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| Milton Cunha |
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 Oi, Milton Boa Tarde!!!! Ganhei meu dia ao ler as pérolas que você escreveu a respeito da confecção do troféu encomendado pelo Sec. de Esporte Eduardo Paes. Amigo tive a oportunidade de ver seu trabalho de perto quando pela 1ª vez fizeste o carnaval para a Beija-Flor, naquela época eu era integrante da Bateria do Mestre Plínio. Depois nos encontramos novamente na Unidos da Tijuca, lembra que você me sugeriu de colocar uma pomba da paz nas cuícas...rsrsrs, pois é todos os cuiqueiros ficaram de cabelo em pé a respeito de sua idéia. É com grande satisfação que cumprimento o amigo pela leveza com que escreve para os leitores, além de engraçado você é divertidíssimo e é tudo oque queremos nesses momentos difícieis que nossa cidade esta passando. Valeu amigo, obrigado por nos proporcionar informação e alegria aos nossos corações. Um Beijo grande em seu coração Milton!
Ass. Fred Borges da França Querido Sergio, mas e a pomba, o que aconteceu, meu Deus? Moral da estória: se uma singela pomba da paz faz isso com cuiqueiros espadas do carnaval do Rio, imaginem o que um pombão não faz comigo! Sarava... Ass. Pomba rola (ui!) que voou...
 "Troféu Express, boa noite. Em que posso ajudar?" Era assim que eu tinha que ter atendido aquele telefonema da última sexta-feira, às 10 da noite. "Oi, Milton querido, aqui é o Gegê Galindo". "Fala aí, Gê. O que manda?". "Milton, o Secretário de Esportes, Eduardo Paes, quer trocar uma palavrinha com você". "Coloca ele aí na linha". "Grande Milton, quero te fazer um desfio: você confecciona um troféu comemorativo aos mil gols do Romário, pra gente entregar pra ele no próximo domingo?". Emudeci. Fascinante estes convites que tocam em questões metafísicas elevadas e insolúveis, como o tempo e organização, e questões práticas como a compra de material na Saara carioca, entre 8 da manhã e 1 da tarde do sábado seguinte. "Meu Deus, será isto possível?", perguntei ao Paes, a mim mesmo, e aos meus anjos conselheiros. "Tenho que entregar a que horas?", perguntei, já me imaginando chegando no gramado quando o juiz apitasse o final da partida. O secretário não apenas não responde, mas, singelo, acrescenta: "gostaria que tivesse o número mil e a réplica do Maracanã! Algo com tanto de largura e tanto de altura". Simples assim: como um hambúrger que pula prontinho da cadeia de produção de uma empresa de fast-food. Como desgraça pouca é bobagem, respirei fundo e insisti na questão tempo, à qual ele me responde dizendo ser ideal na tarde de domingo. Começam a pensar em material, projeto, e por volta da meia-noite, já virando abóbora e querendo ver o lobisomem, e tendo um prazo de 30 horas, vejo jogado por terra meu pacato final de semana, quando não faria nada. Um vulcão além de ameaçador já saltando larvas pra tudo que é lado: começo a intimar meus assistentes pelo telefone, que já estavam dormindo e depois me confessaram que achavam que estavam tendo pesadelo, quando contei da encomenda e do prazo. Raiava o sol e nós, formigas em nau de desesperados, em várias frentes tentávamos comprar os materiais certos, em quantidade exuberantre para que, se algo desse errado, podermos recomeçar do zero. Comércio fechado era um monstro que nos devoraria em seguida, quando nossa solidão seria fatal. Não haveria mais nenhum balcão a implorar. Base de mármore nobre, se possível trabalhada, senão lisa mesmo (tipo não tem cão, caça com gato). O número 1000 folheado: os três primeiros algarismos em ouro e o último zero folheado a prata, combinando com as duas miniaturas prateadas dos jogadores, e servindo de base para as paredes de uma réplica do Maracanã, tão trabalhada quanto o tempo permitisse. Iríamos colocando os frisos, e quando percebêssemos que o tempo para secagam estava no limite, pararíamos ali mesmo, correndo o risco dos frisos ficarem desequilibrados. Mas a vida é assim mesmo, e quem não arrisca não petisca. Três da tarde e minha sala havia virado um ateliê de escultura, colagem, folheamento, cromagem, miniaturas de bonecos, estrelas! E eu tenso, maquinando o processo de montagem. Confesso que liguei naquela manhã descombinando e dizendo que era insanidade continuar com aquilo. Mas já era impossível, os encomendadores já estavam organizando o balaco da entrega. Entrega esta que o motorista de táxi que me levou de Copacabana ao Centro, e que ouviu meus telefonemas sobre o Troféu Romário, lançou várias suspeitas: "se eles te encomendaram o premio é porque a mutreta já ta armada. Com certeza eles já acertaram os mil gols". Ri de nervoso, e percebi que estava no terreno das paixões populares e passionais, que a ocasião era de festa e importância, e resolvi não mais falar na frente de testemunhas sobre o tal troféu. Os meninos tentavam me divertir enquanto trabalhávamos, e vocês podem imaginar como aquelas mãos de fada e cérebro de felino, preparando uma obra absolutamente masculina em suas intenções, e delicada em sua confecção, são capazes de comentários definitivos sobre estádios de futebol. Uma dizia: "meu homem não vai acreditar que eu peguei nisto e ele não". A outra completava: "vou fazer uma réplica disto e entregar pro podre do meu vizinho, que é mil vezes chato". "O troféu podia ser uma réplica do torso nu do Romário! Liga pra ele vir posar!". E suspirávamos. De medo de não dar tempo e de imaginação do baixinho despido naquela sala, coitado. Durante a madrugada, entre pedaços de pizza e refrigerantes, decidi que a plástica reverenciaria o tempo e as dificuldades de se fazer mil gols: trajetória tumultuada de risos e lágrimas, portanto enrugada e com efeito craquelê, envelhecida com betume. Amanhecia domingo e rezávamos para que fizesse sol, pois o troféu ficaria na varanda, secando ao vento e luminosidade. Todos se despediram e eu fique lá, lambendo a cria e tomando conta, caso chovesse. Vieram buscá-lo e me despedi do que nunca foi meu: nasceu para ser erguido pelo ídolo, viveria para ser aplaudido pelo Maráca lotado. Vou ao estádio pára dar meu adeus à peça, e me surpreendo com a quantidade de homens bonitos, de todas as idades, cor e posição social. É o melhor lugar que uma mulher inteligente pode supor para ir um domingo à tarde, pois chove, e sobra, pretendentes. Outra coisa que me chama atenção é a quantidade de vezes que uma torcida manda a outra tomar naquele lugar (ui!). É quase uma fixação infantil pelo anus, e Vasco e Flamengo ficam ali, se mandando mutuamente. Belamente medieval, o espetáculo das torcidas seria irretocável, se não pairasse sobre ele a possibilidade iminente da violência. Mas é emocionante. Deliramos todos com o gol de Romário, e repetimos, em mantra: "Mil, mil, mil, mil...". Que não vem, que força o troféu a ficar guardado em sua caixa escura. Ainda não foi desta vez que ele brilhou. Ligo pro Eduardo Paes, e brinco: "custava você ter encomendado o número 999?". Salve Romário, pequeno frasco de raro perfume: aquele cheiro de qualidade da estrela, único em juntar talento no desempenho, carisma no trato público e uma sinceridade e individualidade que não se curva diante da máquina trituradora de fazer bons moços,nem que sejam falsos!
 Faz tempo que a Bahia merecia um tributo deste quilate. Porque o difícil é traduzir tanta disposição, tanta cor, tanto talento, tanta emoção genuína em uma obra de arte. Monique Gardenberg topou a parada, olhou pro monstro e disse: Ó PAÍ, Ó! .E fez a música maravilhosa do melhor baiano entrar por dentro dos diálogos, e mesmo numa cozinha pequenina de um muquifo no Pelourinho, parece normal sair cantando para um homem que pede para uma bela moça dançar. Letra e música fazem parte da estrutura dramática, leve e comprometida como só a vida soteropolitana sabe ser; e aí La Gardenberg consegue o melhor resultado brasileiro em termos de filme musical. Em nenhum outro o limite entre ação e cantoria tem resultado tão natural. É como se o baiano pontilhasse seu dia a dia de canções. Mas não é esta a exata realidade da Bahia? E o que dizer da mãe baiana, vestida como tal, portanto quase Orixá, pregando a fé protestante dos evangélicos? Ela não interpreta, ela é o próprio sincretismo. Putas ratafaris, travestis cor de mel, traficantes doces brigando com clientes e chamando-os de "meu velho", tem de tudo e não falta nada para este filme alegre, descontraído e brilhante. Lázaro Ramos é um Deus, que fica lindo de morrer (e gostoso, muito gostoso), quando ampliado na telona. E ainda atua magistralmente e canta, o tesão! Um espetáculo. Salvador, suas ruelas do Pelourinho e todo o encanto da Bahia explodem nesta narrativa que desconstrói a estrutura convencional do musical e nos faz acreditar e curtir o desenrolar da trama, natural como um rio que corre para o mar. Água de chuva ladeira abaixo, vivaz como só gente feliz sabe ser (mesmo com pouca grana, como quase todos do filme), assim é esta realização. Um frescor, com qualidade de som digna de nota, e elenco afinado, que vai de Virginia Rodrigues como a doida Bioncé do Pelô, até Dira Paes como a que foi se prostituir na Europa e volta no salto. Tomem um lexotan (ou não!) e corram pra ver. Maravilhoso. (O título significa "olhe prá isso, olhe", em entonação que depende do que será observado, ruim ou bom: istoé baianês explícito).
 Meu projeto para a encomenda do Secretário de esportes, Eduardo Paes, "Mil Gols de Romário". Desenhei na sexta de madrugada, e, domingo às 18 horas, o "real" já estava pronto. Depois fui ao Maracanã, mas (ainda) não foi daquela vez. Valeu Gegê! Uma correria insana e hilária. Conto na coluna de quinta-feira, no jornal impresso.
 Minha aluna querida, Lídia, em momento Sapucaí, vestindo minha criação, Ala dos Elefantes, "ai, como era grande aquela tromba!" A-do-rei...
No Baile de Carnaval da Cidade do Samba , o Salgueiro, sensato, escolheu Julio Machado para ser o grande homenageado, entre os destaques de Luxo das Escolas de Samba. Agora lhes relato que naqueles camarins, entre máscaras, serpentinas, confetes e banda do Bola Preta, eu vi a velha senhora, eu vi a Morte, ela mesma, rondando Julio. Eu passei para trás das cortinas de veludo preto para ver se estava tudo bem com os desfilantes e eles estavam alegres, montando suas plumagens, quando percebi que Julio faltava àquela cena, ele não estava ali. Passei pelas vielas do palco escuro, andei até entre as ferragens, e Xangô estava sentado, com a cabeça apoiada nos braços, que se esticavam em súplica até os canos, que o amparavam. Ele não tinha forças. Naquele silencio em minha alma, pois tudo gritava carnaval ao meu redor, eu vivi com ele a exaustão, a espera do fim próximo, a extenuante dor da doença que não mais o deixava participar do grande baile que é viver e aproveitar. Eu senti a velha dama, com sua foice, o rodeando. Falei para mim mesmo: "ele está sofrendo, ele está morrendo...". "Quer um copo dágua"? Tive coragem de lhe perguntar. "Por favor, agradeço". Me respondeu num fio de voz. Minutos depois grito, no microfone do palco, que aplaudam a lenda que Xangô era. Ele entra majestoso, numa fantasia branca, e invoca, como sempre : "Kawo! Kabecilê!". Todo meu corpo gela e num arrepio, avanço para ampará-lo. Ele desfila lentamente e me pede, baixinho: "Seja rápido comigo! Não estou agüentando mais!" Chamo Haroldo Costa para entregar o troféu e retiro Julio quase desfalecido de volta ao camarim. Três dias depois, no camarote da Liesa, vejo-o passando no carro do Salgueiro. Viro para o querido Cláudio Vieira, aqui do Dia, do Passarela do Samba, e digo: "ele está morrendo, Cláudio. Eu sinto que ele está morrendo". Cláudio me responde: "Será uma pena. E é coincidente ser este o ano em que, como há quarenta anos atrás, ele está novamente desfilando na alegoria de Tia Ciata. Primeiro e último desfile..." Foi a última vez que o vi. Na luz, no brilho, com a multidão ao fundo, platéia de seu esplendor. É assim que o guardo, com o Salgueiro majestoso e deslumbrante na avenida. Ele e sua misteriosa Ciata, mítica, selvagem, baiana de Oxum incontrolável, que agora sei, agora entendo, era ela que eu senti na solidão de Julio no Camarim. A velha dama que o convocava, que permitia seu último carnaval, era uma morte rendada de branco, com turbante e bangandãs. Uma morte alegre, ofertatória, benevolente. Como se dissesse: "viva, veja, alegre-se pelo que contruiu. Esta é sua Corte, nossa corte. Boa sorte, divirta-se mesmo doendo..."
Vivi grandes e queridos momentos com o Xangô do Salgueiro, Julio Machado, que foi desfilar luxo e glamour no paraíso, seu lugar de sempre. Alma elevada, espírito de luz, o professor se mandou deste mundinho, que ele insistiu em ver pela ótica de seu prisma, sempre generoso. Eu o amava, e sei que ele também me ama. Dizia: "você é a cara do Rio! Força, continue..." Sempre teve palavras de incentivo, e vivi com ele e Elymar Santas um dos momentos mais emocionantes de minha vida, que rendeu a crônica "O dia em que Elymar Santos só cantou 16 músicas, que aproveito para republicar, como homenagem entre bem-humorados, que deve ser a única coisa que lvamos desta para a outra: Ao lado do grande Paulo César Pinheiro e do gato Dudu Nobre, fui jurado do Festival da Canção Hélio Alonso, organizado pelo professor Julio Machado, o Xangô do Salgueiro, que é tombado pelo patrimônio histórico como figura imprescindível de carioquice. Tudo ia bem até que o querido Elimar Santos pegou o microfone. É que reza a lenda que o cantor não dura menos que três horas e meia, num palco, seja ele qual for. E aquele era um dia especial, pois era o aniversário do dia em que ele alugou o Canecão pela primeira vez, e que chama de "a noite do meu sonho". Portanto, algo em torno de cinco horas estaria de bom tamanho. Elymar cantou a primeira, uma emocionante releitura de um antigo sucesso do Raça Negra. Cantou a segunda, e o salão veio abaixo de tantos aplausos, pois era um "Renato Russo". Aí Júlio avança para abraçar Elymar e tentar pegar o microfone de volta. O cantor estica o braço com o artefato para o lado oposto, e sorrindo engata na terceira música, aplaudidíssimo. Já que estava todo mundo adorando, começa o bloco das músicas dançantes, quando La Bamba tira todo mundo do chão, e tira Julio do sério, quase em síncope. Julio atraca Elimar ao fim desta seqüência, com o cantor aplaudido de pé. Julio persegue o microfone, Elimar disfarça, rodopia e sobe o play-back para o bloco das novas canções do próximo cd, acústico. O salão vai ao delírio e Júlio vai à loucura, numa saga insana para acalmar Elimar Santos e fazer o festival continuar. Ninguém mais se lembrava, mas era um festival, e o quesito "comunicação com o público" recebia ali uma aula definitiva. Oito músicas depois, Elymar anuncia: "ano que vem quero fazer um show completo. Eu não sou cantor de só oito músicas. Eu tenho tesão em cantar, eu adoro cantar e não me conformo de fazer pouco tempo no palco". Julio agarra a parte que restava do microfone, quase na bola de cima, pois a s garras de Elimar ainda cobriam a base do objeto, e num "vai não vai" disputadíssimo, ganha Elimar que ataca com o Samba do Império Serrano de 72 em homenagem a Carmem Miranda. A platéia acompanha Elimar, e eu acompanho Julio em sua solitária desesperança, já sentado nas escadas do palco, sorrindo e adorando tanto sucesso. Eis que Elimar passa o microfone para Julio e a platéia faz "oh", quase sem acreditar no que via, depois de tanta súplica do organizador. Aquele foi o dia em que Elymar Santos só cantou onze músicas. Data histórica que documenta o esforço hercúleo de um organizador e a paixão profunda de um grande cantor, operário de seu ofício, mergulhando em prazeirosa noite de sonhador.
 "Hello! I work at Tenderly Loved borough!". Tá, meu amor? A partir de agora, se segura, que com as aulas de inglês das meninas queridíssimas da Vila Mimosa, é assim que você poderá ser recebido por lá. Um luxo, um salto para o cosmopolita, já que com a chegada dos turistas taradinhos do PAN, o Rio vai ferver, e as Mimosetes, junto. Mimoso significa "feito com primor, doce ao tato, macio". Portanto, imagina as mimosetes explicando isto em inglês para os turistas? Só de ouvir vão gozar. Claro! Tem que saber o idioma mais falado entre a turistada esportiva, que adora marcação de pontos. Imagina se o cliente vai querer um "sixty-nine" e a meiga não vai mandar um "sou ótima em sessenta e nove, gringo!"?. É o encurtamento das distâncias através da "língua", ui! Mas antigamente, tais "mimos", as prostitutas (foi Gabriela Leite, a Presidente da ONG Daspu, quem me disse, de forma veemente: "não se acanhe em nos nomear abertamente prostituta ou puta, é o que somos, com orgulho; parece que as pessoas tem nojo, medo, receio de pronunciar tal palavra, mas você deve dizer prostituta, do contrário, é preconceito) não beijavam na boca. Portanto aqui, a língua/tongue, é dificultadora em várias vertentes, pois tanto comunicação quanto paixão, se misturarão no céu desta boca/mouth. Uma das delicadas mimosas, minha parceira de cervejadas inesquecíveis, aprendeu a falar "ingrês" (como ela mesmo sacaneava) através dos títulos de filmes pornô. Só que toda frase, ela permeava com "deep-throat" pra lá, "garganta-profunda" pra cá. Era uma espécie de vírgula, para o inglês da outra. Deve ser interessante presenciar tal aula, pois imagino ter um glossário de "termos técnicos", específicos para a profissão do sexo, e estas "personais" divinas, terão que saber certas gírias, certas "nomenclaturas" dificílimas de serem encontradas nos Michaellis da vida. Aliás, aquela minha amiga das caixas de vídeo-cassetes, comprou este dicionário de bolso, e de tanta paixão pelo nome do azulzinho, botou o nome da própria filha em homenagem ao Michaellis. Ela me dizia que era um nome inteligente, intelectualizado, enquanto a Michaellis rodopiava entre as mesas dos bares. Sexo negociado em "estrangeiro" com desempenho "à brasileira". Tudo igual ao início do século passado, quando as garotas tinham que saber o francês para melhorar o preço da performance. Nem que fosse um francês macarrônico. Sai a francofonia, entra a inglesada, e o sexo se mantém firme no posto de "maior diversão". Que o Severiano Ribeiro não me ouça...
 Quer dizer que o custo de manutenção de um carro, com dois anos de quilometragem, justifica a norma interna da Alerj, que prevê neste prazo, a compra de novos, para substituição da frota? Gente, prá onde será que estes veículos trafegam tanto? Devem fazer viagens para Marte, o que estoura qualquer garantia de utilização. Mas isto não me surpreende, pois sempre desconfiei que estes senhores viviam no mundo da lua. E convenhamos, não é fácil ir e voltar ao espaço sideral todos os dias, no mesmo Santana arrasado de cansaço. Tem que ser Mégane, e diante da chiadeira geral do contribuinte, quando viu seus 2 milhões de reais investidos para motorizar os engravatados, enquanto a população normal não tem nem carro popular (os méganes daqui de baixo são trem, vans, kombis, buzuns, todos apertadésimos, que quanto mais pra periferia, mais provam que veículos resistem rodando até que a lataria solte), os homens públicos recuaram, repensaram, e aceitaram uma coisa mais simplesinha... um... outro de 43 mil! Que sucesso! Olha os nomes dos que escolheram o mais caro (55 mil): Zito, Dica, Neto e Do Posto. Tal comissão declarou que "o mais caro era a melhor opção, porque era o maior e o com mais possibilidades". Mas precisa de comissão pra chegar a tão inacreditável conclusão? Quero ver é se virar com Corcel II ou Brasília.
 O filho da Angélica e do Huck fez igualzinho ao filho da Fernanda Torres e do Andrucha Waddington: hostilizou os fotógrafos que fizeram a glória de seus pais. Acho que se a moda pega, quando estes meninos crescerem, nós vamos ter que explicar a eles que é fácil para um filho de celebridade não querer ser fotografado. Já nasceu em berço esplêndido, seu parto foi nacional, as contrações foram acompanhadas pelo país em polvorosa. Difícil é ser criança abandonada, sem nenhum flash que lhes acalente a desnutrição, o trabalho escravo, o desamparo. Para se vingar, todos os paparazzis deveriam mudar o foco e se tornar filhotes de Sebastião Salgado: só as crianças carvoeiras, só os meninos miseráveis das migrações. Mas aí viria o problema: os pais destas crianças agora esquecidas, "os filhos dos famosos", que alimentaram os mesmos fotógrafos que agora repudiam, iriam ligar para descolar uma fotinha na capa da revista tal. São produtos da super-exposição, e não adianta agora usar a cria, para demonizar o grupo que sempre paparicaram. São dois lados, em sinuca de bico: dois monstros que precisam se alimentar para sobreviver; e no meio da batalha, seus rebentos em posição desconfortável. Sei que não é fácil para as criancinhas, mas que os adultos não são nada santos, ah isso não são.
 Como foram estes seus últimos 17 anos? A pergunta cabe para que você possa se comparar a Collor. Esta é a duração do período que vai desde sua eleição como primeiro presidente democraticamente eleito no Brasil, pós Ditadura, até seu recentíssimo discurso de 99 páginas que durou três horas e meia, dentro da casa que o expulsou! Paraíso e purgatório, que outro brasileiro teria tantas emoções contraditórias a nos contar, nesta virada de século e de milênio? E agora que você pensou, houve na sua vida alguma "grande farsa movida por adversários rancorosos"? Parece que a vida do Fernando levou para Brasília, a montanha-russa da vida de brasileiros comuns. Sobe e desce, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, até agora, parece ser a moral desta estória. Não sabemos ainda, como vai acabar, mas podemos parodiar o discurso onde Renan Calheiros saúda Collor e dizer, sobre nossa vidas: "Só um dia após o outro proporciona o espetáculo exuberante que vivemos aqui. É forçoso reconhecer que somos, hoje, maior do que já fomos, um dia".
 Foi instalada uma "Frente Parlamentar" para defender na Câmara e no Senado os direitos de homossexuais. Concordo, mas não é só "a frente". Tem que ter um fundo (ui!), um lado, um em cima, um em baixo, enfim, tem que ter um "todos os lados" parlamentar para garantir a diversidade. A comissão de frente é linda, mas o que seria do samba sem o "recuo da bateria"? Saravá!
 Maria Antonieta é um belíssimo filme, com um microfone em cima. Explicando, vai além da conta o número de cenas em que o desgraçado do captador de som aparece, quebrando o encanto e irritando pelo desleixo técnico em produção visual tão esmerada. Fora isto, a protagonista está muito bem, a cena de abertura, onde a futura rainha terá que passar pelo luxuoso túnel, uma tenda, quando de um lado da fronteira deixará para trás a desprezada Áustria, e, ao sair do outro lá não poderá nem levar a poeira, pois será Delfina da França, é exemplar, como rito de passagem. Inclusive a nudez, literal da personagem é emblemática. Uma mulher que viveu um mundo de sonhos, não soube que além dos muros de Versailles o povo vivia miseravelmente, mas que não é só isso, o filme vai além e desenha uma mulher verdadeira, de carne, osso, e pensamentos. Há muita futilidade, como é de se esperar de uma monarquia, mas ela mesmo debocha: "este protocolo é ridículo". Dá para sacar a mulher por trás do cargo.Corram para ver, e se liguem no vestido da noiva. Lindo de morrer.
 Meu caro amigo Milton,e desnecessario jogar confetes sobre voçe,pois sabes muito bem a grande admiraçao,que tanto eu quanto a nossa equipe lhe temos em conta,pois ja foi provado,quando pintamos o painel do VDK,no qual voçe faz parte,foi uma pequena demostraçao de carinho. A razao desta mensagem e por dois motivos 1)Sinto uma grande honra em saber que seu Blog,usa o nome da nossa(sua tambem)casa. 2)E chateado, por somente ter tido conhecimento atravez de terceiros. Continuo com a maior admiraçao por voçe e todos os seus trabalhos,voçe veio do Norte e eu do Sul,sei que lutastes muito(tanto quanto eu)para conquistar o seu lugar. Ja existem Leis demais,para mi so existe uma "Faz ao proximo a mesma coisa que gostarias que fizezem para ti". Longe de mi querer criar problemas,o mundo ja esta um caos,eu partilho o maximo que adquiri na minha vida,pois sei que quando partir ,nao levarei nada,embora nossa marca esteja registrada,tenho a maior honra e orgulho de partilha-la contigo. Um grande beijo. Adao Arezo Cardozo
Oi, Adão. Prazer falar contigo. Que bom que você tem postura tão desencanada perante a vida. Adão, há dez anos o meu e-mail pessoal é buracodalacraia@uol.com.br. Independente disto, pelo que vejo, contato@buracodalacraia.com, o seu, parece que veio depois do meu, já que você não conseguiu direto o buracodalacraia, teve que botar o contato na frente. É isto? Ou estou enganado? Quanto a marca comercial, boa sorte com ela, não tenho interesse em abrir boates ou lojas de roupa, e, quando o fizer, será com meu poderosíssimo nome, sinônimo de simpatia, honestidade, sinceridade, etc. Aliás, se você quiser, peça ao O Dia para mudar meu blog de nome, eu não dou a mínima para o título, pois tenho certeza que o público saberá que o conteúdo independe do nome. Grande abraço. Saúde e sucesso
 Milton, Mudança de Ângulo: Sempre te achei meio chato , com aquelas plumas , penas , " carregado " no visual e nas palavras. Descobri sua coluna no DIA e fui percebendo que aquela ESTAMPA carregava uma figura ímpar , que ao escrever sobre variados temas ,sejam eles : temas inteligentes , passageiros, pertubador, do cotidiano , da vida fantasiada, do universo feminino, masculino , do universo gay , do universo marginal... faz com coerência , respeito , responsabilidade e qualidade. Pode abusar da ESTAMPA pois o conteúdo é de melhor qualidade. Ass. José Alves Querido José Alves, sua sugestão é impossível: se eu passar deste ponto de abuso de estampa, não mais serei um ser-humano. Serei uma alegoria. Saravá! Mil beijos....
 Quando é que você aí, sabe que a fila andou? Você sabe que a fila andou, quando um amigo seu, numa festinha de classe média em Copacabana, observando quarentonas, casadinhas e com a vida em dia (mas corpo e rugas não tão em dia assim), vira-se para você e dispara, impiedoso: "a fila andou! E isto aqui ta parecendo hi-fi dos 70. Só falta a cuba-libre". "A fila andou..." repito eu para mim mesmo, assustado, e desconfiando que se andou pra elas, andou para nós também. No nosso tempo, a gente dizia "o tempo passou". Mas meu amigo vai mais longe, e usa a expressão cunhada pela novíssima geração, para servir de sinônimo para quem troca de namorado ou ficante, e a aplica a nós, no sentido de que a vida e o tempo nos trocaram por geração mais nova, que nós perdemos, que nós somos carta fora do baralho para as gerações posteriores, e o pior, que fizemos o mesmo, colocando as gerações anteriores fora de nosso próprio jogo. E não adianta dançar os antigos sucessos como se nada tivesse acontecido. De balzaquianos a quarentões, se acostumando com a terceira idade ali a diante. Muito esquisito. E os corpinhos não são de antes, não. Os corpinhos, como da maioria do resto da humanidade, ta denunciando a idade correta.
 Você sabe que a fila andou quando, sem querer, passa pelas imagens do SBT e vê Gretchen cantando Conga La Conga de vestido, e não mais com o shortinho de lycra que você se lembrava. Atrás dela, quatro garotões com idade para serem seus netos crescidinhos (caso a Thammy não tivesse feito sua própria fila andar rumo à sapataria progresso). Sem saber se é reprise de dez anos atrás, você espera, suspeitando que estas imagens podem ser de hoje. Batata! Gretchen é uma das candidatas que está disputando, quase ao vivo, uma vaga no disco do Silvio Santos, homenageando antigos ídolos que foram esmagados pelo andamento da tal fila. Astros abandonados, astros repostos, novinhos em folha. Reparo a cara e o corpo da Deusa do Bum-Bum e percebo que ela está melhor que nossas amigas do hi-fi. Sim, a gostosona da minha adolescência agora busca ser Majestade, já que um dia foi rainha.
 Deste encantamento da fila andando, despenquei no abismo da desilusão: depois aparece a Ângela Maria como candidata. Aí sinto um gosto de crueldade da fila que andou, que sequer respeita e preserva tamanho monumento nacional. Várias vezes Rainha do Rádio, detentora de prestígio como cantora, símbolo de uma era, a Sapoti chegou em tal degrau na minha escalada da fama, que me dói vê-la disputando vaga na fila dos esmagados pela velocidade da busca de celebridades. É que em meu coração, Ângela deve ser aplaudida, embalada pelo coro das multidões, hoje, aqui e agora. Para os ícones, a fila não pode, nem deve, andar. Aquilo não é lugar para uma Diva. A graça que encontrei nos outros candidatos, que há duas décadas atrás eram famosos, não encontrei na parceira de Caubi, que há cinqüenta anos é dama da canção. Não gostei de me perceber morando num país que não mantém os seus mitos no Olimpo, que os arrasta pelo asfalto da modernidade, arranhando seu verniz, sem conseguir torná-los opacos. Será que a Ângela Maria precisa disto para aparecer?, me perguntei, admirando a elegância, a voz, o rosto bonito da velha senhora. Em seguida recapitulei na memória onde mais ela poderia aparecer na televisão, se não fosse ali? Vi que a fila andou porque desejei que o Almoço com as Estrelas ainda estivesse no ar. Onde ela poderia fazer shows? Será que iria alguém, além de mim, para aplaudi-la? Fiquei perdido, agradecido ao Silvio por me permitir comparar Ângela com todo o resto, e ver que estrela é estrela e ponto final. História e prestígio, mesmo expostos ao mau gosto da ingratidão, não perdem o glamour.
 Você sabe que a fila andou quando você sente saudades do Pablo, aquele hermafrodita que dava muita pinta quando o patrão ordenadava: "Pablo, qual é a música?". Não havia uma bichinha sequer, naquele mundão de Deus, que não quisesse ser o Pablo quando crescesse, para desespero de seus genitores. Meio palhaço, meio coringa, meio aveadado, Pablo era tudo de bom: seus lisérrimos cabelos de pequeno príncipe dançavam com seu bocão vermelho (de batom de mulher), desenhados em linhas misteriosas cheias de purpurina brilhasíssima, e provava que os afrescalhados também eram cultura. Domingo à tarde era dia de Pablo arrasando na telinha, sempre virado de costas (ui!) e provocando sustos quando trazia o rosto para o close; escondidos, imitávamos aquela figura indecifrável. Parabéns, Pablo. Onde anda você, Pablo?
 Você sabe que a fila andou, quando um moreno lindo se aproxima de você no calçadão de Copacabana, e seu coração se enche de esperança de tudo o que ela vai dizer é: "posso te prometer a felicidade?", e você, encantado, já saberia de cor a resposta: "com quanto de sofrimento aí embutido?" (cheia de charme, qualquer resposta abaixo de 40 por cento de dor incluída, seria plenamente aceitável); mas tudo o que o jovem Romeu te diz, com alegria e admiração incontidas é: "Milton Cunha, grande dinossauro do mundo do samba!". Putz, como assim, Dinossauro, meu Deus? Nem patrimônio, nem monstro sagrado, somente Dinossauro, penso sozinho com meus estrasses. "Sou teu fã, te adoro!" Portanto, isto era um elogio!. Refeito do descompasso de ser uma criatura desaparecida na poeira dos tempos cretácicos, e encarnando a Fran, da família Dino da Silva Sauro, pergunto: "Se eu sou Dinossauro, como então você classifica João, Rosa, Max, Pamplona? Já sei: talvez aqueles primeiros organismo vivos que saíram da água para viver na terra!". E saio rodopiando, sem ganhar o beijo e o abraço sonhados, na minha loucura de ver a tarde desabar sobre o mar da Princesinha. Não arranjei o namorado, mas tenho certeza de que, se a fila andou por um lado, por outro se descortina a esperança do bom humor e do deboche sadio, que tem que se ter, perante o inexorável frescor da juventude. Não, eles não querem nos ofender, só são um pouco estabanados em seus "tio, me dá licença". É preciso olhá-los com a benevolência de um vampiro e, sempre que derem sopa, arrancar-lhes um suspiro de vida inconseqüente. Porque envelhercer, ou melhor, a fila andar, é muito chato sem uma cuba-libre por perto.
 Está em exposição no Centro Cultural Julieta Serpa, na praia do Flamengo, uma impressionante e luxuosa emposição sobre o desfile de uma escola de samba. São quase 500 bonecos, detalhadamente vestidos, divididos nas mais importantes alas de uma agremiação, da Comissão de Frente ao último carro alegórico, contando o Enredo da própria residência que abriga o centro cultural. É um esforço hercúleo e alcança o primor de ter arquibancada e camarotes. Muito bacana. Corram que ainda dá tampo. Parabéns aos Serpa, que empreenderam, e parabéns ao Tony, o carnavalesco. A foto é da ala de baianas.
 Pergunta aos meus blogueiros queridos: se tomarmos a expressão "você sabe que a fila andou quando..." para exemplificar o passagem do tempo, em que momento você saca que a fila andou, que você já não pertence mais a uma situação, que a página da vida virou rumo às gerações mais novas? É que numa festa, sábado, desencantado com o quadro de ver nossas amigas quarentonas dançando antigos sucessos, embaladas em justésimos vestido de lycra que só pioravam a silhueta, esmigalhada pelo passar dos anos, um amigo exclamou: "meu Deus, a fila andou. Isto parece o hi-fi e só ta faltando a cuba-libre!". Impressionado pelo poder da expresssão "a fila andou", quero saber como vocês encaram este trauma de se sentir um tanto quanto "passado". Sem perder o bom humor, jamais. Mas se você for mau-humorado, serve com dor mesmo.Quando é que você percebe que a fila andou?
 "(...)a psicanálise é (...) uma "hermenêutica da suspeita": sua preocupação não é apenas "ler o texto", mas descobrir os processos, o trabalho onírico, através do qual o texto foi produzido"
Passei anos no "Circo da Moda", entre desfiles, gravações de televisão, visitas aos Estilistas e seus ateliês, palestras de estudiosos, cursos acadêmicos, etc. e nunca me dei por satisfeito. O discurso de intenções dos envolvidos com a Moda sempre me sinalizou o profundo mundo por trás dela. Roupas que querem dizer algo, até para quem acha que não quer dizer nada. Concluí que tem "algo mais", que temos que pensar o que se esconde, as possibilidades: que saia pode dizer mais que saia, que jabô do século XV e chicote sado-masô juntos pressupõem um mundo outro, não o deles, separados. Suspeitando e suspeitando cheguei até aqui e já que todo mundo tem um personagem no Mundo da Moda, eu sou a Hermenêutica da Suspeita. Suspeitar que podemos, através do debate, aprofundar análise e aumentar nosso conhecimento e banco de dados. Suspeitar que podemos cruzar dados, promover interdisciplinaridade e suspeitar sobretudo que já que não somos a "prima-pobre", pois nos acusam de fúteis, supérfluos, também não seríamos a "prima-burra". Seríamos capazes de entender, ao mesmo tempo, plissados e pensadores, juntaríamos crônicas e croquis. Partiríamos com o Incrível Exército dos "Modais", armados de agulhas e tesouras, marchando em cruzada rumo ao saber. Nunca quis apenas ver as roupas, pois para mim elas eram um mundo maravilhoso, enorme, cheio de nuances, que começa no Criador e termina quando ela se desintegra, pois enquanto ela estiver com um mendigo ou guardada, todas as suas possibilidades estarão preservadas Roupas são incansáveis, indomáveis, tresloucadas. Os processos precisam ter credibilidade humana de não rasteiros, não desinteressantes. Produzir debate é o que eu, através da Hermenêutica da Suspeita, quero.
 Alexandre Louzada beberica o champagne, e comentamos sobre a beleza dos garçons. Tendência moderníssima, os rapazes que servem são escolhidos a dedo (ui!), parecem galãs cinematográficos, zanzando pelos salões do deslumbrante Centro Cultural onde outrora residiu a poderosa Julieta Serpa, na Praia do Flamengo. Noite de carnaval, quando o Programa Deles e Delas premia os carnavalescos e entrega o troféu para a Escola Campeã. Estamos quase todos lá, carnavalescos, orbitando em torno da festa Beija-Flor. E a noite é para ele, Alexandre Louzada, e também para Fran Sérgio, Bira, Shangai e Laíla, a comissão de Nilópolis. Mas Ale está no auge de sua carreira e vida, e estamos, amigos de mais de uma década, fofocando e nos divertindo. Conversa vai, futrica vem, Ale atende o celular. E depois de ouvir, encerra a chamada: "Fulana (famosa comentarista dos desfiles de Escola de Samba) eu não vou me meter nisto. Gosto da Ghislaine, e não vou fazer nada!". O tal do auge da fama implica isto: mil encheções de saco. A criatura só quer se divertir, mas, reinando do jeito que está nesta divina corte do Reino da Dinamarca, este Macbeth da Sapucaí, se equilibra na corda bamba, pois sente que há algo de podre em certas solicitações. Vejo um artista se esgueirando, se defendendo do fogo cruzado de estar por cima da carne seca. Dor e delícia de se ser o que se é. E ele é o bicamperão. E salve-se quem puder. O poder é traiçoeiro, a glória é inebriante e parece embriagar mais os puxa-sacos que o próprio escolhido. Ele tenta retomar as comemorações de estar ali, vivo e feliz, parece ter consciência dos passos que pode dar e das searas onde não deve passear, mas não esconde a ponta de inquietação que a fama traz. Você famoso, não é muito dono de seu tempo, pois ele é sempre invadido pela presença do fã ou do solicitante, seja lá qual solicitação ele fará (vai de um dinheirinho emprestado até pedidos de casamento). Neste momento me desloquei no tempo e no espaço e fui até minhas memórias neste emaranhado reino que o Carnaval é. Pensei nos envolvidos no telefonema, e nas peças que são mexida pelas costas dos jogadores, que não supõem o golpe baixo das movimentações, na calada da noite. Se vi um carnavalesco sensato, supus uma articuladora voraz, ferina, uma bruxa sheakesperana, daquelas terríveis, movimentando influências e rede de poder para reestruturar uma parte da Corte. São Ministros, são secretárias, são encaminhamentos que não param de girar e de se rearrumar e reagrupar. É assim no carnaval, é assim na vida. Tentativas de puxar tapete, de maquinar mudanças, de inocentemente tentar fazer a cabeça, para botar o super-coreográfo tal que saiu da super escola tal, no lugar da campeoníssima coreógrafa Ghislaine Cavalcante. Simples assim, rápido assim, inocentemente assim. E dificílimo assim, pois a corte está girando no grande baile, que independe da vontade da articuladora, que esqueceu de combinar com o destino (o Patrono) o resultado de sua cartada. Uma jogada que Alexandre derruba ao desligar o telefone. No palco, minutos depois, Capitão Guimarães dá o tiro de misericórdia na tentativa de mexer as peças do xadrez, desta forma (ele não imaginava a cena que presenciei). Ele diz, no microfone, que acha que o grande diferencial da Beija Flor e da administração de Anísio e Farid, é que lá a gestão é de manutenção do time que vem se estruturando ao longo dos anos, e que está sempre ou ganhando, ou na noite das campeãs. O presidente da Liesa supõe que a formação desta "família Beija-Flor" fortaleceu de tal forma os laços entre os cinco mil componentes, que ao entrar em cena, sabedores, todos, de seus direitos e deveres, buscam a excelência contida no "time que está ganhando e que não se mexe". Guimarães cita as escolas que, em vez de se fortalecerem internamente, buscam chamar (seduzir) ocupantes de importantes cargos de outras escolas e acabam, no afã de tantas mudanças, nunca adquirindo o sentimento de grupo, de união, de estabilidade. Volta à minha cabeça Ghislaine, a apunhalada pelas costas: cinco vezes campeã, quatro vices, e não sei quantas noites das campeãs. Ninguém está a salvo do tiroteio. Tem que matar um leão por dia, não basta ganhar, tem que sangrar. Narro todos estes devaneios, rapidíssimos, que aconteceram no curto espaço de duas horas, para buscar a moral da estória, pergunta para a qual não tenho resposta, mas confesso que, antes, jovem e dono da verdade, já tive: é melhor arroz com feijão bem temperado ou comida estrambólica de vez em quando, sempre se mudando de cozinheiro, para que cada surpresa gastronômica seja um sobressalto? Você aí, leitor, aposta no novo duvidoso, ou jamais abre mão dos certos? Prefere jogar em time que contrata e contrata e contrata, na buscar de acertar pois o novo é sempre bom, ou prefere permanecer em equipes estabilizadas? Qual é a hora certa de mudar? De dispensar uns e adquirir novos craques? Difíceis perguntas, eu sei. Mas parece que a humanidade tem se debatido entre a ex-mulher, senhora confiável e realizadora de tarefas, e a nova e sedutora e toda durinha gatinha belzebu que pinta como novidade no pedaço, e é a grande e nova possibilidade. Acho que o ideal seria encontrar a gloriosa experiência da ex no corpo recauchutado da novinha, mas como este é o mistério do existir, talvez fortalecer o time seja amar e respeitar quem tem folha corrida e dedicação exclusiva. Mas como a grande roda-gigante da vida está, neste momento girando, façam suas apostas, vivam suas dúvidas e equilibrem o insoso gosto do certo, com o temeroso sabor do medo do desconhecido. E saibam, neste exato momento, alguém está ligando para alguém, acima de você, para sugerir um novo e deslumbrante nome para ocupar teu cargo. Tudo vai depender de quem está atendendo do outro lado da linha, e em que corte aquele baile estará sendo realizado. Alexandre foi um pavão, que no auge do seu poder de exibir a magnífica cauda, preferiu o discreto charme dos sabedores dos segredos do mundo. Tem horas que é melhor pegar leve e não abrir o rabo.
 Quem, além dos moralistas, estaria contra as poderosas idéias que o esclarecido jovem governador carioca, propõe como uma bomba (divina), para ser desarmada pelas réplicas e tréplicas de tão importante debate? Acreditem, o outro lado da sociedade, a banda podre e corrupta que tanto lucra com propinas e achincalhamentos dentro deste mundo do jogo do bicho, das drogas leves, do aborto. Precisamos pensar nestas duas extremidades da mesma reta: de um lado os que não podem nem ouvir falar de tais propostas, pois são um acinte contra os bons costumes, etc. e tal (nesta ponta o mundo é dos santos); na outra ponta estão os perversos que aí encontram lucro fácil e sabem que a descriminilização acaba com o ganho dos proibidos (nesta ponta o mundo é dos pecadores). Parece que quem é contra o debate, são os que não se importam de pagar e os que adoram receber. No fio da navalha, no meio da reta (aliás, com aquilo na reta) estamos nós, população mediana, que acha, mas não tem muita certeza; e considera o debate, democrático e esclarecedor. Qualquer que seja a resposta, ganha Cabral Filho, o primeiro governador em meus 45 anos de vida, que vejo dar opiniões sinceras (não importa se certas ou erradas) sobre assuntos da cidade Má-ravilhosa (expressão cunhada por um leitor de meu blog). Parabéns, governador.
 A Rainha é um lindo filme sobre a prisão que o poder é. Mas também aborda a impossibilidade dos seres humanos que não tiveram opção, de conseguir vislumbrar o lado das outras, ou seja, ter alteridade (natureza ou condição do que é outro, do que é distinto). Além disso aborda a sociedade do espetáculo, de Diana, das celebridades, e arremata que nos anos da juventude da rainha a estória era outra. Ou História. A cena mais linda é quando, sozinha no campo, a Rainha se depara com um cervo real. Dois animais reais frente a frente, imponentes, majestosos. Literalmente, a Rainha e o Veado (ui!) E ela se encanta e se emociona. E depois o vê decapitado. Tipo Antonieta, possivelmente tipo ela, pela população inglesa que amava Di e a odeia pelo silêncio e por acreditar que não tem que fazer da dor de seus netos e de seu filho um espetáculo público. Muito bom. Outra cena que me impressionou, agora mais pela galhofa, é quando a hilária e apatetada Rainha Mãe descobre que vão usar os ensaios que ela própria fez de seu funeral para resolver o problema de um funeral às pressas para Diana. Imediatamente me lembrei da Rainha Mãe brasileira, a maravilhosa Dercy Gonçalves, que já preparou tudo: o mausoléu , translados e homenagens na cidadezinha onde nasceu, Madalena, para depois que ela morrer, tudo ser cumprido. A morte é show, é liturgia, é literalmente espetáculo. Um show de pré-organização.
 Ecos do tamborim: Sentei na mesa do mago João 30. Ele, bem na frente, em sua cadeira de rodas, ao lado da escada, pronto para ser posto no palco. Começa a premiação e as mulatas se perfilam, três de cada lado, marginando a mesma escada onde João aguardava. Eu, atrás de tudo isto, via o maior carnavalesco de todos os tempos, de cara para três bundas rechonchudas como só as bundas das mulatas brasileiras sabem, e podem, ser. Esta é a maior alegoria de e para João: de cara para as bundas do mulatol. João é um luxo!
 Ecos do Tamborim de Ouro: Luma desce do palco, deslumbrante, com seu lindo e escandinavo filho, Thor. Grito: "Maravilhosa mãe de maravilhoso menino!". Ela agradece, e manda: "Filho, dá um beijo no tio Milton!" Fico pensando, cá com meus estrasses, que mãe só muda de endereço. Pode ser até a Luma, mas na hora de ser mãe e fazer filho adolescente pagar mico, até a Luma é mãe igual a todas as outras mães do mundo. Putz, tio Milton é tudo de ruim, né não? Se ainda fosse uma tia...
 Ecos do Tamborim de Ouro: Zeca Pagodinho me chama. Estou com um tigre enorme pendurado no ombro. Ele elogia minha coluna, diz que gosta de lê-la. Agradeço emocionado. Os fotógrafos avançam gritando: "uma foto, Milton, Zeca!". Nos preparamos para os flashs, mas antes disparo: "Zeca, o tigre e o veado!". Gargalhadas generalizadas. Saravá!
 Ecos do Estandarte de Ouro: Lucia Nobre é uma porta-bandeira que não precisa de esplendor. Seu rosto é um esplendor, e sacia toda a nossa sede de ver esplendor de plumas na costa da magnífica porta-bandeira. É luxo, é escândalo, é glamour total. E dança com o mestre sala que tem dentição de cavalo, o que a faz parecer égua. Égua de raça, de estirpe, de beleza. Salve Bira e Lúcia!
 Me choca ler no final das reportagens sobre o assassinato dos três franceses, o interesse que desperta se tal fato vai ou não afetar no turismo da cidade. É quase uma relação direta sobre quantos aviões deixarão de pousar no Galeão, para cada corpo de estrangeiro que tomba no solo carioca. Contas do tipo um francês significa menos que um americano e mais que um japonês, são o passo seguinte de tantos cálculos, preocupados mais com a economia urbana e menos com a segurança. Quase uma sugestão para os bandidos: matem as nacionalidades que não vêem muito ao Brasil. Como se nós, população, estivéssemos interessados nisso. Nós estamos é furiosos com a bandalheira. Nós não queremos que se preocupem com o turismo. Nós queremos que se preocupem com o humano, seja ele de solo pátrio ou não. E quando este humano dedicou sua vida à causa humanitária de ajudar os desvalidos, e recebe de troco a traição, aí a indignação é maior, e o discurso de que estes desvalidos não prestam por índole e devem é ser exterminados, encontra eco e ganha forças. É revoltante ver ajudados matarem os que o socorreram. Mas como filhos matam pais, parece ser esta injustiça, parte do repertório sapiens sapiens. E os queridos franceses que foram assassinados, provam que não há fronteiras para a solidariedade: o planeta está agonizando, e em vez de cálculos nacionalistas, precisamos é disseminar a justiça social e é tarefa de todos os governos pensar no mundo como um todo.
 No terreiro, o sujeito recebia um Ogum de frente. Era meu amigo de barracão. Quando vinha o Ogum, ele arrebentava de tanto rodopiar e erguer sua espada metálica rumo ao telhado do grande barracão do recebimento. Até o dia em que, ao dançar e rodar repetindo Ogunyê... Oguyê, a ponta da espada acertou um bocal sem lâmpada e a corrente elétrica atracou o Oguyê, que se tremendo todo, levou tempo para fazer os demais da roda, perceberem que estava eletrocutado. Nunca o Oguyê havia sido visto numa incorporação, literalmente, tão superelétrica.
 Fuja das marquises!: é a mais nova onda carioca. Atendendo às irresponsabilidades de quem fiscaliza, todos no meio fio!. A sombra não mais nos atrai, pois é sinônimo de mortos e feridos. Vem do céu o temor, e não importa fritar no sol do meio dia. Melhor isso que uma marquisada na cabeça. Temor este que se multiplica por mil no centro da cidade. Já repararam no tanto de velhos sobrados com faixa preta e amarela da defesa civil, interditados e cheios de pessoas morando dentro e cheios de gente passando pelas calçadas, prontas para serem abatidas pelo desabamento? Pois repare o labirinto de pérolas arquitetônicas prestes à desabar: é uma festa. Outro dia desabou um ali na região do Hospital dos Servidores, lembram? Daqui a pouco desaba outro, e outro, e ninguém faz nada. Ta tudo certo. É a população que tem que se exercitar diariamente, fugindo das calçadas rumo à possibilidade de atropelamento no asfalto: literalmente, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (ui!).
 Se Humberto Eco tem "O Nome da Rosa", porque Rosinha não teria "O Segredo da Rosa"? Ai, que meda! Perfumar, embelezar, recauchutar a moderna mulher de classe média, é a intenção da nova marca, que estremece o mercado, fazendo com que Cacharrel reveja seus conceitos. Anais Anais nunca mais será o mesmo. E agora, todos corremos o risco de que a antiga moça que batia na nossa portas para anunciar, festiva, "eu revendo avon", surja agora de tailleur rosa e após apertar a campainha, dispare: "desvende o segredo da rosa: bolinha é o perfume certo para você, mulher bolota". Cruzes! Só falta a elaboração das fórmulas para que os "lancomes" tupiniquins cheguem às melhores casas do ramo. Mas se bem me lembro das fórmulas do governo do estado, isto não está me cheirando nada bem. Nem a 1 real o frasco.
 Show de bola da bela atriz Danielle Winnits, na personagem Sandra, dizendo que ela seria a Helena amanhã. A difícil debilóide de Páginas da Vida, foi sempre um luva nas mãos da loura. Mas é agora que o drama está afunilando que a moça está dominando a cena. Hilária e comovente, convincente. A inconseqüência do raciocínio não esconde a consciência de que na vida, aqui se faz, aqui se paga. Filosofia embrulhada na melhor embalagem cotidiana, corriqueira, interessante. E a personagem da Natália do Valle, que já foi a Sandra, é a outra ponta da mesma reta: não enxerga que já foi a safada "devoradora de homens". Em seu martírio, representa a máxima "pimenta nos olhos dos outros é refresco, só dói no meu!". E se equilibrando entre os dois pontos, a consciência chatíssima da Helena, sempre reta, na reta, incapaz de dar o tiro no pé quando foi traída, incapaz de saber que na vida tudo passa, incapaz de debochar de sua própria dor. Sempre boa, diz ao malandro: "quando é que você vai parar com isso?" como se houvesse "parar" para malandro. Helena acredita em duendes.
 Opinião do meu amigo Junior Guimarães e do Jornalista Alfredo Ribeiro, especialista em Samba, do Site Tamborins: "Talvez o problema do Milton seja seu academicismo excessivo em uma área que não as belas artes. Não adianta fazer sociologia ou psicologia em plástica de desfile de Escola de Samba". É, acho que esse negócio de racismo, caveirão, ongs, cotas, isto não dá carnaval bonito, não... Dou minha mão à palmatória! Mas valeu a pena pela raça da comunidade de São Gonçalo...
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