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Milton Cunha

Domingo, 30 Setembro, 2007

Treme SAARA!


A Praça do Mascate tremeu, e tremerá todos os sábados até o carnaval, pois.... já é carnaval no país e na cidade do carnaval. No Saara, conforme comprova a foto, Milton Cunha, uma galinha com outra na cabeça, recebe a cacarejante Rainha Samille Cunha, linda, loura e japonesa, coroada Madrinha da Praça. Se galinha velha é que dá bom caldo, eis aí a knor Bia Alves, poderosíssima. Ao fundo, duas alunas do Instituto do Carnaval, tentando aparecer, mas são fundo da foto e acabou, pois no canto a direita da foto, temos a presença reveladora da minha, da sua, da nossa Monilaly, mulata bossa-nova que caiu no hally-gally, e cujo sorriso franco e sincero foi (e sempre será) muito bem vindo. Uma lacraiuda da melhor cepa, que deixou cair naquela encruzilhada. Inesquecível e Mony, você é ma-ra-vi-lho-as....


Sexta-feira , 28 Setembro, 2007

A saga do rei de Bateria continua....


Arrasado porque acabou todo o amor que o candidato a estrela Patrick Gabriel tinha declarado por mim em seu primeiro pedido, vamos ao fim do amor:

PaTrYcK GaBrIeL.:
adorei sua atitude em relacao ao depoimento... rsrsrsrss num sabia q vc agia como crinanca naum... axava q naum tinha necessidade ne?? mais cada BICHA tem sua lokura!!!! ne???? hehehehehe... bota esse la agora !!!!

Como não te publicar, bonitão? Mas se não sabe brincar, não desce pro play. Senão, vejamos: publicas uma carta no meu orkut pedindo para ser rei da minha bateria. Queres privacidade? Na rede? Impossível. Fora isto, para um aspirante a estrela, você tem pavio curtíssimo. Acha o que? Que na frente da bateria só vão te aplaudir? A loucura de respostas que você provocou aqui é uma pequena amostra do que te acontecerá, caso seu pedido seja aceito (ainda estás sendo analisado, ui!). Há dor e delícia em ser conhecido, em ter fama, em ser uma estrela. Há maldade e sabedoria, há riso e dor. Relaxa. Fora isto, há méritos no teu pedido: levantas a questão que poucos homens conseguem exibir seu sex-apeal na Sapucaí, no chão. Ponto para ti. Fora isto, sabes que meu aluno, mulatão, foi escolhido Rei da Bateria de uma escola de samba do grupo D? Bacana, né? Ele teve teu desejo realizado, só que na Intendente Magalhães. Siga em frente, quem sabe você consegue. Quanto à associar minha atitude com a de criança, coitada das crianças. Elas são mais sensatas que eu. Pega leve. Não agi como criança, agi como dono de blog que bota assuntos polêmicos e pedidos descabidos na roda, pra animar a galera. Fora isso, você é a grande prova de que cada bicha carrega consigo seus desejos e loucuras, como os heteros e os caxinguelês: é humano, é normal, é trivial. Obrigado pela preferência, volte sempre, rei.
Que tua coroa te seja leve!



Quinta-feira, 27 Setembro, 2007

Um pensador moderno....


O que leva um artista consagrado a continuar se arriscando, a não se render, a não baixar a cabeça para as demandas do mercado, a experimentar aos 66 anos as delícias do nunca feito, usando (muito) dinheiro do próprio bolso? Deve ser os gritos da platéia, o deleite do público, o frisson dos humanos diante da cena, que mesmo sem patrocinador, deve ser arrumada da forma mais bem cuidada possível. Quando eu era criança, anos 70, fui levado por minha família para o ginásio de esportes da Tuna Luso Brasileira, Belém do Pará, para assistir a um show dos Secos e Molhados. Diante do mau humor do meu pai, tive que engolir a seco a sensação de que aquilo que eu estava vendo era A novidade, A maravilha, A junção de boa música com performance espetacular. Aquilo era a arte brasileira universal,que dizia coisas, que comunicava os trópicos e a quentura de meu povo. Passados trinta e tantos anos, no escurinho do glorioso Teatro Central de Juiz de Fora (divino em seus dois mil lugares), o microfone anuncia no palco a presença do superstar Ney Matogrosso. A multidão puxa e segura a respiração, a cortina vai abrindo e um azulado intenso vai invadindo a escuridão dos que aguardam. Sons estranhíssimos enchem o ar, serão grunhidos, serão sons da cidade, serão? De um sofá à frente da cena, sentado elegantemente com os braços abertos para alçar seu vôo, brilhoso e brilhante como nunca (grudado em uma segunda pele, bordada com cinqüenta mil cabeças de alfinetes de cristal, que o faz reluzir como espelho multifacetado, sob a intensa luz do canhão), o cantor, preciso, voz límpida e cortante, declara docemente: sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher! O teatro vem abaixo, as tradicionais senhoras do interior mineiro, cabelos de laquê inclusos, perdem a compostura, gritam “gostoso”, “divino”, “maravilhoso” e o pandemônio está formado. Ele é o guerreiro incansável, ele é ele, e ponto. Mas no camarote ao lado do de Leda Nagle (filha daquela terra), um senhor, com sua família classe média, entrombou a cara, está emburradíssimo, enquanto os seus amados estão hipnotizados: o cantor está rebolando de costas, incorporado de uma dança do oriente, como uma naja saindo do cesto comandada pelo fino som. Eu conheço aquela cena, eu sei bem do que se trata aquele senhor. Vi meu pai, morto há anos, num camarote do teatro mineiro, assombrado pela presença magnetizante do artista que não é isso nem aquilo, é inclassificável (aliás, o nome do show). Um fantasma da modernidade, a assustar os que fecharam as portas de suas pequenas mansões paradisíacas da alma. E aí ouso dizer que o que leva Ney Matogrosso a nunca se conformar com a caretice, é a existência das amarras da própria caretice, que parece que não vão desaparecer jamais. Ainda bem que as outras 1.999 pessoas estavam gritando, histéricas, e aplaundindo. Mas acho que Ney quer mexer é com estes que se dizem certinhos. Matogrosso quer balançar o coreto da mesmice, o “bandido” quer fechar. E fecha pelo seu poder musical, pois se por um lado se cerca de produção opulenta, onde cenários, luz, figurinos, criam uma ambiance mágica, sofisticada, puro glitter em sua proposta; por outra, o que sai cantado de sua boca é denso, profundo, rascante, enigmático. Poderia ser só felizinho, poderia ser só dançante, poderia ser só celebrativo de coisas boas e bacanas. Mas o intérprete mergulha numa musicalidade, na maioria de canções inéditas, que tocam pela abissal distância entre o que é visto e ouvido. Mas é o performer divino que ele é, que costura a diferença: quem disse que o dourado não pode pensar o feio, sujo e malvado? Em que separação de mundo a inteligência é feia, escura e abandonada? Acho que a fantasia de Ney é esclarecer para o país do carnaval, que não devemos perder o fio condutor, a linha de raciocínio, a capacidade de falar do indignante. Como se ele nos disesse que não tem o menor problema em carnavalizar a existência, como o Brasil tão bem faz. Mas isto não exclui a dor e as profundidades da existência. Denso, profundo, letras e melodia inquietantes, repertório de primeira, não é definível o conjunto da obra. Ney recorta um Brasil só seu, onde há espaço para a dor e a exuberância, onde feio e bonito podem ser a mesma coisa. Um luxo, um torpor, uma mágica, uma viagem lisérgica cuja espinha dorsal é tentar salvar o pensamento, a felicidade, o humano. Chapada pela beleza e refinamento da cena, a platéia vai assistindo atenciosamente cada música, e vai sacaneando, brincando e relaxando entre elas. Para cada abismo de pensamento, uma volta à superfície para tomar fôlego e voltar a mergulhar na próxima canção. Ney é nossa melhor presença cênica, Ney é grande exemplo de que o espírito não envelhece. Ney nos revigora, incentiva e ajuda a caminhar para a frente. Assistam ao “cavaleiro de aruanda”, avisados que irão penetrar no belo e estranho mundo de um pensador moderno, que vaga por um labirinto cujo minotauro, é a incerteza da volátil aparência material.



Quarta-feira, 26 Setembro, 2007

O Povo da Rua!


Sábado, 12 horas, samba suor e cerveja: meus alunos formandos do Instituto do Carnaval, um povo com o DNA Milton Cunha, vão realizar na praça do mascate, Buenos Aires com regente Feijó, o lançamento do projeto Tem Carnaval no Saara. Nesta abertura, coroaremos Samille Cunha, primeira e única, rainha do projeto, madrinha dos Lacraiudos e o que mais pintar, puder e (ui!) couber. Será hilário, descolado, animado e incareditável. Todos convocados, todos rumo às baterias, shows de escola, carro de som trio-elétrico e os antigos carnavais de rua. Fervo. Entretenimento. Alegria. Espero vocês no Babadão da Folia, loja do Chiquinho que patrocina o balaco. Todo sábado, nos vemos lá. Aff, arrasem!


Segunda-feira, 24 Setembro, 2007

Ney Inclassificável....


A cortina abre lentamente sob música incidental, sons, grunhidos. Há algo, alguém, alguma coisa brilhante, sobre umas peles, uns panos, um sofá: a criatura canta "sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher....!" Silêncio abissal. É forte! É preciso! Nos faz refletir... Ele não é nada, ele é tudo, ele é ele. Valente, corajoso, guerreiro, incansável na tarefa de se refazer. É Ney em todo o seu esplendor. As duas mil pessoas querem gritar, querem aplaudir, pois estão diante daquela coisa, daquele momento único. Mas ele domina com rédeas curtas. O meio-animal, meio humano sai se arrastando pelo tapete, cintilando luz e mistério. Ao final, é ovacionado. Podemos ser o que quisermos, ou nascemos, para ser....

Ney Deslumbrante....


Ele responde para alguém da platéia, que grita "eu estou adorando....": "Eu também!"

Ney Bacanérrimo.....


Ele canta: Não somos negros, não somos índios, não somos brancos, nós somos inclassificáveis...."

Ney Absoluto....


Ele canta: "Quem é o cavaleiro, que vem lá de Aruanda, montado em seu cavalo, com seu chapéu de banda...."

Ney, Divino....



Ele canta a última música: "É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte....."

Ney Matogrosso, Ocimar Versolato e eu....


Um pouco de comemoração nesta vida tão corrida, mas feliz: todos rumo à Juiz de Fora, reverenciar, aplaudir, e ajudar um pouquinho o mito, a estrela, o ser humano deslumbrante que é Ney Matogrosso, a pisar no imenso Teatro Central de Juiz de Fora,para estrear seu show Os Inclassificáveis. Denso, profundo, letras e melodia inquietantes, repertório de primeira, presença cênica definitiva, a platéia chapa diante do que vê: não é definível o conjunto da obra. Ney recorta um Brasil só seu, onde há espaço para a dor e a exuberância, onde feio e bonito podem ser a mesma coisa. Um luxo, um torpor, uma mágica, uma viagem lisérgica cuja espinha dorsal é tentar salvar o pensamento, a felicidade, o humano. A embalagem é moderníssima e o cantor, para sempre em meu coração.


Quinta-feira, 20 Setembro, 2007

Para Cesar Maia, queridíssimo Prefeito chic....



Carta Documento Aberta ao Prefeito César Maia,
(e atenciosamente ao Secretário Macieira, ao Embaixador Alberto Costa e Silva e à Lúcia Garcia ( professora da Comissão dos Festejos pelo Bi-Centenário do Período Joanino no Rio, e que me acompanhou, representando a Prefeitura do Rio, à Lisboa, e se tornou minha amiga pessoal),

Prezados senhores,
A São Clemente desfilará na Marquês de Sapucaí o Enredo triunfal, parada régia elogiativa e respeitosa, que escrevi com o maior ogulho sobre a importância de D. João VI para o salto qualitativo dado por nossa cidade, rumo a se tornar a vitrine do Brasil.
Bem fizeram os comentaristas do Dia na Folia de estranhar o tom da apresentação do Enredo no palco do Canecão, e que tanta polêmica tem causado e que me faz escrever este esclarecimento e garantir que nada foi mudado.
Quando o Presidente da São Clemente, Renato Almeida Gomes, me chamou para preparar a apresentação no Canecão ele me deu uma ordem expressa: “Milton, quero você engraçadíssimo no palco. Quero que você faça o Canecão rir”. Espantado, questionei: “Tudo bem, Renato. Mas este não é o enredo. O enredo é uma entrada triunfal para D. João VI. Você não acha que a platéia vai rir, mas chiar que este não é o texto que publicamos para os jurados e os compositores?”. Não importa, Milton. Deixe o elogio para a Sapucaí. Não seja grosseiro, mas brinque com a miscigenação, os personalidades da atualidade, enfim, faça o povo rir”.
E assim foi feito. No palco, insinuei que reis e rainhas transaram com os negros, que D. João VI era a cara do português Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, que Debret era uma pintosa que pintava tudo o que via pela frente, que a Carlota Joaquina era uma enfeitada que parecia uma Drag-Queen.
No dia seguinte, como supus, os jornalistas apontaram como pecado da apresentação o fato da platéia ter aplaudido em cena aberta, três vezes, minhas piadas enlouquecidas. Sabe como é, né Prefeito? Tenho um DNA de dercy Gonçalves do qual muito me orgulho, e uma aparência de Carmem Miranda da Quinta da Boa Vista, que o público do Carnaval já espera e cobra. Mas foi só minha apresentação no Canecão. Disto não passa. O que vai para a Marquês de Sapucaí é a Entrada Régia ou Desfile Triunfal em homanagem aos duzentos anos do glorioso período Joanino. Sinceramente acho que foi um período importantíssimo, bom para o Rio e o Brasil, já que nos tornamos Capital mundial de um Império. Como todo fato histórico, tem prós e contras. Sei dos contras, mas no Desfile Clementiano e no enredo que escrevi, só tem os prós. Quem quiser que conte os contras. Só vamos mostrar os prós, mas também não vamos afirmar que os contras nunca existiram. Cada um que julgue por si. Somos gratíssimos por seu apoio e seu patrocínio, e vamos brilhar na Marquês de Sapucaí. O senhor vai se orgulhar de nosso desfile. Os sambas finalistas são lindos, são alegres e vão nos fazer cantar a plenos pulmões. Adoro a idéia da São Clemente participando dos festejos do Bi-Centenário da chegada de D. João VI no Rio. É a minha cara o encontro entre os branquelos portugueses (eu, fisicamente) e a negritude e os indígenas (eu, em minha alma). Ah, sim, só lhe peço permissão para que no segundo Carro Alegérico, Desembarque no Paraíso Tropical, a Drag Queen Samille Cunha (minha irmão, assim mesmo, não é erro de português, não) interprete a riquíssima e cheirosíssima Carlota Joaquina. Se o senhor deixar, gostaria de ser ao lado dela o desfilante que interpretará D. João VI, no carro.
Minha admiração, meu respeito, meu samba no pé, meus jujus e balangandãs, pro senhor e para a Prefeitura do Rio,
Sarava
Milton Cunha
Nas terras mágicas e encantadas de São Sebastião do Rio de Janeiro,
Nos duzentos anos da partida da Família Real de Lisboa,
Para enfrentar os mistérios do Além-Mar.

Aff, para Sônia Palhares, que não me larga....


Após meses suplicando a atenção deste blog, chegou a hora de tentar arrancar a revolta, o exu, a pomba-gira, de dentro do coração da tal da Sônia Palhares, mulher leitora que parece ser amargurada, rancorosa e revoltada:
Querida Sônia (ui! Considere isto uma falsidade, querida!)
Se até a Imperatriz com Max Lopes já caiu de grupo, e Joãozinho Trinta foi penúltimo lugar com Debret e Viradouro, se Rosa Magalhães amarga dois nonos lugares consecutivos agora (e veja, estou falando de ícones vitoriosos, incontestáveis do carnaval), se os Estados Unidos perderam a Guerra do Vietnã e saíram com o rabo entre as pernas do pobre e pequeno país; por que eu, um nada, apenas um Doutorando da UFRJ, um ínfimo, apenas um feliz, um zero à esquerda, apenas Comentarista do sem Censura há sete anos, um cocô do cavalo do bandido, apenas Conselheiros do Instituto do Carnaval da Liga e da Universidade Estácio de Sá, um uó, apenas colunista e blogueiro do Jornal O DIA, uma bicha escrota e desqualificada, apenas bem comida e felicíssima, concluindo, por eu, contratado há 14 anos por 6 escolas de Sambas Ma-Ra-Vi-Lho-Sas (que me pagam muito, muito bem, obrigado presidentes! Considerem isto uma verdade verdadeiríssima!) porque que eu cortaria os meus pulsos porque você não gosta de mim? Sônia Sônia, mostra a tua cara na vida, sombra das estrelas, rabo de cometa. Bem claro: te convido para a festa de comemoração pelos meus três estandartes de ouro de melhor enredo do ano, pelos meus gloriosos três terceiros lugares, e pelo meu Grau de Mestre pela UFRJ. Sônia, Sônia, enquanto tu te remói em ódio, eu estudo e cresço cada vez mais. E fico mais rico de amigos, olha quantos lacraiudos do bem que te rodeiam aqui! Jamais acreditarei que sou o melhor, assim como você jamais me convencerá de que sou o pior. Sou Milton, único, inegualável, inimitável e indivisível. No dia em que postas uma frase contra mim, sou duas páginas inteiras do jornal que vende duzentos, ouça bem, duzentos mil exemplares/dia. É por isso que quando entro na Sapucaí, Sônia, a multidão grita e me aplaude. Porque não tenho medo, me exponho, queimo em praça pública. Cairei de grupo quantas vezes forem necessárias, para continuar sendo o que sou. Mas também não acredito que tu nunca caiu, Sônia, nunca perdeu um marido, nunca passou num concurso para escrituraria pública, nunca teve caganeira. Assim é a vida, bonitona, vamos em frente, eu cada vez mais estrelar, tu cada vez mais escondida. Paz, saúde e sucesso. Sai dessa, humana. A luz mora dentro de ti, ainda que não acredites. Força, baranga!

Negócios de Família


Passeando numa manhã ensolarada de domingo, pela Av. das Américas (a Sunset Boulevard do Rio de Janeiro), avisto o próprio Crepúsculo dos Deuses: um gigantesco out-door, anunciando um seminário sobre “Negócios de Família: Como preparar as novas gerações para herdar as empresas com sobrenome”. Dei uma grande reduzida na velocidade porque me espantei, me incomodei com o emblemático cartaz. Um senhor grisalho, cara de preocupado, confiável e pouco simpático, branco, respeitável, de paletó e gravata, estilo inglês caretão, fazia o suposto papel de pai (nem sei se pegaram uma verdadeira família proprietária de um grande negócio, ou se são modelos, ou se é a família do palestrador do seminário). Ao lado dele um rapaz de uns vinte anos, branco, com o mesmo paletó, e um rosto circunspecto. Bacana. O rapaz está crescendo, e naturalmente querendo se tornar uma cópia do pai. Logo abaixo, na segunda fila, uma moça de uns 18 anos, branca, cabelo lisíssimo, linda, mas desconfortável numa seriedade e num olhar desafiador e penetrante para a câmera. Ao lado dela, a irmã mais nova, de uns treze anos, cabelo lisíssimo, branca, cópia da mais velha, só que mais compenetrada e decidida. Ambas num tailleur escuro, no mesmo tom de todas as outras roupas da propaganda, personagens da Wall Street. Com elas, o pobre menino rico: enclausurado num paletozinho idêntico aos homens mais velhos, o rebendo (não posso tratá-lo nem de pimpolho nem de moleque, pois estas denominações não se aplicam à criatura da foto, são muito brandas para tamanho peso) de uns dez anos, branco, é quase o boneco assassino Chuck, pronto para nos golpear com seu afiado facão. São respeitáveis? São. São lindos, saudáveis e bem nascidos? São. Beberam leite de vaca holandesa na infância? Sim. Por que me assustam? Porque não são a típica família brasileira. Mas Milton, o cartaz não quer retratar a típica família brasileira, quer retratar as famílias emergentes de um pedaço do Brasil, tipo Barra da Tijuca, que são donas das grandes empresas deste país. É, então tá... Fiquei com vontade de exclamar “Hei, Hitler!” e passei adiante, até o Recreio, pensando naqueles rostos, naquelas expressões e naqueles emblemas que tocaram fundo meu coração. Remoendo a imagem, cheguei a um monte de conclusões malucas, que divido com vocês: famílias donas de empresas não sorriem; são todos brancos e preocupados; todas as mulheres têm cabelos lisérrimos e não precisam de escova progressiva; crianças herdeiras de famílias proprietárias de holdings não têm escolha, elas herdam a urucubaca dinástica da linhagem, já era pra elas pois desde muito cedo são cópias dos adultos. Mas cadê as ovelhas negras destas famílias? Não posaram para o foto do out-door? È que sempre tem uma Neusinha Brizola pra cantar rock e dizer mintchura enquanto os demais cuidam dos negócios. Fora isto, aquelas pessoas parecem seres humanos à beira de um ataque de nervos, parece que elas estão prestes a se sacudir, tremer, abrir os braços, e gritar “eu não agüento mais, isto aqui é muito chato, eu quero orgia, sexo grupal, suruba, eu quero feijão com arroz, quero farofa de ovo, eu quero gozar a vida”. Mas depois acho que conclui tudo errado, este out-door é só uma conversa para boi dormir. As ricas famílias que eu conheço, que são donas de conglomerados, são lindas, sorridentes, curtem a vida adoidado,transitam de herlicóptero entre Angra e Itacaré, viajam de iates entre Mônaco e Cannes, adoram Capri, Maldívias e Seichelles, vivem no reveillon do Thaiti, dão festas gloriosas em suas mansões no alto de Santa Tereza e Cosme Velho. Porque então aquela gente do cartaz é daquele jeito? Porque o discurso por trás daquilo é que precisa trabalhar muito para ser rico. Mas se vão herdar, não precisam ralar, não é mesmo? Sim, mas precisam aprender a administrar, e de vez em quando posar para fotos daquele jeito. Sei que não posso nem devo ser rancoroso, sei que isto deve ser um preconceito enorme da minha parte contra os ricos, sei que estou generalizando meus pensamentos. Mas sei também que é uma agressão, um violência não incluir meu povo semelhante na possibilidade de participar do interesse neste seminário para famílias com grandes negócios. Não haverá uma família sarará-crioula interessada em descobrir o passar firmas de pais para filhos? Não, eles não são o público alvo (alvo com duplo sentido, também no significado de brancura total). Naquele cartaz eu vi a Cidade Partida de mestre Zuenir, naquela visão eu vi que o Brasil não conhece o Brasil, que a chapa está esquentando e salve-se quem puder. Eu e essa minha mania de ficar procurando meu mundo no mundo dos outros, de querer me reconhecer no universo da propaganda. Preciso me conformar que o marketing é direcionado, que a fatia deste mercado não inclui mulatos ou cafusos, só os imigrantes que não se miscigeneram. Por favor, alguém aí conhece uma família rica, cuja linha de sucessão inclui filhos de um negão lindo, que adentrou no clã dos milionários brancos, pelas mãos espertas de um loura linda e descolada, que quebrando paradigmas nos ensina que estamos vivos para reescrever as verdades imutáveis? Os sinos dobram por vocês, Lilibeth e Wlater, que escaparam da mediocridade dos out-doors da vida e incentivam mais brasileiros a achar que este país é formado pela carne, osso e emoção de um povo, que se não miscigenado nas propagandas, no cotidiano dá show de “estratégia de marcado” aqui traduzida pelo amor que rompe barreiras inimaginadas pela otimização dos lucros.


Quarta-feira, 19 Setembro, 2007

Mentor e musa.


Em 2003 vi Samille e gostei muito: achei uma boa sacada um intelectual, professor universitário, que, dotado das ferramentas do pensar, procurava exercitar as ferramentas do se divertir com toda a força. Estava ali meu parceiro, que não acreditava que o mundo fosse um só, onde alhos excluem bugalhos. Podemos ser tudo, podemos viver em esplendor. Às vezes rude, às vezes ríspido, às vezes mortificador, o homem Samuel pári de suas entranhas uma outra que é só doçura, o tempo inteiro carinho e leveza. Acho que ela equilibra ele. Na voz, na alma, no coração. Para tudo chamo Samuel ou Samille: ela é cunha, ele é Abrantes, mas eles são irmãos de fé, camaradas. Parceiros. Partners. Colegas. Divididores. Musa do Blog, ímpar, tsunâmi internacional e pororoca amazônica, a eles, mentores de minha maturidade, meu respeito, minha admiração, meus aplausos em cena aberta e várias cortinadas.

Eu e meus lacraiudos.... Risos.....


Seguindo sua trajetória de atriz, Bia Alves, a amais amiga e bacana, marcou presença no palco do Canecão interpretando a sã Maria I, a Louca de Portugal. Uma experiência inesquecível, dar a mão a ela, e puxá-la para o proscênio do mais endeusado palco do showbizz nacional. É exatamente disto que gosto em minha vida: abrir portas. Quando que Bia se imaginaria ali, naquela situação, sob aqueles aplausos? No escuro,eu disse-lhe: “vá, você consegue!”. E lá foi minha admirável inexperiente gritando sua marca de ódio, quando falei à platéia de Carlota Joaquina. Certinho. Preciso. Eu dependia da boa execução da marca, para crescer no meu texto seguinte, que dizia: “ih, a Rainha odiava a espanhola...” e lá estava Bia Alves, de escada para minha conclusão de cena, maravilhosa, colocando a bola defronte da trave para eu chutar o gol. Onde mais viveríamos tantas loucuras? Quando eu crescer, quero fazer tudo de novo. Gostaria de fotos da maravilhosa Samille Cunha para fazer um tributo à este grande personagem de minha maturidade. Sarava! No escurinho, 1 segundo antes de entrar, ela me disse, maquiadíssima, e altíssima: “faça o que vocês nasceu para fazer, o que você faz melhor: divertir as pessoas....”. E lá fui eu, para a luz, para meu habitat, para onde me sinto mais feliz, melhor e integrado: as luzes da ribalta!


Segunda-feira, 17 Setembro, 2007

Ele quer ser rei da bateria, Gente!


Lacraiudos, vejam que scrap bacanérrimo e.... como direi,,,, ousado... que recebo de Patrick Gabriel, este aí da foto, pelo Orkut:

oi... Poxa obrigado por vc te me add! é oseguinte: Eu eu adoro carnaval! E tenhu uma duvida q até hj naum foi esclarecida.rs* Eu queria saber, pq as escolas de samba aki do rj, naum lançam o rei da bateria? Poxa sempre tive essa vontade desere um rei da bateria. mais num vejo escolas de sambainventarem isso.
Vc vai ser carnavalesco da mocidadeesse ano né? Tive pensando, como a mocidade foi a primeira escola a ter rainha da bateria( monique Evans) poederia lançar essa novidade no ano de 2008. Certo??? aki se realmente aver um concurso pra terrei me avisa ok ??? grande abraço p vc. e descupa ai pela minha lokura rs***avraçãooooooooooooo
Patrick Gabriel

Querido Patrick Gabriel, seu nome é de participante do Grupo Menudo, portanto, você já é um astro em potencial. Fora isso, fora isso, fora isso, estou perdido, nunca pensei em rei, nem em rainha, nem em mim mesmo, aliás, nunca penso em nada. Deixa eu perguntar para meus leitores, para eles se posicionarem (ui!). Acho também que você poderia enviar uma foto de sunga (ui!) para analisarmos seus atributos. Saravá.


Quinta-feira, 13 Setembro, 2007

Ser gay não é querer, é poder!


Quais são nossos sinônimos inconscientes de fim de carreira, de degrau mais baixo da condição humana? Quando dizemos que uma obra de arte é tão sofrível que “qualquer criança poderia fazê-la”, estamos detonando a produção infantil, e tomando-a como exemplo de coisa ruim, desprovida de técnica apurada, de talento. Só que as crianças são capazes de coisa muito boa, mas isto não importa. Coisa de criança é coisa ruim, e pronto. “Não judie de mim”, dizem todos sobre o sofrimento causado por outrem, a nós mesmos, e os judeus que agüentem serem sinônimos de coisas relacionadas à dor, à exposição ao sofrimento. E o mais louco de tudo, é que se tomarmos este adjetivo como correto, podemos dizer que Hitler judiou dos judeus de forma extrema. Seria o feitiço que virou contra o feiticeiro. Pobre judeus, sinônimos como nós, gays, do mais baixo estágio que o ser humano pode alcançar, pois ninguém quer ser “boneca”. Recentemente, o congressista engravatado, não tendo mais como encarar o orador na tribuna, disparou o tiro de misericórdia, o ponto final da discussão: acusou-o de boneca, portanto não permitindo mais qualquer réplica ou tréplica, pois ser boneca é definitivamente uma desgraça, e estamos conversados, acabou a questão. Nesta linha de raciocínio poderia eu dizer que os tempos estão negros, mas quanto de preconceito contra meus amados semelhantes negros isto não embutiria? Ninguém quer fazer coisas de criança, nem judiar de ninguém, nem ser boneca, nem ter alma negra. Só não compreendo como os termos político ou congressista de Brasília, ainda não viraram um destes adjetivos capaz de carregar consigo toda a imagética de decadência que estes quatro pensamentos que relacionei conseguem traduzir. É isto que proponho: quando quisermos acabar com uma celeuma, quando quisermos aniquilar algum ser humano, o chamemos de “congressista”, ou “político de Brasília”, no tom mais acusatório e desprezível possível, e desta forma, se um deles ouvir tal designação, quem sabe não sentirão na pele a dor de ter se transformado em sinônimo de coisa ruim. Consigo me colocar no lugar das bonecas, pois canso de ouvir a palavra “veado” ser usada como interpelação para algo ou alguém que nos desagrada. Fez barbeiragem no trânsito? O outro motorista grita veado. E cá com meus strasses, fico pensando que eles jamais poderão ser veados: isto não é querer, é poder. Imagina aquele feíssimo e desgramourizado senhor na tribuna em Brasília! Ele jamais, jamais mesmo, poderia ser uma boneca. Bonecas são cheirosas, arrumadíssimas, trabalhadoras, honestas pois trocam serviços por honorários, tudo às claras, combinado antecipadamente, na maior honestidade. E convenhamos, estes não são atributos que podemos atribuir a maioria dos congressistas da nossa República. Acho um acinte chamar aquele jaburu de Boneca: ele jamais se equilibraria num salto 12 com a elegância de uma boneca, que desliza sobre o noturno asfalto como uma gazela saltita pela savana ensolarada. E sugiro a todas as bonecas que se depararem com um cliente pilantra, muquirana, ou mesmo feioso, que gritem da calçada: “sai pra lá, tasso! Vai jereissati em outra freguesia!”. Se ele pode usá-las como designação de desqualificação, as deslumbrantes travecas também podem o contrário. Mas o máximo mesmo seria se a expressão “é tasso” virasse sinônimo de cliente brocha, pois para um sujeito que acha que ser boneca é o fim, não ter mais ereção deve ser mortal. É que para um cara desses, o bom da vida está no pinto, e não no cérebro. Outra coisa que também vale a pena pensar sobre este episódio que envolve travestis e homofobia do plenário da Câmara, é que para cada cílio postiço das bonecas temos do outro lado uma gravata Hermes dos bonecos. Só são duas fantasias, duas indumentárias, dois estereótipos do que eu chamaria de cadeia alimentar da nossa existência. Os cristais dos travestis são tão emblemáticos quanto os sapatos de couro alemão dos políticos. E neste julgamento de valor, há um erro freqüente: a maioria dos humanos acredita que quem usa paletó e gravata é dominador, é ativo, e portanto interpreta o “masculino” quando procura os serviços das travestis. Mas se elas declaram que fazem mais o papel de penetrador quando procuradas por estes perfis de clientes, devemos admitir (pelo menos em galhofa), que deve ser uma loucura total, uma mistureba incompreensível, flagrar um coito onde o respeitável senhor que desanca o companheiro o qualificando do homem-mulher, é possuído pelo seu objeto de desqualificação. Moral da estória: não acreditem que toda boneca é ridícula, nem que todo congressista é respeitável, nem que tudo o que reluz é ouro. Analise caso a caso, não se deixe levar por estereótipo, desconfie de que pode haver feminilidade por trás de um terno ou masculinidade por trás de uma mini-saia. Taí o bloco das piranhas, que não me deixa mentir. Mas jamis perca a noção de que qualquer humano mercê respeito, até prove o inverso.Do contrário, porque então Chanel lança perfume para homens e mulheres? É que no fundo, no fundo (ui!) tá todo mundo louquinho para exclamar: é Chanel, meu amor!.


Quarta-feira, 12 Setembro, 2007

De tão belo, corre perigo....


Que belo animal. Que porte, que exuberância, que realeza. De tão lindo, tão caçado. Tenho calafrios de pensar nestes milionários que têm as mãos destes animais transformadas em cinzeiros, em suas pseudo-chiques salas. Morbidez, insensatez, loucura. Matam o belo espécime, para utilizar as mãos e a cabeça e deixam os corpos lá, decapitados e sem as patas. Que grandeza pode existir em matar tanta beleza?


Sexta-feira , 7 Setembro, 2007

Ecos Juninos....


Querido Milton!!
Tá chegando o grande dia da Festa de encerramento da temporada 2007 da gloriosa
Quadrilha do Sampaio.
Vai ser um babado fortíssimo! Será no domingo, 16 de setembro, a partir das
13hs. A programação será a seguinte:
13 às 15hs: almoço (strogonoff)
15 às 16hs: bingo, brincadeiras e apresentação do bumba "Auto do Boi Coroado"
16hs: eleição da MISSI SAMPAIO 2007.
Detalhe: bibas não podem concorrer. Apenas os rapazes. O incrível é que namoradas e familiares levam faixas e cartazes para as "canditadas". "Elas" representarão os bairros da cidade maravilhosa. A apresentação tem coreografia e uma exigente marcação de cena.A coroa da Miss Sampaio é deveras almejada! Tem passarela e tudo!
Detalhe 2: vc estará na banca de jurados.
17hs: um maravilhoso show com atores transformistas que tradicionalmente
encerra nossas atividades com glamour, humor e muita competência.
Querido, seu nome está na nossa lista vipérrima. Você e seu acompanhante.
Se amigos quiserem dar o prazer de comparecerem, o esquema é o seguinte:
Ingresso: 7,50 (com direito ao almoço e o lugar à mesa). Quem chegar depois do almoço, paga 5,00.
Cerveja, refrigerante e sobremesas serão vendidos bem baratinhos.
Endereço: Rua Cadete Polônia, 612 - Sampaio (Casa de Festas). Esta rua é paralela à rua do Engenho Novo (rua da Estação do Sampaio).
Milton, essa festa é para saldarmos as dívidas da temporada!!! Mas também
é uma excelente oportunidade de estreitarmos os laços e passarmos uma tarde
folclórica, pitoresca e animada, que ficará na história.
Sua presença é vital!!!
Abraços!
Marcio Perrotta, da Quadrilha do Sampaio

Adorei o Presença Vital. Nos aguarde, nós, lacraiudos. O Sampaio vai tremer! Ele nunca mais será o mesmo.... Todos lá!


Biografia da Clara Nunes


Olá Milton Cunha, tudo bom ?
Gostaria de enviar a biografia da Clara Nunes para você. O livro ficará
pronto na próxima semana pela Ediouro. O título é: Clara Nunes - Guerreira da utopia, do jornalista Vagner Fernandes.
um abraço,
Bety Serpa
Assessoria de Imprensa - Grupo Editorial Ediouro

Que máximo Clara, a grande Clara ganhar um livro. Ela merece muitos. Viva La Nunes!


Quinta-feira, 6 Setembro, 2007

Inteligentes.....


Convidado pelos divinos Frederico de Góis e Flora de Paoli, lá fui eu dar pequena palestra no centro do poder acadêmico que é a UFRJ. Sim poder. O saber é um poder, e aquele é um centro, igualzinho ao poder do carnaval, o poder da moda, o poder da política, enfim, o conhecimento universitário é valorizado, e portanto um poder. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Falei das relações da narrativa fantástica com os enredos de Joãozinho Trinta, objeto de meu mestrado naquela casa. Aberto o debate, um homem, estranhíssimo, que julgo professor, e que já tinha ido me azucrinar na cafeteria (como um abutre, rondando o animal desejado, esperando a hora do bote) antes do encontro, pede a palavra e diz que cometi duas impropriedades durantes a minha fala. Ao que eu respondo: “só duas? Meu Deus, como eu estou inteligente hoje!”, isto falado com voz de debilóide. Continuando a crítica, a criatura fez um discurso incompreensível de três minutos, usando as mais escalafobéticas palavras desconhecidas do dicionário, deixando todos nós atônitos e silenciosos. Estávamos em dúvida se aquilo era sério ou se ele estava de sacanagem com a nossa cara. Poderia até ser verdade e inteligentíssimo, mas aquilo era português de um outro planeta, talvez um asteróide habitado por pseudo intelectuais que passam a vida a preparar discursos prontos que nós, seres humanos com apenas algum preparo, não conseguimos alcançar. Podia ser verdade, mas podia ser um blefe. Como eu não moro no mesmo mundo que aquele, fiz silêncio e cara de Diva, que não seria escada para o coadjuvante tentar roubar a cena. O teatro é um poder, e neste território mando eu, quando estou sob os holofotes. De repente me lembrei de minha amada Mestra Ana Alencar, semióloga, baiana linda, sedutora em sua maturidade de olhos azuis, seu francês perfeitíssimo, sua sapiência, sua visão de mundo, sua generosidade no trocar o saber. Especializada em Roland Barthes, ela é o exemplo da inteligência suprema e da capacidade de se fazer entender por alunos menos preparados, ainda que ela passeie por universos dificílimos. Saudades dela, que matarei agora no Doutorado. E me lembrei também daquele personagem do Jorge Amado que decorava três palavras no dicionário para impressionar a platéia tola de Itabuna. Voltando ao quiprocó, como eu não dava corda para o maluco se enforcar, um jovem pegou o microfone e perguntou como o mundo acadêmico recebia uma figura alegórica e polêmica como eu. Contei-lhes do dia da defesa de minha tese, quando fui vestido de galinha do arco-íris, passei pelo porteiro do Campus que ficou em estado de choque, e, ao adentrar a sala da defesa, o presidente da banca disparou: “é a primeira vez que o destaque vem no chão e a velha-guarda (eles mesmos, em patamar mais elevado), vem no carro”. Acho, sinceramante, que estou ali para me tornar um ser humano melhor e levar um pouco de humor e deboche para o que chamo de bolha asséptica e hospitalar que é a universidade. Intelectuais não suam, não fazem sexo selvagem, não passam dificuldades. Eu, ferida em carne viva, ardendo em praça pública, quero saber mais, quero viver intensamente. Sem abrir mão dos universos inteligentes e do raciocínio. Mas, definitivamente, não é só isto, a vida, e isto não é mais importante que todo o resto. Talvez se o moço que criticou difícil, talvez se ele aprendesse a fazer a “tocha cubana”, acho que talvez ele relaxasse com os mais burrinhos.

Ecos de Beslan....


Lembram de Beslam, a cidade destroçada por terroristas, que tomaram de assalto uma escola e mataram 300 pessoas, das quais 176 crianças, feriram outros 500, e marcaram para sempre nossas almas? Um documentário exibido pelo GNT, nos faz novamente mergulhar neste pesadelo, só que agora a gente sabendo como acaba. Além da indignação da população, que diz que a visita de Puttim foi tão rápida, um dia após a matança, que sequer os motores do avião presidencial foram desligados (lembra algo a vocês?), há o comovente relato de um fotógrafo, que, após acompanhar o fato por dias, documentando com suas lentes o sofrimento dos parentes do lado de fora, e vítimas presas no educandário, registra uma cena inusitada: perto do fim, uma menina se joga de uma janela baixa para o gramado externo, e, em liberdade, em vez de correr para a rua, ela simplesmente, se levanta, pula a janela de volta para o interior, e segundos depois começa o incêndio e o teto desaba sobre todos eles, matando-os. São seis ou sete cliques, de um fotógrafo estarrecido, mas resistente e sangue-frio o suficiente para manter-se documentando, diante do inimaginável, pois a menina é raquítica, indefesa, e está só de calcinhas, como a maioria das vítimas, por causa do calor lá dentro. Sua figura é de dar dó, e acompanhando sua atitude incompreensível, ouvimos o fotógrafo dizer que aquela foi a gota d’água, o fim de sua seqüência, pois tinha sido cruel demais fotografá-la voltando para o lugar de sua morta. Depois vemos as chamas e o concreto vindo abaixo. O que fez a menina voltar? Ela estava consciente do que fazia? Ela procurava algo ou alguém? Seria automático e instintivo correr o descampado rumo à multidão que a observava? Nunca saberemos as respostas. Mas este texto é uma homenagem aos repórteres fotográficos e cinegrafistas que eternizam em suas imagens cenas que nos acompanharão para sempre, e anos depois, reexibidas, são capazes de nos impressionar e fazer pensar, como esta pequena seqüência, pungente e intrigante. Quanto grito de dor e desespero guardam os fotógrafos que precisam clicar, sem poder correr e ajudar? Haveria escolha entre um e outro? O resumo é que suas imagens nos ensinam a lidar com as faces da humanidade. Vendo o trabalho deles, sorrimos, choramos, nos desesperamos e paramos, para pensar o que estamos fazendo com nossas vidas e nosso universo. Não, não poderíamos passar sem elas, pois congelando a insanidade, parecem nos dizer “deixem de ser doidos, olha o que vocês estão fazendo”. Salve os captadores de imagens, e seus ossos do ofício, cheios de dor e delícia.



Terça-feira, 4 Setembro, 2007

Eu e vocês, vocês e eu!


Amados, gostaria de propor que vocês mandassem notícia, acompanhada de comentário pessoal, opinião pessoal, para que eu comentasse em cima (ui!) e fizesse dos mais interessantes, posts! Creio que ficará movimentado e interativo. Adoro saber coisas e dizer como é que elas batem em mim. Mil beijos. É só clicar no contacto ao lado e enviar. Beijos.

Momentos de uma festa!


Talvez o mais interessante de uma festa seja, alem de que tudo corra animado e farto, após isto, a hora em que os convidados vão saindo, saindo, e vai ficando um grupinho pelo canto, sentadinho, batendo papo. Claro que sempre tem os que beberam demais e que chegam no som da sala e colocam Ivete Sangalo aos gritos cantando Poeira, e não querem que aquilo que já passou, acabe. A bebida lhes tira o senso de finitude das coisas boas. Querem que seja para sempre prazer, o amanhã não existe e “meu fígado tem que acabar hoje”. Interessante que em tal estado não há nada de bacana em conversar baixinho, comentar dos outros, falar da vida. Estão no estado de pagar mico, e sempre com muito grito e escândalo. Acho que nessa hora devemos, como dono da casa, baixar o som, que já estará tocando Elis, e dizer: “querido, vai esticar numa boate. Minha festa agora é outra”. E eles vão indo, e deixando quem, cansado (bêbado não se cansa, né?) quer relaxar um pouquinho antes de ir embora. É que dá uma vontade enorme de conversar com aqueles com quem você dançou e comemorou. Mas não são todos, são alguns. Adoro dar festas em casa, para ver os humanos em meu território.