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| Pedro Landim |
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Era aquela uva pequena e verde, estalava no dente. Tão doce, parecia que alguém tinha injetado mel na fruta. "Uvinhas moscatel", minha avó anunciava a sobremesa. O nome bonito ficou na cabeça.
Um dia descobri uma bala japonesa daquela uva. Docinha, puro gosto da fruta, coisa de japonês. Coisa de Moscatel.
Depois comecei a beber vinho e ler um monte de nomes estranhos de uvas, que eu nunca tinha ouvido falar nas sobremesas e feiras da vida. Por que as uvas dos vinhos não eram as mesmas das mesas?
Até que li num rótulo a palavra 'Moscatel'. Soube na mesma hora: esse vinho é doce, alguém deve ter injetado mel na garrafa...
E é assim: tal uva, tal vinho. Uma uva de feira e de rótulo.
Setúbal
A primeira vez que ela me surpreendeu na garrafa foi após um jantar especial com amigos em Barcelona. Veio com bolhas na sobremesa, quando o sommelier trouxe um exemplar classudo do Moscato D'Asti, o famoso espumante doce italiano.

É um vinho de pecado: tem pouco álcool, é leve e instigante. Depois da primeira taça dá vontade de beber todo o resto da garrafa, mas o preço não é exatamente o da cerveja...
Acontece que lá em Portugal, na região de Setúbal, nas Terras do Sado, onde também é produzido o vinho Periquita, há um vinho D.O.C. muito bem falado e pouco exportado: o Moscatel de Setúbal.
E acontece também que o supermercado Zona Sul resolveu neste ano importar um estoque do J.P. Moscatel de Setúbal, uvas colhidas em 2001, três anos de envelhecimento em barrica - o mínimo permitido na denominação -, que chegou nas prateleiras a R$ 28.
Aí é como disse um amigo vendedor de vinhos: "Está de graça". E outro dia alguém me disse que o viu na loja do Jardim Botânico por R$ 23. Levei três, sem perdão.

E aproveitando que tenho me exercitado de manhã, e bebido chá verde à noite, resolvi degustar o vinho geladinho e acompanhado de variados mini-tarteletes de frutas do Pain de Lapin, loja lá perto de casa que ganhou o prêmio de melhor doce da revista Veja Rio.
Vai dizer que não dá vontade de comer a foto lá de cima?
Na boca, o vinho traz passas, laranja, mel... Foi o que percebi de marcante. E você?
Adoro fazer compras com o Gabriel. No supermercado, pego aquele carrinho pequeno que ele gosta de empurrar. Se sente o tal.
E mesmo quando estou no comando é preciso atenção, porque a qualquer momento os potes de jujuba podem despencar das prateleiras, algo assim. Na Cobal, vamos com ele dentro do carrinho, gerenciando as compras.
Estávamos assim, rodando e olhando as coisas, quando pensei no peixe. Dessa vez foi daquele jeito, como perguntou a Nina, leitora aqui do blog, sem nenhuma receita específica na cabeça, vontade apenas de leveza, sem complicar.

Peixe e legumes. Filé de linguado, tomate cereja, abobrinha, berinjela e batata. Ah, e uns camarões para divertir as crianças (eu e ele).
Essa idéia simples de cortar os vegetais em cubinhos e assar tudo no forno separadamente, com azeite, acabou resultando num projeto de ratatouille perfeito, embora as receitas tradicionais sejam feitas em cima do fogo.
Para o Gabriel, arrumei os legumes separados no prato, e sem ervas, ainda muito pronunciadas ao paladar de 4 anos.
Misturando delicadamente, e cobrindo com ervas frescas, como fiz no dia seguinte para acompanhar uma picanha no Dia das Crianças, temos uma ótima versão do prato provençal.

Mas vamos devagar e sempre, navegando em mar de linguados. Os filés delicados, quase transparentes, temperados com (pouco) limão, sal marinho e pimenta do reino moída, generosamente.
Os legumes em cubinhos, como falei, vão ao forno em refratários, em apenas uma camada, sem sobreposição, regados com azeite, e os tomatinhos cortados ao meio. Assim vão assar perfeitamente.
Os camarões, limpos e secos, serão temperados e assados brevemente, da mesma forma, e atenção para o caldo maravilhoso que soltarão no forno. Jogue por cima do peixe, ou tome de colher.

Os filés de foram grelhados no azeite, com um pouco e manteiga, e já ia me esquecendo das batatas: cozidas, fatiadas e coradas no azeite bem quente.
Canção
Embora seja um devorador inveterado de uvas, prenúncio do futuro enófilo, Gabriel foi de mate, enquanto o pai se divertia com um rosé nacional delicioso e recém-lançado: o Dal Pizzol Do Lugar. Caiu à perfeição em nosso almoço azeitado e perfumado de pimenta.

É um vinho de acidez acentuada e frutas vermelhas no paladar. Bom corpo e tudo o que se espera de um bom rosado.

Você lembra, lembra, eu costumava andar bem mais de mil léguas pra poder buscar flores-de-maio azuis, e os seus cabelos enfeitar...

Coloquei os sapatinhos do Gabriel para secar na janela e me lembrei dessa canção.
De minha cadeira esparramada na areia, o mar abre-se como janela. Sol e azul. Pedra recortada pelo vento. Pintou leste, varrendo as nuvens. Cheiro de conchas, vento buziano.
Poucas horas antes, fim de noite, era chuva forte e sudoeste. Cachecol, casco e vinho tinto.
Após a recepção num prato de arroz fantástico de abóbora e camarões, coisa das panelas thai do chef Marcos 'Sawasdee' Sodré, fui dormir avisando à tropa: é Búzios, vai dar praia.
Deu no que deu. Sol primeiro, chuva depois e sabores de terra e mar à vista. No rastro do Degusta Búzios - festa anual gostosa -, boas companhias unidas para comer, beber e viajar na orla pintada pelas traineiras de pescador.

Dormindo na praia de João Fernandes, sonhei com os búzios da adolescência. Anos 80, anteontem, a aldeia de pescadores onde acampávamos no canto deserto de Geribá.
A noite virada em alguma fogueira, céu dividido entre noite e dia. Já gritando dentro do mar antes de a última estrela sumir do céu, surfe da aurora. Água totalmente dourada pelos primeiros raios de sol.
Quando o sudoeste sacudia Geribá e o tempo fechava, era trip para a Brava e as esquerdas rápidas, o visual das escarpas. Subindo e descendo os íngremes que repousam no final da península, estradas de terra e trilhas, olho no chão com medo da cobras.

João Fernandes era mais ou menos como aquelas praias de Lagoa Azul, perigava esbarrar com Brooke Shields em tanga de folhas. Azeda ficava deserta no dim de tarde.
Hoje, ali mesmo nas trilhas são estradas com vans que passam gritando: "Azeda-Orla-Armação!". E há uma casa de câmbio em João Fernandes, paro aqui.
O negócio é que a benção ali foi da pesada. Deus estava num dia ótimo quando fez Búzios, que continua mexendo no coração mesmo depois que as praias viraram condomínios.
Mas perdoe-me o leitor se dos pratos me distancio em devaneios particulares... Deve ter sido aquela eterna maresia...

Mangue
Acontece que ergueu-se rapidamente no manguezal, na antiga colônia de pescadores de Manguinhos, um grande deque de madeira sustentando um pólo gastronômico que posso apostar - claramente afetado pelo vírus do jornalismo de entretenimento - que será o point do próximo verão.

Participamos de um ensaio para a abertura do Quadrucci, uma estrela do deque, muito bem recebidos pela equipe da chef Maia, com mini-bruschetas de frutos do mar, em focaccias assadas na hora em forno à lenha, e almoço com ceviche adornado por frutas, salmão com molho de manga e muitos vinhos.

De tanto fuçar entre garrafas que apareciam cobertas de gelo, o blogueiro acabou recebendo uma taça de certa champagne vintage que ai meu jesus. Com o enófilo e zagueiro Alex Lalas, e o ponta-de-lança italiano D'Agostini, a tarde virou noite, que virou madrugada e nada de taça vazia.

Pinturas
Tive inclusive que adiar a volta para segunda, vejam que drama, para conhecer o hotel Apa Pau Brasil, na Praia das Caravelas, em reserva ecológica, onde a chef Claudia Mascarenhas serviu mesa a papo generosos, apresentando um menu trabalhado em 'crostas'.

Assim: as costelas de cordeirinho tinham crostas de gergelim e funghi, as bananas de sobremesa vinham em crosta de sucrilhos e os camarões da entrada, perfeitamente empanados com...

"Uma mistura de coco ralado, farinha panco e farinha de trigo", contou a chef.

Do lado de fora, o tempo virava pela última vez nas grandes janelas, e o sol de pintura que ilumina as rosas no copo desta página deu lugar à chuva torrencial lavando as pedras.

Ficarei devendo a foto do arroz da chegada, tinha deixado a máquina no carro. Mas apresento em linhas gerais a receita, como foi passada pelo chef Marcos Sodré, há 10 anos pilotando suas woks apimentadas com vista para o mar de Búzios.
Tudo começa com refogado de cebola, alho porró, pedaços de abóbora japonesa e pasta de curry vermelho. Depois um caldo feito com água e gengibre cozinha os sabores. Tudo é processado num creme de abóbora especial, temperado no nam pla - aquele molho de peixe salgado onipresente na culinária tailandesa.

O arroz Jasmin cozinha separadamente e incorpora-se ao creme de abóbora. Por cima de tudo, entram camarões 'laqueados' num molho de tomates assados, pimenta, ervas e especiarias. No final, toques de uma cebola frita e desidratada que só no restaurante. Diz que começa com o óleo frio e dura coisa de uma hora o processo.

De modo que, meus amigos, de modo que...
Um arco-íris me guiou de volta ao Rio, e isso não é força de expressão. Juro que vi.
Sessenta anos de mamãe e um divertido ensaio de bufê. Poucas e boas comidinhas para bons e poucos convidados. Preferência para o frescor, legumes em cores e apresentações variadas.
Texturas preservadas em quase nada de fogo, muito azeite e dois representantes salgados de mar e terra: presunto cru e bacalhau.
Para bebemorar, espumantes e champanhes, antes da maciez do tinto espanhol Dom Román, um Rioja que eu recomendo para todo mundo, sem estresse na harmonização com sabores variados e instigantes.

O repertório de belisquetes apresentou, por ordem de entrada:
1 - Carpaccio de cogumelos (frescos e crus, cortados em lâminas, marinados durante a noite no azeite e cobertos com cubinhos de tomate sem pele e pedacinhos de azeitonas pretas, e regados com vinagrete de laranja e tomilho).
2 - Tartar de salmão (já famoso por aqui: cebola roxa, salsa, azeite, limão e pimenta dedo de moça, tudo muito picado).
3 - Rolinhos de pimentão com bacalhau (filés de pimentão pelado na chama recheados com brandada de bacalhau socado com azeite, pimenta do reino e cebola pré-refogada no azeite. Uma folhinha de manjericão em cima de cada um).
4 - Aspargos com presunto cru (presunto enrolando pedaços de aspargos refogados no azeite, meia fatia de tomate cereja e queijo grana ralado finamente por cima).
São tantas coisinhas miúdas... Petiscos, tira-gostos, tapas...

Amo muito tudo isso.
Chamas
Já falei alguma vez do pimentão pelado na chama? É o que há. Desde pequeno ouço falar nisso, era um dos assuntos entre os tantos de comida que rolavam na casa de minha avó.

Ela sempre falava de como o pimentão sem pele se tornava mais leve e digerível, porque tinha algumas implicâncias com o legume.
Fui perceber depois que uma comida, para ser gostosa, não precisa ser necessariamente "leve e digerível", mas até hoje não conheci melhor forma de se aproveitar o sabor e a suculência dos pimentões.
É um processo curioso e que requer certo trabalho e alguma bagunça na cozinha, naturalmente reduzida com a prática. Quem não conhece e vê pela primeira vez acha que você enlouqueceu.
Resumindo, trata-se de colocar os pimentões diretamente na chama, queimando todos os lados até ele ficar completamente preto, como se estivesse incinerado. Na verdade, a pele é que dançou, e será raspada revelando um pimentão assado, macio e suculento.
Aconselho o uso de uma pia, um recipiente para descartar os destroços e uma tábua, todos juntos e ao alcance das mãos. No mais, uma faca e um saco plástico, acessório inusitado.
Dizem que é bom dar uma furada no pimentão antes da chama para evitar que ele exploda, ou algo parecido. Acho que faz sentido, e meto o garfo nele.

Com a ajuda de garfos, vá virando o bicho em cima da chama, com paciência, até ele ficar pretinho por todos os lados. Nesse momento, retire-o do fogo, coloque na mesma hora dentro do saco plástico e feche. Os vapores vão dar mais uma cozinhada enquanto ele esfria, e ajudar a soltar a pele.
Tire o pimentão quando esfriar e raspe com a faca, sobre a pia ou a panela, a pele preta. Abra a torneira para ajudar na tarefa, mas nunca lave demais o pimentão para preservar o suco precioso.
Corte as duas extremidades do legume para obter um 'cilindro' e corte mais uma vez ao meio, no sentido do comprimento, para obter dois 'filés' de pimentão planos. Retire todas as sementes, partes brancas e raspe até os filés ficarem limpos e brilhantes. Pronto. Faça com eles o que bem entender, e posso dar algumas dicas.
Achou trabalhoso? E é mesmo, mas o resultado compensa. Vai ter gente que diz que "não é muito de pimentão" mudando de idéia. Os filés de pimentão, verdes, vermelhos ou amarelos podem ser guardados na geladeira e utilizados nos próximos dias.

Faça o teste: quando você ouve 'champanhe', o que vem à cabeça?
Seja o que for, é com certeza alguma coisa incluindo alegria, felicidade e prazer.
Eu penso logo naquelas bolinhas minúsculas subindo pelo líquido dourado, um momento onde o corpo relaxa e a gente deixa tudo que é ruim de lado.
Champanhe, a maioria deve saber - mas o senso comum desconhece -, é apenas e somente o vinho espumante produzido com as uvas plantadas em 35 mil hectares na região que deu o nome à bebida, no nordeste da França, a 150 quilômetros de Paris.

Portanto, a expressão "champanhe francesa" é o maior pleonasmo do mundo do vinho, embora compreensível. Porque se não é francesa, não é champanhe.
Então quer dizer que nosso destino é lamentar porque estamos geograficamente e, sobretudo, financeiramente distantes do vinho mais amado do mundo?
Na-na-ni-na-não. Muitas bolhas ao contrário.
Acidez
Escrevo enquanto bebo um livrinho bacana recém-lançado sobre o assunto: Borbulhas - Tudo Sobre Champanhe e Espumantes (Ed. Senac), do consultor e crítico de vinhos Aguinaldo Záckia Albert.
O início propõe uma viagem de aventuras no tempo com a história de Champagne, uma das regiões européias mais atingidas pelas sucessivas guerras ao longo dos séculos, e sempre renascendo em uvas abençoadas, cuja constituição, condições climáticas e de cultivo particulares acabaram impondo bolhas ao vinho.
Depois, enumerando castas, métodos de produção e características das principais regiões produtoras do mundo, o livro mostra, em números, gráficos e dados atualizados, algo que já sabe quem milita nas uvas, e os consumidores descobrem sem pressa.
Cumprindo a vocação de nossos 'terroirs', no tema em que a Serra Gaúcha se aproxima da perfeição -, o Brasil produz hoje alguns dos grandes espumantes do mundo.

É aquele papo da acidez. Pouco sol, umidade e uvas com dificuldade de amadurecer. Ruim para os tintos, ótimo para os espumantes.
Nos nossos, reinam duas das castas da santíssima trindade francesa: Chardonnay e Pinot Noir. Na região de Champagne, a Pinot Meunier completa o trio.
E aí é o que eu venho dizendo sempre que o assunto aparece, empenhado em campanha nacionalista: "Que mané Prosecco?"
Segundo o autor, nossos espumantes são melhores - e mais baratos - do que a maioria dos proseccos que descansam nas prateleiras.
Só falta descobrirmos isso para acabar com o domínio injustificável dos importados em nossas festas e comemorações.
Aliás, as importações já estão caindo, ao mesmo tempo em que a produção nacional aumenta a cada ano.

Estouro
Curiosidades de um livro sobre a ciência da champagne de Gérard Liger-Belair, um professor de ciências físicas da Universidade de Reims Champagne-Ardenne, a 'capital' da bebida:
* Submetida à pressão de seis atmosferas, a rolha sai da garrafa a 70km/h. Poderia voar 40 metros, desprezando a resistência do ar.
* Sabe aquela fumacinha que aparece na boca da garrafa assim que a gente abre? É que a expansão do gás provoca uma queda de temperatura de 112º C, que congela o ar.
* Em cada flute (taça padrão) de champagne há o equivalente a cerca de 700 ml de dióxido de carbono, que é liberado formando cerca de... 11 milhões de bolhas!

Borgonha faz com que você pense em bobagens; Bordeaux faz com que você fale sobre elas, e Champanhe faz com que você as cometa.
(Brillat-Savarin, autor do clássico 'Fisiologia do Gosto', de 1825).
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Desde o dia em que entrou na cozinha para arriscar um risotto de cogumelos, a vida de Pedro Landim mudou da água para os vinhos.
Repórter de cultura e colunista de gastronomia do DIA - onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2005 -, adora cozinhar, comer e falar de comida.
No jornal impresso, a coluna homônima é publicada às terças-feiras, no Guia O DIA-Michelin de Viagem.
Bom apetite. |
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