Blog Estúdio Online - por Mauro Ferreira
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Quarta-feira, 31 Dezembro, 2008

Os destaques musicais de 2008

Divulgação / Marcos Hermes
E 2008 vai chegando ao fim... Não vai ser um ano especialmente memorável na área fonográfica. Mas é claro que saíram alguns discos bem legais - e os de Mart'nália (Madrugada) e Zé Renato (É Tempo de Amar) foram os melhores na minha opinião - como em todo ano. E, afinal, 2008 foi o ano em que João Gilberto voltou aos palcos brasileiros. João (acima num clique feito pelo fotógrafo Marcos Hermes no primeiro dos dois shows feitos no Auditório Ibirapuera, em São Paulo) já é por si só um acontecimento. Eis alguns destaques musicais do ano que termina hoje:

* La Plata, Jota Quest - Somente os preconceituosos não perceberam a evolução do grupo.
* A Arte do Barulho, Marcelo D2 - Guitarras entram na mistura perfeita de samba e rap.
* Samba de Fé, Dorina - Um disco feito com garra pela cantora, devota do melhor samba carioca.
* Francisco, Forró y Frevo, Chico César - O cantor armou arraiá moderno com o produtor BiD.
* O Coração do Homem-Bomba 1 e 2, Zeca Baleiro - Dois petardos certeiros do incansável artista.
* Angenor, Cida Moreira - A cantora reverenciou o mestre no inverno de seu tempo delicado.
* Estudando a Bossa, Tom Zé - O baiano tropicalista tirou o manto sagrado que cobria a bossa.
* Roberto Carlos e Caetano Veloso e a Música de Tom Jobim - União tão improvável quanto bela.
* Ponto Enredo, Pedro Luís e a Parede - A turma se escora no suingue afro-brasileiro.
* Uma Prova de Amor, Zeca Pagodinho - A faixa-título é um erro, mas o CD é um acerto.


Sexta-feira , 26 Dezembro, 2008

Há 25 anos, Ritchie era o rei do pop

Capa da edição comemorativa do álbum de 25 anos de 'Vôo de Coração'
Confesso que, diante da enxurrada de lançamentos deste fim de ano (chegou disco até na véspera do Natal!), meu coração bateu mais forte quando recebi a edição comemorativa dos 25 anos do primeiro álbum de Ritchie, Vôo de Coração, lançado em 1983. Para quem não viveu os anos 80, é difícil dimensionar o sucesso feito por Ritchie naquela época. O álbum, de tom tecnopop, tinha um som moderno e pioneiro que resiste bem ao tempo. E o bacana é poder ouvir em alto e bom som (graças à primorosa remasterização pilotada por Carlos de Andrade) maravilhas contemporâneas como A Vida Tem Dessas Coisas, Casanova, Pelo Interfone, Menina Veneno e a balada que dá título a essa obra-primas dos 80, Vôo de Coração. Ritchie nunca mais fez um álbum tão impactante. Mas não importa. Vôo de Coração é o suficiente para garantir a esse inglês radicado no Rio um lugar de honra na história do pop nacional. Já tinha o álbum em CD numa edição pobre (e até que o som não era ruim), mas nada como ouvi-lo de novo nesta reedição (à altura de sua importância) que traz faixas-bônus e comentários do próprio Ritchie.


Terça-feira, 23 Dezembro, 2008

Omissão no DVD de Zé Ramalho

Capa do DVD 'Tá Tudo Mudando' Bem, saiu enfim o CD/DVD em que Zé Ramalho canta versões de músicas de Bob Dylan. Acho que o trabalho bate na trave. Ramalho, de modo geral, é fiel às idéias de Dylan, ainda que nem sempre cante traduções literais dos versos do compositor. Mas acho que nenhuma versão, fiel ou livre, alça de fato o vôo poético das letras de Dylan. Exceção aberta talvez para Negro Amor, a versão de It's All Over Now, Baby Blue feita por Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti que foi gravada por Gal Costa em 1977 num de seus álbuns mais roqueiros, o Caras e Bocas. Por isso mesmo, causa estranheza o fato de a autoria de Caetano e Péricles ser omitida pela jornalista Ana Maria Bahiana nos textos (artificiais, aliás) em que a excelente crítica de música introduz no DVD cada música gravada por Ramalho. Ficou estranho. É claro que os nomes de Caetano e Péricles estão na ficha técnica. Ainda assim, a omissão soa estranha e injusta porque dá a entender que Negro Amor é uma criação de Ramalho. Como nem todo ouvinte consulta ou confere ficha técnica, a impressão errada é a que vai prevalecer para muita gente. Seja como for, o DVD/CD Tá Tudo Mudando é fiel à obra de Zé.


Sábado, 20 Dezembro, 2008

Saudade de Luiz Carlos da Vila

Divulgação
Bateu esta semana uma saudade de Luiz Carlos da Vila, o grande compositor que saiu de cena neste ano de 2008. É que tenho ouvido muito o novo CD de Dorina, Samba de Fé (aliás, grande trabalho que chegou às mãos dos críticos neste fim de ano agitado por muitos shows e discos) e uma das faixas que tenho repetido bastante é Sonhava, um samba lindo de Luiz Carlos com Riko Dorilêo. É uma jóia de alto quilate melódico e poético que Dorina engrandece com sua devoção fervorosa ao melhor samba produzido nos quintais cariocas. Mas o fato é que, quanto mais ouvia a faixa, mais aumentava a saudade do autor. Luiz Carlos da Vila se foi muito cedo. Vai fazer muita falta ao samba. Sua obra tinha um acabamento refinado que não anulava o seu caráter popular.


Quinta-feira, 18 Dezembro, 2008

Veto de Ney a 'Calúnias' é justo, mas inútil

Imagem da caixa 'Camaleão'
Considero a edição da caixa Camaleão - que embala os discos lançados por Ney Matogrosso entre 1975 e 1991 - um dos fatos mais relevantes da indústria fonográfica em 2008. Talvez até o mais importante, levando-se em conta que quase todos os discos estavam há anos fora de catálogo e que a qualidade da obra do cantor é das mais altas da MPB. Sobre a caixa em si, já falei na edição de 12 de dezembro da coluna Estúdio. O que quero comentar aqui é o veto de Ney à faixa Calúnias (Telma, Eu Não Sou Gay). Por exigência do cantor, o álbum ...Pois É, de 1983, foi reeditado sem essa música que foi, ao lado de Pro Dia Nascer Feliz, o grande sucesso radiofônico daquele LP. Entendo a razão de Ney: Calúnias nunca fez parte da concepção original do trabalho. A música foi gravada para o disco do grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados (que, aliás, gravam DVD hoje no Circo Voador) sob imposição de um executivo da gravadora Ariola. À revelia de Ney, a faixa foi incluída no seu disco. Daí sua mágoa e a decisão, justa, de vetar a faixa na reedição. Contudo, acho sinceramente que o veto é inútil. Não dá para mudar a história nessa altura do campeonato e o fato é que a versão debochada de Tell me Once, Again estará para sempre associada ao canto e à discografia de Ney Matogroso, querendo o artista ou não. O veto apenas aumenta o valor documental da edição anterior de ...Pois É, lançada na desleixada série Colecionador em 1993 com a faixa proibida. Vai virar relíquia. Pois é...


Segunda-feira, 15 Dezembro, 2008

O show feliz de Madonna e do público carioca

Divulgação / Marcelo Rossi
A estréia brasileira da Stick & Sweet Tour não poderia ter sido mais feliz. Sim, teve a chuva que não deu trégua durante as duas horas da primeira apresentação da cantora no Maracanã (a outra é hoje). Mas ficou a impressão de que a chuva apenas deu mais ânimo e garra para que a cantora e o público (70 mil pessoas, segundo os organizadores) fizessem, juntos, um grande espetáculo. Sim, o show também foi do público, que foi ao delírio em músicas como Like a Prayer, Vogue e Into the Groove. Amigos que conferiram o show em países como França e Argentina afirmam que as platéias estrangeiras são frias. Lá fora, não acontece a catarse coletiva que esquentou o Maracanã na noite fria de domingo e que, afinal, dá todo sentido ao circo armado por Madonna. É para levantar arquibancadas que se faz show em estádio.
Quinze anos depois de apresentar The Girlie Show no mesmo Maracanã, a rainha do pop está de volta com um show hi-tech - escorado nas projeções de vídeos no telão - que pode não ser tão sofisticado quanto o espetáculo de 1993, com sua atmosfera circense e burlesca, mas honra o passado de Madonna. Aliás, ela mesma parece questão de fazer lembrar esse passado (como se ele não estivesse na memória afetiva de seu fervoroso público). Into the Groove, um dos primeiros números que eletrizou o público, tem atmosfera retrô que remete aos anos 80 e à obsessão da época pela malhação (Madonna pula corda e esboça movimentos de pole dance - a dança do poste popularizada pela novela Duas Caras através da personagem Alzira). Contudo, Madonna não vive somente de seu passado. A maior parte do repertório do álbum Hard Candy - no qual ela recorre às batidas de Timbaland e Pharell Willians para pedir colo ao mercado norte-americano que a vinha rejeitando desde o álbum American Life - estão no roteiro da Sticky and Sweet. E muitas crescem no palco. Em especial, Miles Away e Devil Wouldn't Recognize You, número que tem atmosfera sombria condizente com a música. E, para quem acha que Madonna vive somente de seu aparato hi-tech, o número acústico - quando ela pega o violão para cantar You Must Love me - mostra que, aos 50 anos, a diva ainda tem voz que dá para o gasto. E, quando não dá, ela recorre sem cerimônia ao playback. Quem se importa? Ninguém, pois show de Madonna é um happening concebido, sobretudo, para fazer o público dançar. E no bloco final, intitulado Rave, músicas como Hung Up não deixam ninguém parado. E olha que estamos falando de cerca de 70 mil pessoas. Em excelente forma, Madonna - definitivamente - ainda é Madonna.
Divulgação / Marcelo Rossi


Domingo, 14 Dezembro, 2008

Culto a Camelo no Canecão

Foto de Mauro Ferreira Sei que o mundo pop gira em torno de Madonna neste fim de semana, mas fui rever ontem à noite o show de Marcelo Camelo no heróico Canecão. Já tinha visto a apresentação solo do hermano no Tim Festival e, como era previsível, nada mudou. Aliás, mudou. Mas a mudança não acontece no palco e, sim, na platéia. O culto a Camelo continua forte. Ontem ele teve que voltar para dar um segundo bis porque o público permaneceu sentado, pedindo sua volta, mesmo com as luzes da platéia já acesas (bis pedido enquanto as luzes permanecem apagadas não conta...). Observei que o público fez coro forte em músicas do disco solo do cantor, Sou. Ou seja, Marcelo Camelo está bem na foto.


Sábado, 13 Dezembro, 2008

KLB grava Júlio Barroso, mas não dá crédito ao autor

Capa do CD 'Entre o Céu e a Terra' Ontem dei uma notícia curiosa na versão impressa da coluna Estúdio que mostra como a questão de direitos autorais no Brasil é delicada. É o seguinte: o KLB regravou Telefone, um antigo hit da Gang 90 no seu CD Entre o Céu e a Terra. A música é do saudoso Júlio Barroso, mentor da também saudosa Gang. Só que o nome de Júlio não aparece nos créditos do disco do KLB. A faixa aparece creditada a Nelson Kaê e a Beto Corrêa, que vem a ser os compositores de uma outra música chamada Telefone que fez sucesso com Tim Maia nos anos 80. Ou seja, houve confusão pelo fato de os nomes das músicas serem iguais. Só que eu pergunto: ninguém da gravadora pediu autorização à editora que representa os direitos de Júlio Barroso para regravar o hit da Gang 90???


Sexta-feira , 12 Dezembro, 2008

DVD de Roberto com Caetano frustra fãs

Capa do DVD Já chegou às lojas, antes do previsto, o DVD que registra o show de Roberto Carlos com Caetano Veloso. Mas os fãs que correram para comprar o DVD estão frustrados porque os dois duetos que não entraram no CD, A Felicidade e Se Todos Fossem Iguais a Você, também não aparecem no DVD. É que não passaram pelo crivo do Rei, perfeccionista ao extremo com seu canto e sua imagem. Com o veto, o DVD fica bem menos sedutor para quem já tem o CD. Mas a gravadora Sony BMG pensa diferente a ponto de ter fabricado, de cara, 100 mil cópias do DVD. É um número de respeito, mas, afinal, não tão extraordinário assim, se levado em conta que se trata da reunião de dois artistas que têm público fiel. Lamento, no entanto, que os dois duetos excluídos do CD também não estejam no DVD. Se tivessem entrado, o DVD teria, de fato, um atrativo sedutor para quem não abre mão do CD. Anyway, justiça seja feita, já é um privilégio poder ver o show em casa, a qualquer hora. Foi um momento realmente histórico.


Quinta-feira, 11 Dezembro, 2008

NME elege disco do MGMT como o melhor do ano

Já que o assunto dominante daqui para diante vai ser os melhores do ano (e os shows de Madonna no Brasil, claro), vai aqui uma informação que não me surpreende: críticos e leitores do jornal britânico New Musical Express decidiram em votação que o álbum de estréia do duo norte-americano MGMT, Oracular Spectacular, é o melhor disco de 2008. Concordo. Num ano de fracos lançamentos internacionais, a dupla se destacou mesmo com seu coquetel hedonista de rock, eletrônica e psicodelia. Admito que, justamente por gostar tanto do álbum, fiquei decepcionado ao ver o show da dupla no Tim Festival. Mas show é show. Disco é disco. E o do MGMT, que cotei com cinco estrelas ao escrever a resenha, foi mesmo o melhor do pálido ano.


Quarta-feira, 10 Dezembro, 2008

Sobre os prêmios musicais da APCA...

Foram divulgados ontem a relação de melhores do ano de acordo com os colegas da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Na música, Zé Renato foi eleito o cantor do ano. Nada mais justo, pois, para mim, seu recém-lançado CD É Tempo de Amar é um dos melhores discos de 2008. Para a APCA, aliás, o Disco do Ano foi Nova Estação, de Wanderléa. Um trabalho renovador, de fato. Acho que o único ponto dinossante no segmento de música popular foi a eleição de Nina Becker como a cantora do ano. Projetada como vocalista da Orquestra Imperial, Nina ainda não lançou seu primeiro disco solo. Tem feito alguns shows - inclusive recriando o repertório de Build Up, de Rita Lee - mas, na minha opinião, (ainda) não faz jus a um prêmio tão superlativo...


Terça-feira, 9 Dezembro, 2008

Mário Sève na voz de Carol Saboya

Capa do CD 'Chão Aberto'
Filha do pianista Antonio Adolfo, Carol Saboya é do tipo de cantora que busca os caminhos mais difíceis. Seu CD Chão Aberto segue por essa trilha. É todo dedicado ao cancioneiro do flautista Mário Sève, grande músico que integra o conjunto Nó em Pingo D'Água. A obra autoral de Sève é complexa, mas Carol, cantora de técnica apurada, dá conta do recado. O disco é interessante, mas deixa a sensação de que o canto da intérprete carioca vai continuar sendo ouvido por poucos. É uma opção. Jane Duboc, por exemplo, é uma cantora que segue nessa mesma trilha (ainda que tenha sucumbido momentanamente ao brega na segunda metade dos anos 80). Admiro quem não cede aos apelos do mercado. Aos ouvintes interessados, o disco sai pela Sala de Som.


Segunda-feira, 8 Dezembro, 2008

Disco de Wanderléa é uma boa surpresa

Capa do CD 'Nova Estação' Admito: já não esperava que Wanderléa fizesse um bom disco nessa altura da vida. Cantora que não conseguiu se dissociar da Jovem Guarda, embora tenha chegado a gravar ousados álbuns nos anos 70, a Ternurinha viveu as duas últimas décadas na carona dos revivals das velhas tardes de domingo. Mas eis que a gravadora Lua Music manda o CD Nova Estação e sua audição é uma boa surpresa. O repertório nem é novo como sugere o título. Mas é inédito na voz de Wanderléa. E o fato é que o disco é bom. Wanderléa está muito à vontade fora do universo da Jovem Guarda. Gosto especialmente de seu vivaz registro do Choro Chorão - um chorinho esperto lançado por seu autor Martinho da Vila em 1976 - e das regravações das baladas Mais que a Paixão (de Egberto Gismonti, com quem Wandeca gravou dois discos nos anos 70) e Se Tudo Pode Acontecer (de Arnaldo Antunes, uma daquelas jóias do ex-titã que têm tudo para brilhar nas paradas). Contudo, o disco tem muito mais. Tem até samba raro da lavra de Roberto e Erasmo Carlos, o Samba da Preguiça, gravado em 1973 pelo Trio Mocotó. Recomendo o bom disco. Tomara que Wanderléa permaneça sintoniza nessa nova velha estação.


Domingo, 7 Dezembro, 2008

CD de Roberto com Caetano recoloca 'Rei' no trono

Capa do CD 'Roberto Carlos e Caetano Veloso e a Música de Tom Jobim' Fui um dos felizardos privilegiados que assistiu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em agosto, ao show que reuniu Roberto Carlos com Caetano Veloso para cantar Tom Jobim. Um encontro dessa natureza somente poderia resultar sublime. E resultou - como pôde ser visto mais tarde no especial (editado) exibido pela TV Globo. E como pode ser comprovado no CD que está nas lojas desde a última quarta-feira, 3 de dezembro. Roberto Carlos não poderia ter escolhido uma maneira melhor de iniciar as comemorações por seus 50 anos de carreira. Desde os anos 70, ele não lançava um disco tão arrebatador (o Acústico MTV de 2001 não conta porque foi centrado em seu passado). O CD Roberto Carlos e Caetano Veloso e a Música de Tom Jobim recoloca o Rei no trono de grande cantor do Brasil. Não é um disco ousado. Ao contrário. A reverência ao universo musical de Tom Jobim pauta os arranjos de Jaques Morelenbaum e Eduardo Lages. Mas, convenhamos, é o máximo que se pode esperar de Roberto nesta altura do campeonato. Para quem não puder comprar o CD e o DVD (que chega às lojas entre 15 e 17 de dezembro), recomendo o DVD para que as imagens do show complementem o áudio de um encontro em Tom maior. E, cá entre nós, quem deu esse tom foi Roberto. Repare no azul dominante na capa. E no tom do agradecimento anônimo escrito na primeira pessoa...


Sábado, 6 Dezembro, 2008

Liminha e a missão de popularizar Ana Cañas

Divulgação / Sony BMG Ao fim de 2007, ainda impressionado com um show que tinha visto de Ana Cañas em São Paulo, sentenciei na versão impressa da coluna Estúdio que o público ia ouvir falar muito dela em 2008. Não foi bem o que aconteceu. Logo depois, chegou o primeiro disco da cantora, Amor e Caos, e a ótima impressão do show se diluiu, ou melhor, se transformou em decepção porque o repertório do CD, quase todo de autoria de Cañas, não estava à altura de sua voz. Mas eis que me chega a notícia de que a gravadora Sony BMG não somente vai continuar apostando em Cañas como já convocou Liminha para produzir, a partir de janeiro, o segundo CD da cantora. Dessa vez, escaldado, prefiro não fazer previsões, mas lembro que foi o mesmo Liminha o responsável pela produção do disco que fez Vanessa da Mata estourar. Só que, no caso, o primeiro CD de Mata era lindo, uma obra-prima de tom atemporal. Se não aconteceu, foi por conta da banalização do mercado. Cañas é uma boa cantora. Mas, diferentemente da geralmente inspirada Vanessa da Mata, não é a boa compositora que imagina ser. Isso prejudicou muito seu primeiro disco. Imagino que Liminha e a própria Sony vão podar suas pretensões autorais para lhe propiciar o sucesso popular que não veio em 2008.


Sexta-feira , 5 Dezembro, 2008

Como sempre, o Brasil fica na periferia do Grammy

Divulgação Gilberto Gil está indicado ao Grammy 2009 na categoria World Music por seu álbum Banda Larga Cordel. De tão corriqueira, a notícia foi dada sem muito destaque nos jornais de hoje. Indicações de Gil ao Grammy não são novidade - inclusive o artista já ganhou dois troféus na mesma categoria por seus álbuns Quanta Live e EletrAcústico, em 1998 e em 2005. Sem falar que, mais uma vez, a música brasileira é enquadrada sob o rótulo de world music - um termo genérico usado para agregar todos os sons produzidos fora do eixo central Estados Unidos-Inglaterra. Como de praxe, o Brasil marca pálida presença periférica no Grammy. Por isso, não temos mesmo que ficar valorizando essas indicações nos jornais como se a música brasileira precisasse do aval de um Grammy para ter atestada sua força e sua importância. E, verdade seja dita, no caso de Gil, artista já celebrado no exterior, ganhar ou perder esse Grammy em nada vai alterar seu status e seu prestígio lá fora.


Quinta-feira, 4 Dezembro, 2008

RoRo e Ana, 'a versão fêmea de Cauby'

Foto de Mauro Ferreira
Ontem teve show de Ângela RoRo com Ana Carolina no Canecão. Claro que fui conferir, pois tal encontro é emblemático por juntar em cena duas cantoras de registros intensos tanto na música como na vida. E, para felicidade da platéia simpatizante, o encontro cumpriu a alta expectativa. Primeiro, porque houve ensaio. Ninguém viu aqueles duetos improvisados de tom amador - ainda que as cantoras tenham se mostrado naturalmente inseguras. Segundo, porque a escolha das músicas foi muito apropriada, propiciando saudável troca-troca entre as obras das duas intérpretes. Foram duas músicas do repertório de RoRo (Compasso e Quero Mais) e duas do cancioneiro passional de Ana (Garganta e Homens e Mulheres, esta um pretexto para as cantoras estabelecerem em cena um jogo de sedução). RoRo contou que notou o talento de Ana Carolina ainda em Juiz de Fora (cidade natal da artista mineira) num show feito pela colega antes de ela estourar em 1999 com Garganta. Espirituosa, como sempre, RoRo definiu Ana como 'a versão fêmea do Cauby', pois tem muita gente que se rasga por ela. Ana entrou no jogo e fez bonito.


Quarta-feira, 3 Dezembro, 2008

Zé Renato fez um dos discos do ano

Capa do CD 'É Tempo de Amar'
Aos 40 do segundo tempo, pintou na área um dos grandes discos de 2008. Falo de É Tempo de Amar, o álbum em que Zé Renato aborda com requinte o cancioneiro das jovens tardes de domingo dos anos 60. Em bom português, o repertório da Jovem Guarda, o movimento que inseriu o Brasil (de forma um tanto pueril, é verdade) no universo da cultura pop que desabrochou na década de 60. Muita música ruim foi propagada pela Jovem Guarda. Mas dela brotou também muita música bonita de simplicidade comovente. Renato fez uma seleção brilhante e - sob a produção antenada de Dé Palmeira - deu moderno tratamento harmônico às canções (a maioria egressa dos discos de Roberto Carlos, mas não compostas por ele) com o cuidado de preservar letras e melodias. O resultado é um disco que arrebata da primeira à última faixa. É Tempo de Amar já faz jus - ao lado de Madrugada, o CD de Mart'nália, igualmente irretocável - ao título de melhor disco nacional do ano. Até porque Zé Renato sempre foi um dos grandes cantores do Brasil. E ainda é tempo de o Brasil amar esse refinado intérprete.


Terça-feira, 2 Dezembro, 2008

Sapucahy canta as mazelas da favela chamada Brasil

Capa do DVD 'Favela Brasil' Nunca entendi porque Leandro Sapucahy fez a gravadora Warner arquivar um disco de estúdio que já estava pronto para ser lançado - e até com título e single escolhidos, +1+Uma - para fazer um DVD. Mas, vendo Favela Brasil, o DVD gravado ao vivo na Fundição Progresso, entendo que Sapucahy está em evolução. O repertório reunido por ele - e cantado com adesões significativas de Arlindo Cruz e Leci Brandão - traça um painel contundente das mazelas que endurecem o cotidiano das favelas. É samba em sua essência, mas tem rap. E tem funk também. O cenário do artista plástico Zé Carratu reproduz no palco uma favela estilizada. É a moldura perfeita para Sapucahy falar de polícia, bandido e de todos os códigos que regem o cotidiano das favelas. Bezerra da Silva abordava esse cotidiano também, mas sob uma moldura de humor e espirituosidade que desviava por vezes o foco da questão principal. Sapucahy toca em algumas feridas. E com surpreendente desenvoltura no palco para quem começou carreira nos bastidores, como produtor de grupos ruins de pagode. Favela Brasil merece uma conferida. Na moral. Sapucahy parece saber bem o que canta e onde pisa.


Segunda-feira, 1 Dezembro, 2008

Madeleine Peyroux volta ao Rio com show refinado

Foto de Mauro Ferreira
Neste fim de semana, o Vivo Rio foi praticamente a minha segunda casa. Na sexta-feira, vi o show de Mercedes Sosa (já comentado no post de sábado). No sábado, entre Queen e Lenine, eu me mantive fiel à música brasileira e fui conferir o show Labiata, que chegou ao Rio em apresentação única, com preços acessíveis por conta do projeto obtido com a Natura. Por fim, ontem, domingo, fui ver a apresentação de Madeleine Peyroux, a cantora norte-americana de jazz e blues cuja voz lembra muito a de Billie Holiday. Foi muito bom o show de Peyroux, que mostrou músicas de seu quarto CD, Bare Bones, que tem lançamento programado para março. Já o show de Lenine precisa de ajustes urgentes no roteiro, fraco em sua parte inicial. Labiata, no palco, desabrocha somente na segunda metade. Falha que pode ser consertada ao longo da turnê que continua em 2009, pois Lenine tem tradição de bons shows. É uma questão de ajuste.
Foto de Mauro Ferreira

Jornalista especializado em música, o carioca Mauro Ferreira se formou em 1988 na Faculdade da Cidade (RJ). Ingressou no jornal O Dia em agosto de 1997 e, desde novembro de 1998, assina no Caderno D a coluna de música Estúdio, publicada às segundas-feiras. Estúdio Online é o complemento virtual da coluna impressa. O foco são exposições opinativas de notícias e eventos relacionados ao mundo do disco e da música.

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