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| Mauro Ferreira |
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 Somente o preconceito da crítica musical pode impedir o reconhecimento de que o sexto álbum de inéditas do Jota Quest, La Plata, é muito bom. É o disco mais coeso da banda, com grooves antenados e repertório renovador. Ladeira, a parceria dos mineiros com Nelson Motta, tem uma levada pulsante e pode ser posta em qualquer lista de melhores músicas de 2008. Acho que muitas vezes o Jota Quest pecou pelo excesso (inclusive de discos ao vivo) e fez jus às alfinetadas da crítica. Mas, justiça seja feita, La Plata é um belo disco. Talvez até por uma questão de honra, já que foi rejeitado por Mario Caldato e Kassin, dupla inicialmente escalada para produzir o álbum, o quinteto acabou gravando (sob a batuta de Liminha) seu melhor disco. Ouça, mas ouça sem preconceito!
 Desde que idealizou seu quinto disco solo, 'A Arte do Barulho', Marcelo D2 quis que o CD tivesse faixa cantada por Pitty. Amiga de D2, com quem gravou 'Edmundo' para o DVD 'Cidade do Samba', a roqueira baiana topou a parceria e, além de compor sua primeira música com D2, gravou o tema para o CD. Contudo, 'A Arte do Barulho' vai chegar às lojas, a partir de 20 de novembro, sem a música, intitulada 'Feriado'. É que a gravadora de Pitty, Deckdisc, vetou a participação da artista no trabalho de D2 e a EMI Music teve que retirar a faixa do disco produzido por Mario Caldato. O veto passa por cima da relação de amizade que já vem desde meados da década de 90, quando D2 ainda integrava o grupo Planet Hemp. Tanto que o primeiro show de Pitty em São Paulo foi feito na abertura de uma apresentação do Planet. Hoje, com a roqueira já em evidência em todo o Brasil, Pitty e D2 são empresariados pelo mesmo escritório, comandado por Marcelo Lobatto, cujo filho tem os dois artistas como padrinhos. Apesar da proibição da participação de Pitty no CD, 'A Arte do Barulho' mantém forte tom feminino por conta das presenças de três incensadas cantoras da nova geração no eclético time de convidados que abriga também Seu Jorge, Marcos Valle, o grupo Jongo da Serrinha, Stephan (filho de D2, convidado da faixa 'Atividade na Laje') e o 'rapper' norte-americano Medaphor. As três cantoras em questão são Roberta Sá, Thalma de Freitas e Mariana Aydar. Roberta pôs sua voz graciosa na inédita 'Minha Missão'. Aydar é a convidada da faixa 'Congado'. Já Thalma de Freitas canta em 'Ela Disse', outra música do repertório inédito que ainda destaca a voz veterana de Cláudia. No refrão de 'Desabafo', faixa já em rotação nas rádios desde 25 de setembro, D2 inseriu 'sample' da voz de Cláudia na gravação de 'Deixa Eu Dizer', um samba de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, lançado em 1973 pela cantora. 'A Arte do Barulho' marca a estréia de Marcelo D2 na gravadora EMI Music. Pelo veto de Pitty, o barulho já começou nos bastidores da indústria do disco.
Não sou do time que acha que os Titãs já são coisa do passado na cena pop nacional. O último disco dos caras, Como Estão Vocês?, lançado em 2003, tinha músicas bem interessantes, mas foi prejudicado porque a gravadora quis trabalhar uma balada, Enquanto Houver Sol, feita descaradamente na cola de Epitáfio. Mas confesso que, de antemão, não vejo com bons olhos a associação da banda com o produtor Rick Bonadio. Sim, os Titãs estão ingressando na Arsenal Music e vão ter seu próximo disco de inéditas pilotado pelo mesmo produtor de bandas como NX Zero e Hateen, que são a atual cara padronizada do pop nacional. Sinceramente, fico me perguntando o que os Titãs têm a ganhar com Bonadio, um produtor talentoso - isso é inegável - mas que segue fórmulas e receitas radiofônicas. Tomara que eu esteja enganado e que os Titãs surpreendam em 2009 com um grande disco. Caso contrário, pode ser o começo do fim...
 Com o cancelamento do grupo The Gossip, a banda Klaxons acabou sendo a atração mais esperada do palco principal na última noite carioca do Tim Festival. Com seu som rotulado de new rave, o grupo - umas das revelações da cena inglesa em 2007 - pôs todo mundo para dançar num show eletrizante, cheio de energia roqueira, vigor juvenil e batidas pop. Golden Skans, entre outras músicas, garantiram momentos catárticos na apresentação dos Klaxons. Para ficar na memória.
 A figura aí da foto - com camisa estampada com foto dos Menudos e uma pança bizarra - é Har Mar Superstar. Ele não integra o grupo Neon Neon, mas roubou ao cena ao ser convocado para assumir os microfones no show da banda, na última noite do Tim Festival. O mix de rap e tecnopop do Neon soou sem vida no palco. Tanto que Har Mar roubou a cena com suas piruetas. O cara plantou até bananeira em seu performático número. Mas nem a egotrip de Har Mar salvou um dos shows mais chatos do Tim Festival. Faltou brilho ao Neon Neon.
 Apesar da justa badalação em torno da ópera-rap de Kanye West, o show no qual eu depositava mais expectativa na edição 2008 do Tim Festival era o da dupla MGMT. Simplesmente porque considero o primeiro álbum do duo, Oracular Spectacular, o melhor CD estrangeiro de 2008 (até agora - o ano ainda não acabou...). Por isso, não posso deixar de registrar uma certa decepção com a apresentação de Andrew Vanwyngarden e Ben Goldwasser na edição carioca do Tim. É fato que o bloco final, com Time to Pretend e Kids, foi tão apoteótico e catártico que apagou qualquer má impressão anterior do show. Mas é fato também que o espetáculo demorou a engrenar. Inclusive por conta de graves problemas de som que prejudicaram, no início, a absorção do som do MGMT. Apesar de Kids e de Time to Pretend, dois momentos memoráveis, o coquetel de rock, psicolelia e eletrônica do duo soou menos saboroso no palco do que no disco. Ainda assim, desceu bem.
"Minha voz vem da mulher", ressaltou Milton Nascimento em verso de 'A Feminina Voz do Cantor', música que abre um de seus melhores álbuns, 'Pietá' (2002). A obra de Bituca tem, de fato, vozes femininas fortes. A maior delas foi a de Elis Regina (1945 - 1982), cantora que lançou Milton ao gravar, em 1966, a 'Canção do Sal', música incluída no disco 'Alaíde Costa Canta Milton - Amor Amigo', lançado esta semana pela Lua Music. Alaíde é outra voz feminina associada a Milton. Em 1972, ela foi a única mulher admitida no 'Clube da Esquina', gravando o samba 'Me Deixa em Paz' com o cantor. No 'songbook' que dedica à obra do amigo compositor, Alaíde Costa conta com a presença generosa do homenageado no suingado registro de 'Viola Violar', parceria com Márcio Borges que Milton lançou em 1974 no álbum 'Milagre dos Peixes ao Vivo', gravado com o grupo Som Imaginário. Deste mesmo trabalho, a cantora pescou também 'Bodas', composta pelo compositor com o cineasta Ruy Guerra. 'Amor Amigo' acerta especialmente quando Alaíde investe em registros minimalistas. O de 'Travessia'- adornado pelo violoncelo de Jonas Moncaio - resulta pungente e desperta a atenção para uma das músicas mais batidas do repertório de Milton, gravada até por Björk. Contudo, Alaíde não se limita aos clássicos do compositor. Há temas raros, desconhecidos até por fãs de Milton. É o caso de 'E a Gente Sonhando', música lançada pela própria Alaíde em compacto de 1972. A letra, do próprio Milton, retrata em tom épico o período noturno em que o Brasil vivia amordaçado pelo regime militar. Fase em que a voz de Milton não se calou. O novo registro de Alaíde é (bem) pontuado pelo acordeom de Iuri Savagnini. Entre músicas como 'Sentinela' (1969), 'Morro Velho' (1967) e 'Outubro' (1967), a cantora se permite uma justa 'licença poética' ao cantar 'Beijo Partido' - música que é de Toninho Horta, embora associada a Milton por sua gravação de 1975 - e dá nova chance a um tema pouco conhecido do autor, 'Carta a um Jovem Ator (River Phoenix)', de 1988. Jóia do baú farto do amigo.
 Fui conferir na noite de terça-feira à estréia de um show renovado (mas não exatamente novo) de Marina Lima no projeto Som às 7, do Teatro Sesc Ginástico, no Centro do Rio. A cantora está soltando sua meia-voz em músicas que nunca interpretou em show como Dois Durões (uma bossa torta lançada no CD Setembro, em 2001), Carne e Osso (a melhor música do extinto grupo carioca Picassos Falsos) e You're my Thrill (música do repertório de Billie Holiday que ela se aventura a cantar num arranjo eletroacústico). Em cartaz somente até esta quarta, o show Marina Lima e Trio em Concerto é muito bom. Aos 53 anos, Marina continua jovem. Sempre na sua, ela também continua sissi. E o fato é que, mesmo à meia-voz, seus registros têm todo o charme do mundo.
 Na foto acima, Paula Toller está devidamente acomodada em cima do piano durante a interpretação de Grand' Hotel, balada do repertório de seu grupo Kid Abelha que foi incluída no roteiro do primeiro show solo da cantora. O registro do show vai ser lançado em novembro com um título bem-sacado, Nosso, referência ao nome do CD SóNós, base da gravação ao vivo feita em agosto no teatro Oi Casa Grande.
 "Lô e a turma dele são os Beatles brasileiros", afirma Samuel Rosa, em depoimento para o primeiro DVD de Lô Borges, lançado esta semana dentro da série 'Intimidade'. O cantor do Skank se refere aos 'sócios' do Clube da Esquina, movimento mineiro que revelou Lô em 1972 em álbum duplo dividido com Milton Nascimento. No DVD, Samuel canta 'Clube da Esquina 2' e 'Dois Rios', sua segunda parceria com o colega mineiro, sucesso do CD 'Cosmotron', editado pelo Skank em 2003. A regravação de 'Dois Rios' enfatiza que os Beatles são o afluente que conecta o Skank ao Clube da Esquina. Através de 19 números musicais, costurados com entrevistas, Lô rebobina sua obra no DVD 'Intimidade'. Sem sair da esquina mineira, ele canta até bossa nova, 'Sem Não', parceria com Caetano Veloso, gravada por Lô em 1996 num de seus melhores discos, 'Meu Filme'. Sim, antes dos Beatles, houve a Bossa Nova. E o balanço revolucionário de João Gilberto também mexeu com a cabeça e o som dos então garotos mineiros. Como cantor, Lô desafina além do aceitável. Deficiência que salta mais aos ouvidos em registro ao vivo que se pretende informal, sem maquiagem. Contudo, como compositor, ele continua referência para quem quer fazer pop no Brasil. Como os sonhos, suas músicas não envelhecem. E, por isso, o DVD e CD 'Intimidade' funcionam como expressivas amostras de seu talento. Estão no roteiro jóias do quilate de 'O Trem Azul', 'Feira Moderna', 'Paisagem da Janela' e 'Tudo que Você Podia Ser', feita - como recorda o irmão e parceiro de Lô, Márcio Borges - no calor do movimento estudantil dos anos 60. Estruturado no violão, como mostra o registro de 'Equatorial', o cancioneiro de Lô Borges também pode ser formatado eventualmente no piano, como em 'Universo Paralelo', música menos conhecida de seu repertório. Qualquer que seja a forma, no entanto, a música de Lô Borges consegue a proeza de conciliar requinte harmônico e melódico com simplicidade. Exemplo perfeito dessa habilidade é a irresistível canção 'Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor', feita com Márcio Borges e propagada recentemente por Milton Nascimento em seu álbum 'Pietá' (2002). "A vida dele tem um só capítulo: música", sentencia Seu Salomão, pai de Lô, neste DVD que prima por revelar algo da intimidade deste compositor universal que nunca saiu de sua esquina.
 Havia que jurasse que, com a saída de Toni Garrido e do guitarrista Da Gama, no intervalo de poucos meses, o grupo Cidade Negra fosse priorizar o reggae mais autêntico no próximo disco. Mas não é o que parece. O CD já começa a ser produzido - sob o comando de Nilo Romero - e vai trazer no repertório inédita de Ana Carolina. É isso aí! Será que Ana compôs um reggae?
 Foi de Maria Rita um dos momentos mais bonitos do show realizado ontem no Canecão em tributo aos 100 anos de Cartola (1908 - 2008). Talvez por já estar segura de sua própria identidade no mundo da música, a cantora se permitiu cantar música lançada por sua mãe, Elis Regina (1945 - 1982), e saudou o centenário do compositor com irretocável interpretação de Basta de Clamares Inocência, o samba-canção que Cartola deu a Elis em 1979 para ser gravado no álbum Essa Mulher. Com a habitual segurança, Maria Rita defendeu a música num registro vigoroso que mereceu justa ovação da platéia. Exceto num especial produzido pela Rede Globo sobre a vida da Pimentinha, no qual cantou Essa Mulher, Maria Rita nunca havia entoado em público música do repertório de Elis Regina. Por isso mesmo, sua participação no show Cartola Eterno foi histórica.
Tudo indica que Marisa Monte vai recuperar - com o lançamento do DVD Infinito ao meu Redor - a popularidade dos tempos de Amor I Love, You e Já Sei Namorar. A música inédita Não É Proibido está com rotação ascendente nas paradas radiofônicas do Rio e de São Paulo. Incluída no CD-bônus que vem com o DVD, a canção tem o apelo popular que faltou no repertório dos dois últimos discos da cantora, Infinito Particular e Universo ao meu Redor. E por falar em hit radiofônico, o Skank também emplacou sua música Ainda Gosto Dela. O que deve levantar as vendas de Estandarte.
Não fique com uma má impressão do recém-lançado disco de inéditas de Zeca Pagodinho, Uma Prova de Amor, caso não tenha gostado da faixa-título, equivocadamente escolhida pela gravadora Universal Music para iniciar a promoção do CD nas rádios e televisões. O álbum apresenta sambas bem mais interessantes do que Uma Prova de Amor, que fica muito na cola de Verdade, grande hit de Zeca nos anos 90, mas sem o mesmo apelo. Trata-se de uma escolha errada que vem se tornando freqüente nos últimos tempos, justamente quando as gravadoras - muito acuadas pela progressiva queda nas vendas de CDs - não deveriam se permitir tais erros. Até porque, como as verbas de marketing atualmente estão bem reduzidas por conta da dura realidade do mercado fonográfico, é preciso acertar de cara no primeiro single, pois uma segunda música de trabalho dificilmente vai ser lançada com o mesmo gás da primeira. Sobretudo nesta volátil era virtual. O crasso erro perceptível na promoção do novo trabalho de Zeca Pagodinho tem se tornado praxe infeliz em lançamentos recentes. A Sony BMG viu as 30 mil cópias da tiragem inicial do oitavo álbum de Adriana Calcanhotto, Maré, saírem das prateleiras de forma bem mais lenta do que imaginado inicialmente pela companhia. Embora propagada na trilha sonora da novela A Favorita, a ótima regravação de Mulher sem Razão não tem o apelo popular da faixa Um Dia Desses, que somente agora vai começar a ser trabalhada pela gravadora. Contudo, no caso de Calcanhotto, é preciso ressaltar que não houve equívoco na percepção, mas uma escolha conceitual. Música de textura ruralista, Um Dia Desses tem clima lúdico que remete ao disco infantil Adriana Partimpim (2004) e, caso fosse eleita a primeira música de trabalho de Maré, daria a falsa impressão de que Calcanhotto lançava disco de tom similar. Os recém-lançados discos de Margareth Menezes e de Pedro Luís e a Parede também estão sendo promovidos com faixas erradas. No caso do CD de MPB da cantora baiana, Naturalmente, a faixa Febre - parceria de Zeca Baleiro com Lúcia Santos - parece ter mais chance de pegar nas rádios do que a releitura de Os Cegos do Castelo, sucesso do grupo Os Titãs nos anos 90. Já o vigoroso CD da Parede, Ponto Enredo, apresenta músicas mais palatáveis do que Santo Samba. Parceria de Pedro Luís com Lenine, 4 Horizontes é uma delas. Enfim, a escolha acertada da música de trabalho continua fundamental para o êxito de um disco. Mesmo nos tempos das vendas fartas, grandes álbuns já afundaram nas paradas porque foram promovidos com a música equivocada. Como as vendas já despencam e não há verbas para alongar os planos de marketing dos discos, qualquer erro na eleição do single é quase irreversível.
 Para quem reclamou que a TV Globo picotou o show de Roberto Carlos com Caetano Veloso na edição feita para a exibição do especial, uma boa notícia: a gravação do espetáculo, feita a vivo pela emissora no Auditório Ibirapuera (SP), em agosto, vai ser lançada na íntegra em DVD que chega às lojas em novembro. O lançamento, feito também em CD, foi anunciado de forma efusiva ("O Natal Vai Chegar Mais Cedo") pelo Rei em seu site oficial.
Em turnê pelos Estados Unidos, Virgínia Rodrigues já teve sua voz saudada como 'celestial' pelo jornal The New York Times. Algo que os baianos já sabiam desde 1994, quando Virgínia foi projetada ao cantar o tema sacro Verônica na peça Bai Bai Pelô, do Bando de Teatro Olodum. Recomeço, disco que a gravadora Biscoito Fino lança esta semana, confirma a cantora entre as grandes do Brasil. O título tem a ver com o fato de ser o primeiro CD da artista em cinco anos. E também com a nova opção artística que pauta o canto de Virgínia. Se os CDs Sol Negro (1997), Nós (2000) e Mares Profundos (2003) situaram a cantora na fronteira afro-baiana, Recomeço abre o leque geográfico e estético. No disco, Virgínia aborda músicas de Dolores Duran (A Noite do Meu Bem), Tom Jobim (Estrada Branca, com Vinicius de Moraes) e Sueli Costa (Alma, com Abel Silva) com sua voz de mezzo-soprano, de timbre operístico, e mostra que há mesmo algo de celestial no seu canto, que transita entre o lírico e o popular. Sempre com profunda carga de ancestralidade africana, jamais atenuada - felizmente! - neste CD camerístico arranjado pelo pianista Cristóvão Bastos. Recomeço é, aliás, disco de voz e piano. Ainda que tenha até sons de água na faixa Triste Baía da Guanabara. Nesta parceria de Noveli com o saudoso poeta Cacaso, salta aos ouvidos a textura sacra do canto de Virgínia. A regravação de Beatriz parece mesmo vinda do céu... Urdida com vocalises e agudos penetrantes, a leitura de Virgínia para o tema de Chico Buarque e Edu Lobo figura entre as melhores da música, rivalizando com os registros igualmente deslumbrantes de Milton Nascimento, Mônica Salmaso e Cida Moreira. É fato que o formato minimalista que une a voz de Virgínia ao piano de Cristóvão Bastos dá ao disco tom uniforme e nem sempre Virgínia consegue driblar a inevitável linearidade. Quando ela consegue, como na abordagem camerística de Por Toda Minha Vida e como no mergulho nos profundos mares de Porto de Araújo (Guinga e Paulo César Pinheiro), Recomeço beira o divino, o sublime. É como se Virgínia orasse ao cantar. Se você ainda não conhece o canto de Virgínia Rodrigues, agende uma ida ao Teatro Rival, de quinta-feira a sábado da próxima semana, quando ela faz show para badalar a edição de Recomeço. É voz dos deuses.
Acho que Wanderléa merecia ter tido uma carreira fonográfica mais vitoriosa na fase pós-Jovem Guarda. Ela, justiça seja feita, bem tentou extrapolar o repertório simples daquelas tardes de domingo e gravou discos interessantes nos anos 70. Mas (quase) ninguém ouviu. Acho que, nessa altura do campeonato, nada vai mudar seu status no mercado. Mas fico feliz de saber que a Ternurinha, incansável, está finalizando pela Lua Music disco em que canta compositores nunca gravados por ela. Entre eles, Arnaldo Antunes, Geraldo Azevedo, Jackson do Pandeiro (1919 - 1982) e Johnny Alf. Uma das curiosidades do repertório é o desconhecido Samba da Preguiça, composto por Roberto e Erasmo Carlos e gravado pelo Trio Mocotó em 1973. p.s.: E por falar em Jovem Guarda, estréia hoje no Teatro Vannucci, no Rio, um musical, Sessão da Tarde, centrado no cancioneiro de Roberto, Erasmo, Wanderléa e Cia. Conferi a estréia para convidados na semana passada. Não há uma grande voz no elenco. Mas algumas músicas, em especial as do repertório de Roberto, são tão bonitas que rendem algumas belas cenas.
Elba Ramalho tem estado muito na mídia por conta de sua separação de Gaetano Lopes, mas o assunto que mais me interessa em relação à guerreira cantora é o disco comemorativo de seus 30 anos de carreira. Elba, que lançou seu primeiro LP em 1979 (o excelente Ave de Prata), vai entrar em estúdio em novembro, sob a produção de Mazzola, para gravar um disco que vai oscilar entre os forrós e as músicas românticas. Mazzola, vale lembrar, produziu os discos que fizeram Elba explodir no mercado. Entre eles, Alegria (1982) e Coração Brasileiro (1983). Por isso, acho que este novo trabalho - que terá inéditas de Dominguinhos e Chico César - poderá dar um novo merecido gás à carreira da cantora, que lançou um dos grandes discos de 2007, Qual o Assunto que Mais lhe Interessa?, sem a repercussão comercial a que o álbum fazia jus. Mas Elba, guerreira como boa brasileira, nunca desiste.
Por suas letras verborrágicas, Zé Ramalho sempre foi associado a Bob Dylan, ainda que o tom apocalíptico do cancioneiro do artista paraibano transite em universo distante da obra do compositor americano. Seja como for, este eventual parentesco vai ser realçado no CD Zé Ramalho Canta Bob Dylan - Tá Tudo Mudando, nas lojas em breve. No disco, produzido por Robertinho de Recife, Ramalho insere o repertório de Dylan no universo da MPB e da música nordestina através de versões que buscam fidelidade às letras originais. Não é a primeira vez que Ramalho verte Dylan. Frevoador, a faixa-título do CD que ele lançou em 1992, era versão de Hurricane, um dos clássicos de Dylan. Em Tá Tudo Mudando, aliás, a opção foi por priorizar os sucessos antigos, embora a faixa-título seja versão de Things Have Changed, a recente canção da trilha do filme Garotos Incríveis que rendeu um Oscar a Dylan. Tanto que estão garantidas no repertório as versões de Like a Rolling Stone (Como uma Pedra a Rolar) e de Blowin' in the Wind (O Vento Vai Responder). Nem tudo, porém, é versão no CD que vai ser editado pela gravadora EMI Music também no formato de DVD. Ramalho ficou de cantar If Not for You no original em inglês e de apresentar uma ou outra música inédita de sua autoria, caso de Para Dylan, idealizada para servir como recado ao compositor norte-americano. Dono de obra autoral, Ramalho não assina todas as versões de Tá Tudo Mudando. A faixa-título, por exemplo, é da lavra de Gabriel Moura (compositor carioca identificado com o universo do samba) e Maurício Baia. Baia é colaborador também da versão de 'Tombstone Blues', que se transformou no Rock Feelin'good. De Caetano Veloso, Ramalho recupera a bela Negro Amor, versão de It's All Over Now, Baby Blue, lançada por Gal Costa em 1977 num de seus álbuns mais roqueiros, Caras e Bocas. Sem se afastar do universo nordestino que norteia a sua discografia, Ramalho - que já fez sucesso com boa versão de Knockin' on Heaven's Door (Batendo na Porta do Céu) - também requisitou as colaborações de parceiros como Geraldo Azevedo e Bráulio Tavares.
 Em tempos de bolsas oscilantes, a capa do álbum de inéditas que o Jota Quest lança neste mês de outubro, La Plata, parece ter sido feita sob medida para traduzir numa imagem a crise financeira que ameaça o Mundo. A música que puxa o disco e lhe dá título começa a tocar amanhã nas rádios. Se for tão boa quanto a capa...
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