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| Mauro Ferreira |
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 Recebi da editora Sextante um livro delicioso, 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer. É o seguinte: 90 críticos estrangeiros analisam 1001 discos lançados entre 1955 e 2007. Tem até alguns brasileiros na lista, como Construção (a obra-prima lançada por Chico Buarque em 1971) e Os Mutantes, álbum que marcou em 1968 a estréia do grupo de Arnaldo Baptista no mercado fonográfico. Nacionalidades à parte, a seleção dá boa amostra do que rolou na cena pop nos últimos 50 anos. É um livro que pode ser lido aleatoriamente. Os textos são informativos e os discos são abordados sem preconceito. Ou seja, um álbum dos Carpenters é tratado com o mesmo respeito concedido a um disco de jazz ou a um CD do Radiohead, por exemplo. Recomendo aos colecionadores de discos como eu. Devorei o livro.
Ainda não foi neste ano, mas em 2008 - e logo no primeiro semestre - estará nas lojas um disco de inéditas de Adriana Calcanhotto - o primeiro desde Cantada, de 2002. É certo que houve o projeto infantil Adriana Partimpim em 2004, mas o público da compositora já estava sentido falta de um disco de Calcanhotto. Considero a gaúcha uma das artistas mais importantes de sua geração e espero que esse longo hiato tenha servido para uma necessária reciclagem. Afinal, em Cantada, ela deu algum sinal de cansaço como autora, apresentando CD levemente inferior a Maritmo, Senhas e A Fábrica do Poema. Que venha logo 2008!
 A informação não é oficial, mas rumores na indústria fonográfica sustentam que o Skank poderá convocar Dudu Marote para produzir seu próximo álbum de inéditas. Se for verdade, seria uma reviravolta e tanto. Para quem não liga o nome à pessoa (e ao som), Marote foi o produtor de discos como 'Samba Poconé', cujo megahit 'Garota Nacional' consolidou definitivamente o nome do quarteto mineiro. Depois, o Skank trilhou outros caminhos - mais sofisticados - e foi se afastando de Marote e daquele tom festivo de seus primeiros CDs. Voltar a ser produzido por Marote pode sinalizar a vontade da banda de conciliar seus dois lados, que, afinal, sempre conviveram muito bem nos shows.
 Há compositores que, com o tempo, perdem o vigor. Ficam sem ter o que dizer. Não é o caso de Joni Mitchell. Seu disco Shine, o primeiro de inéditas em nove anos (e não em dez - como anda divulgando a Universal Music - já que Taming the Tiger saiu em 1998), me envolveu bastante desde a primeira audição. Mitchell continua preocupada com a saúde do Planeta Terra, mas seu discurso foge dos clichês ecológicos. E Shine brilha forte também quando toca em outros temas. É, para mim, um dos grandes álbuns da sensível compositora. E quem a conhece sabe que isso não é pouca coisa.
p.s. escrevo de Sampa, onde vou assistir na noite desta terça-feira ao show da cantora Ana Cañas, que vai ser lançada com pompa pela Sony BMG. Volto ao assunto.
 Admiro todos os tons de Ney Matogrosso. Mas admito que gosto mais quando o cantor transita à margem do convencional - como em seu novo show, Inclassificáveis. Estou em São Paulo e acabo de conferir o espetáculo, de tom caloroso e explosivo. É um show de atmosfera roqueira, mas não é um show de rock. Tem muito Cazuza no roteiro, mas tem também músicas de Itamar Assumpção, Alice Ruiz, Carlos Rennó, Alzira Espíndola, Fred Martins. Compositores sem voz no mainstream. Com invejável forma física, o sessentão Ney rebola, provoca a platéia - que retribui com gritos de 'Gostoso' e 'Necessário' - e domina a cena. Cariocas, não percam: em janeiro, o show chega ao Canecão, onde vai ser gravado para gerar CD e DVD. Inclassificável. Imperdível!
A respeito do CD Duas Caras Nacional, que a Som Livre põe nas lojas ainda este mês, cabem duas ou três considerações curiosas sobre a seleção musical da novela de Aguinaldo Silva.
1) Pela primeira vez, se não me trai a memória, a foto de um ator negro ilustra a capa de uma trilha de novela das oito da Rede Globo. No caso, Lázaro Ramos, intérprete de Evilásio. Entre as atrizes, Camila Pitanga já foi escolhida por sua bela estampa. No time masculino, pelo que me consta, Lázaro é o primeiro. 2) Cadê o samba Zé da Feira, que teria sido composto por Zeca Pagodinho para o personagem homônimo de Eri Johnson? Ele não consta na relação de músicas da trilha. 3) A trilha inclui música evangélica (Recomeçar, na voz de Aline Barros), mas não é a primeira vez que isso acontece em novela. Em 1998, Meu Bem Querer trouxe na sua trilha O Senhor É meu Pastor, na voz de Vera Negri. A música era tema do personagem Juliano, um pastor vivido por Leonardo Brício. Eis as músicas do disco Duas Caras Nacional: 1. Tá Perdoado - Maria Rita 2. Trabalhador - Seu Jorge 3. Delírio dos Mortais - Djavan 4. Oração ao Tempo - Caetano Veloso 5. E Vamos à Luta - Gonzaguinha 6. Canto de Oxum - Maria Bethânia 7. Ela Une Todas as Coisas - Jorge Vercilo 8. Geraldinos e Arquibaldos - Las Chicas 9. Negro Gato - MC Leozinho 10. Be Myself - Charlie Brown Jr. 11. Ternura - Isabella Taviani 12. Toda Vez que Eu Digo Adeus - Cássia Eller 13. Você Não Entende Nada - Celso Fonseca 14. Folhetim - Luiza Possi 15. Coisas que Eu Sei - Danni Carlos 16. Quem Toma Conta de mim - Paula Toller 17. Recomeçar - Aline Barros 18. Call me - Victor Pozas 19. The Look of Love - Victor Pozas
Chega às livrarias em breve uma biografia que pode dar o que falar. Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia conta a vida do Síndico sob a ótica de Nelson Motta, o jornalista e produtor que conviveu bastante com o cantor. Nelson não costuma ser muito rigoroso com datas, mas sabe contar histórias, como já provou em seu delicioso livro Noites Tropicais. Se contou tudo o que sabe e viu sobre Tim, a biografia vai ser demolidora. Será que vale tudo mesmo? A conferir...
 Líder do grupo Black Eyed Peas, e um dos produtores mais requisitados atualmente (vai colaborar na produção do novo álbum de Michael Jackson), will.i.am soube tirar proveito de suas andanças pelo Rio de Janeiro. Em seu terceiro CD solo, Songs About Girls, recém-lançado no Brasil, o cara se deixou inspirar totalmente pelo batidão do funk carioca na faixa I Got It from my Mama - cujo clipe, não por acaso, foi gravado na maravilhosa cidade partida. Resta saber se will vai levar o batidão carioca para o próximo disco do decadente Michael Jackson...
Tenho ouvido muito o segundo CD de Fabiana Cozza, Quando o Céu Clarear, recém-editado pela Eldorado. Cozza não é muito conhecida fora dos redutos de samba de São Paulo. Mas o Brasil merece ouvir essa cantora de voz calorosa. Minha faixa preferida é Agradecer e Abraçar, tema dos baianos Gerônimo e Vevé Calazans. A distribuição do disco está bastante irregular, o que é uma pena, mas vale a pena correr atrás do CD. Fabiana Cozza é bamba.
 Inclassificável por natureza, Ney Matogrosso volta aos palcos esta semana com show intitulado... Inclassificáveis - nome de música de Arnaldo Antunes. O show estréia em São Paulo e chega ao Rio no início de 2008, quando será gravado para gerar CD e DVD. No roteiro, músicas de Cazuza (Seda, O Tempo Não Pára, Pro Dia Nascer Feliz), Caetano Veloso (Divino Maravilhoso), Pedro Luís (Fraterno), Marcelo Camelo (Veja Bem, meu Bem) e Itamar Assumpção (Ouça-me, parceria com Alice Ruiz). Ney - que aparece na foto com o figurino brilhante criado por Ocimar Versolato para o show - recrutou uma banda afiada para dar tom pop rock ao repertório. Vou conferir o show em Sampa. Aguardem os comentários...
Madonna sabe que o tempo não espera por ninguém. Ciente das mudanças por que passa o mercado da música, a estrela anunciou esta semana a sua parceria com uma empresa, Live Nation, que vai passar a gerenciar todos os negócios relativos à sua carreira. Inclusive a gravação de CDs e DVDs. Isso significa que Madonna encerrou seu vínculo com a Warner Music, a major que distribui seus discos desde 1983. Madonna nunca foi boba e percebeu que uma gravadora multinacional já não tem o poder de fogo dos áureos tempos da indústria da música. E que já não representa garantia de nada. Em outras palavras, ela pulou do barco antes que ele afunde de vez.
Mariana Aydar não é tão badalada quanto Roberta Sá, mas seu disco Kavita 1 foi um dos destaques do mercado fonográfico em 2006. Tanto que vai ser lançado nos Estados Unidos em 2008 com o selo da gravadora Verve. O disco já saiu na Europa. Em novembro, aliás, Aydar vai à França para badalar o CD por lá. Para quem não ouviu Kavita 1, a cantora oferece uma visão contemporânea do samba. O produtor BiD usou com economia e inteligência os recursos eletrônicos. Particularmente, acho os CDs de Roberta Sá imbatíveis, mas Kavita 1 também tem seus (muitos) encantos e pode seduzir os gringos.
Fui ver no sábado o filme Piaf - Um Hino ao Amor. Sabia que o divino filme entraria logo em cartaz nos cinemas brasileiros e, por isso, consegui conter minha ansiedade e não fui vê-lo nas concorridas sessões do Festival do Rio. Mas ontem chegou o dia e confesso que nada tenho a dizer além dos lugares-comuns já ditos sobre o filme e sobre a fenomenal atuação de Marion Cotillard, a atriz que encarna Piaf de forma mediúnica. O trabalho de Cotillard é um hino de amor ao ofício do ator. Falo do ator verdadeiro. Aquele que se despe de suas vaidades em favor da personagem. Cotillard torna Piaf um filme imperdível. E surpreende especialmente quem, como eu, achava que Bibi Ferreira tinha oferecido a melhor encarnação possível da diva da canção francesa. Nada apaga o brilho de Bibi na pele de Piaf, nos palcos e no CD editado pela Som Livre, mas Cotillard exibe uma interpretação digna de Oscar. Se você não viu, veja Piaf - Um Hino ao Amor. É tão bom e prende tanto a atenção que os 140 minutos da projeção passam como se fossem dez.Muito por conta de Marion Cotillard.
E já que o assunto deste post são atores, os de verdade, Geléia Geral se junta ao coro dos que lamentam com profunda tristeza a morte do ator Paulo Autran, único e insubstituível. A vida de Paulo Autran foi um hino de amor ao teatro. Obrigado por tudo!
Fui dos poucos críticos que não babou quando Caetano Veloso lançou o CD Cê em 2006. Gostei de cara da sonoridade roqueira, da ambiência jovial do trabalho. Mas considero o repertório bem aquém do som do disco (com exceções para Minhas Lágrimas, Não me Arrependo, Rocks e Odeio). Mas veio o show. E aí Cê me seduziu. Porque, no palco, foi possível ouvir grandes músicas como Sampa, Desde que o Samba É Samba, Como 2 e 2 e Fora da Ordem com aquela sonoridade tão legal. Tudo emoldurado pelo cenário funcional de Hélio Eichbauer (mestre no seu ofício) e pela bela luz de Maneco Quinderé (outro craque na sua área). Por isso mesmo, recomendo com entusiasmo o DVD do show, captado na Fundição Progresso. As imagens têm uma sujeira que realça o espírito do som. E, de quebra, o DVD traz nos extras uma entrevista de meia hora com Caetano Veloso. Confie em mim: Cê é imperdível em vídeo.
Paulinho da Viola está devendo um disco de inéditas ao seu fiel público. O último, Bebadosamba, saiu em 1996 e foi saudado como obra-prima - o que é de fato. E o fato é que, enquanto não apronta o esperado CD de inéditas, Paulinho aceitou o convite para sentar no banquinho da MTV e gravar um acústico. Bem, a obra dele já é acústica por natureza, mas nem por isso o CD e DVD lançados esta semana pela Sony BMG deixam de ser primorosos. Para admiradores de última fora, vão funcionar como belo cartão-de-visitas da obra do artista. Para quem já tem seus discos, há as cordas arranjadas por Cristóvão Bastos, o tempero especial deste acústico feito no tempo elegante de Paulinho. Com direito a quatro sambas inéditos na voz do cantor. Três são inéditos mesmo (Bela Manhã, Vai Dizer ao Vento e Talismã, em cuja letra Marisa Monte e Arnaldo Antunes conseguem retratar bem o temperamento de seu novo parceiro). O outro, Ainda Mais, foi gravado em 1998. por Eduardo Gudin, parceiro de Paulinho na música, mas conta como inédita por ser novidade na voz de seu outro autor. Luxo só!
Como eu já tinha sinalizado no jornal impresso, na edição da coluna Estúdio de 24 de agosto, e aqui mesmo neste espaço virtual, Roberto Carlos não vai lançar disco de inéditas este ano. Cada vez mais, o Rei tem um tempo todo próprio. E isso não tem a ver com o T. O.C. - a doença da qual Roberto vem se tratando com sucesso. O fato é que ele começou a preparar um disco com músicas novas - o disco que ele está devendo já há alguns anos - mas o trabalho não andou na velocidade compatível com o ritmo da indústria. Resultado: o disco anual do cantor vai ser a gravação do show realizado em maio em Miami (EUA). Vai sair em CD e em DVD. Mas tem um detalhe: Roberto canta em espanhol. A propósito, a segunda caixa com seus discos em castelhano chega às lojas em breve.2007 é o ano de ouvir El Rey. Mas que venha o CD de inéditas em 2008...
Recebi um e-mail gentil de Kati Almeida Braga, dona da gravadora Biscoito Fino, a respeito do post em que eu criticava aqui no Geléia Geral o fato de a companhia estar editando dois documentários curtos sobre Maria Bethânia (Bethânia Bem de Perto e Pedrinha de Aruanda) em DVD duplo, quando ambos caberiam num DVD simples. A explicação me convenceu tanto que pedi autorização para reproduzir o e-mail. Aqui vai:
 "Permita-me umas notinhas sobre o DVD de Bethânia. Nossa intenção não foi multiplicar os pães .... Você está certo quando diz que os dois DVDs caberiam num só, mas decidimos fazer dois porque se tratava de dois filmes diferentes, feitos por dois grandes diretores brasileiros , e achamos deselegante colocar um como "extra" do outro. Quanto a outros extras não colocamos porque não é um dvd de show, não tem making of ou coisa similar. São dois filmes que falam por si. E, para te falar a verdade, ando pessoalmente cansada daqueles extras de dvds, apesar da Biscoito Fino algumas vezes ainda fazer ... Mas estamos vendendo para os lojistas exatamente pelo mesmo preço que vendemos os DVDs simples, e acho que para o consumidor é mais prático ter os dois filmes já separados do que o trabalho de ir ao menu, etc e tal".
A novela já acabou, mas o CD com a trilha internacional de Paraíso Tropical vai muito bem nas paradas. Com toda a pirataria, o disco é retumbante sucesso de vendas. Particularmente, acho que a seleção estrangeira da trama tem um tom mais contemporâneo que faltou na trilha nacional, mais voltada para a MPB tradicional. A começar por You Give me Something, aquele musicão do James Morrison que ouço dezenas de vezes seguidas.
 Taí a capa do novo disco em inglês de Celine Dion, Taking Chances, nas lojas em novembro. Em queda livre no mercado de disco (embora sua série de shows em Las Vegas tenha feito sucesso entre o público do local), a cantora recorre a nomes como Timbaland (produtor recrutado até por Björk) e Snoop Dogg para tentar recuperar o sucesso perdido. Em outras palavras, Dion vai tentar se reerguer no mercado dos EUA a reboque da mesma receita de Mariah Carey e Beyoncé Knowles: uma mistura de rap com pop e r & b. Sei não, mas desconfio que a época áurea de Celine já sei foi. Ela até lançou alguns discos menos melosos nos últimos anos, mas vem afundando como o Titanic... Las Vegas à parte.
 Sempre fui fã de Elba Ramalho. Acho que Elba nunca foi valorizada pela mídia na medida de sua importância para a música brasileira. Talvez pelo fato de ser nordestina da Paraíba. Mas isso é uma outra história sobre a qual nem quero me estender. O que desejo ressaltar é a felicidade que senti ao ouvir o novo disco da cantora, Qual o Assunto que Mais lhe Interessa?, o primeiro trabalho de Elba no mercado independente. Resenhei o CD na coluna Estúdio da última sexta-feira, 5 de outubro. E tive o prazer de poder escrever, enfim, que Elba gravou um belo álbum. E a cantora estava devendo aos fãs um trabalho à altura de sua discografia. Nesta década, seus discos soaram sem força. Muito por conta de produções equivocadas. Neste novo disco, o trio Lula, Tostão e Yuri Queiroga valorizam um grande repertório com arranjos de tom contemporâneo que nunca negam - ao contrário, até realçam - a raiz nordestina de Elba. Mas sem enquadrá-la em rótulos, ritmos ou gêneros. Elba fez um CD dos mais interessantes de 2007. Vale a pena conferir.
 Fui ontem ver no Canecão o novo show de Isabella Taviani, Diga Sim. Mais por pressão de amigos, admito, do que por vontade própria. Reconheço as qualidades vocais da cantora, mas ainda acho que seu repertório peca pelo tom over. Mas o fato é que o público de Taviani está crescendo. Na estréia, pelo menos, não havia somente moças na platéia. Ao contrário, o público era bem diversificado, com um surpreendente percentual masculino. E esse público disse sim para a artista. Cantou suas músicas, berrou adjetivos como 'poderosa!' e tirou fotos. Parecia que em cada mesa havia uma câmera. Senti a falta de um diretor, alguém que levasse a cantora a explorar outros tons, músicas e linguagens. Mas essa é uma opinião bem particular. O público curtiu o show. Que continua hoje e amanhã.
Biografias isentas trazem à tona verdades que nem sempre favorecem o artista biografado. A excelente biografia de Clara Nunes escrita pelo jornalista Vagner Fernandes, Guerreira da Utopia, se encaixa neste honroso time. Vagner pinta um generoso retrato de Clara, mas sem maquiar as imperfeições inerentes a todo ser humano. E uma das questões desagradáveis levantadas pelo livro é a rivalidade real que existiu entre Clara e Beth Carvalho. Se Beth nunca engoliu o fato de Clara ter estourado primeiro do que ela cantando samba, Clara também - ao que parece - gostava volta e meia de provocar Beth.
Na última terça-feira, Alcione entrou na briga contra Beth Carvalho em rede nacional, durante a entrevista de Vagner ao programa Sem Censura. Rebateu no ar a acusação - feita por Beth - de que Clara imitou seu estilo e seu figurino. Não sei quem tem razão. Particularmente, acho que Clara nunca imitou Beth simplesmente porque Clara estourou primeiro cantando samba - pioneirismo que, repito, Beth nunca engoliu. Mas sei que essa briga toda me parece sem razão. Mesmo fazendo sucesso depois de Clara, Beth construiu discografia tão ou mais importante para o samba do que a colega. Sei também que Beth tem fama de ser pessoa difícil, mas justiça seja feita: ela apenas contou sua versão dos fatos a pedido do autor do livro. Não foi para os jornais atacar Clara gratuitamente. E o fato é que, brigas do passado à parte, as duas cantoras têm lugar de honra na história do samba. Já pouco ou nada importa o que houve na virada dos anos 60 para os 70.
Já está nas lojas, pela gravadora Biscoito Fino, o DVD que reúne dois documentários sobre Maria Bethânia. Um filme, Bethânia Bem de Perto, é de 1966, tem direção de Júlio Bressane e tinha virado raridade. O outro, Pedrinha de Aruanda, dirigido por Andrucha Waddington, foi lançado este ano e mal acabou de sair de circuito. Mas cabe uma pergunta: se o primeiro dura apenas meia hora e o segundo tem uma hora de duração, por que lançá-los em um DVD duplo, à venda por quase R$ 60??! Os dois filmes caberiam perfeitamente em um único DVD.
 Acabo de chegar da estréia carioca do novo show de Roberta Sá, Que Belo Estranho Dia para se Ter Alegria, baseado em seu segundo disco. Gostei, mas ficou a sensação - compartilhada por várias amigos que assistiram à apresentação - que faltou um algo mais. Roberta desfiou as músicas de seus dois discos com a habitual graça, mas sem surpresas no roteiro. Ainda assim, foi um prazer ouvi-la em números como Laranjeira, Ah Se Eu Vou... (aplaudido no meio), Pelas Tabelas. Roberta está mais solta no palco. Faltou, contudo, um sopro de ousadia no agradável show. Mas recomendo.
P.S. Foi a primeira vez que fui ao Rival depois da reforma. E vale registrar que a casa de Ângela Leal ficou bacana!
 Nunca vi um show de Preta Gil, mas sempre tive vontade de vê-la em cena. Por isso mesmo, vou dedicar uma das noites de quarta-feira de outubro para conferir a Noite Preta na Cinemathèque, em Botafogo. Intuo que Preta deve saber segurar a atenção de uma platéia.
Sobre o disco de Carlinhos Brown, A Gente Ainda Não Sonhou, que resenhei na coluna Estúdio da última sexta-feira, na versão impressa do DIA, cabe uma pergunta: por que a edição brasileira do álbum traz apenas 11 músicas em vez das 14 originais da versão original estrangeira, já editada no exterior??? Se as músicas são todas de Brown, não vejo razão para que três tivessem sido limadas do CD nacional. E aí, Som Livre?
Estou virado por conta de tantos filmes no Festival do Rio, não posso deixar de registrar o encantamento com Controle - A História de Ian Curtis. Vi o longa de ficção no domingo à noite, na concorrida sessão de 23h30 do Espaço de Cinema. E gostei muito. A trajetória sombria do líder do Joy Division - cujo suicídio daria fim ao grupo e geraria o New Order - foi muito bem retratada na tela. O roteiro ficou muito focado no dilema romântico de Curtis, indeciso entre a mulher (Debbie, cujo livro foi a base do roteiro) e a amante (Annik), mas deu para perceber as nuvens que inquietavam a mente nebulosa do rapaz.
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