BEBENDO O PARAÍSO
“Nessa época do ano os dias são lindos na serra, acho boa a idéia das ostras, para comermos acompanhadas de um espumante no jardim”
A frase de Mr. Vald, o Senhor do Castelo, antecedendo a viagem ao Paraíso, anunciava um fim de semana para a História.
O roteiro de um sonho, daqueles em que jamais pretendemos despertar. Feito de grama verde, pássaros, flores, queijos, pães, vinhos, ostras, vieiras, palmitos, bacalhau, folhas frescas e...
...Zequinha: o leitão que do forno a lenha alcançou a eternidade numa tarde de sábado.
Luz
A qualidade dos ‘caldos’ degustados, garrafas cruzando histórias de vida dos confrades, em viagens, heranças e adegas sagradas, elevou nossos espíritos aquecidos pelo sol de inverno.
A luz sonhada por todos os fotógrafos. 
O encontro sonhado por todos os Babaccos.
Mito
Em que pese ausências sentidas como a de nosso barítono (tinha até microfone na van...), do Sr. Louis e do zagueiro beberrão Alex Lalas, os melhores espíritos vinícolas de Chile, Portugal, Espanha, Itália e França foram evocados para homenagear Zequinha. O porco. O Mito.
“Ele parece dormir, sereno”, disse algum Babacco diante da visão do bicho sobre as brasas da lenha acesa.
Mais tarde, com a mesa posta, diante do leitão e provavelmente tomado pela emoção arrebatadora que desceu sobre o vale, Sr. Candy soltou a frase do fim de semana: “Esse peru parece um cabrito”. Puro sentimento.
Mar
Mas tudo começou mais cedo com as ostras, que ganharam a companhia de limões galegos tirados na hora do pé, em paleta de cores vivas refletida na aquarela de um ‘single vineyard’ chileno Leyda Sauvignon Blanc. E cavas, porque borbulhar é preciso.
Enquanto a trupe relaxava entre espumantes, queijos, pães da serra e bacalhau no azeite, alguém soltou questão fundamental:
“E as vieiras, como faremos?”
Chef Koki pegou de voleio, sem deixar o molusco cair: “alho, salsa, manteiga e limão”.
E assim aconteceu na frigideira: o quarteto fantástico de temperos chiando, e as vieiras dançando...
Em outra versão, idéia de Sr. Candy, foram ao forno no pão, cobertas com os mesmos ingredientes... 
Safras
Como é impossível cantar aqui a melodia dos vinhos degustados, digo apenas que o almoço começou com um Chambertin Clos de Beze, Grand Cru da Borgonha, safra de 1993 (não digitei errado), e terminou com um Barolo Serralunga d’Alba 2000, que Mr. Vald apresentou como “a safra 10 do Piemonte” — e é bom tomar nota de tudo o que diz Mr. Vald. 
Entre as gemas servidas no meio, um Quinta do Valdoeiro, rótulo da bairrada para homenagear mais uma vez nosso prato principal.
No terceiro tempo, aquele dos doces, destilados e charutos, um novo mundo se abriu convidando os cinco sentidos para dançar embaixo da lua cheia, que surgiu recortando as montanhas.
O doce de leite, por exemplo, foi tirado no mesmo dia da vaca e feito sem pressa no tacho. Beleza que devoramos sorvendo um Tokaji 4 Putonyos — o incrível vinho húngaro de sobremesa (maçã, cravo, especiarias...) que uniu Friburgo e Budapeste pouco antes de Cuba pintar nos charutos.
E quando tudo parecia mais que perfeito, nosso insuperável anfitrião adentrou o recinto portando um estojo de madeira em cujo interior repousava, em cama de palha, uma das melhores coisas que já passaram por meus lábios nesses trinta e muitos anos de vida: um Armagnac de 1976, rótulo desbotado, presente que Mr. Vald ganhou certa vez em suas andanças francesas.
Poema
Absorto em busca de estrelas cadentes estava pensando que os vinhos são a maior expressão do amor, da amizade e do potencial de felicidade e convívio entre os seres humanos, antídotos para os tempos amargos em que vivemos. 
São peças de resistência, subversivos no melhor sentido da palavra.
Meu até breve é com Drummond.
Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.








