Comentário aguardando aprovação.
Mauro,
Sua percepção crítica sobre o novo trabalho do Nei Lopes é, no mínimo, rasa e equivocada, para não dizer uma má-vontade inusitada, apesar do direito à diferença.
Incrível um profissional da sua militância vislumbrar que a letra de Dicionário veicula "ironias bobas", quando, a toda evidência, é uma crítica muito bem tecida ao desvirtuamento da linguagem a expressar atitudes e comportamentos que não se coadunam com a forma originária, literal, filológica. Representa uma crítica à categorização inadequada ou, noutra vertente, o descompasso entre a definição (dos grupos - o roqueiro, o fanqueiro, o sertanejo, o axé) e a atitude que deles se esperaria. Com todo o respeito, o que se pretende convencionar atitude "roqueira" e de axé, no cenário musical, não se relacionam com a atitude existencial primitiva que lhes induz o significado
Melhor dizendo, representam um nada, uma excrescência, uma banalidade à cultura brasileira o que os movimentos produziram, por isso "as ironias", as invocações semânticas para induzir o pensamento crítico. Mas se entendes como "ironias bobas", preciso invocar um contra-argumento extraído de sua própria linguagem para qualificar o cantor-compositor em questão: diante de seus argumentos, só posso categorizá-lo como um dublê de crítico, em sentido literal e sem defesa, porque sua incipiência é manifesta.
Na mesma seara, o compositor sintetiza sua crítica no verso "a boca mais sábia é aquela que cala" referindo-se às ditas categorias por eufemismo de linguagem para aquela idéia antiga "se não tem o que dizer, que se cale", que pode ser também extraído das definições que introduzem a letra "no meu dicionário..." como correspondente à expressão popular "no meu tempo...", que Nei Lopes domina ao cubo. A forma como você se refere ao verso, ao dizer que o compositor "reconhece", soa descortês, intenciona recomendar, em exibição pública de sectarismo cultural e crítico, que o Nei cale sua livre inspiração? Eis aí uma ironia nada fina! Em uma composição, um compositor não reconhece absolutamente nada, mas creio que sua construção tenha espelhado uma auto-referência a ser sopesada em seus textos futuros.
Não tem igualmente nenhum significado relevante para uma avaliação crítica que o compositor tenha introduzido ritmo de rumba. Não é referência nenhuma a sua obra Partido ao Cubo, maravilhosa, consagradíssima,. A rumba é um ritmo que nos remete à nossa latinidade, por isso a pertinência qualquer o tempo, qualquer a obra e soa incrível que a introdução de uma música tenha o condão de te despertar uma referência à uma obra, eis aí uma supervalorização absolutamente equivocada.
No mais, é deslumbrante ouvir a criatividade melódica do Nei, suas parcerias vigorosas, seu trabalho excepcional, sua obra não tem só rumba, tem samba-jazz, tem partido alto e outras tantas influências de nossa brasilidade.
A pontuação de sua obra, porém, exige fundamento, com o acuro de seu autor, posto que o contrário é a paráfrase do verso-síntese tão questionada naquela velha idéia, naquela ironia nem sempre fina: crítico é crítico, mané é mané!
mariana
Qua, 27 Mai 2009 23:25:15 GMT