Fernanda Takai fez um dos grandes discos do ano

Aos 40 do segundo tempo, chegou um dos grandes discos do ano. Onde Brilhem os Olhos Seus, CD em que Fernanda Takai, a cantora do Pato Fu, aborda com graça e criatividade o repertório de Nara Leão. Grande idéia de Nelson Motta, que sacou que Takai é uma espécie de Nara do pop nacional. Não tanto pela voz miúda, mas pela inteligência das interpretações. Nara sempre foi intérprete antenada. Se viva fosse, certamente aprovaria as releituras de Takai para Debaixo dos Caracóis de seus Cabelos e o samba Diz que Fui por Aí, que virou canção no disco. Mas o mérito não é somente de Nelson e da cantora. John Ulhoa produziu o álbum. E, embora a rigor se trate do primeiro disco solo de Takai, fica a (ótima) impressão de que é um disco do Pato Fu com o repertório de Nara. Recomendo entusiasticamente.
p.s. Daqui a pouco, confiro o samba de Maria Rita na Fundição Progresso. É a estréia nacional do show da cantora. Aguardem comentários. A expectativa é boa.



Lenda viva do samba da Bahia, Riachão deu o ar da graça nos dois shows que Beth Carvalho fez no Canecão para cantar os sambas da terra de Dorival Caymmi. Com vitalidade surpreendente para seus 85 anos, Riachão eletrizou o show da cantora. Serelepe, animado e cheio de ginga, o compositor cantou com Beth Cada Macaco no seu Galho, Vá Morar com o Diabo (seus dois sambas mais conhecidos) e - sozinho - Somente Ela. Vi o show e testemunhei a vivacidade e a alegria contagiantes de Riachão. Ele por si só já valeu o show.
Para decepção dos fãs de Maria Bethânia, a Biscoito Fino vai lançar a gravação ao vivo do show Dentro do Mar Tem Rio somente em CD (à direita, a bela capa do CD, feita com foto de Beti Niemeyer). O show chegou a ser gravado em agosto, em minitemporada no Canecão, para ser editado também em DVD. Mas as imagens captadas por Andrucha Waddignton - ao que parece - não ficaram a contento e Bethânia (artista criteriosa e zelosa por excelência) vetou a edição do DVD. Entendo que a cantora tenha todo o direito de não querer lançar DVD cuja filmagem lhe parece insatisfatória, mas entendo também que Dentro do Mar Tem Rio é um dos melhores shows da intérprete e merece um registro audiovisual. Como a turnê já se aproxima do fim, resta torcer para que seja feita uma nova filmagem na temporada que se inicia em São Paulo na próxima semana. Caso contrário, ficará uma lacuna na videografia digital de Bethânia. E aí?
Fim de ano chegando. Junto com ele, dezenas de discos. As vendas estão magras porque a galera baixa discos na internet sem a menor culpa, sobretudo o público jovem, mas os lançamentos são muitos. Nem tanto das chamadas grandes gravadoras. Mas dos selos menores, que visam menos lucro. E, para economizar nos custos de gravação, tanto selos grandes como pequenos despejam nas lojas pilhas de DVDs e CDs ao vivo como o Saudades de Casa, em que Ivan Lins apresenta parceria inédita com Gonzaguinha, Debruçado, composta na virada dos anos 60 para os 70. Parece um registro de show, mas Saudades de Casa foi gravado em estúdio. Como se fosse ao vivo. Assim caminha a humanidade fonográfica.

Estou em São Paulo neste feriadão por causa do Mix Brasil, o festival de filmes que põe um sempre necessário foco na diversidade sexual, organizado por André Fischer e Suzy Capó. Um dos bons filmes que vi nesta maratona cinematográfica, O Poderoso Chefão da Discoteca, título em português para The Godfather of Disco, tem tudo a ver com música. Trata-se de documentário sobre Mel Cheren, o cérebro criativo da gravadora West End Records, que teve papel decisivo nos clubes de Nova York durante os bons tempos da disco music. A West End não emplacou grandes hits nas paradas convencionais, mas, através do pioneiro intercâmbio de Cheren com os DJs, se tornou influente nos clubes da Big Apple. Aliás, o filme mostra como, pela primeira vez na história da indústria fonográfica, os DJs tiveram papel fundamental no sucesso de uma música, mostrando que um tema não precisava necessariamente passar pelo rádio para se tornar um hit. Fica a dica para os cariocas, pois o filme está incluído na programação reduzida do Mix que chega ao Rio de 29 de novembro a 6 de dezembro. Vai passar no Palácio, dia 4, às 21h30m. Fui (para o cinema)...
Sérgio Santos não é um nome muito conhecido pelo chamado grande público. Azar do público. Seus discos são ótimos. E o mais recentes deles, Iô Sô, acaba de chegar às lojas pela Biscoito Fino. Recomendo com entusiasmo. Neste trabalho, Santos bate tambor no compasso do congado, ritmo de origem africana que se espalhou por sua Minas Gerais. Falando assim, parece se tratar daqueles chatos discos de caráter quase folclórico. Mas juro que não. Iô Sô é um grande disco porque tem grandes músicas, cantadas com Sérgio com eventuais auxílios vocais de Dori Caymmi (cuja voz já tem por si só uma carga de ancestralidade que cai bem no projeto) e de Joyce. Para quem gosta da boa, velha e eterna MPB, vale correr atrás de Iô Sô.
Celso Fonseca lança na próxima semana o CD Feriado. Entre as participações, Marcelo D2. Arlindo Cruz acabou de lançar o disco Sambista Perfeito. Entre os convidados, D2. Diogo Nogueira estreou no mercado fonográfico com CD e DVD gravados ao vivo. Adivinha quem canta com o filho de João Nogueira? D2, é claro. Nada contra o rapper carioca. Muito pelo contrário. Eu o considero um dos artistas mais importantes dos últimos dez anos. O problema é que D2 virou arroz de festa. Sua imagem está ficando (muito) desgastada. Não acho legal se preservar demais. Tem artista que recusa muito convite bom porque se acha importante demais e entende que nada se enquadra no seu perfil. Mas D2 está extrapolando. Aceita tudo, grava com todo mundo. Teve uma época que Zeca Pagodinho, boa-praça, caiu nesse erro. Depois, se conteve. D2 está precisando descansar a imagem e selecionar os convites.
Enquanto o quarteto Los Hermanos prossegue em seu recesso por tempo indeterminado, circulam nos bastidores informações extra-oficiais de que Marcelo Camelo já lançaria seu primeiro disco solo em 2008. A notícia teria sido até veiculada pela MTV em um de seus programas. Bem, não vi o tal programa da MTV e tudo que cerca Los Hermanos - e Camelo, por tabela - é envolto em mistérios, silêncios... marketing, enfim. Não sei se a informação procede. Sei somente que Camelo é um excelente compositor e que um álbum solo seria muito bem-vindo.
Já estão nas lojas o CD e o DVD Diogo Nogueira ao Vivo. Filho de João Nogueira, o rapaz está em ascensão no mundo do samba. Acaba de vencer - e pela segunda vez consecutiva - a disputa pelo samba-enredo da Portela. Por isso mesmo, acho excessivo e forçado o link de Diogo com seu pai no repertório dessa (precoce) gravação ao vivo feita no Teatro João Caetano, em julho. É coisa de gravadora, claro. Mas Diogo deveria ter batido o pé. Nada menos do que sete das 20 músicas do DVD são de João. O dueto virtual de pai e filho em Espelho é especialmente bonito e chega a emocionar. Mas qual a razão de regravar Batendo a Porta, O Poder da Criação, Súplica? Diogo acaba soando como uma xerox apagada do pai. A voz do rapaz não é brilhante, mas também não acho que ele cante tão mal como dizem alguns. Enfim, desejo sorte a Diogo Nogueira. Mas acho equivocada essa sua primeira gravação em disco. Que venha outra!
O fim do ano já se aproxima. Com ele (o fim do ano), chegam as agendas. Recebi da editora Idéia Pop a Agenda do Músico 2008. Desculpe o trocadilho, mas é uma boa idéia... pop. É uma agenda normal, como todas as outras, mas vem recheada de citações e breves informações sobre música. Pretendo usar a minha. Fica a dica.
O grupo Radiohead fez muito barulho, em escala mundial, quando anunciou que ia disponibilizar seu sétimo álbum para download pelo preço que o consumidor achasse justo pagar. Valia até nada pagar pelo disco. A atitude foi corajosa porque o quinteto britânico está em alta e não precisa dar seu CD de graça - como Prince, por exemplo. Só que, menos de um mês depois do lançamento virtual de In Rainbows, foi anunciada a assinatura do contrato da banda com a gravadora XL Recordings para fabricar e distribuir o álbum nas lojas. Moral da história: a internet é cada vez mais o meio preferencial para audição e comercialização de música, mas ainda é cedo para descartar as lojas tradicionais do mundo físico. O bonde da História não anda tão rápido quanto acreditam os que prevêem a morte rápida do CD. Vai acontecer, mas não agora...
Tenho ouvido muito o disco em que Beth Carvalho canta sambas da Bahia. Gostei do resultado final, embora ache que a seleção da cantora prioriza sucessos em vez de músicas que representem com mais exatidão o samba produzido na terra de Dorival Caymmi, a quem, aliás, Beth dedica o trabalho. Desde que o Samba É Samba, por exemplo, está no repertório somente por ser de autoria de Caetano Veloso, cujo samba, a rigor, nem pode ser considerado baiano. Mas isso é detalhe. Tem muita coisa boa no DVD. Daniela Mercury dá um show de suingue em Chiclete com Banana. Ivete Sangalo esbanja charme em Brasil Pandeiro, mostrando que sabe levar o samba no pé. E o que dizer do elétrico Riachão, convidado de Vá Morar com Diabo e de Cada Macaco no seu Galho, seus dois sambas de maior expressão?? Somente a presença esfuziante de Riachão já vale o DVD. Mas sabe a faixa que mais tenho ouvido? Raiz. Esta jóia de Roberto Mendes e J. Velloso - gravada por Gal Costa num belo disco de 1992 no qual ninguém prestou atenção - reaparece na cadência do samba de roda. Com direito à graciosa participação de Mariene de Castro, que também já tinha gravado o samba em seu primeiro CD, Abre Caminho, que passou injustamente despercebido. Enfim, a voz de Beth Carvalho já não tem o viço de antes, mas a cantora pisa firme no terreiro baiano. Recomendo.