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Milton Cunha

Quarta-feira, 28 Fevereiro, 2007

Carbono sequestrado e exilío ambiental!


Duas coisas me impressionaram profundamente no Sem Censura, aliás duas expressões, onde Leda Nagle, a maravilhosa, debateu o aquecimento global, com minha modesta ajuda: a primeira expressão foi "seqüestro de carbono", uma das providências que o homem pode tomar, por reflorestamento ou por aprisionamento do gás em antigos buracos de água, gás, petróleo, e assim por diante. Achei fascinante a imagem usada pelo cientista de que você vira o tubo de descarga: em vez de ser para o céu, é para dentro do solo. Um espanto. A outra expressão que me impressionou foi os "exilados ambientais", ou sem-pátria, habitantes de numerosas ilhas do Pacífico que estão vendo-as desaparecer pela elevação do nível dos oceanos e estão tendo que ir para a Nova Zelândia e Austrália. Sua nação é tragada pelas águas. Você é cidadão de país nenhum e você, sem terra. Sem casa, sem pátria, dependerá da bondade de estranhos. Ele vaticionou que Bangladesh terá que desovar 150 mil habitantes nos próximos anos pois as águas vão arruinar a cidade. Inimaginável os sem terra-mãe.


Segunda-feira, 26 Fevereiro, 2007

Negritude em Joãzinho 30!


Após os anos de Fernando Pamplona e Marie Louise Nery, na década de 60, à frente do Acadêmicos do Salgueiro, as questões da negritude e da África passaram a aparecer com frequência nos Enredos de Escola de Samba do Rio de Janeiro.
Joãosinho Trinta foi aluno e depois assistente deste grupo acima mencionado e manteve em seus trabalhos solos a preocupação com a exaltação das qualidades da negritude em carnavais memoráveis que realizou.
Entre os temas recorrentes em sua obra, como a questão do "Inferno do Caos Social Brasileiro" ou a constante menção de um "terceiro milênio de justiça", podemos certamente destacar o elogio ao Negro como tema central de vários de seus enredos, dos quais cito, de imediato, "A Criação do Mundo na Tradição Nagô", "Sou Negro do Egito à Liberdade", "A Grande Constelação das Estrelas Negras" e os dois aqui analisados "Tereza de Benguela, Uma Rainha Negra no Pantanal" e "Orfeu, O Negro no Carnaval".
A saga da Rainha negra Tereza de Benguela serve para que o autor João Trinta traga à tona um aspecto bem pouco celebrado dentre as virtudes da negritude: a liderança política.
A bela imagem utilizada por João, de um parlamento multirracial é surpreendente, pois toca em questão crucial dentro da celebração da negritude: a convivência das diferenças num mesmo mundo. Permitindo que sua bancada de conselheiros contivesse representante de todas as etnias, inclusive a dos brancos, exploradores, cruéis e colonizadores, a líder dá excelente exemplo para os líderes que a sucederiam, de quye violência não deve necessariamente conduzir à violência, de que é possível governar levando em conta a opinião das minorias.
Paz, harmonia, tolerância e respeito são qualidades realçadas na trajetória da líder do Quilombo do Quariterê, trajetória esta que vai ser pontuada pelas quatro tipos de negritude citadas por Thomas: ao revoltar-se e liderar a fuga dos escravos, da feitoria para o Quilombo, Tereza está vivendo a Negritude Agressiva, que será superada nos bons dias de felicidade do parlamento, típico da Negritude Serena, cuja atitude dialética e o desejo da cultura universal cabe como luva nesta categoria. A dor e a angústia sentidas por Joãosinho Trinta ao descrever o massacre do Quilombo é de Negritude Dolorosa, quando ele sofre a paixão da negrada torturada pela história; e ao eleger a Rainha como exemplo idealizado para a atualidade temos a postura da Negritude Vitoriosa que reivindica para a raça a supercompensação idealizante.
Em "Orfeu, o Negro do Carnaval", o elogio à negritude dirige-se a dois pontos: primeiro, o negro como herói, portador de todas as qualidades de um deus grego, portanto Joãosinho Trinta fazendo a ponte entre o clássico helenismo e a modernidade brasileira. Coragem, perseverança, bravura, romantismo, paixão desenfreada, são atributos do Orfeu da favela carioca; segundo, a exaltação da veia artística da negritude, o negro como possuidor de todos os talentos do deus da música, e a formação de uma linhagem especial da música popular brasileira, composta desde os primeiros sambistas até os atuais compositores de escola de samba, sempre marcando a questão do preconceito, da injustiça pelo não reconhecimento da genialidade destes artistas, que, apesar de iletrados, são capazes de produzir músicas que ficam para sempre no coração do brasileiro. O Tom de "Orfeu" é de Negritude vitoriosa, inclusive estando nas mãos do herói o poder maior de fazer a multidão gritar: é campeã! Para sobreviver, a Negritude de Orfeu reveste-se de qualidades hercúleas.


Sábado, 24 Fevereiro, 2007

O amor que não ousa dizer o nome!


Vera Zimmerman é um tesão. Sempre achei. E quando ela passeia pela mulher-homem,
que só ela consegue com feminilidade acachapante, aí é de se jogar no chão pra ela passar em cima. Já a viram de smoking ou roupa masculina? É de doer de bom e dá vontade de jogar no chão e devorar ali mesmo. Se Caetano devoraria Leronardo de Caprio, porque eu não devoraria Vera Zimmerman (de menino)? Maravilhosos olhos de mormaço, a Capitu de meu romance homossexual. Quero ser Oscar Wilde no tribunal onde só ela, hermafrodita, pode ser meu Bosie.


Sexta-feira , 23 Fevereiro, 2007

À Paulo o que é de Paulo!


Paulo Barros é um artista importantíssimo para o carnaval brasileiro. Propõe a quebra de paradigmas, que faz a linguagem carnavalesca e seus pilares tremerem, e com isso reafirma a vitalidade e pulsação deste código vivo, que é o desfile das escolas de samba. A distribuição corpórea sincronizada da proposta de Paulo, para conseguir um efeito de conjunto, esta sim, característica de sua obra e isto sim, pilar de sua revolução de linguagem, parece ter se estabelecido e consagrado. Outra proposta sua, o posicionamento da bateria sobre alegoria, parece (ainda é cedo afirmar), não ter encontrado admiradores que o copiem. Isso posto, acho que o Jornal Nacional, na saga desvairada de buscar supostas influências que reafirmem a importância do estilo Barros (como se ele precisasse disso...) chega às raias da loucura: cita a Imperatriz e mostra os batuqueiros fazendo espirrar larva dos vulcões de Rosa Magalhães. Estão loucos. Esta referência que Rosa traz da teatralidade e dos grupos de danças (Stomp, por exemplo) nada tem a ver com este super artista. Senão, qualquer três ou quatro batuqueiros espirrando coisas, ou qualquer gato pingado fazendo algo, vira a cara de Paulo Barros. Calma com o andor, jornalistas. É definindo e limitando o campo de proposição de Paulo, que não se enfraquece a novidade dele. Senão vamos ter que dizer que o Rousseau, que a divina Magalhães posiciona no centro de sua biblioteca francesa, invadida pela mata tropical, em enlouquecida performance, há dez anos atrás, no desfile de Catarina de Medicis na Corte dos Tupinambôs e Tabajéres, também já era a influência de Paulo na obra da mestra, antes mesmo de ele começar sua carreira solo. Ou talvez o Peter Pan que ela posiciona "voando" no seu desfile sobre Pirataria, também seja fruto da mesma raiz. Este balaio da teatralidade e da fonte do drama, muitos carnavalescos já beberam dele, sem alcançar o efeito sincronizado e numeroso proposto por Barros. Aí reside seu impacto e seu traço autoral. Menos, Rede Globo, menos. Mais, Paulo Barros, mais...

Acordado!


- Mas estava acordado com a Beth Carvalho de ela desfilar na alegoria da Mangueira?
- Não, já era tarde. Parece que já tinha muita gente dormindo nesta hora....


Quinta-feira, 22 Fevereiro, 2007

Inferno na Concentração!


Às 3 da tarde, em plena concentração, atendo um simples telefonema: "alô, Milton, é Dayse, sua destaque do carro 6". Respondo ensolarado: "oi Itália Louca, tudo bem com você?". Ela tenta responder com calma, mas não esconde o nervosismo: "comigo tudo em cima. Mas estou te ligando para te dar uma péssima notícia: o ateliê do Mauricio e do Fan não fez as duas roupas dos semi-destaques do carro 7. Meu marido ta lá, pegando o dinheiro de volta". Emudeço. Minha alma entristece e não combino mais com o calor. Sou um bloco de gelo, com o coração partido pela confiança depositada em dois ex-amigos. Tento abrir a loja Babado da Folia, no Saara, pois conheço o dono, numa última tentativa de comprar estes biquínis de mulata que servem para qualquer lugar e enredo, mas não contam patavinas do enredo. Um remendo, um curativo numa ferida sangrando. "Mas como? Eles pegaram o desenho em setembro?". "E o pior, Milton, é que eles pediram para não te contar". E, senhores, acreditem, era (seria), fácil de resolver. Avisado até com uma semana de antecedência, a gente resolve, porque estes atropelos de última hora, já são contabilizados por nós, carnavalescos. Só que para a mentira, a última hora são os fogos explodindo e toda uma comunidade se esmerando para fazer o melhor, sem supor a traição e a micagem de um trabalho cuidadosamente planejado. "Meu Deus, Dayse, a agora, o que vou fazer?". "Liga pra Kátia, acho que ela pode tentar esclarecer". Ligo para a Marinus e o máximo que descubro é que o mesmo ateliê deixou sem os adereços de cabeça, toda a Velha-Guarda da divina Estácio de Sá. Será que estes irresponsáveis não receiam toda uma escola indignada pelo descaso e brincadeira com algo seríssimo, que é o desfile de uma Comunidade, dando sua cara à tapa, para o Brasil e o mundo baterem ou não, na arena dos desfiles? Por que não devolvem o risco, que aceitaram por decisão própria? Mas o pior ainda estava por vir: quando surge o terceiro carro alegórico, o do Caveirão elitista da maldade, me surpreendo com a ausência da caveira gigante no esplendor da Semi-Destaque Anny, confeccionada pelo mesmo ateliê, e no seu lugar inconcebíveis plumas brancas. Desolado, avanço Marquês de Sapucaí abaixo, pensando no meu mar de baianas e na falta das baianas da Rocinha. Que segundo O Dia, registrou queixa crime contra o ateliê que a enganou. Diz a reportagem, que a dona do ateliê não teve coragem de avisar a escola que tinha errado no corte. Mas quanta coragem tem que ter um ateliê para enganar toda uma "nação" de sambistas e comprometer um resultado? E notem, não estamos falando de uma trágico acidente, tipo um caminhão virando com todas as fantasias na Avenida Brasil, poucas horas antes do desfile, como aconteceu comigo em Bidu Sayão, na Beija-Flor. Estamos falando de má-fé, já que as fantasias não existem. De não comunicar a própria incompetência, e pedir socorro aos responsáveis pelo megalômano projeto de botar uma escola de samba na avenida. Incompreensível uma costureira fazer ruir o poderoso castelo de Maurício Mattos e Mauro Quintaes para a Acadêmicos. A escola já entra penalizada na passarela, e precisa de muita paz de espírito para não perder a cabeça. Um dia que fosse e daria para trucar algo. Mas a mentira se alonga até a incredulidade de deparar-se com a loucura: uma hora, mais cedo ou mais tarde, a revolta chegaria. Estas duas pequenas histórias, dentre muitas outras existentes, revelam as estranhas do maior espetáculo da terra, um show hipnotizante porque supõe que, ao dar certo a exibição, revela um poder de organização e uma grande parcela de sorte, para que o todo, em conjunto, na hora tal e no local tal, esteja reunido. Brincamos nos barracões, que carnaval tem hora e data e local. É uma forma de conscientizar a importância do tempo nas tarefas. Estamos melhorando, mas ainda temos que lutar contra os que insistem em fazer do Desfile das Escolas de Samba uma inconseqüente brincadeira. Vai brincar com fogo assim no inferno!

As ricas!


Entro todo serelepe na loja da Bee, na praça de alimentação do Sambódromo e digo: "gostaria de comprar uma camisa do Porto da Pedra, é possível?". "Ih, moço. Dessa aí não tem. Só tem das principais". Retruco: "querida você não deve usar o termo principal, porque toda escola é principal no coração de seus torcedores. Use a expressão "mais bem posicionadas no ranking da Liga". Me olhando com uma cara de desdém indescritível, a vendedora me detona: "mas não é o carnaval que diz que quem gosta de miséria são os intelectuais? O povo quer é camisa das ricas". Meto o rabo entre as pernas, dou meia volta e parto rumo à falta de dinheiro do querido Tigre de São Gonçalo.

Divas alegóricas!


Duas divas da Sapucaí são impedidas de desfilar: Suzana e Beth. Carvalho, a maravilhosa, passou mancando em frente ao camarote da Liga, onde eu estava (e vi a cena), pelo cantinho da pista de desfiles. Com o corpo entortado por algum problema e provavelmente fazendo grande esforço para caminhar rumo à concentração, minutos depois seria expulsa de maneira inaceitável da alegoria. Vejam o vídeo. Não é a Mangueira, mas é um baluarte mangueirense a desacatando. O que será a dor física que Beth sentia, diante da dor de ver a concentração de sua escola, virar cenário para tão triste cena, em seu álbum de lembranças?. Já Vieira, teria que freqüentar o camarote da sua Escola, o que não é desagradável. Mas aí, ela teria que beber de uma outra cerveja, e parece que isto sim, não é nada agradável.

Entre sicletismo e grumélias...


Os empurradores da terceira alegoria do Império da Tijuca, passam garbosos e faceiros pela cabine de transmissão do sábado do Grupo de Acesso. Sambam com as costas estampadas: Alegoria 3 - Sicletismo religioso. O sincretismo foi para o espaço, e estamos nos divertindo a valer. Me lembro imediatamente da Dama das Grumélias, camisa da comissão jovem da Beija Flor 94, que rebatizou em sua bela camisa meu enredo Margarete Mee, a dama das bromélias. Saravá Momo!


Sábado, 17 Fevereiro, 2007

É carnaval!


Mais uma vez é carnaval.
Mais uma vez...
Sempre esta tristesa de ser muito bonito.
De ser muito só.
De amar o mundo inteiro,
e de dizer: mais uma vez....


Sexta-feira , 16 Fevereiro, 2007

Crianças encantadas


Cansei de chorar, arrasado, pelo negrinho do pastoreio. Toda a crueldade humana, se fazia presente no patrão infame que amarrava o corpo nu, sangrando pelo espancamento, do pobre do negrinho sobre o formigueiro. Deus, que agonia imaginar! Nada na realidade poderia ser mais sofrido e dolorido que aquilo, da lenda! Nada? Descubro, grande, que toda a crueldade humana ainda está por se mostrar. Agora, já não sou mais criança e canso de chorar, arrasado, pelo Joãosinho da Piedade. Do asfalto, um formigueiro. Do patrão, cinco facínoras. Do cavalo, um corsa roubado. Da lenda, eu, vivendo fora dela, e convivendo com facetas da insanidade, dignas da mais desvairada tradição popular. No mais recôndito de meu pensamento, rezo para que, como lá, cá tenha surgido a Virgem Nossa Senhora e nenhuma chicotada tenha marcado a pele imaculada, agora lisa, do garoto. Desejo ver o menino beijando a mão da Santa, montando o baio, e partindo conduzindo a tropilha. É esta luz que desejo seguir, na vida e na lenda.

La Vieira


O que diferencia o sofrimento da estrela do sofrimento do simples mortal, é a quantidade de versões publicadas sobre o drama da famosa. E nenhum deles dá conta da situação, pois só quem vive, sabe o que realmente, está acontecendo. Neste turbilhão de informações, a diva se debate em silêncio, ou quebra o pau em praça pública. Lembro das "loucuras" de Vera Fischer, e de como o país acompanhou cada reviravolta de sua vida. Mas sabíamos que ali alguém estava tentando se encontrar, ou curtindo sua divina realidade. E quanto mais a galera fazia "uh", mas a poderosa aprontava. E o público se dividia e torcia pra coisa não piorar. Quando fui buscar a camiseta da feijoadíssima para participar da festa da Grande Rio, encontrei, além de uns sete ou oito dentro da sala do Patrono da Escola, Jaider Soares, a "Senhora do Destino", estrela da população "povão" do Brasil, a incrível Suzana Vieira. Uso o termo incrível porque ela me comove com sua popularidade. Capaz de dar bordoadas tipo "querida, não estou aqui por causa do meu corpo", respondendo à jornalista iniciante (que avança com tudo para cima da onça, com vara curtíssima, já que perguntava se ela teria corpo para ser Rainha de Bateria); é a mesma que já vi abraçar e beijar quatro ou cinco garis que acenaram para ela, quando ela passava por uma esquina qualquer. Sobra verdade, espontaneidade, vigor. Até no sofrimento sobra vigor na Vieira. Uma "marrenta" que muito admiro, sem papas na língua e promovedora de "bateu-levou" memoráveis. Mulher de fibra, guerreira, lutadora, talentosíssima e, no último ano, "na pista para negócio": a vida deu-lhe um amor de presente. Suzana comprou a empreitada, botou véu e grinalda, e viveu (e vive) sua novela das 8 particular, seu "céu é o limite". O resto vocês estão carequíssimos de saber, nem que seja uma das trezentas versões existentes por aí. Mas isso não importa. O que importa é que depois de nos cumprimentarmos e nos beijarmos, nós, que nos afinamos só com olhares, que temos energias parecidíssimas, emburacamos pela seguinte cena: puxo-a num canto, e baixinho pergunto: "e aí, deu em que, o casamento?". Baixando o tom, mas mantendo a doçura e a verdade, a estrela me acalma: "ta tudo bem, Milton. Meu marido adoeceu e eu vou cuidar dele". Subindo o tom de voz e virando para todos na sala, que já estavam de "orelha em pé" para catar uma expressão ou outra, mas tudo na boa (esse era o clima), La Vieira declara: "amo meu homem e vou ajudá-lo a sair desta. Ele deslizou, mas eu vou ampará-lo. Acho que vale a pena tentar, quando a gente tem esperança de que tudo acabe bem. Eu estou feliz, eu sou feliz com o Marcelo, e vou tentar salvar meu casamento". Um pequena lágrima deu mais brilho aos profundos olhos da mulher que, como qualquer outro ser humano sobre a face da terra, está aqui para tentar esta impossível felicidade. Voz embargada, alta, definida em sua decisão de reverter a situação. E notem bem, pouco importa o que vai acontecer em um dia ou dois ou daqui a dez anos. Quando você percebe que a estrela está viva, tentando ser humana, diante de sua legião de fãs (e inimigos), ela dá a prova decisiva de que ela não leva a personagem para a cama, ninguém manda em seu destino, de que todos estamos tentando, com mais ou menos privacidade. O que me comove é a estrela "bancar" decisão tão passível de críticas. E daí? Alguém paga as contas dela? Por que ela tomaria a outra decisão, a de ficar sozinha, sabendo que a platéia dormiria em paz e ela não dormiria? Por que ela teria que fazer o que esperamos da sensata estrela? Só ela sabe de sua dor e de seu prazer. Julgá-la é fácil.
Difícil é ser ela. A grande atriz desaparece pelos corredores chiquérrimos do barracão, e deixa seu lastro de glamour e carisma, estonteantes e de intensa verdade. Ela nos deve exemplo e explicação? Exemplo, só se passássemos pela mesma situação, mas só há uma Suzana Vieira, ponto com ponto br. Explicação? Se a mulher esta feliz, ou tentando ser feliz, quem somos nós para dizer pra onde ela tem que ir. Ela não sabe pra onde vai, nem como vai, só sabe que não vai por aqui. E quem sabe como esta vida vai terminar? Aliás, esta vida termina com a morte? Todos engatinhamos nesse mar de dúvidas: devemos fazer o que esperam da gente, ou quem sabe de nós, somos nós mesmo? Corajosa, esta estrela. Saiu balançando seu novo cabelo, que a debochada me disse não ser progressiva, mas sim "escova inteligente". Lá se foi ela escrever seu destino, e todas as mulheres que têm homens e sabem o sururu de capote que isso significa, provavelmente encostam suas cabeças em seus travesseiros e imaginam: "pelo menos ela está tentando. Igualzinha a mim".


Terça-feira, 13 Fevereiro, 2007

Loucuras da Mídia...


-Oi, Milton, aqui é a jornalista tal, da televisão tal...
-Bacana, e aí, tudo certo?
-Eu gostaria de saber qual é a relação que o enredo de vocês tem com a homenagem que vocês vão fazer ao Joãosinho, o garoto que morreu...
-Claro, é que no carro dois, o Porto da Pedra apresenta a imagem do menino sul africano Peterson, que morreu no levante de Soweto, nos anos setenta, daí....
-Qual foi o elefante que matou o garoto da África?
-LEVANTE, querida. Não tem elefante nenhum. É LEVANTE de Soweto...

A paixão é muda!


Tenho um amante misterioso, com quem me equilibro na perigosa navalha da paixão silenciosa. Não conversamos. Ele vem e vai, numa profusão de beijo e sexo interminável. Mas não falamos. Para não sentir saudades de mais um elemento. Melhor só ter saudades de um sexo encaixado e avassalador. Não sentiremos saudades de conversas apaixonadas. E sem a fala não há a promessa, não há mais nada além da paixão do sexo e da lembrança e saudade do toque. Em silêncio apaixonante!


Segunda-feira, 12 Fevereiro, 2007


Almoço no Aqua Pazza, na calçada da Dias Ferreira, Leblon, que é uma passarela da beleza. Os bem-nascidos e bem-alimentados do bairro desfilam, parecendo figuração da novela de Manoel Carlos. Um luxo. Frutos do mar e prosecco, porque ninguém é de ferro. Chuva torrencial escurecendo o almoço, parecendo jantar a noite. A concentração do Bloco Areia do Leblon é na esquina ao lado, no botequim Tio Sam. Mestre sala da Imperatriz, Rainha da Bateria mulata da Beija Flor, enfim, todos os conhecidos do samba, e lá fui eu, acompanhar o Areia, que adoro. O locutor, hilário, agradece as presenças de Fábio Junior e Maitê Proença (que não estavam) e do carnavalesco que ele adora muito: Milton Cruz. Crucificado, aceno para a multidão bacanérrima que me aplaude. Fiquei com medo de alguém pensar que eu era parente do Newton Cruz. Cruzes! Segue o bloco molhado dew chuva e prazer pela rua boêmia, quando o microfone avisa: "o folião mais animado ganha um prêmio. Nosso helicópteros estão monitorando todos e já já saberemos o vencedor, que ganhará o caminhão de som, de presente!". Gargalhadas generalizadas. Quatro mulheres garis caem no samba, aliás uma delas dava saltos no ar, batia pezinho, uma exímia sambista. É a partner perfeita para o maravilhoso gari Renato Sorriso, que samba no Sambódromo com a vassoura. Segue o Areia, molhadíssimo e animadíssimo rumo à Ataulfo de Paiva. Eu e uma amiga comentamos sobre um belo homem que está passando, quando o marido dela diz : ¨não vejo nada demais¨. Eu respondo: "claro, por isso o senhor é hetero. Tem que ter feeling de gay ou mulher para apreciar estas coisas. O senhor não vê nada, onde eu e sua mulher vemos. Você vê?" pergunto para a mulher. "Tudo. Vejo tudo". Nisso que começa a briga entre o casal, saio rodopiando de fininho e me apresentam ao presidente do bloco, um advogado que esqueci o nome, mas não esqueci a frese que o acompanhava: "Ele é o advogado do Eurico Miranda!". Nossa, como este coitado deve trabalhar, pensei eu, cá com meus strasses. A neném da foto, a bela Carol, arrasou na categoria luxo, originalidade e simpatia. Ganhou todos os prêmios e deixou a platéia deslumbrada.



Domingo, 11 Fevereiro, 2007

Pantera no fim da festa


Raiava o sol depois do desfile das campeãs. Saí da cabine da BandFolia, e fui andando com a multidão que voltava da Vila Isabel. Restos de fantasias por todos os lados. Uma cabeça da Mangueira, um ombro da Beija-Flor, uma capa da Grande-Rio. Vi pedaços da minha Viradouro e a nostalgia me invadiu. Parei na "Barraca da Barbie" para a primeira cerveja que me serviria de café da manhã. Adoro ficar ali, na espreita, escondidinho, vendo o povo que sai da Sapucaí. Me dá um prazer enorme ser parte daquilo tudo. Passa Cláudia Pantera, a mais esquisita criatura que Deus botou sobre a face da terra. E a mais educada e fascinante também. Descendente direta da linhagem inaugurada por Madame Satã. Panos desalinhados amarrados à cabeça, que adorariam um dia formar um turbante decente. Blusa amarrada acima do umbigo revelando a magreza, uma pantalona negra esvoaçante no rapaz-quase-moça, de dois metros de altura. Dentes para fora da boca e olhos esbugalhados no rosto negro. Maquiagem pesada, andar de manequim e uma doçura no trato que fez a multidão ovacioná-la num misto de espanto e admiração, às 7 da manhã daquele domingo em que o carnaval 2006 agonizava. Ela me beijou, como sempre faz, e seguimos para os bares fétidos do Balança Mais Não Cai. Um homem com o corpo deformado por queimaduras e cicatrizes enormes, está deitado numa poltrona recolhendo o dinheiro de quem quisesse usar o banheiro, meu caso. Quando saio, percebo que alguém botou na máquina de música à dinheiro "O Amor e o Poder", clássico gay na voz de Rosana. Pantera pula no asfalto sob o sol já quente, pára o trânsito e faz a coreografia da mão espalmada atravessando a frente do rosto, dublando lindamente "Como uma Deusa.... Você me mantém...." A multidão boêmia barra-pesada delira quando um grupo de bailarinos de uma das Comissões de Frente que se apresentaram naquela noite toma posição de Corpo de Baile atrás da Pantera e dá um show de saltos, piruetas, pontas, pernas elevadas, numa coreografia perfeita, pano de fundo para Cláudia brilhar mais e mais até o fim da música. Passavam pela Presidente Vargar os restos das alegorias que não mais agüentavam trafegar. Estou no filme Fama, quando os alunos sobem nos carros nas ruas de Nova York? Estou no filme Hair, quando os hippies dançam a lisérgica Aquarius? Não, estou num filme carioca sobre a fauna, a flora e o folclore dos arredores do carnaval. Uma senhora se aproxima e diz: Milton, eu adoro você. Meu filho não entende que você elogia as moças e os rapazes ao mesmo tempo, durante a transmissão. Mas eu digo pra ele que você sabe das coisas. Adorei quando você disse o que as mulheres tinham.... Eu ri muito. Como era mesmo o que elas tinham? Acho que era glândulas..." Respondi de imediato: "Glúteos, querida, glúteos..." Três segundos de uma pausa bêbada. "Pensando bem, minha senhora, glúteos são glândulas que incharam..."


Sexta-feira , 9 Fevereiro, 2007

Réquiem


Dor, dor, dor! Horror! Uma criança saltita amarrada por um cinto de segurança pelas ruas de bairros do Rio. O que foi que fizemos com nós mesmo, Deus do Céu? Lágrimas. Incredulidade. Na correria de largar o carro para os assaltantes, uma mãe não desvencilha seu bebê das fitas. Os humanos-bichos, ensandecidos, disparam e fazem zigue-zague para despachar o corpo da criancinha. Ela já está morta. Pessoas gritam. A luz dos faróis, e os humanos-bichos, impossibilitados pela droga, aceleram mais ainda para fugir do escárnio. Fogem de que? Não há fuga, capaz. Dilaceram o corpinho, desfiguram o menino, e o abandonam na pracinha do subúrbio, cheia de brinquedos para a idade dele. Uma senhora recolhe os restos mortais. Dor, dor, dor. Horror. E seu fosse meu neto? E se fôssemos nós? Perguntas flutuam e não se encaixam em lugar nenhum. São impossíveis. Dorme o Rio sobre o que sobra dele mesmo. Com a criança, morremos nós, em esperança desalentada. O sono dos inquietos, o repouso dos temerosos. Toda minha dor e indignação para os familiares.


Quinta-feira, 8 Fevereiro, 2007

No mundo da lua!


O "foguete" do astronauta William deve ser um espetáculo, pois levou várias vezes as astronautas ao mundo da lua, ao "discovery", se é que vocês me entendem. Lisa e Colleen embarcaram em viagens diferentes, na mesma espaçonave, e depois de dizer "a terra é azul" e "fazer em gravidade zero é ótimo, pois a coisa ta sempre de pé e flutuando", as duas partiram para o acerto de contas. O figurino foi risível: fraldas para não precisar usar o banheiro durante 14 horas, que devem ser altas, volumosas, desconfortáveis e devem deixar o quadril um violoncelo. Além disto, capa descartável e peruca! Quem viu diz que estava parecidíssimo com a Fran, da família Dinossauro. E as armas não podiam ser mais rudimentar, para dar um toque pré-histórico para estes "perdidos-no-espaço": marreta, espingarda de chumbinho, faca, e até um tacape de metal. Só falta surgir o Doutor Smith e o Robô, maravilhoso, rodando e dando pinta, dizendo: "perigo, perigo, não tem registro"...

Fina Estampa Dunga!


Plano secreto de Dunga para eletrizar e dar cabo à partida, caso alguma coisa saísse errada, sua camisa herdada de Sidney Magal, era o "plano b" para, quando exibida, matar todo o time oponente de susto ou de risadas. Treinador moderno tem estas coisas. Eu, que sou chegado a um espalhafato, a-do-rei. Listras misturadas a estampas é o último grito de.... se lá onde. Já estou até mudando a padronagem de meu carro abre-alas, pois preciso me conectar à era Dunga. Não posso ficar para trás. Acho que faltou um arranjo de cabeça, talvez flores negras que copiassem as flores da estampa, ui!, que estampa! O mundo inteiro comentou, (e país que tem Maradona como ícone de elegância, não pode atirar a primeira pedra, convenhamos); perdemos por um lado e perdemos pelo outro, mas não importa. O importante é o lançamento da coleção primavera-verão. Araras e tucanos já estão sendo consultados.

Sexo, tempo e dinheiro!


Gente, sexo cobrado por minuto nas saunas hetero do centro do Rio. Que rapidez! Deve ser uma correria, um Deus nos acuda, para os de dinheiro curto. Literalmente, uma rapinha. Será que tem fracionado, tipo 3 minutos e meio, e você paga quabrado, os cinqüentas centavos? Um escândalo. Podia também ter um desconto para as preliminares, uma promoção "primeiros 2 minutos grátis", para o esquenta da bateria. Conversar, nem pensar, um singelo "oi" já tira vinte segundos, e aqui, tempo é dinheiro. Será que eles proíbem ejaculação precoce? Aliás, os portadores desta síndrome sempre se martirizaram e foram esculachados pelas parceiras, mas desta vez se vingaram, encontraram o seu paraíso. Será que tem pagamento mínimo, como em cartão de crédito? O tempo de tirar a toalha conta, ou o relógio só começa a correr quando o cliente estiver nu? Ele tem direito a fiscalizar o cronômetro? Pode se queixar da cronometragem? Têm câmera tira -teima para controlar a chegada? Quantas perguntas que jamais encontrarão respostas.

Talibã!


Nunca aceitei este discurso religioso que diz que gay não é normal, mas não merece apanhar. Sempre achei que estava aí, neste "não é normal", a semente de toda a porrada que os pit-boys, religiosíssimos, querem nos dar. Desde criança você ouve o padre, que você admira, dizer que nós somos "aberrações morais" (palavras de Eugênio Sales). Quando cresce em tamanho, mas o cérebro não acompanha, o ser humano acha que a porrada é uma boa solução. Tipo um Caveirão-pessoa: em vez do tanque blindado, os músculos. Acho sintomática a escolha do nome "Talibã", pelos homófobos da Farmeganistão, na rua Farme de Amoedo, em Ipanema, que já têm até logomarca em camiseta, pois admiram aquele braço armado em nome de Deus, do Oriente . Para o carnaval, a guerra santa está anunciada, muito sangue rolará dos gays, em nome da família, propriedade, moral e bons costumes. Você pode não ser gay, mas já pensou se este grupo depois de dizimar os homossexuais, começar a implicar com quem usa calça jeans, por exemplo? Ou quem tem menos de um metro e setenta de altura? É que o raciocínio destes meninos é muito rasteiro. Mas também acho que gay que ultrapassar os limites aceitáveis socialmente, assim como os casais heteros, devem ser presos e devem se responsabilizados por seus atos. Não é questão de sexualidade. É de caráter.

Filas por matrícula em escola!


"O sono dos justos". Sempre adorei esta expressão. Me passava conforto, regozijo do dever cumprido, paz de espírito. Mas agora, penso nos pais que dormem em filas para conseguir matrícula para suas crianças na rede pública de ensino, e vejo que mesmo os justos podem não ter "sono de justo". O cidadão faz sua parte, paga seus impostos, ajuda com sua mão-de-obra o país a crescer, e não consegue vaga para assegurar um futuro melhor para seu filho. Que horror, que país é este? Pais dormindo dias seguidos, mendigando um espaço que o Estado tem obrigação de oferecer. Madrugadas ao relento, frio e fome, e a educação nacional agonizando em pesadelos que povoam o tumultuado sono destes justos, que querem fazer justiça para os filhos, que colocaram no mundo.

Penduricalhos!


"Eles têm penduricalhos infindáveis". Bomba! A nova fantasia para o próximo carnaval, está no bojo do bate-boca travado em Brasília, pelos corredores do poder. A gente sempre soube que aquilo era uma festa, um baile, só que agora virou à fantasia, e não é exclusiva deles. Os "podres" estão vazando. Interessante pensar que, em vez de se unirem, como sempre fizeram, para tocar tudo na surdina, os interesses corporativos estão falando mais alto e o Congresso e o Judiciário estão lavando roupa-suja em público. Quando eu era criança, eles alinhavavam tudo entre eles e não chegava às paginas dos jornais. Mas os tempos são outros, e a baixaria está nas ruas. "Ganho 24 , mas você ganha 12 mais penduricalhos infindáveis que somam mais que meus 24", grita o Ministro, injustiçado, para em seguida ouvir a resposta do Senador, que rebate: "e os teus penduricalhos de residência subvencionada e automóvel?" Pelo menos para isso, este baile à fantasia, que intitulo a "Noite da Transparência" serviu: no bateu-levou, a nação acompanha atônita a lista de benefícios que aqui, do lado de fora, suamos a camisa para conseguir; ao contrário do que pensa o sabichão prefeito de São Paulo que, à beira de um ataque de nervos, chama o penetra trabalhador, de "vagabundo"! Como se eles trabalhassem! Ou, como se fossem os únicos a trabalhar neste país. Já repararam que eles adoram chamar o zé povinho de vagabundo? Posam de labutadores do país. Voltemos à fantasia de carnaval: em vez dos balangandãs, estas Carmens Mirandas do planalto exibem penduricalhos desproporcionais e caríssimos, que lhes pesam a alma, e não mais os deixam evoluírem soltos, pelos salões. Estão pesados, mas não com dor-de-consciência. Só parecem os grandes destaques de luxo do carnaval, que embaixo de esplendores colossais, mal conseguem mexer os olhinhos, única parte do corpo que fica de fora dos brilhos. Penduricalhos, quem te viu e que te vê! Mas lá e cá, estes adornos têm sonoridade, deixam um rastro de tilintar revelador: são as moedas do dinheiro público a embalar os trejeitos destas "ciganas" fajutas de Brasília.


Terça-feira, 6 Fevereiro, 2007

Pernalonga Gay!


Dizem que a realidade é um grande palco, onde cada um de nós somos atores, nesta grande encenação que é o universo. E este teatrinho, você pode participar dele de cara lavada ou usando uma máscara. Qual é o seu caso? Você tem interpretado muito? Ou você tem vivido da forma mais confortável , dentro das suas crenças? Na última parada Gay de São Paulo, vi uma máscara impressionante, no meio daquela multidão de dois milhões de pessoas que estavam ali para celebrar a não-máscara, o respeito pelas escolhas alheias e a criminalização da homofobia. Eu estava no alto de um trio elétrico e resolvi descer para o primeiro andar. Ali, na fila do banheiro, na minha frente vi um senhor careca de meia idade, caretinha, mocassim, jeans e camisa pólo, carregando uma gigante cabeça de coelho, destas armadas, grandes, de pelúcia branca. Achei que alhos não tinham a ver com bugalhos, mas mesmo assim, avancei: "Bonita a sua fantasia", eu disse. A resposta: "Não, não é minha fantasia, é meu disfarce. Meu pai, minha mulher e meus filhos não podem saber que eu estou aqui, que eu sou gay". Silêncio. Dor, desolamento de um mundo, onde a criatura acha que engana os outros, mas a criatura só engana a si mesmo. Quanto desamor e quanta irresponsabilidade de colocar a saúde da mulher dele, em risco. Nem falo dos filhos, já que a barra é pesada demais. Subi angustiado para o segundo andar do trio elétrico, e sob o sol abrasante da Avenida Paulista, vi o Pernalonga Gay pulando, dançando, fotografando. Ele estava felicíssimo atrás de sua máscara, mas que persona estaria ali escondida? Trágicos anos de chumbo que obrigam as pessoas a fingir. Máscara só tem graça se for em bailes de fantasia. Na real, elas não colam, elas denotam forçação de barra. Algumas não machucam muito tempo, outras vão doer para toda a eternidade. Não desperdice sua vida colando no seu rosto, uma sórdida máscara da mentira.

Moda e Hermenêutica


Podemos encontrar nos dicionários várias definições para Hermenêutica. No Aurélio ,por exemplo, está:

[F. subst. de hermenêutico.] S. f.
1. Interpretação do sentido das palavras. 2. Interpretação dos textos sagrados: "Para esclarecer o problema religioso, traduz [Marnix] os Evangelhos em língua holandesa, e entrega desvendado àhermenêutica de cada um o texto das revelações divinas." (Ramalho Ortigão, A Holanda, p.11.) 3. Arte de interpretar leis: "Tanto a praxe como a boa hermenêutica aconselhariam apresentar..."

Destaco as partes "interpretação de sentido" e "arte de interpretar" que me parecem melhor ilustrar a forma como ela me interessa: a sistematização de conhecimento através da interpretação, qualidade lúdica do saber: pensar, refletir, analisar, dissecar, discorrer, conectar, empreender.
Conclusões que abrem janelas para novas conclusões, em processo infinito.
A Teoria da Moda ainda está sendo estruturada, portanto todos nós somos construtores, o que engloba erros e acertos, necessários e suportáveis se olharmos como todos os outros campos do conhecimento se soergueram. Uma hora o Centro do Universo era a Terra, depois o Sol, depois não tinha centro, depois nem se sabe se o universo existe mesmo. E graças a Deus não temos as fogueiras da Inquisição para queimar os mais assanhadinhos, como eu. Ao contrário destes campos que já se desenvolveram, a Moda ainda não pode considerar-se "encorpada", até porque muitas das reflexões que tem ela por objeto são emprestadas de autoridades de outros campos. Ainda nos ressentimos da falta de Teóricos que tenham sido modelistas, gerentes de produto, que tenham intimidade com agulha e linha. Incentivo modais a publicarem suas experiências "viventes" da Moda, daí sairá, dentro de alguns anos, as bibliografias de dentro da Moda. É interessante pensar que só agora estamos produzindo material intelectual que vem dos próprios modais (os que se relacionam na teoria e na prática com a Moda). Os Cursos Universitários "catam" docentes com sólida formação teórica e prática dentro da Moda, que possam realmente fazer a ponte entre Moda e Humanidade. A interdisciplinaridade é interessante, mas desde que ela não seja exclusivamente, a única fonte. Preparação de alunos e seus escritos de discência é que agitarão este mundo em construção e daqui a algum tempo já teremos tais enfoques específicos.
Já temos sistematizados os campos de Técnicas de Moda (o grupo de moldes, maquinaria e indústria têxtil). Precisamos sistematizar o estudo das roupas, a formação de individualidade e sociedade pelo viés da moda, e a própria história da Moda, que muitas vezes é confundida nas salas de aula como história da arte. Necessitamos urgentemente de mais pesquisas de Moda.

Miss desaparecida


O caso desta Miss Brasil, Thaiza, que não quer ser incomodada em Londres, nem encontrada pelos pais, me lembra a "fantasia" que Miguel Falabella me relatou certa vez: ele tinha vontade de se mudar para uma esquecida cidadezinha na Finlândia, onde ninguém o conhecesse, e lá abrir um pequeno negócio. Desejo de voltar a ser anônimo, desejo de ter vidinha pacata, desejo de apagar o passado, de recomeçar, de tentar uma outra realidade. É fascinante poder supor que o recomeço total é possível. Que dá para zerar tudo e tornar a escrever uma nova vida. E o fascínio reside na não expectativa dos que te rodeiam. Como zerou, ninguém sabe nada sobre você. Mas tem que ter coragem e disposição. Alguém se habilitaria?


Segunda-feira, 5 Fevereiro, 2007

Caveirão da injustiça, filho da segregação!


Recebo umas mensagens horrorosas de um grupo de Minas Gerais a favor do Caveirão. Eu, definitivamente, acho que em vez de Caveirão, os Governos devem dar saúde, educação e dignidade para suas populações desamparadas. Não adianta mais se trancar em condomínios e achar que tanque de guerra vai resolver. Pode ser que amedronte agora, mas se algo não for feito, daqui a pouco não teremos nem Caveirão. Esta foto aí de cima é do Presidente Uberlan de Oliveira, do Porto da Pedra, quando de nossa visita ao Museu da Favela Vermelha, em New Brighton, Port Elisabeth. Quando entramos na sala do Caveirão Sul-Africano, chamado de Mellow Yellow, paramos arrepiados e ficamos mudos. O guia nos disse: "como pode um governo governar em nome do povo, e cometer tamanha atrocidade?" Nada respondemos, nem dissemos a ele que convivemos com o Caveirão nosso de cada dia aqui e agora. Resta a pergunta sobre o apartheid brasileiro: porque o negro brasileiro ganha salários menores desempenhando as mesmas funções do branco? Somos um país racista?

Segregação


Parte integrante da Sinopse do Enredo, cada carnavalesco publica para o júri sua Justificativa de Enredo, demonstrando a relevância de sua proposição. Aqui, uma parte da minha:
MESMO COM A PROXIMIDADE TEMPORAL DO APARTHEID, HÁ UM GRANDE ESQUECIMENTO SOBRE AS POLÍTICAS DE SEGREGAÇÃO ANTERIORMENTE VIGENTES NA ÁFRICA DO SUL.
CABE AO CARNAVAL RETOMAR TEMAS "ESQUECIDOS" COMO ESTE, POIS A DESMEMÓRIA É UM MODO DE IMPLEMENTAR NOVAS POLÍTICAS PREJUDICIAIS AOS POVOS DO MUNDO, COMO FOI ESTA DESUMANA CONSTRUÇÃO. COM A NOVA ASCENSÃO DA ÁFRICA DO SUL NA GEOPOLÍTICA MUNDIAL, EIS QUE SURGEM POSSIBILIDADES DE SUPERAR ESTE PASSADO AMARGO, MAS NUNCA, NUNCA ESQUECE-LO.



O máximo que consigo é dizer Obrigado!


Domingo, vou andando pelo Calçadão de Copacabana, rumo à Ipanema, um programa que sempre que dá, faço. Sol, gente, e o Rio se espalhando na praia. Um luxo. Já repararam que há uma nuvem negra e pesada bem em frente ao Othon? Gostaria que alguém pesquisasse que tipo de turista ou turismo se hospeda ali, e que propiciou a formação de um pedaço de praia esquisitíssimo. É um mafuá: os quiosques, as mercadorias, os turistas, as putas, os cafetões, gente, é horrível. Dois passos depois não tem mais nada, bem como dois passos antes, idem. Encontro Paulo Barros no Arpoador ,e caímos na gargalhada da briga entre ele e Max Lopes, pela imprensa. Ah, o carnaval! Na areia vejo uma bandeira do Paissandu, e duas do Remo. Iconografia de minha infância, vou conversar com o casal de paraenses donos do point. Fui atraído pelas bandeiras. Enfim, chego na praya Gay, também conhecida como Cristaleira (antigo móvel cheio de frescura, onde a família poderosa exibia seus cristais Lalique e Bacharat). Meu irmão Marcelo e seu amigo Junior estão com uma moça, lésbica, que vai a praia de top e sungão de pit-boy. Uma coisa, uma visão, uma aparição. Ela me conta que é cantora e já foi campeã de ju-jitsu. Ao cair da tarde, sentamos nas mesinhas do bar de um hotel e, bebericando champagne, vemos o por-do-sol. Um saxofonista arrasa na calçada e é aplaudidíssimo. Viver é bom.


Sexta-feira , 2 Fevereiro, 2007

Coisa de maluco!


Uma brincadeira do bloguista lacraio André Oliveira, sobre o termo usado pela bloguista lacraia Márcia Helena, no buraco sobre o Guru e o goró, quando ela elogia as minhas "escritas", me faz postar esta escritura sobre escrita, que é um termo da moderna Semiologia, muito cunhado por Roland Barthes, sábio francês da metade do século 20. Interessado no discurso e sua construção, Barthes se dedica a pensar a transmissão do saber, e por exemplo, as dificuldades de uma tradução de um idioma para o outro, pois não é só traduzir "ao pé da letra", mas sim, sacar as intenções do escritor, na língua-mãe, e tentar encontrar na nova língua, expressões que melhor se adaptem ao que foi pensado em outra estrutura. Portanto muito, muito difícil, pois seria trabalho exaustivo de aproximação, jamais a mesma totalidade. Vale indicar O Gráu Zero da Escrita, quando ele discorre sobre autor, leitor e a simbiose quando, ao ler, o leitor reescrever o texto lido em sua acepção pessoal. Ele acredita no sabor do saber, já que cabe ao mestre libertar o aluno; a verdade é o pai velho, já morto, e o saber, esperançoso e de olho no futuro, é o filho, o aluno; Barthes nos fala da morte do autor, já que cada novo leitor reescreverá a obra, que não pertence mais a quem a escreveu, ela está nas mãos de quem lê. Trazendo pra vida prática, cada vez que pensamos sobre algo, reescrevemos este algo mediante nossos referenciais: será que "aquela festa", foi a mesma festa que está na sua lembrança? Você ama fulano ou ama a construção do fulano que você fez para você amar? Sempre reescrevemos a realidade dentro de nós? Realidade existe, ou são versões individuais de algo mais ou menos arrumado, mas sempre em caos e movimento de um contínuo arrumar, promovido pelos humanos pensantes? Este foi meu Mestrado, e agora parto pro Doutorado. Mas acreditem, não sou assim na hora que estou praticando sexo. Sou pior.

Botox de botocudo!


Gravei agorinha há pouco, um interessantíssimo programa de tv: "Responsa Habilidade", da Band, apresentado pela louraça Cláudia Cataldi. Passa na sexta de carnaval, às (ui) 7 da manhã. Será que só gente que acorda cedíssimo tem a responsa habilidade? Sei lá. Só sei que eu e Célia da Mangueira falamos muito sobre o projeto social da Cidade do Samba, o Carnaval e Cidadania, e quem não tiver o que fazer, nem mesmo dormir, assista. Seja o que Deus quiser. Mas antes de gravar, fiquei na roda dos técnicos do estúdio, câmeras, cabos, contra-regras, porque vocês sabem que eu adoro o povão. E os caras, claro, vieram logo perguntando sobre as gostosonas do carnaval. Eu acostumadérrimo, detonei: "tudo siliconada!" Foi aí que um deles, detonou de lá: "botocudas!". Eu: "como, senhor?" Ele: "Tudo parente dos índios botocudos", e fez com os lábios uma couve-flor digna das mais botoxizadas atrizes da Globo. Estavam batizadas as beiçudas de nossa telinha: são botocudas!

Rio Bonito e Belíssimo!


É tanta reviravolta no caso da clone da Adriane Galisteu, em Rio Bonito, que até eu estou com medo de entrar no rol dos suspeitos pelo assassinato do pobre cadeirante, que encontrou num prêmio milionário, sua desgraça e o fim de seus sonhos. Ah, se a gente soubesse o que certas benesses podem fazer com a gente.... Não as aceitaríamos. Ele agora daria todos os milhões para continuar sua vidinha bacana no interior. Foi seu fim. Pra quem ficou e tramou sua morte, o começo. Passaporte na mala, tipo Bia Falcão; vários amantes... tipo Bia Falcão...; documentos falsos tipo.... ih, meu Deus, será que o Cauã Reymond ta morando pelos lados de Itaboraí? Porque só falta isso pra fechar a reencarnação de Bia Falcão em Rio Bonito. Saravá!.... Agora o detalhe picante das fotos de suruba, aí já é além da imaginação. Estava na novela das oito e virou sexy-hot! Escândalo.

O Guru que adorava um goró!


Sempre olhei atravessado pro sujeitinho. Fazia fila na porta da casa de minha amiga, para se consultar com o "guru". Um charlatão, um presepeiro. Após as consultas e com o bolso cheio, íamos tomar cerveja, e quem fosse calado, era logo tachado de "pesado" pelo galalau falastrão. Após duas cervejas, o "coisa" começava a contar que era casado há seis anos com seu companheiro, e não usava camisinha nunca. Narrava com orgulho que aprontava horrores, mas o companheiro era um santo (que não sapeca nem dá bola pra boneca). Então tá! Ficava com pena do povo que colocava sua crença em ser humano tão sem amor próprio, com o instinto de sobrevivência tão em baixa. Como os psicólogos que posam de resolvidérrimos para seus clientes,e são uns desestruturados, que fingem muito bem. Como os padres pedófilos de Boston e de tanto outros lugares, que, ao destruírem centenas de vidas dos garotos que molestavam, ainda passavam penitências fortíssimas para os coitadinhos. Ah, se os que fazem fila soubessem....


Quinta-feira, 1 Fevereiro, 2007

O Conquistador!


Pedro Bial: "Vamos receber com carinho, o pernambucano que conquistou o Brasil, Alan não sei o quê!". Ué, Bial, mas você não está recebendo um defenestrado da casa de papelão? Então, a criatura conquistou quem? Os que detonaram ele? Cruzes, é o samba do Big Brother Doido.

Deus é dez!


Sinto desapontar os fundamentalistas religiosos que, procurando não sei o quê, passeiam pelo meu blog Buraco da Lacraia (já que, definitivamente, não sou da turma deles) e me desacatam sobre a frase por mim escolhida para inaugurar a seção "pé do ouvido": "o por-do-sol é a ponta do baseado de Deus". Sobre as acusações de blasfêmia, sinto informá-los que não é sobre o Deus católico que estou me referindo. Aliás, eu não sei se esta gente sabe, que o Deus deles não é o único no mundo, e, respeitando a postura do Deus destes dois bilhões de fiéis, quero dizer que todos nós, outros quatro bilhões e meio de habitantes do planeta, temos outro Deus, ou Deuses, tão bacanas quanto o católico, e doa a quem doer, o Deus católico vai ter que conviver e dividir espaço com nossos deuses e acabou. Estamos conversados. A menos que haja um plano de exterminar todos os não católicos do mundo. Moro numa sociedade laica, que não me obriga a ter o mesmo Deus que vocês. Meu Deus gosta dos gays; gosta dos heteros; acha que preto tem alma, sim; meu Deus não quer convencer os índios de que Ele é melhor que Tupã, o maravilhoso; meu Deus não queima bruxas em fogueiras; meu Deus permite que outras pessoas acreditem em outros Deuses, ou não acreditem em nada, pois Ele não quer provar nada pra ninguém; e por fim, meu Deus dança, bebe, e às vezes, se droga pesado. É um Deus que me ensina que a fraternidade começa na permissão de que meu semelhante tenha o direito de professar outro credo. Este é o Deus da minha frase, que não se referia a qualquer Deus de religião específica, tanto que não cita credo algum. O que os fundamentalistas vão ter que entender, é que não adianta jogar avião em cima de edifício, pois as mitologias, todas, vão ter que pegar leve, no direito de existir das outras. Aliás, o que são os dogmas religiosos, senão suspensões do real, muito similares ao torpor de quem experimenta "novas" dimensões? Depois o maluco sou eu...

A Rampa das Invejosas!


Tenho que contar para vocês, sem que o Capitão Guimarães me ouça, que o carnaval carioca nunca mais será o mesmo, depois da rampa do passeio turístico, que permite que os visitantes dêem a "volta olímpica" na Cidade do Samba, e, de varandas maravilhosamente posicionada a 7 metros de altura, olhem todos os carros alegóricos de cada uma, das 13 escolas do Grupo Especial. É a "rampa das invejosas", dizem os sassaricos de carnaval (copiraight Sergio Cabral e Rosa Maria Araújo, por favor). Fofoca, maledicência, acusações de roubo de idéias, suspeitas de plágios, estas sempre existiram e fizeram a mística do carnaval carioca. O que são os barracões, sem o disse-me-disse do povo do samba? Só que agora a coisa é outra, é coisa de "camarote", e quando você menos espera, pumba, em vez do turista branquérrimo de olho azul e cara de nórdico, que sempre está por lá, embevecido, você vê um moreninho, meio sujinho, meio... ué, mas aquele ali na varanda, não é o assistente do carnavalesco tal? O que ele faz ali no alto, olhando minhas alegorias? Tudo muito esquisito. Um arrepio te sobe a espinha, já sabendo que tuas esculturas estão na boca do povo, podem passar numa escola antes de ti; enfim, você lá em baixo, arrasado, e lá no alto, magnânimo, alguém que você não pode, nem deve, confiar. O máximo. Em seguida as informações vão para a sorveteria da praça central, e tal qual cidade do interior, funcionários e desocupados começam a fazer suas listas de classificação, seus "mais bonitos" e "mais atrasados", quem melhor usou as cores ou não. Só que dois ou três dias depois estas informações jão são manchetes num jornal "boca a boca", que circula no imaginário do "Farias bar", esquina do pecado e do prazer, já do lado de fora da Cidade do Samba, uma espécie de "bracarense" da Gamboa, quando, na sexta a noite, embriagados, os "jurados" começam a soltar as pérolas sobre o que viram e ouviram. Aí é pule de dez, tiros certeiros para a insanidade... eu poderia dizer... quase Joãotríntica. Dizem que pirâmides do Paulo Barros tem duas, e não s