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| Pedro Landim |
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Foi num réveillon da vida, fiz promessa à meia-noite no mar da Ilha Grande: naquele ano comeria mais peixes do que nunca. Foi cumprida pela metade, mas de repente me vejo tirando o atraso em 2009, com a graça divina. Toda hora é hora.

Na última semana de férias, Brunim, Mari e Joãozim, bravos companheiros de copo e batucada, me levaram ao programa perfeito num meio de semana: praiosa em Grumari (trocentas latinhas na bolsa térmica) e rangaço na Tia Palmira.
Acho que os peixes fazem fila para mergulhar nas panelas inauguradas há 40 anos pela Tia, e estas ganham vida produzindo aquele exagero de sabores que colorem as travessinhas.

Como no sonho de alguma Alice num país de maravilhas do mar...
Sinfonia
Na semana passada, o pé de siriguela que é o maior charme do terraço estava despejando frutas pelo gargalo, muito doces e avermelhadas, uma caiu no meu braço e resolvi comer. Doce e sem os bichinhos que o garçon falou que vinham de vez em quando.

Chamamos caipirinhas e vai anotando aí os componentes do 'rodízio' onde tudo se pode repetir (embora isso seja improvável), menos as porções de bobó e camarão frito:

Pastéis de camarão, bolinhas e camarão, casquinhas de siri, mexilhão, pasta de peixe com torradas, bobó de camarão, camarão frito, pirão de peixe, arroz de frutos do mar, lulas, moquecas de peixe e sururu, peixe em posta à brasileira, filé de peixe e farofa de dendê. De sobremesa, incluída na refeição, coleção de doces caseiros: mamão, maracujá, coco, banana, goiaba...
O preço por pessoa está em R$ 65. Tem gente que acha caro. Eu não acho. Não é um programa que se faz todo dia.
Interior
E isso tudo sempre foi assim, conforme a gente lê em reportagens dos anos 80 publicadas pelos jornais sobre o restaurante e seus peixes. Sempre foram, e ainda são todos pescados na região, hoje mais para os dourados, anchovas e pescadas.

Tia Palmira, que sofreu um acidente vascular há três anos, anda de cadeira de rodas e mora atrás do restaurante. Volta e meia inspeciona a cozinha e já quer pegar nas panelas, como conta o filho, Ricardo, que hoje toca o barco.
O clima de interior, os artesanatos de peixes nas paredes, as toalhas de pano estampadas nas mesas, com 'bolsinhas' para os talheres, os muitos galhos, folhas, bromélias, passarinhos e azaléias reluzindo na sacada, o pôr-do-sol que cai sobre as mesas...

Só faltam ali, como alguém falou, algumas redes pelos cantos. Mas aí, como alguém falou também, ninguém mais sairia do restaurante e o programa teria que incluir o pernoite...
Encontrei o Pedrão na peixaria de Manguinhos, estava comprando um polvo e botou a pilha para o filé de dourado. Disse que a cozinheira do tailandês havia aconselhado chamar um abacaxi na frigideira para jogar no molho de alcaparras, e coisa e tal.

Levei alguns camarões para o molho e fui com o que tinha em casa, só comprei laranjas porque bateu a pilha da fruta e não vi nenhum abacaxi pelo caminho.

Mas garanti dois sacos de gelo para despejar num isopor e enterrar a garrafa da cava Codorniu Rosé que é tão visualmente bonita quanto deliciosa, presente de aniversário.

Vou contar a receita que fiz e os adendos que acho bacanas para o negócio ficar completo.
Filé de dourado ao molho de camarões na laranja

Filés de dourado / Meio quilo de camarão / Quatro laranjas / Meio limão / Uma cebola / Dois dentes de alho / Azeite / Uma colher de manteiga / Uma colher de creme de leite / Sal / Pimenta do reino / Castanhas de caju picadas

Preparo
1 - Comecei salteando os camarões limpos, temperados com sal, pimenta e limão, no azeite quente, só até ganharem cor. Separei.
2 - Na mesma frigideira, derreti a manteiga com um pouco de azeite e refoguei lentamente a cebola e o alho bem picados. Com um coador na mão para segurar as sementes, fui espremendo as metades das laranjas direto na frigideira.
3 - Mexendo, acrescentei um toque de limão e deixei reduzir e emulsionar. Provei, acertei sal e pimenta e dei o toque de creme de leite, mexendo. Formou-se o molho.
4 - Desliguei o fogo e despejei no molho os camarões.
5 - Em outra frigideira com um azeite bem quente, grelhei os filés de peixe. Ao final, joguei por cima o molho, aqueci e desliguei o fogo. Cobri com castanhas de caju picadas antes de servir.

Adendos
Para o prato que imaginei, o molho de laranja levaria um toque de gengibre ralado e pimenta vermelha fresca bem picadinha. Quem sabe um cheiro de curry. E no fim tudo seria coberto com um cheiro verde de salsa, cebolinha e coentro, a gosto do freguês.
Depois a dica é o fim de tarde no canto direito da Praia Brava, depois das pedras...

Na última barraca, de repente pinta um clima para as iscas de namorado fritas com molhinho rosé e cerveja gelada...

Ou quem sabe as areias vermelhas do Forno...

Êta, vida mais ou menos.
Cidade-flor, de pétalas e brincos de princesas que dançam cirandas na beira do mar.

Arco-íris de frutas, igrejas que flutuam. Nascente dos carnavais. Tambores, trompetes e brisas orientais.

Ventos de coco, céu de rapadura. Pimentas e gengibres. Sapotis, siriguelas e janelas.

Aboios e repentes desaguando em pedras.

Tropicanas
Filé de peixe com molhos de melado e laranja, pure de jerimum, arroz e couve frita do Marin:

Sorvete de mangaba, calda de frutas e queijo manteiga empanado na castanha de caju:

Camarões ao molho de jaca perfumado no coco, queijo coalho e arroz e couve da Oficina do Sabor:

Camarão no coco do Flor de Coco:

Filé de peixe ao vinho branco e vela acesa:

Boa Viagem
Jamelões mordidos, cervejinha e peixe frito. Incrível balaio de sabores na praia.

Caldinho Beleza vem de sururu, camarão, peixe, feijão, mocotó e 'cabeça de galo'. Arrumadinho vem todo arrumadinho.

Pintando também ostras e ovos de codorna, caldeirada no copinho, ensopadinho de siri e sururu no coco.

Pleno sol de 15h em Recife, cachaças com frutas dentro. Repelente de tubarão? Maré alta, fica a idéia.

Azuis

Ela virá no verão, com as chuvas de cajus

Os flamboyants estão sangrando, nessas tardes tão azuis

Pra ver a doida das lantejoulas, dos lábios verdes de purpurina

Dançar na noite nos Quatro Cantos com seu vestido de bailarina

As flores voam e voltam noutra estação
Só serei flor quando tu flores no verão

Instantâneos de São José






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Desde o dia em que entrou na cozinha para arriscar um risotto de cogumelos, a vida de Pedro Landim mudou da água para os vinhos.
Repórter de cultura e colunista de gastronomia do DIA - onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2005 -, adora cozinhar, comer e falar de comida.
No jornal impresso, a coluna homônima é publicada às terças-feiras, no Guia O DIA-Michelin de Viagem.
Bom apetite. |
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