Gabriel estava brincando na casa do João, e fui ao supermercado pensando num jantarzinho legal para o filho, que o pai também comeria feliz: filé mignon para fazer picadinho, na manteiga, macarrão cortadinho e tomate em cubinhos, sem pele e sem sementes, com azeite e sal.
Mas os dois pequenos já tinham jantado quando cheguei, e só sobrou a minha fome. No caminho de casa, resolvi que o picadinho na manteiga receberia uma bela taça de vinho tinto no molho, e que talvez fosse melhor deixar os tomates inteiros quietos e utilizar uma polpa que tinha na geladeira para cozinhar nela um arroz arborio, num rápido risotinho vermelho, feito na mesma frigideira de ferro que a carne. Tudo rapidinho.
“Filho, peguei um filme muito legal de um festival de desenhos chamado Anima Mundi. Vou botar pra você ver enquanto faço meu jantar, tá?”
Gabriel, 3 anos, examinou cuidadosamente a capa do DVD e escolheu: “Quero o do tigre”.
1 - Na cozinha, foi tudo muito rápido. Enquanto a polpa de tomate esquentava numa panelinha, piquei meia cebola e fiz o mesmo com os filés, temperando o picadinho com sal, pimenta do reino e um toque de mostarda de Dijon.
2 - Refoguei a cebola no azeite, joguei por cima meio copo do arroz, aquela rápida ‘fritada’ e comecei a derramar aos poucos a polpa de tomate, já fervendo. Cozinhei o arroz na polpa, sempre mexendo (lembra?), e no final adicionei uma colher de manteiga e ralei um naco de queijo grana por cima.
3 - Mudei o arroz pronto de panela, limpei a frigideira com um guardanapo e passei o picadinho no azeite bem rápido. Retirei a carne e derramei o vinho. Rápida evaporada, outra colher de manteiga, fundo raspado e voltei a carne para a panela. Desliguei o fogo.
Na sala, mostrei o prato feito: “Filho, olha só que prato maneiro que eu fiz: arroz de tomate com picadinho e molho de vinho”.
“Que mistureba, papai”, respondeu a pequena criatura, coberta de razão.
Animado
E o tigre é mesmo um barato. Chama-se 'Tyger'. Prêmio de melhor direção a Guilherme Marcondes, no festival de 2006.
Doce de ovo em Beagá? Tudo bem, mas isso aí tem direto no Rio. Pensei dessa forma, claro, quando me contaram que havia uma lojinha premiada na capital mineira. E saí andando de manhã, em minha semana de Minas, porque é andando que se vê direito a vida.
De repente, não mais que de repente, surge na minha frente um letreiro de azulejos dizendo assim:
Não pode ser, pensei de novo, só pode ser aquele tal lugar que ganhou prêmio daquela revista. E quase na porta do meu hotel. A comida me persegue, isso já está provado. Respirei fundo e entrei.
E aqui só não grito um palavrão de estupefação em respeito às pérolas angelicais de açúcar e gemas, encantadoras de meus sentidos de lado a outro do balcão.
Receitas susurradas por freiras em conventos de séculos distantes, que o tempo tratou de transformar em pecados...
O que dizer do Jesuíta, ainda inédito em minha vida, recheado com creme de ovos e envolto em massa folhada coberta por um leve suspiro?
E o Pastel do Convento de Coimbra, com sua massa amanteigada e recheada de ovos moles?
Sem falar no conhecido Pastel de Belém, derretendo na boca.
“O negócio é que há beléns e beléns...”, me diria, pouco depois, a portuguesa Maria Fernanda Affonso, dona da festa, sobre a escolha de sua loja, há alguns anos, como a melhor do gênero no Brasil.
Revolução
Eu falei portuguesa? Maria Fernanda é na verdade Angolana. Formou-se em engenharia química para trabalhar nas minas de sua terra, mas acabou nas Minas Gerais. Foi forçada a deixar seu país com o pai, militar, após a revolução portuguesa de 1974.
“Nunca havia quebrado um ovo até chegar ao Brasil, mas os doces vieram até mim. Um dia acompanhei uma amiga numa aula de culinária, porque ela insistiu muito, fui fazer uns doces e eles foram ficando muito bons...”, conta Fernanda.
O resto, desculpem o lugar comum, é História. E dom.
“Os doces portugueses são feitos de ingredientes como gema, açúcar e amêndoas, mas são diferentes entre si. Cada um tem seu ponto. No início, achava que era como na química: 100g disso, mais 200g daquilo e pronto. Mas não é assim, na cozinha é preciso ter a mão”, afirma.
Alguém duvida?
E a lista celestial prossegue com Pastel de Santa Clara, Barriga de Freira, Toucinho do Céu, Papo de Anjo...
E nossos quindins e babas de moça, criados quando tachos portugueses caíram por cima de tabuleiros baianos fartos de cocos. Ou africanos, quem sabe. Como a doceira Fernanda.
Pê-ésse: Lá pelo século 18, as claras eram utilizadas em abundância pela indústria portuguesa, entre outras coisas, para engomar ternos e roupas em geral. Sobravam gemas. E sobrava também açúcar, que vinha das colônias e não era taxado nos conventos. Acredito eu, também sobrava tempo para as freiras. A história é mais ou menos essa.
Você era a favorita, onde eu era o mestre sala. Hoje a gente nem se fala, mas a festa continua...
Só cantarolando. Pensei na canção de Chico quando li o nome do restaurante que encerrou minha epopéia na alta gastronomia da cidade onde se avista o Belo Horizonte.
Havia acabado de entrevistar um ministro chamado Gil, e resolvi comer bem antes de uma longa tarde escrevendo no quarto do hotel.
E descobri A Favorita. Uma casa linda, diversos ambientes de bom gosto, balcões e mesas, muita madeira e janelas gigantes de vidro deixando a luz do dia participar do almoço.
E que almoço. Num grande quadro negro, as sugestões do dia anuciavam pratos como uma lasanha de funghi, ou singelas sardinhas com batatas, tomates 'concassé' e farofa de ovo.
Mas fui no cardápio, percebendo que a coisa era séria, e cravei: peito de pato ao molho de mel e gengibre, com legumes grelhados, batata gratinada e couve frita.
Um espetáculo, o 'magret' fatiado e mal passado. A leveza do molho. Perfeito. Uma inspiração resumida no instantâneo que abre o post. No couvert, repare no estilo da 'lâmina' de parmesão com gergelim.
E A Favorita virou rapidamente favorita. Uma tacinha de vinho, porque ninguém é de ferro, um café expresso e a inspiração da tarde mineira.
Eu não sei bem com certeza por que foi que um belo dia, quem brincava de princesa acostumou na fantasia...
Foi a Roma, e não viu o Papa? Não é grave, vamos combinar. Mas em Belô, faça-me o favor de visitar Dona Lucinha. Ou melhor, o restô da senhora que nasceu na cidade do Serro, teve onze filhos e apresenta seu currículo no folder da casa:
“Foi catequista, professora, salgadeira, doceira, feirante, quitandeira, diretora escolar e vereadora. Mas se considera mesmo uma cozinheira que se dedica a preservar a cozinha de origem, gerada dos primeiros anos dos setecentos nas Minas do Ouro e do Diamante”.
E parte daí a seqüência alucinante de panelinhas de ferro com amostras do melhor da tradicional cozinha mineira, em sistema de bufê. Tudo começando com a melhor linguiça na chapa, e um pote de molho quente de melado de cana para acompanhar.
E dá-lhe frango ao molho pardo, feijão tropeiro, torresmo, traíra no fubá, lombo de panela, vaca atolada, tutu, canjiquinha com costelinha de porco, jiló, quiabo, rabada com agrião...
Na hora do café - depois da ambrosia, do 'espera esposa' e da goiabada cascão -, o garçon trouxe um bule daqueles de fazenda, com cafezinho caseiro e rapadura para adoçar.
Coração de Minas
A letra tem uma história curiosa. Foi musicada - e gravada - em momentos distintos, por dois grandes parceiros do poeta, Cláudio Nucci e Francis Hime. Duas melodias bem diferentes, ambas maravilhosas. É do mineiro Cacaso, que já se foi. Meu pai, não por acaso.
Oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece Goiás. Goiás, que aliás, jamais conheci
Oh, Minas Gerais, onde é que estás, na música aérea das suas vogais
Na fúria plangente, nas queixas, nos ais, na dor dos casais, no sangue vertido de suas vestais
Oh, Minas Gerais, na noite calmosa, oh, Minas Gerais. Que doces cantigas, que dores gerais
Tem pena de mim, assim não se faz. Eu fecho essa porta, acendo esse gás, mas assim vira jazz
Oh, Minas Gerais, revira nas arcas os seus enxovais
Temporões, temporais, tanto fez, tanto faz, invento um cais. Que doce veneno, que águas, que sais
Essa senhora que vocês estão vendo na fotografia desbotada, sorriso aberto em algum canto de sua Itália, é Dona Derna Biadi, alma boa que me acolheu no restaurante imperdível que inaugurou há quase 50 anos em Belo Horizonte, casa que leva seu nome.
Na verdade, prestem atenção, o primeiro restaurante da família Biadi abriu na Toscana em 1892. Hoje estamos na terceira geração, e quem comanda negócios e cozinha é Memmo, filho de Derna, que optou pela pura tradição no atual cardápio.
O ambiente remete aos salões do início do século passado, móveis largos de madeira, grandes mesas e espelhos, mas ao mesmo tempo o clima é de informalidade entre garçons e clientes.
Sentei-me numa espécie de varanda dando para a rua tranqüila e arborizada, e me digam se não seria esse o lugar ideal para descansar, às 22h30, após uma viagem que havia começado às 9h, arrumando a mala, e depois de um dia inteiro trabalhando, sem tempo para almoçar.
Se minha avó já dizia que a fome é o melhor tempero, só posso dizer que quase fui aos céus para encontrar Dona Derna, na sugestão do maitre: "É um cordeiro, pedaços da paleta cozidos no vinho Malbec, com papardelle puxado no azeite com brócolis e bacon".
Esperei diante de um couvert daqueles clássicos, com direito a fatias de salaminho e 'filés' de beringela marinados no vinagre, e um pão de alho delicioso, todo verde de salsa. E uma taça de um muito honesto Cabernet Sauvignon Casa Rivas, chileno, que casou-se com o cordeiro e foram felizes para sempre.
No menu, a alegria da tradição, com entradas como melão com presunto cru e até um salpicão de frango; massas como o nhoque com picadinho e 'standards' como o filé a parmegianna.
Para se ter uma idéia de meu estado de espírito quando o carneiro chegou, basta dizer que esqueci de fotografá-lo. Ataquei no ato e só com o prato limpo é que fui me lembrar do blog e de meus famintos leitores...
Bom, a sobremesa chocrível está na página. Um 'Semifreddo de limão siciliano', espécie de mousse gelada, com uma calda natural de morango sem nenhum açúcar, apenas a fruta.
E Dona Derna ali, sorrindo e nos lembrando que 'la vita è bella'...
A casa fica na Rua Tomé de Souza 1.343, Savassi (3223-6954).