Os destaques musicais de 2008

E 2008 vai chegando ao fim... Não vai ser um ano especialmente memorável na área fonográfica. Mas é claro que saíram alguns discos bem legais - e os de Mart'nália (Madrugada) e Zé Renato (É Tempo de Amar) foram os melhores na minha opinião - como em todo ano. E, afinal, 2008 foi o ano em que João Gilberto voltou aos palcos brasileiros. João (acima num clique feito pelo fotógrafo Marcos Hermes no primeiro dos dois shows feitos no Auditório Ibirapuera, em São Paulo) já é por si só um acontecimento. Eis alguns destaques musicais do ano que termina hoje:
* La Plata, Jota Quest - Somente os preconceituosos não perceberam a evolução do grupo.
* A Arte do Barulho, Marcelo D2 - Guitarras entram na mistura perfeita de samba e rap.
* Samba de Fé, Dorina - Um disco feito com garra pela cantora, devota do melhor samba carioca.
* Francisco, Forró y Frevo, Chico César - O cantor armou arraiá moderno com o produtor BiD.
* O Coração do Homem-Bomba 1 e 2, Zeca Baleiro - Dois petardos certeiros do incansável artista.
* Angenor, Cida Moreira - A cantora reverenciou o mestre no inverno de seu tempo delicado.
* Estudando a Bossa, Tom Zé - O baiano tropicalista tirou o manto sagrado que cobria a bossa.
* Roberto Carlos e Caetano Veloso e a Música de Tom Jobim - União tão improvável quanto bela.
* Ponto Enredo, Pedro Luís e a Parede - A turma se escora no suingue afro-brasileiro.
* Uma Prova de Amor, Zeca Pagodinho - A faixa-título é um erro, mas o CD é um acerto.


Bem, saiu enfim o CD/DVD em que Zé Ramalho canta versões de músicas de Bob Dylan. Acho que o trabalho bate na trave. Ramalho, de modo geral, é fiel às idéias de Dylan, ainda que nem sempre cante traduções literais dos versos do compositor. Mas acho que nenhuma versão, fiel ou livre, alça de fato o vôo poético das letras de Dylan. Exceção aberta talvez para Negro Amor, a versão de It's All Over Now, Baby Blue feita por Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti que foi gravada por Gal Costa em 1977 num de seus álbuns mais roqueiros, o Caras e Bocas. Por isso mesmo, causa estranheza o fato de a autoria de Caetano e Péricles ser omitida pela jornalista Ana Maria Bahiana nos textos (artificiais, aliás) em que a excelente crítica de música introduz no DVD cada música gravada por Ramalho. Ficou estranho. É claro que os nomes de Caetano e Péricles estão na ficha técnica. Ainda assim, a omissão soa estranha e injusta porque dá a entender que Negro Amor é uma criação de Ramalho. Como nem todo ouvinte consulta ou confere ficha técnica, a impressão errada é a que vai prevalecer para muita gente. Seja como for, o DVD/CD Tá Tudo Mudando é fiel à obra de Zé.



Ontem dei uma notícia curiosa na versão impressa da coluna Estúdio que mostra como a questão de direitos autorais no Brasil é delicada. É o seguinte: o KLB regravou Telefone, um antigo hit da Gang 90 no seu CD Entre o Céu e a Terra. A música é do saudoso Júlio Barroso, mentor da também saudosa Gang. Só que o nome de Júlio não aparece nos créditos do disco do KLB. A faixa aparece creditada a Nelson Kaê e a Beto Corrêa, que vem a ser os compositores de uma outra música chamada Telefone que fez sucesso com Tim Maia nos anos 80. Ou seja, houve confusão pelo fato de os nomes das músicas serem iguais. Só que eu pergunto: ninguém da gravadora pediu autorização à editora que representa os direitos de Júlio Barroso para regravar o hit da Gang 90???
Já chegou às lojas, antes do previsto, o DVD que registra o show de Roberto Carlos com Caetano Veloso. Mas os fãs que correram para comprar o DVD estão frustrados porque os dois duetos que não entraram no CD, A Felicidade e Se Todos Fossem Iguais a Você, também não aparecem no DVD. É que não passaram pelo crivo do Rei, perfeccionista ao extremo com seu canto e sua imagem. Com o veto, o DVD fica bem menos sedutor para quem já tem o CD. Mas a gravadora Sony BMG pensa diferente a ponto de ter fabricado, de cara, 100 mil cópias do DVD. É um número de respeito, mas, afinal, não tão extraordinário assim, se levado em conta que se trata da reunião de dois artistas que têm público fiel. Lamento, no entanto, que os dois duetos excluídos do CD também não estejam no DVD. Se tivessem entrado, o DVD teria, de fato, um atrativo sedutor para quem não abre mão do CD. Anyway, justiça seja feita, já é um privilégio poder ver o show em casa, a qualquer hora. Foi um momento realmente histórico.
Admito: já não esperava que Wanderléa fizesse um bom disco nessa altura da vida. Cantora que não conseguiu se dissociar da Jovem Guarda, embora tenha chegado a gravar ousados álbuns nos anos 70, a Ternurinha viveu as duas últimas décadas na carona dos revivals das velhas tardes de domingo. Mas eis que a gravadora Lua Music manda o CD Nova Estação e sua audição é uma boa surpresa. O repertório nem é novo como sugere o título. Mas é inédito na voz de Wanderléa. E o fato é que o disco é bom. Wanderléa está muito à vontade fora do universo da Jovem Guarda. Gosto especialmente de seu vivaz registro do Choro Chorão - um chorinho esperto lançado por seu autor Martinho da Vila em 1976 - e das regravações das baladas Mais que a Paixão (de Egberto Gismonti, com quem Wandeca gravou dois discos nos anos 70) e Se Tudo Pode Acontecer (de Arnaldo Antunes, uma daquelas jóias do ex-titã que têm tudo para brilhar nas paradas). Contudo, o disco tem muito mais. Tem até samba raro da lavra de Roberto e Erasmo Carlos, o Samba da Preguiça, gravado em 1973 pelo Trio Mocotó. Recomendo o bom disco. Tomara que Wanderléa permaneça sintoniza nessa nova velha estação.
Fui um dos felizardos privilegiados que assistiu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em agosto, ao show que reuniu Roberto Carlos com Caetano Veloso para cantar Tom Jobim. Um encontro dessa natureza somente poderia resultar sublime. E resultou - como pôde ser visto mais tarde no especial (editado) exibido pela TV Globo. E como pode ser comprovado no CD que está nas lojas desde a última quarta-feira, 3 de dezembro. Roberto Carlos não poderia ter escolhido uma maneira melhor de iniciar as comemorações por seus 50 anos de carreira. Desde os anos 70, ele não lançava um disco tão arrebatador (o Acústico MTV de 2001 não conta porque foi centrado em seu passado). O CD Roberto Carlos e Caetano Veloso e a Música de Tom Jobim recoloca o Rei no trono de grande cantor do Brasil. Não é um disco ousado. Ao contrário. A reverência ao universo musical de Tom Jobim pauta os arranjos de Jaques Morelenbaum e Eduardo Lages. Mas, convenhamos, é o máximo que se pode esperar de Roberto nesta altura do campeonato. Para quem não puder comprar o CD e o DVD (que chega às lojas entre 15 e 17 de dezembro), recomendo o DVD para que as imagens do show complementem o áudio de um encontro em Tom maior. E, cá entre nós, quem deu esse tom foi Roberto. Repare no azul dominante na capa. E no tom do agradecimento anônimo escrito na primeira pessoa...
Ao fim de 2007, ainda impressionado com um show que tinha visto de Ana Cañas em São Paulo, sentenciei na versão impressa da coluna Estúdio que o público ia ouvir falar muito dela em 2008. Não foi bem o que aconteceu. Logo depois, chegou o primeiro disco da cantora, Amor e Caos, e a ótima impressão do show se diluiu, ou melhor, se transformou em decepção porque o repertório do CD, quase todo de autoria de Cañas, não estava à altura de sua voz. Mas eis que me chega a notícia de que a gravadora Sony BMG não somente vai continuar apostando em Cañas como já convocou Liminha para produzir, a partir de janeiro, o segundo CD da cantora. Dessa vez, escaldado, prefiro não fazer previsões, mas lembro que foi o mesmo Liminha o responsável pela produção do disco que fez Vanessa da Mata estourar. Só que, no caso, o primeiro CD de Mata era lindo, uma obra-prima de tom atemporal. Se não aconteceu, foi por conta da banalização do mercado. Cañas é uma boa cantora. Mas, diferentemente da geralmente inspirada Vanessa da Mata, não é a boa compositora que imagina ser. Isso prejudicou muito seu primeiro disco. Imagino que Liminha e a própria Sony vão podar suas pretensões autorais para lhe propiciar o sucesso popular que não veio em 2008.
Nunca entendi porque Leandro Sapucahy fez a gravadora Warner arquivar um disco de estúdio que já estava pronto para ser lançado - e até com título e single escolhidos, +1+Uma - para fazer um DVD. Mas, vendo Favela Brasil, o DVD gravado ao vivo na Fundição Progresso, entendo que Sapucahy está em evolução. O repertório reunido por ele - e cantado com adesões significativas de Arlindo Cruz e Leci Brandão - traça um painel contundente das mazelas que endurecem o cotidiano das favelas. É samba em sua essência, mas tem rap. E tem funk também. O cenário do artista plástico Zé Carratu reproduz no palco uma favela estilizada. É a moldura perfeita para Sapucahy falar de polícia, bandido e de todos os códigos que regem o cotidiano das favelas. Bezerra da Silva abordava esse cotidiano também, mas sob uma moldura de humor e espirituosidade que desviava por vezes o foco da questão principal. Sapucahy toca em algumas feridas. E com surpreendente desenvoltura no palco para quem começou carreira nos bastidores, como produtor de grupos ruins de pagode. Favela Brasil merece uma conferida. Na moral. Sapucahy parece saber bem o que canta e onde pisa.