Estive ontem naquele lugar medonho onde aconteceu a tragédia com o vôo da TAM. Difícil traduzir em palavras a fumaça negra, o vazio, a tristeza sem fim que toma conta de quem passa por ali. É como se todo um país estivesse queimado, em escombros. Queria poder ajudar os bravos bombeiros nas buscas. Queria ter ombros suficientes para amparar os parentes e amigos das vítimas. Queria ter voltado no tempo e ter sido mais enérgico contra a letargia das autoridades, contra a ignorância das 'agências'. O mundo globalizado e sem fronteiras está muito longe da realidade brasileira. Com a alma em ruínas, tais como as do prédio da TAM, só penso em Carmem Elizabete, nossa irmã que perdeu as duas filhinhas e a mãe nessa tragédia anunciada. É para ela que eu escrevo.
Perdão, Carmem Elizabete,
Perdão por termos ficado em silêncio diante da negligência de nossas autoridades diante do caos aéreo que culminou na tragédia que matou sua mãe e suas duas filhinhas.
Perdão por nossa ministra do Turismo, que nos aconselhou a relaxar e gozar enquanto seres humanos mofavam nos saguões dos aeroportos à espera de seus vôos, pelo nosso ministro da Economia que festejava o apagão atribuindo-o ao 'crescimento econômico', pelo nosso ministro da Defesa que cruzou os braços, pelas agências burocráticas que só pensam em culpar umas às outras.
Perdão por não termos protestado à altura, exigindo que os controladores de vôo tivessem melhores condições de trabalho, que o fluxo de aviões em Congonhas diminuísse, que o sistema de aviação brasileiro se adequasse às normas internacionais de segurança e respeito aos passageiros.
Perdão pela sessão de 'Harry Potter' a que suas meninas não puderam assistir, pelos que chamam de 'fatalidade' uma tragédia mais do que anunciada, repetida e avisada.
Perdão por não poder estar aí agora e lhe dar o meu abraço fraterno, por não enxugar suas lágrimas, que molham e mancham nosso 'orgulho de ser brasileiro'.
Ainda que isto não traga de volta sua mãe, a professora e ambientalista Maria Elizabete, e suas duas filhinhas, Julia e Maria Isabel, prometo: esta tragédia não vai mais se repetir. Vamos acordar, exigir, espernear e protestar pelo fim da baderna política e da ameaça constante que se tornou voar nos céus brasileiros.
Ao imaginar, mesmo que um milésimo do que você está sentindo neste momento, só penso nos versos do grande Chico Buarque:
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus