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| Pedro Landim |
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“Nessa época do ano os dias são lindos na serra, acho boa a idéia das ostras, para comermos acompanhadas de um espumante no jardim”
A frase de Mr. Vald, o Senhor do Castelo, antecedendo a viagem ao Paraíso, anunciava um fim de semana para a História.

O roteiro de um sonho, daqueles em que jamais pretendemos despertar. Feito de grama verde, pássaros, flores, queijos, pães, vinhos, ostras, vieiras, palmitos, bacalhau, folhas frescas e...
...Zequinha: o leitão que do forno a lenha alcançou a eternidade numa tarde de sábado.

Luz
A qualidade dos ‘caldos’ degustados, garrafas cruzando histórias de vida dos confrades, em viagens, heranças e adegas sagradas, elevou nossos espíritos aquecidos pelo sol de inverno.

A luz sonhada por todos os fotógrafos.

O encontro sonhado por todos os Babaccos.

Mito
Em que pese ausências sentidas como a de nosso barítono (tinha até microfone na van...), do Sr. Louis e do zagueiro beberrão Alex Lalas, os melhores espíritos vinícolas de Chile, Portugal, Espanha, Itália e França foram evocados para homenagear Zequinha. O porco. O Mito.

“Ele parece dormir, sereno”, disse algum Babacco diante da visão do bicho sobre as brasas da lenha acesa.
Mais tarde, com a mesa posta, diante do leitão e provavelmente tomado pela emoção arrebatadora que desceu sobre o vale, Sr. Candy soltou a frase do fim de semana: “Esse peru parece um cabrito”. Puro sentimento.

Mar
Mas tudo começou mais cedo com as ostras, que ganharam a companhia de limões galegos tirados na hora do pé, em paleta de cores vivas refletida na aquarela de um ‘single vineyard’ chileno Leyda Sauvignon Blanc. E cavas, porque borbulhar é preciso.

Enquanto a trupe relaxava entre espumantes, queijos, pães da serra e bacalhau no azeite, alguém soltou questão fundamental:
“E as vieiras, como faremos?”
Chef Koki pegou de voleio, sem deixar o molusco cair: “alho, salsa, manteiga e limão”.
E assim aconteceu na frigideira: o quarteto fantástico de temperos chiando, e as vieiras dançando...

Em outra versão, idéia de Sr. Candy, foram ao forno no pão, cobertas com os mesmos ingredientes...

Safras
Como é impossível cantar aqui a melodia dos vinhos degustados, digo apenas que o almoço começou com um Chambertin Clos de Beze, Grand Cru da Borgonha, safra de 1993 (não digitei errado), e terminou com um Barolo Serralunga d’Alba 2000, que Mr. Vald apresentou como “a safra 10 do Piemonte” — e é bom tomar nota de tudo o que diz Mr. Vald.

Entre as gemas servidas no meio, um Quinta do Valdoeiro, rótulo da bairrada para homenagear mais uma vez nosso prato principal.

No terceiro tempo, aquele dos doces, destilados e charutos, um novo mundo se abriu convidando os cinco sentidos para dançar embaixo da lua cheia, que surgiu recortando as montanhas.

O doce de leite, por exemplo, foi tirado no mesmo dia da vaca e feito sem pressa no tacho. Beleza que devoramos sorvendo um Tokaji 4 Putonyos — o incrível vinho húngaro de sobremesa (maçã, cravo, especiarias...) que uniu Friburgo e Budapeste pouco antes de Cuba pintar nos charutos.

E quando tudo parecia mais que perfeito, nosso insuperável anfitrião adentrou o recinto portando um estojo de madeira em cujo interior repousava, em cama de palha, uma das melhores coisas que já passaram por meus lábios nesses trinta e muitos anos de vida: um Armagnac de 1976, rótulo desbotado, presente que Mr. Vald ganhou certa vez em suas andanças francesas.

Poema
Absorto em busca de estrelas cadentes estava pensando que os vinhos são a maior expressão do amor, da amizade e do potencial de felicidade e convívio entre os seres humanos, antídotos para os tempos amargos em que vivemos.

São peças de resistência, subversivos no melhor sentido da palavra.

Meu até breve é com Drummond.
Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Fica logo ali, na Rua do Senado 273, Centro do Rio, numa portinha meio escondida e sem letreiros, a casa das rosquinhas que são como nuvens no céu da cidade.
A porta é pequena e sem letreiro, e um breve corredor leva o visitante para o interior da fábrica. Na verdade, uma grande cozinha enfeitada pelo aroma de alguma coisa gostosa no forno.
Foi assim que ficamos feito duas crianças, eu e o fotógrafo João Laet, durante um passeio no reino dos Biscoitos Globo.
E descobri em poucos segundos o segredo dos biscoitos: estão sempre fresquinhos porque vendem mais, e vendem mais porque estão sempre fresquinhos.

Os crocantes que há mais de 50 anos compramos na rua, na praia, no Maracanã ou em qualquer outro programa carioca foram feitos provavelmente no mesmo dia, ou no dia anterior. É por isso, também, que eles não estão nos supermercados.
Basta dizer que a massa é preparada há 40 anos por Edmilson da Silva, funcionário que já tem tempo de trabalho suficiente para se aposentar, mas diz que não larga por nada sua tarefa.
É ele quem joga, no olho, todos os ingredientes do biscoito num grande recipiente que mistura tudo num sistema semelhante ao de uma batedeira lenta: polvilho azedo, água, gordura vegetal, ovos, leite e sal (ou açúcar, nos doces).

Depois, em panela menor, acerta o ponto da massa na mão. E garante: se utilizar algum tipo de batedeira os biscoitos queimam.
O próximo passo é abastecer com a massa a máquina 'pingadeira', que gira e deposita nas bandejas a massa em forma de disquinhos finos, que crescem assando por 14 minutos em forno a 230 graus.
Milton Ponce, 68, fundador da marca e até hoje cuidando diariamente a produção com seus filhos, garante: na praia, expostos ao sol, as argolas de polvilho ficam ainda mais crocantes.
A idéia de um produto que adquire o sabor da paisagem, de fato, é irresistível e ajuda também a explicar o incrível sucesso espontâneo da marca que jamais recorreu à propaganda publicitária que não fosse o 'boca a boca' e a exposição do produto nas mãos dos vendedores que sempre aparecem nos caminhos do Rio.

Na fábrica, qualquer um pode chegar e comprar, a qualquer hora, cada pacotinho por 50 centavos. O quilo sai por baratíssimos R$ 7, e já imaginou o quanto rende o quilo de um biscoito que quase flutua?
Vale o passeio. Diga ao Milton que ficou com água na boca...

Samba e gastronomia estão de luto. Costumo deixar as notícias tristes para as manchetes diárias dos jornais, mas tenho que prestar reverência a mais um templo da boemia carioca que fecha as portas.

Chega agora à redação uma nota da assessoria de imprensa entitulada: “Estephanio’s, últimos suspiros”.
O bar de Vila Isabel, segunda casa de craques como Aldir Blanc, palco de algumas das rodas de samba mais importantes da cidade, reduto de torcedores e comemorações, e uma das mais gostosas carnes secas com aipim da praça, anunciou “férias por prazo indeterminado” devido a dificuldades financeiras.

O último suspiro está marcado para o próximo domingo, dia 6, regado a comida e música, não poderia ser diferente. O evento ‘Balance esse cozido’ começa ao meio-dia e vai até o último cliente. O bufê de cozido custará R$ 18,50, ao som de músicos e grupos que já passaram pelo boteco.
Já na segunda-feira começam as obras de outro negócio que ocupará o lugar, notícia ainda guardada em segredo que nos leva a especular a abertura de nova casa de uma das famosas redes de bares cariocas. Gerardo, o dono do pedaço, não abandonou a idéia de abrir futuramente o Estephanio’s em novo endereço.
Deixo aqui, com saudades, fotos de reportagens que fiz no bar, uma delas durante a Copa, com a bandeira que agora parece homenagear a casa em seus últimos dias de vida.

Estão lá os vinis, fotos e quadros históricos na parede, além do busto do mestre Aldir. Sem falar no relógio mantido sempre duas horas atrasado, sacada genial e mais carioca impossível.
Junto-me nesse momento aos camaradas Janir Júnior e Juarez Becoza, e aos amantes dos lugares que fazem único nosso Rio, para o inevitável adeus - as cinco letras que choram.

Fotos: Carlo Wrede e Márcio Mercante
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Desde o dia em que entrou na cozinha para arriscar um risotto de cogumelos, a vida de Pedro Landim mudou da água para os vinhos.
Repórter de cultura e colunista de gastronomia do DIA - onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2005 -, adora cozinhar, comer e falar de comida.
No jornal impresso, a coluna homônima é publicada às terças-feiras, no Guia O DIA-Michelin de Viagem.
Bom apetite. |
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