
‘‘Andei por andar, andei. E todo caminho deu no mar’’, avisou Adriana Calcanhotto ao lado de Dorival Caymmi em Quem Vem Pra Beira do Mar, faixa de seu quarto grande disco, Maritmo, editado em 1998. Dez anos depois, a compositora refaz o caminho das águas em Maré, o segundo CD da trilogia marítima, nas lojas a partir de 18 de abril. As águas, no caso, são plácidas. O belo álbum segue curso suave, até linear, mas se situa dentro do alto patamar estético que caracteriza a discografia da artista.
Produzido por Arto Lindsay, Maré remete a Maritmo inclusive na recorrência ao cancioneiro de Caymmi, de quem Calcanhotto regrava Sargaço Mar com o violão doce de Gilberto Gil. Aliás, Maré está cheio de nomes de origem tropicalista e é disco tragado pelas ondas poéticas que moldam o som de Calcanhotto. A compositora entoa versos de poetas como o concretista Augusto de Campos (Sem Saída, musicado por Cid Campos e gravado por Calcanhotto em clima denso), Torquato Neto (Um Dia Desses) e Arnaldo Antunes (Para Lá, de bela melodia).
De Ferreira Gullar, ela canta os versos desesperançados de Onde Andarás, musicados por Caetano Veloso em disco tropicalista de 1967. Mas, diferentemente de Sem Saída, nesta faixa (a mais banal do CD) Calcanhotto não atinge o tom melancólico dos versos de Gullar (mais bem compreendidos por Maria Bethânia no álbum Maria, de 1988). Já de Antonio Cicero, Calcanhotto selecionou Três, parceria do poeta com a mana Marina Lima. Violoncelo tocado por Moreno Veloso pontua a satisfatória releitura da música lançada por Marina em 2006.
Há ecos de Adriana Partimpim na maré de Calcanhotto. Exemplo é a singela canção Um Dia Desses - de refrão intencionalmente pueril (‘Um dia desses eu me caso com você, você vai ver, você vai ver...’) composto por Kassin sobre os versos de Torquato Neto. A faixa é surpreendente flerte com a música ruralista. Mas com o toque de modernidade que caracteriza a obra de Calcanhotto. Moreno Veloso faz a segunda voz.
A atmosfera lúdica de Um Dia Desses aparece também em Porto Alegre (Nos Braços de Calipso), tema de referência mitológica (Calipso é ninfa do mar, na mitologia grega) composto por Péricles Cavalcanti, compositor recorrente na discografia de Calcanhotto, e adornado pelo canto da sereia Marisa Monte, que faz os vocalises que valorizam a gravação e marcam seu primeiro dueto com a colega de geração. “Eu sucumbi ao encanto de Calipso”, diz um verso da música, cujo título alude à terra natal da cantora gaúcha.
Na onda poética que traga Maré, há também os versos revoltos de Waly Salomão (1944- 2003) para Teu Nome Mais Secreto, musicados pela artista em última colaboração com o poeta. “Só meu sangue sabe tua seiva e senha / E irriga as margens cegas / De tuas elétricas ribeiras”, canta Calcanhotto emoldurada pelo violão de Jards Macalé, parceiro de Waly e convidado afetivo da faixa. Mas a melodia de Calcanhotto não acompanha a força dos versos do saudoso poeta.
Maré, a faixa-título, é parceria de Calcanhotto com Moreno Veloso introduzida por violão de tom bossa-novista que anuncia a tonalidade suave do CD. Balada romântica, Seu Pensamento une a autora e o baixista Dé Palmeira, parceiro de Cazuza e Bebel Gilberto em Mulher Sem Razão, jóia antiga que veio dar no mar de Adriana Calcanhotto e que foi escolhida pela gravadora Sony BMG para puxar o disco nas rádios e televisões.