Será que o leitor não quer mais ler?
O número de leitores de impressos -- jornais, revistas, livros -- não para de cair. O número de internautas, não para de crescer. Parece óbvio concluir que o consumidor está trocando o papel pelo online. Em artigo publicado neste domingo no New York Times, Randall Stross, professor da escola de Administração de San Jose State University, na Califórnia, explica que isso pode ser uma meia verdade.
Os impressos perdem público, mas as TVs não, apesar dos sites de vídeo, como o YouTube. Com base em estatísticas, Stross mostra que o público abandona o texto em papel, mas não deixa de assistir televisão, e ainda arruma mais tempo para assistir a vídeos na Internet.
Em dezembro de 2008, 100 milhões de pessoas assistiram a 5,9 bilhões de vídeos no YouTube. Entre julho e setembro de 2008, o americando médio assistiu a 142 horas/mês de TV, cinco horas a mais que no mesmo período de 2007. A média na Internet foi de 27 horas/mês, uma hora e meia a mais do que no mesmo período do ano anterior. O mais curioso: 31% da navegação online foi feita diante da TV.
Ou seja, ao invés de trocar uma tela pela outra, o americano médio passou a gastar mais tempo livre diante de outra tela, a do micro. Sem falar nos celulares.
Stross cita como exemplo o site Hulu, da NBC, que exibe na Internet seriados de TV. A audiência do site cresceu 57% no segundo semetre de 2008. A explicação de um executivo de marketing é a seguinte: informação e notícia em textos existem em qualquer site, mas vídeo com qualidade profissional, não.
Para os impressos há uma notícia boa e outra ruim. A boa é que, com base no exemplo do Hulu, pode-se ter a esperança de que o texto com qualidade profissional ganhe cada vez mais valor na Internet. Qualquer cidadão pode relatar um acontecimento, publicar uma opinião, expressar-se pela Internet. E é bom que o faça, claro. Mas construir uma apuração, ouvir fontes (e ter acesso a elas), redigir um texto qualidade profissional e credibilidade, dedicar-se profissionalmente a isso, é bem diferente. Aliás, o próprio NYT tenta construir essa noção de valor quando anuncia a volta da cobrança de assinatura no site.
A notícia ruim é bastante perturbadora. O texto escrito parece ter se tornado um esforço para o consumidor, enquanto o vídeo requer apenas a atenção passiva. Ou seja: o leitor não estaria apenas migrando do impresso para online, mas desistindo de ler.
Consumers are increasingly avoiding newspapers - and books, too - because the text mode is now used so infrequently that it can feel like a burden. People are showing a clear preference for a fully formed video experience that comes ready to play on a screen, requiring nothing but our passive attention.
Não se trata apenas de uma disputa entre online e offline, mas entre texto e vídeo, da própria forma de consumir a informação. Segundo Stross, mais um assalto de um embate que começou com o lançamento do broadcasting, agora mais grave.
Ele, contudo, deixa passar em branco outro fenômeno interessante: os blogs. Ora, se o leitor não quer ler, como explicar a expansão da "blogosfera"? O leitor não quer ler ou não quer pagar para ler? Ou ainda, o leitor não quer ler ou não se sente atraído pelo que há para ler na imprensa?
Os argumentos de Stross reforçam a idéia de que os impressos terão que se reinventar. Para os jornais, isso pode significar deixar de ser uma indústria que produz informação e conteúdo de qualidade profissional publicados em papel para se tornar uma indústria que produz informação e conteúdo de qualidade publicados em qualquer suporte: online, papel, CD, o que for.
A indústria da música é a mais afetada por essa "crise do suporte" e pode servir de inspiração. Incapaz de impedir a circulação "pirata" de MP3 na Internet e a queda vertiginosa na venda de CDs, as gravadoras outros suportes (pendrives, celulares) para veicular os áudios e formas alternativas de lucro, como participação nas turnês dos artistas. Para os impressos, isso pode significar atribuir novo valor ao suporte papel (um bem ou serviço, não necessariamente a informação, que ele não possa usufruir de outra forma) e, principalmente, convergência e integração entre online e offline. O problema é: como manter o negócio viável?
Um exemplo interessante foi uma turnê recente de Prince, aquele que trocou seu nome por um símbolo impronunciável. Seu CD foi distribuído gratuitamente na edição de domingo de um jornal inglês. O jornal ganhou em circulação, Prince vendeu menos CDs, mas ajudou a vender ingressos para a turnê européia que começou pouco depois.
A digitalização dos conteúdos e o acesso a esse canal de recepção e transmissão de alcance global chamado Internet mudaram drasticamente as regras do jogo. Quem não conseguir evoluir e se reinventar provavelmente perderá não apenas espaço, mas sua própria razão de ser. O certo é que, como a democracia não pode prescindir da imprensa livre, a sociedade da informação não pode prescindir da indústria da informação.
