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| Mauro Ferreira |
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Não fique com uma má impressão do recém-lançado disco de inéditas de Zeca Pagodinho, Uma Prova de Amor, caso não tenha gostado da faixa-título, equivocadamente escolhida pela gravadora Universal Music para iniciar a promoção do CD nas rádios e televisões. O álbum apresenta sambas bem mais interessantes do que Uma Prova de Amor, que fica muito na cola de Verdade, grande hit de Zeca nos anos 90, mas sem o mesmo apelo. Trata-se de uma escolha errada que vem se tornando freqüente nos últimos tempos, justamente quando as gravadoras - muito acuadas pela progressiva queda nas vendas de CDs - não deveriam se permitir tais erros. Até porque, como as verbas de marketing atualmente estão bem reduzidas por conta da dura realidade do mercado fonográfico, é preciso acertar de cara no primeiro single, pois uma segunda música de trabalho dificilmente vai ser lançada com o mesmo gás da primeira. Sobretudo nesta volátil era virtual. O crasso erro perceptível na promoção do novo trabalho de Zeca Pagodinho tem se tornado praxe infeliz em lançamentos recentes. O azeitado álbum que o Skank lançou no começo deste mês de outubro, Estandarte, também corre risco de ser ignorado de cara porque a Sony BMG titubeou na escolha do primeiro single. Não é um caso tão grave quanto o de Zeca, pois a faixa Ainda Gosto Dela é embalada em moldura pop radiofônica bem sedutora. Contudo, a canção nem roça a força de outras duas faixas: a balada Sutilmente (provável único hit do CD nas paradas populares) e Escravo, petardo certeiro nas pistas. A mesma Sony BMG viu as 30 mil cópias da tiragem inicial do oitavo álbum de Adriana Calcanhotto, Maré, saírem das prateleiras de forma bem mais lenta do que imaginado inicialmente pela companhia. Embora propagada na trilha sonora da novela A Favorita, a ótima regravação de Mulher sem Razão não tem o apelo popular da faixa Um Dia Desses, que somente agora vai começar a ser trabalhada pela gravadora. Contudo, no caso de Calcanhotto, é preciso ressaltar que não houve equívoco na percepção, mas uma escolha conceitual. Música de textura ruralista, Um Dia Desses tem clima lúdico que remete ao disco infantil Adriana Partimpim (2004) e, caso fosse eleita a primeira música de trabalho de Maré, daria a falsa impressão de que Calcanhotto lançava disco de tom similar. Os recém-lançados discos de Margareth Menezes e de Pedro Luís e a Parede também estão sendo promovidos com faixas erradas. No caso do CD de MPB da cantora baiana, Naturalmente, a faixa Febre - parceria de Zeca Baleiro com Lúcia Santos - parece ter mais chance de pegar nas rádios do que a releitura de Os Cegos do Castelo, sucesso do grupo Os Titãs nos anos 90. Já o vigoroso CD da Parede, Ponto Enredo, apresenta músicas mais palatáveis do que Santo Samba. Parceria de Pedro Luís com Lenine, 4 Horizontes é uma delas. Enfim, a escolha acertada da música de trabalho continua fundamental para o êxito de um disco. Mesmo nos tempos das vendas fartas, grandes álbuns já afundaram nas paradas porque foram promovidos com a música equivocada. Como as vendas já despencam e não há verbas para alongar os planos de marketing dos discos, qualquer erro na eleição do single é quase irreversível.
 Cartola completaria 100 anos hoje. Se vivo fosse, o compositor de As Rosas Não Falam e O Mundo É um Moinho certamente estaria gratificado por ver sua obra sendo saudada em discos e shows. Mas "Longa é a Arte, tão breve a vida", já disse outro gênio da música brasileira, Antonio Carlos Jobim, na letra de sua música Querida. A existência terrena de Cartola nem foi tão breve assim. Driblando as dificuldades de uma biografia guerreira, que o levou a sobreviver como guardador de carros em Ipanema (RJ) até ser redescoberto em 1956 por Sérgio Porto, o mestre viveu 72 anos e partiu no auge, quando o Brasil já cantava as suas músicas. Mas longa é mesmo a Arte - sobretudo quando feita com especial talento. E a obra de Cartola, burilada com perfeito acabamento poético e musical, é um desses casos cuja gênese não encontra explicação racional. Criado pobre, no Morro de Mangueira (RJ), berço da escola de samba carioca que ajudou a fundar, Cartola parece ter composto suas músicas pautado por uma genialidade intuitiva. Sem estudo ou formação musical formal, o compositor lapidou sozinho jóias do alto quilate de Acontece, Autonomia e Cordas de Aço. A educação musical, se houve, foi a da vida do morro, berço dos bambas. Contudo, o refinamento da obra de Cartola nunca teve paralelos dentro do Morro de Mangueira. E, mesmo fora, são poucos os compositores brasileiros que conseguem lhe fazer frente. Talvez porque, como os melhores bluesmen dos Estados Unidos, Cartola sempre tenha trazido consigo um lamento e um talento espontâneo que o ligam à África-mãe. Elo com a matriz de todos os sons que ficou mais evidente quando em 1974, já aos 66 anos, Cartola obteve a chance - inexplicavelmente tardia - de gravar seu primeiro LP, iniciando então carreira fonográfica que seguiria regular até sua morte, em 30 de novembro 1980. Ao cantar suas músicas, Cartola mostrou algo de ancestral na voz rústica. Morreu pobre, provavelmente sem receber os devidos autorais por uma obra que começou a ser gravada em dezembro de 1929 - quando Francisco Alves (1898 - 1952) entrou no estúdio da extinta gravadora Odeon para registrar Que Infeliz Sorte para um disco de 78 rotações por minuto - e atingiu seu pico de registros nos anos 60 e 70. Tivesse sua existência tido menos senões, Cartola poderia ter saboreado o inverno de seu tempo com justa calmaria financeira. Contudo, a riqueza maior, inexorável, reside no fino acabamento de obra laureada com a longevidade destinada apenas ao que é eterno. E a música de Cartola - palmas para o mestre - é eterna desde sempre.
 Para quem reclamou que a TV Globo picotou o show de Roberto Carlos com Caetano Veloso na edição feita para a exibição do especial, uma boa notícia: a gravação do espetáculo, feita a vivo pela emissora no Auditório Ibirapuera (SP), em agosto, vai ser lançada na íntegra em DVD que chega às lojas em novembro. O lançamento, feito também em CD, foi anunciado de forma efusiva ("O Natal Vai Chegar Mais Cedo") pelo Rei em seu site oficial.
Em turnê pelos Estados Unidos, Virgínia Rodrigues já teve sua voz saudada como 'celestial' pelo jornal The New York Times. Algo que os baianos já sabiam desde 1994, quando Virgínia foi projetada ao cantar o tema sacro Verônica na peça Bai Bai Pelô, do Bando de Teatro Olodum. Recomeço, disco que a gravadora Biscoito Fino lança esta semana, confirma a cantora entre as grandes do Brasil. O título tem a ver com o fato de ser o primeiro CD da artista em cinco anos. E também com a nova opção artística que pauta o canto de Virgínia. Se os CDs Sol Negro (1997), Nós (2000) e Mares Profundos (2003) situaram a cantora na fronteira afro-baiana, Recomeço abre o leque geográfico e estético. No disco, Virgínia aborda músicas de Dolores Duran (A Noite do Meu Bem), Tom Jobim (Estrada Branca, com Vinicius de Moraes) e Sueli Costa (Alma, com Abel Silva) com sua voz de mezzo-soprano, de timbre operístico, e mostra que há mesmo algo de celestial no seu canto, que transita entre o lírico e o popular. Sempre com profunda carga de ancestralidade africana, jamais atenuada - felizmente! - neste CD camerístico arranjado pelo pianista Cristóvão Bastos. Recomeço é, aliás, disco de voz e piano. Ainda que tenha até sons de água na faixa Triste Baía da Guanabara. Nesta parceria de Noveli com o saudoso poeta Cacaso, salta aos ouvidos a textura sacra do canto de Virgínia. A regravação de Beatriz parece mesmo vinda do céu... Urdida com vocalises e agudos penetrantes, a leitura de Virgínia para o tema de Chico Buarque e Edu Lobo figura entre as melhores da música, rivalizando com os registros igualmente deslumbrantes de Milton Nascimento, Mônica Salmaso e Cida Moreira. É fato que o formato minimalista que une a voz de Virgínia ao piano de Cristóvão Bastos dá ao disco tom uniforme e nem sempre Virgínia consegue driblar a inevitável linearidade. Quando ela consegue, como na abordagem camerística de Por Toda Minha Vida e como no mergulho nos profundos mares de Porto de Araújo (Guinga e Paulo César Pinheiro), Recomeço beira o divino, o sublime. É como se Virgínia orasse ao cantar. Se você ainda não conhece o canto de Virgínia Rodrigues, agende uma ida ao Teatro Rival, de quinta-feira a sábado da próxima semana, quando ela faz show para badalar a edição de Recomeço. É voz dos deuses.
Acho que Wanderléa merecia ter tido uma carreira fonográfica mais vitoriosa na fase pós-Jovem Guarda. Ela, justiça seja feita, bem tentou extrapolar o repertório simples daquelas tardes de domingo e gravou discos interessantes nos anos 70. Mas (quase) ninguém ouviu. Acho que, nessa altura do campeonato, nada vai mudar seu status no mercado. Mas fico feliz de saber que a Ternurinha, incansável, está finalizando pela Lua Music disco em que canta compositores nunca gravados por ela. Entre eles, Arnaldo Antunes, Geraldo Azevedo, Jackson do Pandeiro (1919 - 1982) e Johnny Alf. Uma das curiosidades do repertório é o desconhecido Samba da Preguiça, composto por Roberto e Erasmo Carlos e gravado pelo Trio Mocotó em 1973. p.s.: E por falar em Jovem Guarda, estréia hoje no Teatro Vannucci, no Rio, um musical, Sessão da Tarde, centrado no cancioneiro de Roberto, Erasmo, Wanderléa e Cia. Conferi a estréia para convidados na semana passada. Não há uma grande voz no elenco. Mas algumas músicas, em especial as do repertório de Roberto, são tão bonitas que rendem algumas belas cenas.
Elba Ramalho tem estado muito na mídia por conta de sua separação de Gaetano Lopes, mas o assunto que mais me interessa em relação à guerreira cantora é o disco comemorativo de seus 30 anos de carreira. Elba, que lançou seu primeiro LP em 1979 (o excelente Ave de Prata), vai entrar em estúdio em novembro, sob a produção de Mazzola, para gravar um disco que vai oscilar entre os forrós e as músicas românticas. Mazzola, vale lembrar, produziu os discos que fizeram Elba explodir no mercado. Entre eles, Alegria (1982) e Coração Brasileiro (1983). Por isso, acho que este novo trabalho - que terá inéditas de Dominguinhos e Chico César - poderá dar um novo merecido gás à carreira da cantora, que lançou um dos grandes discos de 2007, Qual o Assunto que Mais lhe Interessa?, sem a repercussão comercial a que o álbum fazia jus. Mas Elba, guerreira como boa brasileira, nunca desiste.
Por suas letras verborrágicas, Zé Ramalho sempre foi associado a Bob Dylan, ainda que o tom apocalíptico do cancioneiro do artista paraibano transite em universo distante da obra do compositor americano. Seja como for, este eventual parentesco vai ser realçado no CD Zé Ramalho Canta Bob Dylan - Tá Tudo Mudando, nas lojas em breve. No disco, produzido por Robertinho de Recife, Ramalho insere o repertório de Dylan no universo da MPB e da música nordestina através de versões que buscam fidelidade às letras originais. Não é a primeira vez que Ramalho verte Dylan. Frevoador, a faixa-título do CD que ele lançou em 1992, era versão de Hurricane, um dos clássicos de Dylan. Em Tá Tudo Mudando, aliás, a opção foi por priorizar os sucessos antigos, embora a faixa-título seja versão de Things Have Changed, a recente canção da trilha do filme Garotos Incríveis que rendeu um Oscar a Dylan. Tanto que estão garantidas no repertório as versões de Like a Rolling Stone (Como uma Pedra a Rolar) e de Blowin' in the Wind (O Vento Vai Responder). Nem tudo, porém, é versão no CD que vai ser editado pela gravadora EMI Music também no formato de DVD. Ramalho ficou de cantar If Not for You no original em inglês e de apresentar uma ou outra música inédita de sua autoria, caso de Para Dylan, idealizada para servir como recado ao compositor norte-americano. Dono de obra autoral, Ramalho não assina todas as versões de Tá Tudo Mudando. A faixa-título, por exemplo, é da lavra de Gabriel Moura (compositor carioca identificado com o universo do samba) e Maurício Baia. Baia é colaborador também da versão de 'Tombstone Blues', que se transformou no Rock Feelin'good. De Caetano Veloso, Ramalho recupera a bela Negro Amor, versão de It's All Over Now, Baby Blue, lançada por Gal Costa em 1977 num de seus álbuns mais roqueiros, Caras e Bocas. Sem se afastar do universo nordestino que norteia a sua discografia, Ramalho - que já fez sucesso com boa versão de Knockin' on Heaven's Door (Batendo na Porta do Céu) - também requisitou as colaborações de parceiros como Geraldo Azevedo e Bráulio Tavares.
 Em tempos de bolsas oscilantes, a capa do álbum de inéditas que o Jota Quest lança neste mês de outubro, La Plata, parece ter sido feita sob medida para traduzir numa imagem a crise financeira que ameaça o Mundo. A música que puxa o disco e lhe dá título começa a tocar amanhã nas rádios. Se for tão boa quanto a capa...
 Não se deixe intimidar pelo fraco samba Uma Prova de Amor, escolhido para puxar o CD homônimo que Zeca Pagodinho acaba de lançar. O repertório é ótimo, bem melhor do que o último CD de estúdio do cantor, À Vera, de 2005. E só por apresentar o encontro de Zeca com João Donato - em Sambou... Sambou, faixa na realidade gravada para um disco ainda inédito de Donato, mas incluída como faixa-bônus no CD de Zeca - Uma Prova de Amor já merece uma conferida. Mas tem muito mais. Tem um grande samba do Luiz Carlos da Vila (Então Leva), tem um delicioso partido calangueado de tom interiorano (Sujeito Pacato) e tem duas novas inspiradas parcerias de Zeca com Arlindo Cruz, Se Eu Pedi pra Você Cantar e Sempre Atrapalhado (já ouvida na trilha da novela A Favorita - é o tema do Didu). Enfim, vale correr atrás do CD. É Zeca à altura de Zeca.
 Nas lojas a partir de quarta-feira, o oitavo álbum do Skank, Estandarte, apresenta quatro novas parcerias de seu vocalista e guitarrista Samuel Rosa com Nando Reis. Renascença, Pára-Raio, Sutilmente (balada melodiosa) e Ainda Gosto Dela - faixa eleita para puxar o CD, com Negra Li nos vocais - são as quatro colaborações de Nando no repertório inédito, que também inclui parcerias de Samuel com Chico Amaral e com César Maurício. Entre as músicas, há Noites de um Verão Qualquer.Com produção de Dudu Marote e capa pop surrealista assinada pelo artista plástico Rafael Silveira, Estandarte foi mixado e masterizado nos Estados Unidos.
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