Rio por mãos peruanas.
Estava eu absorvido pelos sabores perfumados do ‘ají’, a pimenta peruana cultivada, segundo registros arqueológicos, há coisa de de 8 mil anos, quando a chef Margarita Pinto serviu-me taça gelada da ‘chicha morada’, a essência do milho negro de sua terra.
Tudo ali, num discreto restaurante situado na Rua Barão do Flamengo chamado Intihuasi, presente de Margarita aos cariocas. Com carinho e dedicação, a peruana visita todas as vertentes da gastronomia instigante de sua terra, além de contar histórias sobre a cultura de seu país.
Perfume

Para começo de conversa, o Intihuasi dá seu pulo do gato - ou da lhama, quem sabe - ao levar à mesa ingredientes legítimos peruanos, que Margarita planta em seu sítio, na região de São José do Vale do Rio Preto.
Especiarias como o ají e o rocoto, as pimentas saborosas que temperam os autênticos ceviches, perfumam molhos e chegam a ser protagonistas, como no prato em que o ají (amarelado, comprido, mais aromático) ou o rocoto (vermelho, redondo, mais picante) são recheados com carne, passas, ovos e azeitonas, num gratinado com cobertura de queijo. Para os fãs das pimentas é uma aventura imperdível.
O milho escuro peruano é importado, embora a chef já faça experiências para adaptar a iguaria ao solo brasileiro. Além de sobremesas, o 'maiz morado' vira suco ao ser fervido com maçã, canela e abacaxi e servido gelado, em jarrinhas cobertas com cubinhos de maçã.

Contraste
Do cardápio do Intihuasi, já tive o prazer de experimentar pratos como a sensualíssima Marinera Intihuasi, que consiste em filé de badejo com frutos do mar grelhados e adocicados com geléia de laranja e pimentões de piquillo confeitados. Maravilhosamente agridoce, está na foto que abre o texto, lá em cima.
Há também o Quinoto Raymi, um risoto de camarões com quinua, o incensado cereal das mil e uma vitaminas, utilizado pela Nasa no papá dos astronautas. Para os dias mais frios (isso existe?), surge o substancial Chupe de Camarones, sopa que leva camarões VG, legumes peruanos, milho e ovos.
Sem falar no badalado ceviche (foto abaixo). Figurinha fácil em cardápios de todos os tipos de restaurante, no Intihuasi você come o autêntico representante da chamada culinária ‘criolla’, fruto do encontro da comida dos índios nativos com a dos conquistadores espanhóis, que apresentaram o limão aos peruanos. Embora, como conta Margarita, o prato já existisse antes, preparado com uma fruta ácida chamada ‘tumbo’.

Mistura
Os segredos da culinária andina moram certamente nas incríveis diversidades de climas, solos, ingredientes e influências culturais. O caldeirão é enorme, e nele cabem índios nativos (e suas infinitas batatas, seus peixes e vegetais...), espanhóis conquistadores (trazendo alho, cebola, limão e coentro...), africanos escravos (fãs do mel, da banana e dos feijões...) e um ‘exército’ oriental de chineses e japoneses, que em meados do século 19 vieram pelo Pacífico em busca de trabalho e fincaram raízes no Peru com seus molhos agridoces e suas técnicas apuradas de cozimento e fritura, cultivando ingredientes como a soja e o abacate.

O encontro do Peru com a China gerou, inclusive, um tipo específico de culinária, a ‘chifa’, e suas cobinações contrastantes de sabores e texturas que hoje são marcas das mais badaladas cozinhas do mundo. Como negar, por exemplo, que a cozinha emocionante do catalão Ferran Adrià, o nome do momento, tenha traços claros da influência peruana?
Pergunte ao japonês Nobu Matsuhisa, chef da cadeia de restaurantes ‘Nobu’ (em sociedade com o ator Robert De Niro), considerado por muita gente boa o melhor restaurante japonês do mundo, que formou-se cozinheiro no Peru, para onde foi no início da carreira, aos 24 anos, dirigir um restaurante voltado a executivos japoneses.

Lhamas
E atenção para a rima rica: alô, senhor Nobu, eu também fui ao Peru. Aos 32, é verdade, mas tampouco economizei paisagem e degustação. Foram 16 dias, sozinho, de Lima ao deserto de Paracas, sobrevoando os místicos desenhos gravados no solo pelas ‘Linhas de Nazca’, num avião do tamanho de uma van (o melhor do passeio é quando ele pousa), e rumando para os Andes até chorar de emoção em Machu Picchu.
Em Cusco, aquela linda cidade situada 3.400 metros acima do nível do mar — que, quando o piloto avisa aos passageiros que vai pousar, o avião começa a subir —, além de me esbaldar nas discotecas à noite e explorar igrejas de dia, entrei num dos melhores restaurantes locais para comer - e eu não poderia deixar isso de lado - suculenta carne de lhama, ou melhor, alpaca, uma espécie de lhama menor e mais fofinha. Carne deliciosa, rosada e leve, lembrando um pouco o cordeiro.

Comi também belos ceviches de diferentes frutos do mar, e um monte de batatas vermelhas, roxas, amarelas, pretas e de algumas outras cores, além de provar o famoso ‘ají de galinha’ - que também consta no cardápio do Intihuasi.
Na paisagem surreal e desértica de Paracas, que termina em falésias sobre o mar, ou em pequenas praias com bares de pescadores, tracei um belo peixe frito com batatas fritas, coberto com o onipresente ‘molho’ à base de limão, cebola roxa, coentro e pimenta vermelha.

No último dia da viagem, encerrando o périplo glutão na capital, chutei o balde e comprei no supermercado um frango assado com uma crosta avermelhada de páprica, pimenta e não sei mais o quê, uma Inca Kola de um litro, e fiquei comendo e vendo televisão no ar condicionado do hotel. O refrigerante amarelo que é sensação no Peru, por sinal, também pinta volta e meia no Intihuasi.
Deuses
E por falar em líquidos, participei também de alguns momentos alcoólicos regados a ‘pisco’, com direito a visita ao ‘alambique’ onde é produzido o aguardente de uva peruano, na cidade de mesmo nome, e um porre inesquecível em Aguas Calientes, o vilarejo pobre aos pés do santuário inca.
A cidade deserta, fora de temporada, leve chuva caindo e o único bar aberto, com duas índias bonitas no balcão, fui contemplado pelos donos da casa com uma jarra de um drinque à base de pisco e Coca-Cola, uma espécie, digamos, de Peru-Libre, e depois de muita filosofia em castelhano voltei cambaleando para o hotel.

No caminho, peguei um atalho, sentei-me às margens do mítico Rio Urubamba, que corria violento entre as pedras, tendo às costas a floresta dos Andes e a estrada para Machu Picchu, e entrei numa espécie de transe bebum-hipnótico onde o deus inca Wiraqocha veio em pessoa me cumprimentar.
Tá rindo? No dia seguinte, às 6h da manhã, já estava de pé para embarcar no primeiro ônibus e ser o primeiro turista a pisar na cidade perdida dos Incas. Mas aquilo ali não dá para explicar, tem que ir para entender. E rápido, de preferência, porque dizem que vai acabar.
Mas vamos pensar positivo. Falei tanto que deu fome. Vou nessa continuar com minha dieta da sopa, e traçar o que estiver dando sopa por aí. Mas deixo um conselho na rede. Está chateado? Estressado? Cansado da rotina? Escureceu? Esqueça o Prozac. Vá ao Intihuasi. E me chame.

PS. Algumas fotos da viagem ilustram este post.
Parem as máquinas: a mulher do Xerxes amou jumenta, abraçou peixe e vai lançar um livro de receitas vegetarianas. Explico. Entrevistada pela Veja, a modelo Ellen Jabour conta que fez um retiro espiritual para entender, abre aspas: “o que é essa coisa louca e incrível que é o universo”.
E o mundo de Ellen é realmente fascinante. Nas férias esotéricas, ela conheceu e pegou amizade com uma jumenta: “A Jurema é uma jumentinha superfofa. Amo os bichos. Aliás, parei de comê-los porque os amo, e não como quem amo”.
Taí, fechei com Jabour: prometo que jamais, em hipótese alguma, comerei jumentas. E tampouco no sentido bíblico, como fazem os melhores amigos dos bichinhos na roça.
Mas o trecho mais revelador da entrevista ainda estava por vir. Há 15 anos sem comer carne vermelha, Jabour parou também de comer peixe depois que o abraçou. O relato é estarrecedor: “Era um peixe enorme, do tamanho de um labrador. Era lilás e fosforescente. Parecia um sonho. Eu o vi e fiquei mandando muito amor para ele. Ele chegou perto e o abracei. Ficamos assim uns cinco segundos”.
Não se iluda, caro leitor, não há dúvidas: no embalo do sucesso hollywoodiano do namorado, Ellen Jabour já está cavando uma ponta na continuação de ‘Procurando Nemo’. E o tubarão Bruce anda tão carente...
Na Manteiga
Quanto mais eu rezo, mais me aparece assombração. Ainda bem que resta uns goles de tinto na geladeira, e vou ali encher a taça para assistir aos chefs de plantão. Ligo a TV e quem aparece? Claude Troisgros, sugerindo uma de suas conhecidas receitas familiares de... peixe!
Esse cara nunca deve ter abraçado um cherne, para cozinhá-lo assim, com bananas da terra e molho de manteiga, limão, coentro e passas. Mas tudo bem.
Para descomplicar o bolso - teria que comprar o cherne inteiro, para o peixeiro tirar o filé grosso do lombo -, repassei meu caderninho de telefone, constatei que não havia ali nenhum amigo linguado e comprei alguns filés deste para tentar a receita de Claude (que na foto ali embaixo aparece em curiosa situação com o ex-presidente Bill Clinton).

Com a licença do chef, tomo a liberdade para renomear o prato e apresento aos leitores o irresistível...
Linguado Jabour
Ingredientes, para uma refeição a dois:
Dois filés de linguado / Duas bananas da terra cortadas ao meio, no comprimento / Meio tabelete (embalagem padrão) de manteiga / Duas colheres de sopa de azeite / Uma cebola finamente cortada / Dois dentes de alho finamente cortados / meia xícara de coentro fresco e picado / Suco de meio limão / Uma colher de chá de molho shoyu / Meia xícara de passas pretas / Sal e pimenta moída na hora a gosto
Peixe e banana:
1 - Com o azeite, doure os filés e as bananas, dos dois lados, na frigideira. 2 - Transfira tudo para uma travessa refratária e finalize no forno médio pré-aquecido, de 5 a 10 minutos.
Para o molho:
1 - Derreta o tablete de manteiga em outra frigideira e, quando a espuma começar a dourar, acrescente a cebola e o alho. 2 - Em fogo brando, refogue até a cebola ficar transparente e adicione o coentro, o limão espremido, o shoyu e as passas. Cozinhe tudo mais cinco minutos, mexendo de vez em quando e adicione o sal e a pimenta.

Monte o prato com as fatias de banana por baixo do peixe e regue com o molho. Sirva acompanhado de um vinho branco geladinho e divirta-se com os contrastes de texturas e sabores. É bom fazer o dobro da receita. O Linguado Jabour é muito bom. Você vai querer comer de novo.

O cara é garçon de um restaurante na Itália, e conquista uma linda americana que visita o país. E inventa para ela que trabalha como chef. O verdadeiro chef, que mora com o garçon, também se apaixona pela moça, mas acaba ajudando o amigo e virando algo como um ‘ghost chef’. Ou seja: na verdade, é ele quem cozinha para ela, mas os dois fingem que os pratos são feitos pelo garçon. E a americana está cada vez mais encantada...
Vai mais ou menos por aí a história do livro ‘O Alimento do Amor’, de Anthony Capella (Ed. Record). E vou dar uma de Sílvio Santos, quando ele apresentava a programação de filmes de sua emissora: “O livro é ótimo. Eu não li, mas a minha amiga Rúbia leu...”. Companheira de blog e militando ali no ‘Cinelândia’ ao lado do bravo Zean, a moça Rúbia estava outro dia com água na boca após uma receita romana de um escalopinho ‘à saltimbocca’, preparado pelo personagem da ficção, aquele feito com sálvia e presunto cru.

Na falta de ambos, na manhã de uma simples quarta-feira, entrei no açougue e pedi quatro bifes de coxão mole, cortados o mais fino possível, tramando outra boa pedida: o escalopinho com tomate, orégano e alcaparras. Os ‘scallopine’, bifes fininhos e levemente batidos, geralmente passados na farinha e fritos, são protagonistas de diversos pratos italianos que enchem a boca de água.
O coxão é um corte perfeito para escalopinhos, ou bife à milanesa, e os filés devem ser batidos, ou melhor, ‘achatados’ antes do preparo (foto abaixo). Se não tiver o batedor adequado, pode usar um copo, e até um rolo de macarrão para pressionar os bifes, do centro para fora, de modo a torná-los mais finos.

Ingredientes, para 4 pessoas:
Três colheres de sopa de óleo vegetal / 3 dentes de alho descascados / 500g de escalopinhos (coxão ou lagarto são boas sugestões) / Farinha de trigo espalhada num prato / Meia xícara de vinho branco seco / meia xícara de ‘pomodori pelati’ picado (tomate italiano em lata, sem pele), ou polpa de tomate / Uma colher de sopa de manteiga / 1 colher de chá de orégano fresco, ou a metade da erva seca / 2 colheres de sopa de alcaparras / Sal / Pimenta preta moída na hora
1 - Coloque o óleo na frigideira com os dentes de alho, em fogo baixo, e os descarte assim que dourarem. 2 - Passe os escalopes na farinha de trigo, aumente o fogo e frite os bifes, meio minuto de cada lado. Passe-os para uma travessa aquecida e tempere-os com sal e pimenta. 3 - Jogue o vinho na frigideira e, enquanto ele evapora, raspe o fundo com uma colher de pau. Acrecente o tomate, a manteiga e um eventual caldinho que tenha saído dos escalopes na travessa (na foto abaixo, o encontro do vinho com o tomate e a manteiga). 5 - Cozinhe tudo em fogo brando por 10 minutos, acrescente o orégano e as alcaparras, volte os escalopes para a panela para aquecê-los de novo e sirva.

Para a versão ‘saltimbocca’, que o chef apaixonado prepara no livro, você pode proceder da mesma forma com os escalopes, eliminando o tomate, o orégano e as alcaparras e prendendo, com um palito de dentes, uma folha de sálvia e uma fatia de presunto em cada bife antes de fritá-los.
O vinho branco faz parte da receita, mas você pode fazer sem para facilitar e baratear, se for o caso. E nunca se esqueça: nada de cozinhar com vinho velho da geladeira. Só utilize um vinho que você beberia. Vinho ruim significa prato ruim, e estamos falados.
Não sei ainda como o livro termina mas, bem, há um antigo ditado, que acabei de inventar, que diz assim: sorte na cozinha, sorte no amor.

Creio que não nasci com cheiro de alho, como já ouvi falar a respeito de certos bebês da Provença, mas também trago os bulbos no DNA. Meu pai era tarado pelo alho, que consumia de todas as formas, inclusive em conservas de cachaça - provável herança de minha avó mineira - cujo aroma até hoje guardo na memória. Ao longo da vida, tornei-me igualmente louco pela planta, especiaria e tempero chocante.
Hoje em dia, não contem pra ninguém, chego a comer o alho cru, fatiado em cima da comida, ou mesmo no pão, com azeite, no auge da tara. Algo para se fazer, de preferência, sozinho, ou acompanhado de alguém que entenda e partilhe da paixão pelo vegetal, que também é conhecido pelo mundo afora como ‘Rosa Fétida’. Esse, inclusive, é o nome de um restaurante americano especializado em espantar vampiros, cujo lema é “Nós temperamos nossos alhos com comida”. O cardápio inclui drinques e até um estranho sorvete de alho.

Alhos e Óleos
Então, em homenagem ao pai e a avó, que já foram provar os temperos lá do céu, apresento três versões de massa no mais do que famoso estilo Alho e Óleo. E quando esse dois se juntam para uma festa de sabor, costumam gritar, em uníssono: “Queremos spaghetti!”.
Se você é fã do macarrão com azeite e pedacinhos de alho frito, talvez se surpreenda com as maneiras de se preparar o prato sugeridas, incluindo versões mais sutis que dispensam a presença física do alho no prato, ficando apenas com seu perfume.
A pimenta vermelha (dedo de moça) será sempre nossa convidada, mas você decide se vai ou não lançar mão de seu poder. Minha avó, por sinal, a tal mineira do interior, colocava a pimenta no prato como se fosse qualquer outro legume.
Tradicional:
Igredientes, para 4 pessoas:
500 g de massa / Meia xícara de azeite extra virgem / 2 colheres de chá de alho bem picado / 2 colheres de sopa de salsa picada / Uma colher de chá de pimenta vermelha picada / Sal a gosto
1 - Enquanto estiver cozinhando a massa, coloque o azeite, o alho picado e a pimenta em fogo baixo e refogue até o alho começar a dourar, sem deixá-lo escurecer. 2 - Derrame a massa sobre o molho na frigideira, misture bem, acrescente a salsa, acerte o sal e sirva.
Versão aromatizada crua:
Os mesmo ingredientes da anterior, substituindo o alho picado por 4 dentes inteiros.
1 - Descasque os dentes de alho, amasse-os ligeiramente e os coloque numa tigela grande com o sal, o azeite e a pimenta. 2 - Coloque a massa na tijela e mexa bem. Descarte o alho, acrescente a salsa e sirva.
Versão aromatizada refogada:
Os mesmos ingredientes da anterior, com a pimenta vermelha apenas sem sementes, e cortada em duas partes, e uma pitada de pimenta preta moída opcional.
1 - Refogue os dentes de alho com o azeite, a pimenta e a salsa. 2 - Quando o alho estiver bem moreno, o descarte junto com a pimenta. Despeje a massa quente sobre o azeite que foi aromatizado, misture, jogue uma pitada de pimenta preta moída e sirva.

Soltando um pouquinho a imaginação, podemos viajar no prato. Imagine, por exemplo, o macarrão ao alho e óleo com pedacinhos de tomate fresco e folhas de manjericão no lugar da salsa, acrescentados ao final da preparação. Supimpa.
Saúde
As propriedades do alho, como é notório, são inúmeras. Segundo informa a jornalista e especialista em ervas, Rosa Nepomuceno, em seu livro ‘Viagem ao fabuloso mundo das especiarias’ (Ed. José Olympio), o alho é anti-hipertensivo, redutor de colesterol, anti-séptico, vermifugo e, na medicina popular, antidiarréico, usado para gripe, febre, reumatismo e micose, além de afrodisíaco (o problema aí, me parece, é o bafo).
Dizem também que não convém às mulheres que amamentam abusar do alho, porque o sabor forte passa para o leite. Faz sentido, mas vai ser difícil explicar isso lá na Provença.

Nem Romeu e Julieta, no tempo escasso que tiveram para se amar, se amaram tanto. E nenhum enlace através dos tempos, nas artes, na ciência e na vida, foi certamente tão intenso e significativo para os destinos da humanidade. Imaginemos o encontro, para criar um clima, em praia deserta da Baía de Napoles, num pôr-do-sol do século 17 e ambos correndo em ‘slow motion’ até unirem seus corpos num abraço delirante, molhado, sensual e definitivo: o macarrão e o tomate.
Um romance épico e cinematográfico, recheado de intriga, mistério, amor e ódio, com o happy end garantido na panela mais próxima de você. A sinopse: fruto bastardo das Américas selvagens, incompreendido ao chegar no Velho Mundo, torna-se rei ao descobrir sua cara-metade em massa de farinha e água.
Antes de prosseguir cruzando oceanos, pausa para os comerciais. Iniciaremos neste e em alguns próximos posts uma série de receitas simples e deliciosas envolvendo massas e molhos, improvisando, testando receitas e consultando livros essenciais como 'Fundamentos da Cozinha Italiana Clássica', de Marcella Hazan; e o incrível 'Italian Regional Cooking', edição americana da obra de Ada Boni, que herdei de meu avô junto a outros tesouros que aos poucos desvendaremos.

Sorry, China
Mas, onde mesmo que nós estávamos? O quê? China? Marco Polo? Qual nada, companheiros. A teoria segundo a qual o jovem aventureiro veneziano levou da China o macarrão para a Itália é linda, mas não passa de história para boi sonolento.
Há controvérsias sobre a origem do macarrão, mas pesquisando um pouquinho a gente descobre que Marco não teve nada a ver com a tramóia. Não bastassem textos gregos sobre massas de caldo e farinha datados de 2.500 anos atrás, sabe-se que na Itália, exatamente na Sicília, há mil anos, o pessoal já pronunciava o verbo ‘maccari’ (‘esmagar’) e devorava os ‘maccaruni’: misturas de trigo moído, água e vinho. Isso mais de um século antes de Marco Polo nascer, em 1254.
Consta que Marco, membro de uma poderosa família de comerciantes de Veneza, passou duas décadas no Oriente, de 1271 a 1295, e parece que fez e aconteceu por lá. Porém, nem no exagero heróico de suas memórias juvenis, fez referências ao macarrão. O engodo teria sido obra de um tal Giambattista Ramusio, editor veneziano do livro, que interpretou livremente notas sobre certas plantas orientais, como se Marco tivesse levado novas massas para a Itália.
Em seu livro 'O Homem Que Comeu de Tudo', Jeffrey Steingarten, o célebre crítico gastronômico da Vogue, afirma que foram os árabes que levaram o macarrão para a Itália, na conquista da Sicília, no ano de 827, o que confirma a teoria anti-Marco.
Porém, segundo ele, a origem da trapaça seria outra. Jeffrey conta que Jane Grigson, falecida autora e crítica culinária do inglês 'Observer', dizia que a história de Marco Polo fora inventada nos anos 20 por um fabricante canadense de espaguete, teoria que queima de vez o filme do aventureiro.

A Redenção
Do tomate, por outro lado, tudo sabemos e sorvemos. Fruto do Peru, país de contribuição inestimável para a gastronomia planetária, e batizado de 'tomatl' pelos astecas, coloria a vegetação do continente ‘virgem’, do Peru ao México, e foi levado pelos espanhóis à Europa enquanto o Brasil era descoberto.
Utilizado inicialmente como ornamento de mesas e jardins, por desconhecimento de suas melhores variedades, da forma de se plantar, se colher e se cozinhar, ingeridos verdes e antes da maturação, chegaram a ser considerados venenosos e proibidos por lei na Espanha do século 16.
Até que, provavelmente em manhã de muito sol, aportaram em Nápoles e nas mãos dos italianos transformaram-se num dos principais ingredientes culinários, conquistando a humanidade num prato de macarrão.

Receita
Então vamos começar nossa brincadeira, com um molho bem conhecido que tem como ingredientes predominantes o bacon e a pimenta. Irresistível, portanto. Referência à cidade romana de Amatrice, o molho ‘all’amatriciana’ cai bem com massas como o ‘penne’, que retêm bastante molho, mas escolha a sua à vontade.

Você pode utilizar tomates frescos, de preferência sem pele, ou qualquer polpa de tomate, mas vamos trabalhar aqui com o delicioso e igualmente prático ‘pomodoro pelati’, o tomate italiano sem pele, de baixa acidez e sabor acentuado, enlatado apenas com seu suco.
É o tomate ideal para um molho rápido e de alta qualidade, e mesmo a culinária tradicional italiana admite, e até venera, sua utilização. Custa entre R$ 2 e R$ 3 a lata de 400 g, e a marca Annalisa é minha preferida.
Ingredientes, para 4 pessoas:
Azeite (duas colheres de sopa) / Manteiga (um colher de sopa) / Uma cebola média bem picada / Meia xícara de chá de bacon cortado em pedacinhos / Duas xícaras de pomodori pelati italiano cortado em pedaços (ou de polpa de tomate) / Uma colher de chá de pimenta vermelha bem picada / Queijo parmesão ralado na hora a gosto / Sal a gosto
O molho:
1 - Coloque o azeite e a manteiga na panela e refogue em fogo médio a cebola até ela começar a dourar. 2 - Acrescente o bacon, mexa e cozinhe por um minuto. 3 - Coloque os tomates, a pimenta e o sal e cozinhe por cerca de 15 minutos em fogo baixo, mexendo de vez em quando. O molho deve reduzir e encorpar, mas não secar e grudar no fundo. Se achar necessário, coloque um pouco de água. 4 - Assim que escorrer a massa, misture com o molho, acrescente o queijo, mexa bem e sirva (foto abaixo).

Pulos do gato:
É sempre perigoso se arriscar a conselhos definitivos na cozinha, ainda mais sendo este que vos escreve um iniciante nas panelas, mas não temo em encher a boca para dizer: nunca jogue óleo na panela do macarrão, ou lave a massa depois de pronta. Tais procedimentos não têm a menor utilidade e só servem para tirar a qualidade de seu prato.
O segredo da massa livre, leve e solta, além de sua qualidade, é claro, está na quantidade abundante de água onde ela deve ser cozida, o que nem sempre é respeitado. Para 500g de massa - um pacote padrão -, deve-se utilizar quatro litros de água. Ou seja, cerca de um litro para cada 100 gramas.
Quanto ao sal, 500g de massa pedem duas colheres de sopa na água. O sal deve ser colocado logo antes de começar a fervura.
Okey, já encontrei referências italianas a azeite na água, mas apenas em casos de massas caseiras e recheadas. Com calma chegaremos lá.

As pétalas roxas de suas flores enfeitavam os Jardins Suspensos da Babilônia, por volta de 580 antes de Cristo. Estigmas vermelho-alaranjados, órgão reprodutivo de flor do Oriente-Médio, o açafrão é uma especiaria digna dos contos de fadas.
Conhecido desde priscas eras como pigmento e remédio, adorado na Grécia antiga como afrodisíaco e usado para combater a insônia e curar a ressaca, o açafrão teve confirmadas, em pesquisas recentes, suas propriedades analgésicas e antioxidantes. Os gregos tomavam banhos em sua tinta amarelada para levantar, digamos, o astral, e reza a lenda que Cleópatra espalhava a essência no corpo para ficar nos trinques.

Ouro Rubro
Levado provavelmente pelos fenícios à Espanha, onde encontrou berço esplêndido nas paragens mediterrâneas, o açafrão é a especiaria mais cara do mundo, e não é difícil entender a razão. Imagine: cada flor tem apenas três estigmas e, portanto, para se obter um quilo de açafrão são necessárias cerca de 150 mil flores. E todo o processo de extração é manual.
Responsável pela cor dourada das paellas espanholas (receita no post abaixo), dos risottos à milanesa italianos e da sopa bouillabaisse francesa, o açafrão é também o ingrediente mais falsificado do mundo. O que não chega a ser um grande problema, já que a ‘pirataria’ pode ser benéfica a tantos consumidores que não podem dispor da iguaria.

Raiz
Quando você entrar num restaurante, pedir o cardápio e ler a palavra ‘açafrão’, pode acreditar que, em 90% dos casos, o ingrediente utilizado é a curcuma, também conhecida como açafrão-da-terra, ou açafrão indiano, ou mesmo ‘falso açafrão’: é o pó extraído da raiz da curcuma (na foto ao lado, a flor), uma prima distante do gengibre, e tempero facilmente encontrado.
No Brasil, a caixinha com 0,375 gramas do açafrão verdadeiro, espanhol, custa entre R$ 10 e R$ 15. Isso dá para até quatro paellas, já que o sabor marcante do açafrão deve ser sutilíssimo. Se errar na dose, babau. Em grandes quantidades, também já está provado, o açafrão torna-se um veneno perigoso. Porém, cá pra nós, só sendo milionário para se suicidar com ele.
No Fogo
A utilização do verdadeiro açafrão na cozinha geralmente começa com uma leve aquecida nos estigmas avermelhados, na tampa de uma panela que esteja no fogo, ou, quem sabe, numa frigideira morna e seca, antes de amassá-los com o verso de uma colher, na intenção de aproximar sua forma do pó (também são vendidos assim), que pode ser jogado diretamente na panela ou dissolvido em água quente - a foto abaixo atesta seu poder. Na cartilha tradicional das receitas espanholas, são também dissolvidos em creme de leite, vinho ou suco de limão, e acrescentados geralmente no final da preparação dos pratos.

Brincando de Wikipédia, descobri que a flor do açafrão, pasmem, é da família das Iridáceas, um grupo de plantas da ordem Asparagales, que inclui os aspargos e as cebolas. Quer dizer, convenhamos: a natureza não dá ponto sem nó.
Cinco amigos que se conheceram no maternal da mesma escola porque as respectivas mães já se conheciam, três décadas depois, reunidos ao redor da mesa com mulheres e filhos para comemorar a amizade de uma vida inteira. Ou, como disse um deles, “nossos laços e dharmas".

Esse filme real passou no último final de semana, quando fui para a cozinha arriscar em grande panela de barro um prato definitivo para a união das almas: a paella. Foi apenas minha segunda vez num prato para ser saboreado, experimentado, aperfeiçoado e modificado por muito tempo. Frango? Peixe? Coelho? Marisco? Ervilhas? Caracóis ??!! Tudo isso já fez, faz e fará parte de paellas mundo afora, sem fugir da tradição.
Antes de divagar, porém, sobre a história do mais famoso prato espanhol, sugiro uma receita de paella de frutos do mar para quem estréia nas panelas. Adaptei, simplificando, uma do chef espanhol Gil Rivera, do restaurante Toro (SP).

Ingredientes, para 4 pessoas: 2 colheres de sopa de azeite / 200g de lulas em anéis / 300g de peixe cortado em cubos / 300g de camarões descascados / 600ml de caldo de peixe / 120ml de polpa de tomate / 300g de arroz / 3 dentes de alho fatiados / 100g de ervilhas em lata de boa qualidade, ou as congeladas / 2 pimentas dedo de moça sem semente, bem picadas / Ramos de salsinha bem picada / Uma colher de chá de curcuma, o ‘falso açafrão’, ou meia colher do verdadeiro (tema de nosso próximo post, não mude de canal) / Sal e pimenta preta moída a gosto.
Se você tiver uma ‘paella’ — no caso, a panela própria que dá nome ao prato, uma frigideirona larga e rasa, com alças nas laterais —, tanto melhor. Senão, use a maior frigideira disponível.

Mãos à obra:
1 - Doure o alho fatiado com um pouco de azeite, em fogo baixo, sem deixar escurecer e reserve. 2 - Numa panela, ferva o caldo de peixe e o mantenha quente, como no preparo de um risoto. 3 - Na panela escolhida, em fogo alto, coloque o azeite e refogue o peixe e a lula até dourá-los (foto acima). 4 - Acrescente o arroz e o molho de tomate, misturando bem. Coloque o caldo de peixe e o açafrão, tempere com o sal e a pimenta, misture de novo e deixe cozinhar por 10 minutos (foto abaixo). 5 - Adicione os camarões e as ervilhas, coloque o fogo no mínimo e cozinhe mais 5 minutos. 6 - Desligue o fogo e cubra tudo com a pimenta, a salsa e o alho frito.
Atenção: É importante diminuir o fogo no final do cozimento (etapa 5), para o arroz não queimar no fundo da panela. Prove sempre o arroz. Se estiver duro e o caldo acabando, coloque mais água quente. Se por acaso colocar caldo demais, e o arroz estiver no ponto, pode retirar o líquido com uma concha, sem problemas. Com a prática vamos descobrindo as quantidades ideais.
Pê-ésse: A receita simplificada não vale para paellas com carnes e legumes crus, onde vários procedimentos seriam alterados em função do tempo de cozimento prolongado. Como o uso de água em vez de caldo, a ordem e a forma de entrada dos ingredientes na panela. Para o caldo sugerido, favor rolar esta página para baixo e consultar a receita do post 'Quanto Riso', acrescentando a casca e a cabeça dos camarões, a espinha e aparas do peixe.

No Barro
Na grande mesa dos amigos, a paella foi destroçada sem piedade, felizmente. Mas há muito o que aprimorar. O arroz que grudou no fundo da panela de barro conferiu um leve cheiro de madeira queimada, algo defumado que me incomodou um pouco, mas ninguém reclamou.
Para um fantástico 'up grade' final, utilizei os pimentões pelados na chama e fatiados — seguindo técnica da qual falarei em breve —, conforme aparece na foto abaixo, onde a pouca iluminação contribuiu para um visual rústico que faz bem à paella, prato de camponeses espanhóis, conhecido desde o século 18 e originalmente preparado em fogueiras no campo e traçado em conjunto, muitas vezes na mesma panela.

Assim, a autêntica ‘paella valenciana’ (de Valencia, é claro) é feita de carnes como a galinha e o coelho e hortaliças como alho, cebola, pimentão, alcachofra e diferentes tipos de ervilhas e vagens. Perto da praia, o prato ganhou todos os frutos do mar. Na verdade, não há receita definitiva nem na Espanha, então o negócio é viajar e dar asas ao que encontrar no mercado.
Em forma de raios furtivos de sol, atravessando a folhagem e reluzindo na taça gelada de prosecco, o Criador se materializou no jardim para abençoar meu último dia de férias. No forno, uma obra prima da natureza: o peixe fresco no sal grosso.
Prova irrefutável de que a vida é bela, o prato guarda seus segredos no tempero: nenhum. Apenas o peixe fresco - o melhor ingrediente que se pode ter na cozinha -, levado ao forno sob um 'iglu' de sal que assa perfeitamente a criatura.
Basta forrar o refratário com uma camada de sal grosso, depositar o peixe inteiro por cima, limpo e sem escamas, cobrir tudo com muito sal grosso e levar ao forno a 250° durante meia-hora, para um peixe que tenha entre um e dois quilos. Você vai precisar de dois a três quilos de sal.
Temendo pelo futuro dos seres marinhos no microondas global, chamei Gabriel para ver o peixe vermelho, um exemplar da espécie Olho de Cão, antes de entrar no forno, deitado em seu berço salgado. Comentário: "Ele está feliz, papai". Resposta: "É filho, ele deve estar contente porque vai para a nossa mesa daqui a pouco".
Não sou expert em peixes, mas meu avô - grande responsável pela entrada deste que vos escreve no mundo culinário - conhecia tudo e me lembro dele falando sobre a qualidade desse peixe, chamado por muitos de 'vermelho', e do preconceito das pessoas por causa da cor do bicho. Pois não vacile na peixaria porque a carne do dito cujo deixa enciumados robalos e linguados como os gelados da foto.
Muitas receitas do peixe no sal grosso aconselham misturar clara de ovo no sal para 'cimentar' a capa que cobre o peixe, e até açúcar mascavo já ouvi por aí, mas vou pelo simples. A pele do peixe é suficiente para proteger a carne do sal, e basta agir com delicadeza ao retirá-lo do forno, 'quebrar' a cobertura com um faca e levá-lo para uma travessa para retirar a carne.
Sim, um fio de azeite pode cair bem no cozimento, assim como ervas e outros temperos, mas vale a pena ser purista, se o peixe é mesmo fresco. Temperar demais seria um gesto indelicado com a natureza e seus caprichos. Seria, digamos assim, como encontrar uma orquídea em seu esplendor e pensar: "acho que vou lançar um brinco nessa flor". Ou passar pelo roseiral florido e resolver dar mais uma mão de tinta vermelha, como no delírio da Rainha de Copas, de Alice no País das Maravilhas.

"Vocês poderiam me dizer, por favor", disse Alice, um pouco tímida, "por que vocês estão pintando essas rosas de vermelho?"
Cinco e Sete nada disseram, mas olharam para Dois. Dois começou, em voz baixa: "Porque o caso é, veja você, senhorita, isso aqui era para ter sido uma árvore de rosas vermelhas, mas colocamos uma de brancas por engano..."
Outro dia estava zapeando no sofá e pintou a famosa lula gigante. Aquela que era lenda, até ser retirada das profundezas do Pacífico e fotografada por um japonês. Criatura sinistra, avermelhada. Fiquei pesando no que seria aquele bicho fatiado em anéis, passado na farinha e frito. Pensando bem, dali deve sair até filé mignon, quem sabe picanha de lula. Credo.
De minha parte, eu que não sou japonês, mas também não acredito que tamanho seja documento na mesa, estive outro dia na peixaria de Manguinhos, em Búzios, encarando diversas lulas tamanho padrão, limpas, alvas e submersas no gelo.
Comentei certa vez com srta. Lolly quer descobri Búzios em meados da década de 80, atrás das ondas, com o surfe na veia. Desembarcava e ia direto para o mar, às vezes antes mesmo de chegar em casa. Hoje em dia, vou a Búzios pensando em peixes, lulas e camarões, risotos, massas, moquecas e o escambau, e já chego correndo para a peixaria.
Pois está aí, mensurada em poucas palavras, minha barriga em dois tempos: os anos 80 e hoje. Mas deixa estar que já comprei a prancha e prometo dar uma remada.
Mas estávamos falando de lulas, e voltei para casa prevenido para mais uma das receitas simples e irresistíveis da guru Marcela Hazan: ‘Lula à moda da Toscana’. Receita italiana, mas que poderia ser também de Búzios, do Nordeste ou de qualquer ponto do litoral brasileiro, não fosse a presença das ervilhas que suprimi no preparo.
Ingredientes (servido para quatro pessoas): 600g de lulas, limpas e cortada em anéis de 1 cm de largura / Meia cebola picada bem fina / Três colheres de sopa de azeite extra virgem / Uma colher de chá de alho picado bem fino (mas cuidado com o trocadilho ‘picar alho’) / Uma colher de sopa de salsa picada bem fina / Uma lata de tomate ‘pelado’ italiano (pomodori pelati) / Sal e pimenta preta moída na hora a gosto.
Preparo: Coloque o azeite em fogo médio na panela e refogue a cebola. Assim que ela começar a ficar transparente, jogue o alho sem deixa-lo escurecer. Assim que ele começar a dourar, acrescente a salsa, mexa rapidinho e despeje a lata do tomate italiano, mexa para partir os tomates e integrá-los ao molho e cozinhe por 10 minutos. Leve os anéis de lula à panela, tempere com o sal e a pimenta, tampe, coloque a chama no mínimo e deixe cozinhar por cerca de 40 minutos. E isso é tudo.
Detalhe: a receita serve também como um senhor molho para massas, e nesse caso vale a pena picar bem as lulas após o preparo. Para a receita original, com as ervilhas, a boa é comprar as congeladas e acrescentar pouco antes do fim do cozimento.
Falando em moluscos...
Que aperitivo pode ser tão gostoso na praia, ao lado daquela cerva geladinha, como os anéis fritos de Lula? Após limpar, lavar e fatiar a lula em anéis de 1cm de espessura, seque bem a critaura com papel toalha, ou pano, passe cada anel levemente na farinha e dali para a frigideira com óleo bem quente (jogue um pedacinho, se ‘chiar’ é que está no ponto).

Quando estiverem dourados e apetitosos, retire com a escumadeira e escorra em papel toalha. Só agora é que devem ser salgados - e isso é tão importante como secar a lula antes da farinha, evitando que fique crua e encharcada de óleo.
Este método pode ser utilizado com todos os frutos do mar, para um prato magnífico. Camarões, iscas de peixe, mariscos, polvo. Passe tudo pela farinha e frite, em pequenas porções, sem abarrotar a frigideira. Depois, sal e algumas gotinhas de limão (o siciliano arrasa) ou algum molho. Foi esse, inclusive, um dos pratos mais saborosos que comi na Espanha, em viagem que será em breve comentada neste blog.
Passarinhos cantavam, os aviões voavam e Jesus Cristo estava ali, de braços abertos sobre o casarão do Cosme Velho. Foi numa tarde inesquecível que chef Koki - grande inspirador de aventuras culinárias - me apresentou a essa maravilha sedutora em forma de salmão.
Prato simples e destruidor de corações, onde filé do peixe é passado levemente na farinha e frito, servido com cobertura de cream cheese e um fio de vinagre balsâmico reduzido. Posando para a fotografia, nosso herói descansa em leito de berinjela - cubinhos adocicados num refogado de manteiga e mel.
Então é assim: corte o salmão em filés de cerca de 200 gramas (ou do tamanho que você quiser) e os passe na farinha de trigo. Em frigideira com muito óleo - e óleo muito quente, como em toda boa fritura - deite os filés com delicadeza. Eles devem ficar mais do que a metade submersos. Em coisa de 30 segundos, ou mais, dependendo da grossura do filé, vire e frite o mesmo tempo do outro lado. A intenção é deixá-lo crocante, dourado por fora, mas mal passado por dentro. 'Enxugue' em papel toalha.
Enquanto isso, em outra panela, em fogo muito baixo - ou banho maria - derreta o cream cheese com um pouquinho de leite, para deixá-lo um pouco mais cremoso.
A essas alturas, na terceira panela de nossa história, você já terá reduzido à metade um copo (200 ml) de vinagre balsâmico, em fogo médio. Aí é só partir para o abraço.
O prato que ilustra o blog não levou a redução de balsâmico. Talvez, quem sabe, o adocicado das berinjelas dispense a cobertura igualmente doce do vinagre. Ou não. Enfim, liberte-se.
A bossa
Se curtir a versão berinjelada, corte o vegetal em cubinhos bem pequenos e refogue na frigideira, em fogo médio, com uma porção generosa de manteiga, ou azeite, acrescente sal e pimenta do reino moída na hora a gosto e, quando a berinjela já estiver dourada, derrame uma colher de sopa de shoyu, outra de mel e continue mexendo. Os cubinhos devem mesmo escurecer e ficar ligeiramente crocantes.
Não é preciso dizer que essa berinjela pode acompanhar tudo que você quiser.
Protagonista de trama já relatada neste blog, o risoto merece um capítulo à parte. Prato mágico desenhado pelos deuses da cozinha italiana, é também aventura ideal para quem começa a desbravar as panelas.
Primeiro, porque exige a barriga no fogão durante todo o seu preparo. Segundo porque, com ingredientes de qualidade e alguma prática, torna-se fácil fazer em casa um risoto igual ou superior ao de qualquer restaurante do pedaço. É também, portanto, o prato ideal para impressionar os convidados.
Imagine a cebola picada e refogada no azeite, o arroz regado pelo vinho branco, o cozimento num caldo perfumado, em ondulações incessantes da colher de pau, e a chave de ouro com a manteiga e o queijo derretendo na panela. Eis o rascunho de um risotto italiano, com dois ‘tês’, aqui abrasileirado para economizar teclado.
Sendo assim, está no arroz italiano tipo Arborio (há outros, veremos abaixo) o segredo do bom risoto, em que o arroz é ao mesmo tempo cremoso e resistente, ‘al dente’. O segundo ponto, parte trabalhosa do prato, é o líquido em que o arroz será cozido: um caldo retirado de legumes ou vegetais variados, carnes de todos os tipos ou qualquer coisa que se queria inventar, de acordo com o sabor proposto.
Parênteses: sim, pode-se facilitar bastante a receita utilizando o caldo em cubinhos, para um prato cotidiano e sem maiores pretensões. Nesse caso, minha dica é a seguinte: utilize a metade da quantidade proposta na embalagem. Se elas indicam que dois cubos devem ser dissolvidos em um litro d’água, dissolva um, no máximo. Não queremos um arroz com a grife Knorr.
Durante um bom risoto, acontece até de alguém perguntar: "Cara, você nunca pensou em abrir um restaurante?". A pessoa que perguntou, naturalmente, tem muito pouca noção do que seja abrir um restaurante, mas a frase, comprovando a tese do 'prato que impressiona', é como um shiatsu no ego do cozinheiro.
A sugestão para uma primeira vez é o Risoto de Cogumelos Paris. Bem servido para duas pessoas.
Ingredientes: Três colheres de sopa de azeite extra virgem / Uma cebola média picada em pedaços pequenos / 200g de arroz arborio (1/5 da embalagem) / Sal e pimenta preta moída na hora, a gosto / Uma taça de vinho branco seco / Três colheres de sopa de manteiga, ou a gosto / Três colheres de sopa de um bom queijo parmesão ralado na hora (boa dica é o tipo grana padano nacional), ou a gosto.
Para os cogumelos: 300g de cogumelos frescos tipo Paris / Um dente de alho picado bem miúdo / Salsa fresca picada, a gosto / Três colheres de sopa de azeite extra virgem.
Começando pelos cogumelos: Limpe-os superficialmente com um pano molhado (não enxágue, absorvem muita água) e corte cada um em dois ou quatro pedaços, dependendo do tamanho. Aqueça o azeite na frigideira larga, em fogo alto, e jogue os cogumelos e o alho. Após uma ligeira dourada, abaixe um pouco o fogo e refogue os cogumelos, mexendo ligeiramente, até ele soltarem seu caldo. Jogue a salsinha e cozinhe mais dois ou três minutos. Apague o fogo e deixe tudo na panela.
O risoto: Ferva numa panela o caldo, como faria com a água para um arroz comum, e mantenha o líquido em ebulição. Em outra panela, em fogo médio-alto, refogue a cebola no azeite até ela ficar transparente. Despeje o arroz e frite mais um pouco, sempre mexendo.
A taça de vinho é a primeira a entrar na dança, despeje sobre o arroz e, quando evaporar, jogue a primeira concha do caldo que está fervendo na panela ao lado. Quando a primeira concha 'secar', jogue a segunda e assim por diante, até o final do cozimento (15 a 20 minutos).
Ao contrário do arroz comum, que cozinha parado na panela, o risoto deve ser mexido sem parar. Se perceber que vai faltar caldo, derrame mais água na panela do caldo e espere levantar fervura de novo para continuar. Prove sempre, para descobrir o melhor ponto do arroz, e quando estiver pronto desligue o fogo e jogue na panela a manteiga e o queijo ralado.
Como nosso risoto é de cogumelos, minha sugestão é colocar metade deles, com todo seu caldo, na metade do cozimento do arroz, e o restante no final junto com a manteiga e o queijo. Misture tudo delicadamente, deixe descansar um minutinho na panela e sirva.
O caldo
Para o risoto sugerido, se for utilizar os cubinhos de caldo, recomendo os sabores carne, galinha ou legumes. Se quiser um caldo caseiro, uma sugestão para ser feita em 40 minutos, leve e utilizando apenas vegetais:
Três litros de água, de preferência mineral (para não abusar do cloro) / Duas cebolas pequenas sem casca, cortadas pela metade / Duas cenouras cortadas em pedaços / Um talo grande de salsão (aipo) cortado em pedaços / Três dentes de alho sem casca, cortados ao meio / Seis grãos de pimenta preta, inteiros / Raminhos de ervas frescas, como salsa, louro, tomilho e alecrim - as que tiver disponíveis.
Bote a panela com tudo no fogo e, quando ferver, abaixe a chama e reduza o líquido à metade. Você pode coar para obter um caldo límpido, mas aconselho, para simplificar, deixar tudo ali mesmo, fervendo, enquanto retira em conchas o líquido para cozinhar o arroz.
Amilo... Hã?
O segredo do arroz Arborio, colhido basicamente nas regiões da Lombardia e do Piemonte, no norte da Itália, está em sua concentração de amilopectina, um tipo de amido que dissolve no cozimento e deixa tudo cremoso. Considerado melhor que o Arborio, o arroz Carnaroli também pinta nas prateleiras do supermercado. E o terceiro arroz para risoto é o Vialone Nano, mais difícil de se encontrar. Na foto lá de cima, à esquerda estão os grãos arborios. À direita, os carnarolis.
Comprando
Em visita aos supermercados Zona Sul e Pão de Açúcar, encontramos os preços mais baratos no primeiro, em matéria de arroz italiano. No ZS, listamos em janeiro as seguintes marcas, na embalagem padrão de 500g:
Arborio ‘De Cecco’: R$ 9,98 / Carnaroli ‘De Cecco’: R$ 11,79 / Arborio ‘La Pastina’: R$ 9,69 / Arborio ‘San Frediano’: R$ 6,93
Como alternativa, o nacional ‘Tio João’ lançou a série ‘Variedades Mundiais’, anunciando grãos produzidos no Brasil com sementes importadas. Na embalagem ‘Cozinha Italiana’, o arroz Carnaroli custa R$ 8,95.
A culinária reserva, de fato, destino pouco amistoso para certos animais fofinhos. Mas me digam, por outro lado, que honra não pode ter um cordeiro que mal chegou no mundo e suas pernas já estão nas prateleiras de um supermercado. E com a possibilidade divina de dormir no vinho, quedar assado e voltar ao mundo como risoto.
Porque na sexta-feira, enquanto massageava com alho amassado e folhas de alecrim e tomilho a carne rosada da criança, o cozinheiro já tramava, silenciosamente, o risoto num ponto futuro – como diriam teóricos de cozinha e futebol. 
Sendo assim, no terceiro Natal de Gabriel, devoramos o pernil (ambos sorrindo na foto acima) e salvamos seus destroços. E foi na terça-feira que evoquei antepassados franceses, retirei o que consegui da carne rosada e tenra e lancei o osso do bicho no forno para 'derreter' por uma hora, inundando de água quente o refratário.
E fez-se o milagre do caldo perfumado (repusando na taça), como deve ser a alma dos belos e assados animais.
Essa é a história de um risoto que já foi para a galeria. Moderado na manteiga e no parmesão para compensar a gordura imperdível do caldo, e com direito a uma abusada meia taça de vinho tinto no refogado inicial.
Embriagado pelo aroma selvagem e desprovido de modéstia, o chef comentou com srta. Lolly: "Esse aqui, nem no Gero".
Mas vejam só, amiguinhos: um risoto de pernil que começa na sexta e termina na terça...
Dá para esperar no restaurante?
Obrigado, carneirinho.
1 - Que come tudo ou de tudo. 2 - Que se alimenta tanto de matéria vegetal como animal. 3 - Que absorve, consome e devora tudo.
Assim definidos, onívoros somos neste planeta.
E seremos breves ao dizer que, entre tantas terapias alimentares, este blog é adepto da dieta da sopa: o que estiver por aí dando sopa, vamos traçar.
Boca no Mundo são idéias, pensamentos, anotações, memórias e impressões gastronômicas aleatórias de um aprendiz apaixonado.
Está na mesa.
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