O sol cai tépido sobre a Avenida Paulista numa tarde de inverno. E isso não tem a menor importância. Preciso fazer hora, ou melhor, três horas. Seguindo a dica de um amigo, entro sem compromisso numa exposição no Itaú Cultural. [emoção art.ficial 4.0 / bienal internacional de arte e tecnologia ] emergência!, diz o folheto. Pelo que entendi do texto no painel do saguão principal, são instalações que usam aparatos tecnológicos que permitem a interação entre obra e espectador, provocando resultados aleatórios. Hum...
Alheio à exposição, mas atento a seus frequentadores, um senhor maltrapilho oferece livros aos passantes. Chama a atenção com piadas. "Alguém quer um livro?". Silêncio e indirença. E uma bomba pra jogar no Congresso, alguém quer? Risos e indiferença. Saio de cena antes de ser abordado.
Não é para procurar sentido nas obras, penso, mas sensações. Movimento um bastão que está parcialmente dentro de uma bola prateada, criando projeções distorcidas num telão. Um sujeito pergunta se é a primeira vez que apareço ali e se poderia dar uma declaração. Digo que também sou jornalista, logo, não sirvo como personagem. Ele insiste, argumenta que é "apenas um registro para o portal interno". Concordo meio a contragosto.
Há preconceito contra esse tipo de arte?, pergunta. "Imagino que não, desde que a moldura foi abolida e a arte saiu da parede para dar lugar às instalações, esse conceito ficou meio gelatinoso". Não sou muito ligado em artes plásticas, estou ali só para passar o tempo e não sei muito bem o que estou falando. Ouço minha voz e não me reconheço no que acabei de dizer. Lamento ter dormido nas aulas do José Maurício e ter deixado para um amanhã que nunca veio aquele Gombrich que continua a enfeitar a estante.
Noutro canto, umas vinte caixas de som, como essas de desktops, espalhadas na área da instalação, reproduzem aleatoriamente sons produzidos pelos visitantes. Tapas, risadas, apupos e outros ruídos enchem o ambiente, numa sonoridade irritante de festa techno. Sigo até um aquário enorme e parcialmente iluminado onde um livro, movido por magnetos e uma bomba d'água, parece dançar na água. Limito-me a fazer cara de inteligente. Adiante, um robô com tubos de tinta rabisca uma enorme folha de papel de impressão. Pergunto à solícita monitora se o troço segue alguma programação, se de alguma maneira reage ao se aproximar da estrutura transparente que o cerca. Parece que não. Segue uma programação do artista. Então tá.
Chego, enfim, ao que parece se a mais promissora das peças. Chama-se bactéria argentina. A trapizonga audiovisual mistura palavras, formando frases, segundo uma lógica curiosa: a programação genética das bactérias. Diz o texto que a programação genética das bactérias determina se, ao encontrar outra bactéria, ela vai se alimentar ou servir de alimento. Mais Cortázar que o próprio Cortázar. Sem encontrar sentido algum nos agrupamentos de palavras (por falta de imaginação ou estupefacientes), me afasto ligeiramente decepcionado.
O movimento lento e sensual de uma mancha vermelha chama minha atenção. Três ou quatro telas planas empilhadas e acopladas a processadores e placas gráficas criam essa imagem mutante de um fluido vermelho escorrendo sobre um fundo negro, continuamente de uma tela para outra, como um óleo descendo a parede. Taí um bom fundo de tela para o celular, penso, enquanto tiro o aparelho do bolso para bater fotos frente e verso. "O senhor se incomodaria em assinar um termo de responsabilidade na saída? Não é permitido fotografar", me explica outra monitora, entre simpática e constrangida. Digo que vou apagar as fotos. Elimino a primeira imagem e, num clique de indignação, resolvo manter meu fundo de tela.
Ora, que bobagem. É só uma foto para o celular. E aquela conversa moderninha de interação entre obra e espectador visando resultados aleatórios? Ora, se o resultado depende do observador, posso ser pelo menos considerado co-autor, não?
Na saída, o carinha do "portal interno" me aborda novamente e pede para tirar uma foto minha. Acedo com uma impaciência que já não evito transparecer. Só depois do clique é que vejo uma placa sutilmente disposta na entrada do salão. Diz algo como "se não quiser ser filmado ou fotografado, não permaneça nesse ambiente".Quer dizer, eu posso ser fotografado e incomodado, posso ser usado para produzir resultados aleatórios para o gáudio dos cyberartistas e deleite irracional da mulambada, mas tenho que assinar um termo de compromisso se quiser tirar uma foto -- o que, a rigor, não deixa de ser uma forma de interação entre visitante e a obra. A imprensa pode filmar, fotografar e usar o material em produtos culturais que geram lucro, mas um visitante não pode.
Em resumo: interação boa é aquela que não infringe o direito autoral.
O piadista maltrapilho passa mim e pergunta no café se trocam R$ 50. Pelo menos alguém comprou um livro.