
Hábil no manuseio das palavras (suas letras são sempre bem-construídas), Adriana Calcanhotto resolveu fazer um texto para explicar a concepção de seu disco Maré, nas lojas no começo de abril pela gravadora Sony BMG (é o último disco previsto no atual contrato da cantora com a companhia). Como já previsível, o texto é excelente e merece uma conferida. Com a palavra, Calcanhotto:
Som é onda
"Maré, este meu oitavo disco, é o segundo de uma trilogia. O primeiro é Maritmo, o álbum de 1998. E, como segundo, este tem como mote o mar de volta, o mar “mais uma vez”, Maré.
E talvez por estar entre o primeiro e o terceiro é que ele tenha ficado tão entre a mulher e o peixe, entre a palavra e o emaranhamento quântico, entre a linguagem e o indizível. Ou entre Ferreira Gullar e Cazuza, entre Augusto de Campos e Dorival Caymmi, entre Cicero e Waly (1).
As canções foram chegando aos poucos e com algumas, como Mulher sem Razão ou Onde Andarás, eu já flertava, há tempos. Outras surgiram da minha encomenda, como a pérola-Péricles Porto Alegre; escrevi letras para melodias (Maré e Seu Pensamento), fiz música para receber letra (Para Lá) e algumas canções simplesmente atravessaram meu caminho. Em determinado momento tive repertório para um álbum triplo, mas como pra mim peneirar pode ser até mais interessante do que acumular canções, fazer as escolhas não foi muito difícil. Todo corte, toda canção que cai dá um certo aperto no coração, mas, por outro lado, é muito legal ver como elas vão se entreiluminando ou contradizendo dentro do quebra-cabeças que começo mas nunca sei direito onde vai dar.
Chamei meus parceiros Moreno, Domenico e Kassin e conversamos sobre uma turnê fora do Brasil, coisa que ainda não havíamos feito; depois faríamos o disco. Este encontro foi batizado por eles de +Ela e, nessa formação, fomos para Espanha e Japão, numa oportunidade de tocar ao vivo antes das gravações, o que geralmente resulta em calor em termos sonoros e, acredito, foi isso mesmo o que aconteceu. Foi importante para nossa sintonia ainda que o set list da turnê fosse diferente do repertório gravado.
Dé Palmeira, parceiro, amigo, irmão e único compositor que tem duas músicas no disco (Seu Pensamento e Mulher sem Razão), com quem eu já havia feito diversas coisas, -Adriana Partimpim inclusive, - convidei para tocar e simplesmente tocar, com toda alegria, prazer e divertimento com que ele toca, e que me encanta. A mesma coisa combinei com os outros meninos: vamos esquecer a produção e simplesmente tocar. Arto Lindsay para produzir. Assim as gravações podem correr concentradas, mas soltas. Arto é perfeito para a soltura.
A gente tocou o que quis, interferindo conforme cada feeling, e eu foquei basicamente na escolha de pessoas, não de timbres ou instrumentação. Com exceção de Sem saída (arranjada por Aldo Brizzi), as faixas foram sendo construídas à medida que íamos tocando. Diferente do que chamamos “arranjo coletivo”, no sentido do planejamento do que vai acontecer (e no jorro de idéias), trabalhei muito com o silêncio. Nunca disse como imaginava que as faixas deveriam ser e, no máximo, entre opções a escolher fiquei com a mais bonita. Ou mais maluca. Arto entendeu tudo desde o início e contribuiu para a fluidez sendo um ouvidor atento e estimulador.
Com Felipe Abreu uma pré-produção com toda a calma, meses antes das gravações, experimentando tonalidades e andamentos, deixando para o estúdio, a partir do que fosse acontecendo com as bases, as colocações e coloridos das vozes. Felipe, a quem só chamo de Prô, é propulsor e carinhoso e me proibiu de tomar café durante as sessões de voz. No dia em que me peguei no banheiro do estúdio com um copinho descartável na mão, bebendo escondida do Prô um café de garrafa térmica, abandonei o vício, para sempre (do café, naturalmente, nunca do professor).
Fabiano França com antenas atentas captou os “nossos” sons. Um dos meus violões que trasteja, mas que eu amo, uma guitarra que não gosta de se manter afinada, um cello que range, uma respiração mais forte, nada disso ele camuflou ou tentou disfarçar. Amo, por exemplo, o som que ele e Domenico tiraram da minha bicicleta (em Onde Andarás). Fabiano opera o som dos meus shows há tempos e assim, conhece minha voz e meu violão e sabe quando estou bem, ou não muito, animada, maldormida, distraída, alegre, o que for; ele sempre faz perguntas precisas, preciosas, situantes.
Diariamente chegou no estúdio uma maravilha vinda da cozinha de Roberta Sudbrack. Delicadezas perfumadas e inspiradoras, lentilhas e quinoas de gemer. Roberta conseguiu com que vegetarianos, gourmets, restritos e enjoadinhos ficássemos todos nas nuvens.
Nós rimos muito uns dos outros, e sobretudo de nós mesmos, compulsivamente. As emoções, arrepios, gargalhadas, os prazeres, os impactos com os poemas, os vacilos e imprecisões estão na cara. Assim espero.
Divirtam-se!"
Adriana
(1) Antonio Cicero e Waly Salomão, no release que escreveram para o meu CD Cantada (2002), dizem algo que funcione talvez como chave para tão áspera junção de autores (perdão pela autocitação): “...o atraente diferencial de Adriana Calcanhotto é essa arte combinatória e ousada de incorporar no trabalho dissonâncias culturais de tal modo que, longe de tentar harmonizá-las, enfatiza seus choques, suas fendas e suas brechas, como se fosse um DJ, a arranhar e samplear sonoridades reconhecíveis da música comercial e erudita, da poesia canônica e de clichês liricistas...”