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| Pedro Landim |
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A idéia veio junto com os primeiros dias escaldantes da estação, num brinde de taças geladas de espumante: por que não desfrutá-las entre os seres marinhos fresquíssimos, escolhidos a dedo pelo freguês e preparados na hora?
Uma benção ao mercado chamado São Pedro, nosso apóstolo da maresia que abençoa os fresquíssimos peixes em Niterói.

O programa começa na parte de baixo - irresistível coleção de peixes, siris, caranguejos, lagostas, cavaquinhas, mariscos, ostras, ovas e camarões - e termina no segundo andar, onde os pequenos bares alugam suas panelas aos peixes levados pelo freguês.
Se os cozinheiros cobram cerca de R$ 7 para um quilo de frutos do mar, a 'rolha' sai de graça, naturalmente, nas mesinhas populares.
Resumindo: leve a sua garrafa e seja feliz estourando, por exemplo, um belo espumante rosado que vai emoldurar com perfeição camarões empanados, ostras frescas, postas grelhadas de salmão ou mesmo mexilhões ao vinagrete. Converse com o pessoal, peça um balde de gelo e corra para o abraço.
Estive por lá outro dia acompanhado de uma cava rosada Don Román, brindei com garçons e cozinheiros e voltei para casa com o espírito renovado, sobrevoando pela ponte a Baía de Guanabara no fim da tarde. A gente merece.

Pê-ésse: o Mercado de Peixes São Pedro fica na Rua Visconde do Rio Branco 55, Ponta D'Areia (2620-3446), cinco minutos após a descida da Ponte, caindo pela direita.
Sei, amigos, que ando devagar por aqui. Espécie de regime espiritual, momento de reciclagem. Me guardando para quando o Carnaval passar.

Após a quarta-feira, me mando. Vou-me embora para o gelado inverno do Mar Cantábrico. Lá, serei amigo do rei. Terei as melhores iguarias da Terra, nas mesas que escolherei.

Desenha-se a viagem de minha vida. Gastronômica, com certeza. Por enquanto, o aroma do mistério nos faz bem.

E recordar é viver. Há dois anos, estive de passagem em Barcelona, onde andei por alguns dos melhores bares de tapas e comidinhas mediterrâneas feitas com as mais frescas criaturas do mar.

Programado até certo ponto, com alguma pesquisa feita apressadamente na Internet, deixei-me levar pelas ruas medievais do Bairro Gótico, seguindo as linhas inesperadas do arquiteto catalão...

E o acaso me levou a balcões inesquecíveis e venerados por grandes chefs. Como os da Cal Pep, na escondida Plaça de les Olles, e do Bar Pinotxo, no mercado da Boqueria.

Pois atravessarei novamente o oceano, dessa vez com o objetivo principal de comer e pesquisar a cultura gastronômica de um povo que fala um língua indecifrável e vive ao redor da mesa...

Enquanto isso, neste último dia do ano, para receber 2008 entre goles de champagne (já está no gelo) e comidas muito boas, algumas cores e momentos espanhóis, registrados por minha inseparável e pré-histórica câmera digital. Felicidades para todos nós.
Lembro de uma amiga certa vez falando que gostava de tomar banho bem quente no verão, porque na hora de sair do chuveiro, acabava se refrescando com a temperatura externa inferior a da água. Entendeu?
Sei lá, teoria meio estranha, mas estava lembrando do assunto diante de um arroz de jasmim com camarão, aventura tailandesa.
É o negócio do quente-frio, do verão arrebentando lá fora e da pimenta aquecendo o corpo e tornando-se não apenas possível, mas recomendada na estação. Viajei? De repente.

Mas podes crer que a vibração ‘thai’, em mesas tradicionais ou inventivas, tem a ver com o balanço do picante e do doce, negócio de contrastes. O equilíbrio faz a qualidade.
E o arroz foi, na minha opinião, o ponto alto do jantar para convidados no Sawasdee, tailandês que bomba em Búzios e agora abriu as portas na Dias Ferreira, passarela do agito gastro-chique no Leblon.

Cuidando pessoalmente da cozinha, com as ‘woks’ fumaçantes e perfumadas visíveis através de uma parede de vidro, o chef Marcos Sodré apresentou suas armas.

Mini- terrines de carne de porco, camarões e especiarias; samosas (pastéis) de cogumelos shiitake e shimeji com chutney de abacaxi picante; satay de camarões com molho de amendoim; sopa de mariscos com leite de coco; o risoto ‘thai’ e um magret de pato com molho de gengibre e um purê (acho que) de maçã.

Nas taças, espumantes rosados, interessantes do início ao fim do menu - e vou apostar neles na estação que ferve.

Oh, Vida
A maior prova de carinho, para um blogueiro, é quando ele para de escrever por algum tempo e recebe chamadas dos leitores. O trabalho anda a mil por hora, e outras coisinhas que têm me deixado sem tempo para me dedicar como eu gostaria (e gostaria mesmo) ao nosso cantinho guloso. Mas vem muita coisa boa por aí, não se esqueçam de mim.
Eu ligava o violão com o captador e o amigo Thomas plugava o baixo. Para o terror dos vizinhos - minha mãe também se desesperava -, tocávamos 'Walking On The Moon', simulando a performance de Sting e Andy que melhor resume a sonoridade 'policiana'.
Pois lembrei-me daquelas tardes adolescentes em Copacabana quando, diante de 60 mil pessoas, no estádio do River Plate, Stewart Copeland fez soar um imenso gongo e Andy Summers começou a dedilhar a introdução histórica de 'Message in a Bottle'. Meninos, eu vi.
Cabaña
E também comi, porque tenho boca. Me atirei nas carnes de Buenos Aires, se é que os amigos me entendem. E meus pés me levaram ao paraíso do boi no prato.

Tinha três nomes de restaurantes anotados num pequeno envelope do hotel, e já começava a encher o saco do trio Bernardo, Horácio e Mário, que preferiam visitar Puerto Madero - lindo porto reformado da cidade - e comer o que pintasse por lá.
A reza forte deu resultado. Na beira do rio e de repente, não mais que de repente, avistei um nome em relevo na madeira: Cabaña Las Lilas. O coração (ou seria estômago?) bateu forte.
Na véspera da viagem, em rápido papo pela Internet, o brother Paulo Celso, repórter político e amante da boa mesa, havia me indicado esse nome como quem pronuncia palavras mágicas.
Vida de Gado
Trata-se dos bois da fazenda Las Lilas, que há 70 anos desenvolve reprodutores ‘premium’, cujos filhotes, tenros novilhos, acabam assados em 13 cortes diferentes.
É o tal negócio das imagens que falam por mil palavras. A estrela desta página é um perfeito bife de chorizo (o contra-filé argentino), e reparem na charmosa vaquinha espetada, indicando o ponto da carne.
A sobremesa é um sorvete de doce de leite depositado sobre o próprio, de tirar o juízo de um ser-humano.

O boi hermano vem de raças européias, com maior percentual de gordura entremeada na carne, fato que lhe empresta sabor e maciez superiores às carnes de nossos pastos, onde predominam raças asiáticas.
Corroborando a tese debochada (e procedente) de um dos colegas de viagem, de que Buenos Aires virou colônia brasileira, o restaurante pertence aos donos das casas Rubaiyat, de São Paulo.
Pensei em ligar para o Sting depois do show, parece que ele há muito voltou a comer carne vermelha. Mas parece também que só come os bois que ele próprio cria, em sua fazenda orgânica na Inglaterra. Disse uma vez que odeia açougues. Então tá.
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