
"Eu pensei que ninguém ia notar", confessou Roberto Carlos, com ar maroto, após ser aplaudido pela platéia ao cantar pela segunda vez o verso "Se o bem e o mal existem" na música É Preciso Saber Viver. Sim, cada vez mais liberto das manias do T.O.C., o velho Rei esteve maroto, falante e muito bem-humorado na estréia do show que marcou sua volta ao Canecão, depois de 15 anos sem pisar no palco da quarentona cervejaria carioca em que estreou em 1970.
"Fiquei tanto sem vir ao Canecão que eles até pensaram que eu não vinha mais. Encontrei tudo marrom. Ainda bem que eu melhorei", disse o cantor, fazendo piada de suas próprias superstições. É, foi um Roberto renovado que pisou na palco mais importante de sua trajetória - e ele ressaltou isso numerosas vezes em textos ditos ao longo do enxuto show ("Aqui eu me vesti de palhaço e rasguei meu coração") - para reviver as velhas emoções que sua fiel platéia de súditos encara como se fossem novas. Platéia, também ela, velha.
O show Roberto Carlos não é exatamente novo. Mas, nele, o Rei encara as músicas que vinha evitando nos anos em que se deixou dominar pelo T.O.C. - o transtorno obsessivo compulsivo do qual vem se tratando. Tem Ilegal, Imoral ou Engorda - ótimo número que ganha uma pulsação quase de funk pelo sexteto de sopros da banda. Tem Negro Gato, o tema da Jovem Guarda que somente a partir do ano passado passou a figurar novamente no roteiro dos shows do Rei. Mas tem também os números de sempre, todos já obrigatórios. Caso de Emoções, que abre o show com o mesmo arranjo de big-band clonado da gravação original de 1982. Caso também de Detalhes, o número em que o cantor se acompanha ao violão. Roberto não toca muito bem, mas quem se importa com isso?
Roberto Carlos está, de fato, mais solto. Mas nem por isso menos preso às suas convenções. Em Outra Vez, outro número infalível, tudo parece milimetricamente calculado: o suspiro, os olhares, as entonações... A luz já até acende para que o público cante o verso final da canção de Isolda com seu mais ilustre intérprete. Menos obrigatório, mas sempre bem-vindo, é Além do Horizonte, último suspiro soul da obra do artista. Que, claro, reviveu - nostálgico - a época da Jovem Guarda, reafirmou seu amor por Maria Rita e, no fim, antes de encerrar com o gospel Jesus Cristo, enfileirou os hits de sua "fase motel" (Proposta, Seu Corpo, Os seus Botões, Café da Manhã e Cavalgada) para lembrar que, sim, o Rei é de carne e osso...