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Milton Cunha

Quarta-feira, 31 Outubro, 2007

Memorial de Milton Cunha


Suspeito que nasci apressadíssimo. Corri bastante na infância e na adolescência, pois concordava plenamente com Nelson Rodrigues, e seu conselho para os jovens: “cresçam”. O que mais eu queria era crescer, e isso significava estudar. Voltando à pressa infantil, freqüentei todos os “grandes” colégios de ordens religiosas de Belém do Pará: Primário no Berço de Belém, das Irmãs do Sagrado Coração de Maria, Ginasial nos Irmão Maristas, colégio Nossa Senhora de Nazaré e por fim o Científico, no Nossa Sanhora do Carmo, dos Irmãos Salesianos. Esta imersão no mundo dos Católicos me rendeu uma ojeriza total ao discurso Cristão, e alguns traumas superados. Superados? Talvez. Mas como tinha pressa, fui tocando em frente. Tão rápido que cheguei à Universidade Federal do Pará aos 16 anos, curso de Psicologia. Nesta época publico minhas críticas de cinema nos dois maiores jornais locais, O Liberal e A Província do Pará. Eu fazia parte dos que eles consideravam “os novos” da crítica paraense: amava Bergman, Pasolini e Fellini, não os entendia e acho que nunca os entenderei, mas os amava. Mas acima deles, estava Franco Zefirelli e seu “Romeu e Julieta”, que “inauguram” o calafrio que percorre minha espinha, sempre que me deparo com uma obra de arte que toca o meu coração. Voltando aos primeiros anos de Psicologia, era Freud e o inconsciente que me interessavam. Eles comprovavam minha eterna desconfiança de que a humanidade não era “normal”, e por isso, todas as minhas culpas e pecados deveriam ser perdoados e entendidos por mim mesmo, para que eu pudesse, como já disse, seguir em frente. Eu já tinha a postura da “Hermenêutica da Suspeita”, hoje me explicada por Terry Eagleton, mas eu não suspeitava disto.
Nesta época de Universidade, passava diariamente 14 horas no campus, onde participava exaustivamente de todos os seminários, semanas, encontros, debates, que fossem possíveis. E me dedicava à minha paixão, o teatro: escrevi vários textos dramatúrgicos, publiquei e montei o drama “O Estranho Peixe que Pulou”, que ganhou muitos prêmios da temporada teatral daquele ano, e, tendo acabado a graduação, e já não cabendo mais em Belém do Pará (e nem em mim mesmo), de tanta vontade de ganhar o mundo, anunciei a minha família que, aos dezenove anos iria ser artista no Rio de Janeiro. Minha mãe desmaiou para um lado, meu pai esbravejou e me deserdou do outro, e meus irmão, atônitos, além da descrença, vaticinaram: “todos vão, muitos voltam e poucos conseguem”. Caí na gargalhada de tamanho derrotismo, botei o diploma em baixo do braço, que me salvaria em caso de prisão, e peguei o pau-de-arara num começo de manhã, quando o sol raiava sobre as mangueiras das ruas de Belém e raiava dentro de mim, esperançoso de um futuro melhor. Naquela alvorada, lagrimando ao ouvir meu velho pai, triste, dizer, “estás fazendo o que eu tinha que ter feito quando tinha a tua idade, ir embora”, entendi que eu corria, este tempo todo, atrás de minha independência: era o estudo, a formação acadêmica que me levaria para bem longe dali, onde eu seria livre, onde minha alma de artista pudesse desvencilhar-se das amarras de uma vida medíocre de província. Eu não gostava dali, eu não partilhava as crenças daquela gente, e eu supunha um mundo fraterno, colorido, cheio de possibilidades logo ali, ao sul do país. Um mundo onde alguns outros fossem gays, como eu. Na viagem que durou três dias e três noites, prometi à mim mesmo que não desistiria jamais, que trabalharia de sol a sol se preciso fosse, e aos quarenta anos (que era tão distante, pois ainda faltava vinte anos), eu voltaria a estudar para terminar minha formação acadêmica, que tanto amava. O banco das instituição de ensino por onde passei foram meus grandes companheiros, na descoberta de um mundo fascinante, profundo, acolhedor. Lá eu estava em casa, lá era a vida que tanto me agradava, lá as pessoas poderiam ser o que quisessem. Difíceis foram os primeiros anos no Rio de Janeiro: passei fome, morei “de emprestado” e em vagas sórdidas, mas isto não pesava, a dificuldade era mais leve que os grilhões que arrastei quando não podia “soltar meus bichos”. Me profissionalizei Diretor e Ator no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Rio de Janeiro, por tempo de serviço dedicado ao Teatro (de 75 àquele ano, 83), e consegui emprego no Grupo Recarey: oito anos de desfiles de moda, concursos de beleza,e shows de samba no Scala-Rio.
Até que me tornei professor de teatro na AFE- Associação Fluminense de Educação, Professor José de Souza Herdy, (atual UNIGRANRIO), período em que tive o prazer de liderar grupos de alunos pequeninos, rumo ao palco e às montagens lúdicas. Foram cinco anos vivendo com meus discípulos as mais gloriosas sensações da arte.
Data daí também, minhas primeiras experiências como apresentador de TV, já que apresentava o quadro de moda do Programa Roberto Milost na TV Record.
Foi promovendo os concursos de beleza Garota de Ipanema e Garota do Fantástico que fui convidado por Anízio Abrahão David para me tornar Carnavalesco da Beija Flor de Nilópolis. Meu primeiro desfile foi “Margarete Mee, a Dama das Bromélias”, em 94, sobre a vida da pintora inglesa que se apaixonara pelas bromélias da Amazônia e que escreveu um “diário da selva”, quando fiquei num honroso quinto lugar. Meus seguintes três carnavais na Beija-Flor foram: 1995, “Bidu Sayão e o Canto de Cristal”, sobre a vida da prima dona brasileira que ganhou o mundo no início do século XX; “Aurora do Povo Brasileiro”, 1996, sobre o Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, e os fósseis humanos mais antigos descobertos no Brasil; e o último na azul e branco de Nilópolis, “A Beija Flor é Festa na Sapucaí”, em 1997, quando retratei as festas anuais do Brasil e a vontade do povo brasileiro de sempre celebrar.
Esta minha atitude “cigana” sem eira nem beira, que me faz ser um eterno insatisfeito, me leva à pedir demissão da grande Beija Flor e optar pela pobrezinha, mas simpática União da Ilha do Governador, para sediar meus dois trabalhos seguintes em Carnaval: 1998 é o ano em que me dedico a realizar ”Fatumbi, a Ilha de Todos os Santos”, sobre a vida do Etnólogo e Babalaô francês Pierre Verger, que sagrou-se Fatumbia no Golfo do Benim e veio morar os últimos quarenta anos de sua vida em salvador, Bahia, quando ganhei o primeiro Estrandarte de Ouro do Jornal O Globo de Melhor Enredo; e em 1999 realizo “Barbosa Lima, 102 anos do Sobrinho do Brasil”, sobre o jornalista tido como a reserva “moral” do Brasil, e seus feitos em prol da cidadania brasileira.
O ano de 2000 foi por mim utilizado para ser um “retiro espiritual”, quando “dei um tempo” para refletir sobre o fim do milênio e a proximidade dos quarenta anos, tempo cabalístico no que planejei para minha existência, pois seria o retomar de antigas paixões e diretrizes mas também era hora de fazer o balanço dos ganhos e perdas destes quase vinte anos de Rio de Janeiro e de construção de uma carreira.
Renasceudo das cinzas do que restou de mim, em 2001 fui fazer a Escola de Samba Leandro de Itaquera, no Carnaval de São Paulo, e retomei o mito amazônico de minha infância no enredo “Os Seis Segredos do Ariaú”. É neste ano que estréio como debatedor no Programa Primeiro Time, da TV Educativa, onde permaneço como contratado até hoje.
De 2001 até agora, tenho participado como debatedor do Programa Sem Censura, e nestes 6 anos, vivi momentos inesquecíveis ao lado da “Mestra” Leda Nagle: participei de entrevistas com Nélida Piñon, Paulo Coelho, o angolano Agualusa, Ligia Bojunga, Arnaldo Niskier, Alberto Costa e Silva, Ana Maria Machado, Fernanda Montenegro, Ruy Castro einúmeros outros representantes da inteligência nacional.
2001 me traz de volta ao Carnaval carioca através da simpática escola do morro do Borel, a Unidos da Tijuca, quando realizo o desfile “O Sol Brilha Eternamente sobre o Mundo de Língua Portuguesa”, sobre a lusofonia, o que me faz ganhar o segundo Estandarte de Ouro de Melhor Enredo do Carnaval. Em 2002, ainda na Tijuca, faço o Enredo “Agudas, os que levaram a África no Coração, e trouxeram, para o Coração da África, o Brasil”, sobre o fluxo e refluxo dos escravos africanos entre o Golfo do Benim e o Recôncavo Baiano, o que me fez ganhar o terceiro Estandarte de Ouro de melhor enredo. Realizando o velho plano de voltar aos estudos com quarenta anos, Inicio minha especialização em Moda e Indumentária na Universidade Estácio de Sá, que concluo no anos seguinte, quando apresento a monografia “O Salto do Tigre e a Morte da Moda”.
2003 me leva até a escola de Samba São Clemente, conhecida pelo seu espírito crítico e brincalhão, o que me motiva a fazer meu primeiro grande desfile crítico sobre as falcatruas políticas brasileireas, estabelecendo um paralelo entre o boi voador de Maurício de Nassau, na Recife de 1665, até o começo da desastrada presidência do PT, no enredo entitulado Boi Voador Sobre o Recife, O Cordel da Galhofa Nacional, quando tirei o 14 lugar. No ano seguinte, 2004, permaneço na mesma escola e realizo o enredo “Velho é a Vovozinha, a São Clemente enrrugadinha e gostosinha” enfocando a dor e a delícia de se ter mais que 60 anos no Brasil da atualidade. Sou aprovado, ainda este ano, para ingressar no Mestrado em Ciência da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde procuro me aprofundar nas teorias que tratam das narrativas e de enredos.
Em 2005 assino contrato com a Unidos do Viradouro, de Niterói, e realizo, ao lado de Mário e Cacá Monteiro o enredo “Arquitetando Folias”, sobre a história da arquitetura no Brasil, desfile que se consagra em 3 lugar na Marques de Sapucaí.
2006 é o ano que me leva até o tigre de São Gonçalo, o Porto da Pedra, quando preparo o desfile “Preto e Branco a Cores” sobre o apartheid na África do Sul.Além disso estréio a Coluna semanal Chapa Quente, publicada todas as quintas, no jornal O Dia do Rio de Janeiro.Além disso, defendo a Dissertação de Mestrado “Paraísos e Infernos na Poética do Enredo Escrito de Joãosinho Trinta”, sob a orientação do queridíssimo Doutor Fred Góes.
2007 (este ano que ainda não terminou), me vê trabalhando no Gres São Clemente, desenvolvendo o Enredo “O Clemente João VI no Rio, a Redescoberta do Brasil”; e é igualmente o ano em que apresento este projeto em anexo, meu pedido para ingressar no Doutorado do mesmo programa da UFRJ para aprofundar minhas análises de texto, intertexto e discurso: falas consonantes e dissonantes na Escola de Samba.
Aquele sol que raiava dentro de mim na minha partida, agora já está a pino, ao meio-dia, me aquecendo, me enlouquecendo, me fazendo suar e clareando minha pressa, aquela mesma que eu tinha quando nasci. Hoje tenho pressa, mas ela passa.

Milton Cunha


Terça-feira, 30 Outubro, 2007

Punta del Leste!


Chegando de Punta, onde fui realizar, com minha equipe, o Baile Ave do Paraíso. Na foto, Ludmilla, Wilson e Kaíka Sabatella, na entrada do Ball Room do Mantra Hotel e Cassino.

Ney III


Final de Semana retrasado, acompanhei Ney e seu Inclassificáveis no City Bank Hall, em Moema, São Paulo. Aplaudido de pé em todas as noites. Parabéns, Matogrosso.

Ney II


Dez mil pessoas aplaudiram em 5 récitas. Consagração do maravilhosos artista.

Ney- I


Tres horas antes da cortina subir, o artista arruma seus apetrechos de cena, tendo ao lado seu fiel camareiro, Monsieur Marivaldo. O máximo!


Quinta-feira, 25 Outubro, 2007

Lendas e Mitos das Florestas....


“Bom dia, senhor, sou agente de segurança da... (disse uma sigla que termina em ER, uma qualquer, destas intermináveis designações governamentais brasileiras, que camuflam, disfarçam as intenções, e, o que é pior, impossibilitam a cobrança cívica às claras), e vou lhe fazer algumas perguntas, visando a segurança do vôo: qual o motivo da sua viagem a Punta del Leste?” De estalo, respondi: “arranjar um marido!”. Surpresa, talvez sem entender direito minhas intenções matrimoniais, a agente fez mais outras perguntas, e ao final, eu, indo para o Check-in, acenei de longe e gritei: “torça por mim!”. Quer saber? Num país onde alhos não batem com bugalhos, porque não posso responder sinceramente às questões? Por quê parece que a realidade é combinada de ser séria e hipócrita e mentirosa, mas os escândalos se sucedem de tal maneira, desmontando o combinado, e provando que por baixo dos panos nada é como parece?Portando a verdade é que aviões me acendem a esperança de que no outro lado do aeroporto, esteja o destino, o futuro, o companheiro. O bom é que se não acontece lá, o avião de volta abre outra porta, e a mesma esperança de que é agora, depois da volta, depois da aterrisagem, que a vida começará, que a felicidade baterá na minha porta. O mistério será, se um dia, durante o vôo, eu encontrar alguém, já que nunca a cabine esteve incluída no plano. Avião é medo e ponto. Não romance. O relacionamento está esperando depois das esteiras de malas. E minha sinceridade me esbofeteia no país da desfaçatez e do cinismo. Estou passado com o pistoleiro que matou Dorothy Stang, alegando que defendeu-se de ameaças dela. A missionária minúscula e o lobisomem, dupla onde fera e bela estão claramente delineados, e a tentativa de convencer o tribunal de que ela não prestava e ele é vítima. Acho isto tão descabido, tão fantasioso, quanto minhas ilusões de amores e viagens aéreas. Mas diante do meretíssimo pode ser engraçado, mas na vida fora do tribunal, não. Só que lá, uma bacanérima defensora dos direitos humanos, das florestas, da vida, foi covardemente assassinada, numa emboscada recorrente neste tipo de situação, que em tudo nos remete à morte de Diane Fossey, na montanha dos gorilas, África. As décadas se sucedem, e humanos que se embrenham no mato para atrapalhar a insaciável sede por dinheiro a qualquer custo, na maioria das vezes terminam mortos, e acredito sinceramente, que suas almas, suas energias, para sempre pairam sobre as matas, acho que elas estão nas copas das árvores, penduradas em cipós, são verdadeiramente a Mãe D”água, o canto encantado do Uirapuru, o Curupira, a Cobra-Grande. Estes ecólogos humanistas são da plêiade das lendas e mitos, são juruparis vagando por igarapés e arquipélagos da vida silvestre, ao lado de belas araras e tucanos. E com certeza, suas idéias ameaçam estes desalmados, na medida inversa que suas pistolas ameaçam a sobrevivência do planeta. São duas propostas de mundo antagônicas, pois para cada projeto de desenvolvimento sustentável, várias moto-serras a desmatar; para cada escola comunitária, queimadas infindáveis. Resta-nos saber se para cada mentira no processo juridico, teremos um júri criterioso e vigoroso, que condene todos os malfeitores a uma pena exemplar. Tenho minhas dúvidas, mas vamos torcer. Dorothy, Dorothy, porque você não namorou o Calheiros, posou nua para a Playboy e virou celebridade no mundo super-pop Luciana Gimenes? Em vez do mico-leão-dourado, porque não, só o mico, querida missionária? Fico imaginando-te respondendo para a fiscal do aeroporto, o motivo de tua viagem: “defender a vida no planeta, dizimar a exploração dos povos da floresta...”. Que cara a agente faria para ti, maravilhosa Stang. Será que ela te deixaria passar?

Forçação de Barra


Confesso que fiquei decepcionado com o museu da Lingua Portuguesa, na Estação da Luz, Sampa. Sei que têm as exposições temporárias, que saiu Clarice Lispector e entrará Gilberto Freire, sei que a experiência do terceiro andar é cibernética, mas falo da exposição permanente, do tal do acervo, da reserva técnica que cada museu possui ou deve possuir. Nesta, estranhei as projeções com tanto artistas globais, usados como referências do falar, da mistura de nossa língua. Casé nas periferias, Bussunda no Casseta, Léo Batista na narração de gols. Disse para mim mesmo: “gente, é na verdade o Museu da língua da Rede Globo”. Aplaudo a inciativa que atrai milhares de pessoas que nunca foram á um museu, mas acho michuruca a forma apresentada e os exemplos da riqueza do nosso falar. Só falta o plim-plim...


Sexta-feira , 19 Outubro, 2007

Tilápias e Macadâmias....


“Nossa, Vice-Governador Pezão, além dos seus pés (46!), tudo é grande no senhor?”. A maravilhosa mulher dele, Dona Biluca, deu uma sonora gargalhada, e eu saí rodopiando pelos centenários paralelepipidos da querida Piraí, durante o final de semana da Tilápia e da Macadâmia, os produtos típicos da região, além da simpatia avassaladora dos habitantes, que moram naquele paraíso da vida pacata. Pois é, encontrei o Vice sentado num canteiro elevado, de gramas e flores, na noite estrelada de sábado, e a ele fui apresentado pelo Gebran, filho orgulhoso da terra, em bucólico final de semana. Ouvíamos todos a Velha Guarda da Portela, que se apresentava em um dos quatro palcos distribuídos pelas pracinhas, e depois teria Dudu Nobre no palco principal, enorme, no Parque de Exposições. Antes, teve o Secretário de Planejamento cantando MPB, pois em cidade pequena é comum que executivos políticos sejam também, artistas. Ao contrário do país grande, onde o artistal (Gil) virou também Ministro. Tudo perto, tudo a pé, fazendo as alegres procissões humanas (canecos de chopp pendurados em cordões, nos ombros), se deslocarem de um lado para o outro da cidadezinha. E tome-lhe tilápia: assada, enrolada com ervas, desenrolada com goiaba, crocante com creme, assada com papel, cozinhada na manteiga, tilápia frita, tilápia.... “Meu Deus, será que os borogodós dos homens desta cidade também são em forma de tilápia? Era só o que faltava, você lá, na hora do vamos ver, e do zíper pula em cima de você uma.... tilápia, e em vez de sexo, você cai na risada”. Imaginei esta cena, pois a cada virada (ui!), alguém estava com uma bandeja com o prato típico local. No próximo “Piraí Fest” quero me fantasiar de tilápia, e ir para lá ser devorado por todos. Um sucesso (ou um fracasso, dependendo do ponto de vista!). Mas não importa, o que importa é descobrir o que a tilápia tem, e isso lá, tem de sobra. Chega de tilápia, passemos para a sobremesa: chocolate de macadâmia, sorvete com macadâmida, macadâmia em creme, na espuma, no bolo, no açaí, macadâmia pura, paçoca de macadâmia. “Gente, será que o balacobaco das mulheres desta cidade são flores de macadâmia?”. Me perguntei, pois amêndoas deliciosas são, e objetos do desejo da população. Minha fantasia de tilápia terá que ter detalhes de flor de macadâmia, pois fantasia bi-volt, servirá para acender qualquer desejo, 110 ou 220, não importa, o que conta é acontecer na Festa de Piraí. Foi aí que avistei, no palco do concurso de gastronomia, a Chef-Gata Flavinha Quaresma. Ele estava lá, de Ana Maria Braga, apresentando as delícias gastronômicas concorrentes. Na falta de um louro José que a acompanhasse, só me restou o papel de... veado-José, ao que ela me disse, baixinho no ouvido: “então serei sua Ana Maria BrEga”. Coisas da noite da serra das Araras, na Dutra. Coisas de divertimento num lugar cujo atrativo é ser simples, é ter residências cujas salas se abrem para as ruas, de onde já avistamos os sofás e as famílias, que nem precisam sentar nas calçadas, pois o dedo de prosa já é através da janela. Não há armadilhas para turista, não há tour, não há programação. Se largue, vá ficando; onde parar, tá bom! Feirinha de artesanato, igreja da Matriz, charme dos caramanchões na pérgula do rio-braço do Parnaíba, enfim, um tempo idealizado pela literatura, um cenário de novela, a vida real esplendorosa, mostrando que nem tudo está perdido. E é mais perto que a Barra da Tijuca engarrafada.

Bela Festa Gay


Impecável. A Parada Gay de domingo, apresentou a dose certa de seriedade de cobrança de direitos civis, misturada com a porção imprescindível da alegria e o colorido do povo arco-íris. Tudo traduzido pela competente e brilhosa Jane di Castro, cantando belamente o Hino Nacional. Falar no arco, a logo deste evento, belíssima, mostrava a tarja vermelha derramando gotas de sangue sobre as demais cores em listra da bandeira. Uma imagem definitiva, um veemente discurso sobre os assassinatos brutais de homossessuais. Cláudio Nascimento está de parabéns pela organização, pois deu uma segurada nas saunas gays como definitivas representantes da parada, o que dava um aspecto de sexo e sordidez ao conjunto da obra, que não tem esta tônica. Quem quiser que as freqüente, mas ali é nossa persona pública, para pedir respeito, o que é maior que qualquer casa de prostituição. Saímos deste gueto da promiscuidade, (única janela pela qual a sociedade nos via) e recebemos a visita divina de nosso Governador, corajoso e imponente, dando sua cara à tapa ao lado da esposa, num formidável recado aos intolerantes, de que os tempos são outros e a sociedade avançou rumo ao respeito pela diversidade. Respeitando as famílias dos heterossexuais, mais numerosas e há muito com plenos direitos adquiridos, queremos mostrar as famílias gays, cujo amor é tão digno de existência quanto qualquer outro. E o acertado grito de Cláudio, afirmando ser Copacabana gay, bi, hetero, todas as sexualidades possíveis. Não há absolutismo, há relatividade. Impostos sendo iguais à inclusão, onde ninguém precise ser hipócrita e fingir. Bom mesmo é a liberdade, com respeito e consciência, de deveres e direitos.


Quarta-feira, 17 Outubro, 2007

Mais Piaf!


Ela é acordada pelo pugilista, homem de sua vida, declarado por ela mesma. Ele tem mulher e filhos, e mora do outro lado do oceano. Ela se conforma em ser a outra, acho que sabia que não poderia cobrar mais de seu destino. Após noite longa de espera, ele chega, lindo, elegantíssimo, e ela o beija, o beija, o beija. Manda ele ficar ali, na cama, pois vai buscar o café e o presente que comprou para ele. Cozinha, bandeja, ela busca o tal do relógio-presente para o homem de sua existência. A empregada, chora e a olha com compaixão. Vai procurar o presente na sala. O empresário a olha lívido. Piaf começa a gritar, quer saber quem escondeu ou mexeu no presente. A secretárioa diz-lhe: “Piaf, você precisa ser forte!”. A bandeja cai, Piaf quer porque quer encontrar o presente, mas já está descontrolada, e é agarrada pelo empresário que revela: “o avião caiu. Ele morreu!”. Ela corre e vê o quarto vazio. A cama onde estava o homem que a beijou está vazia. Ela beijou a morte, ela beijou a inexistência, ela se encontrara, verdadeiramente, com o último suspiro de seu amado homem. Debate-se, soluça e agarra a própria cabeça, arregala os olhos, não acredita, não pode acreditar. Sai debatendo-se correndor afora, quadros, choro, cortinas, lágrimas, paredes, gritos de dor, rodapés, horror, sancas, incredulidade, rodopia desperada. Luz no fim do corredor, platéia depois do proscênio, seu martírio está em casa e no palco ao mesmo tempo, ela está em seu corredor que é também, encenação: da dor ao palco, a vida é uma cena. Debatendo-se, chega ao fundo do corredor, começo do palco. Arruma-se, vai ao foco de luz. A audiência puxa a respiração, o mito está ali, e vai cantar a dor da morte de seu macho. “Arreverdert Milord!”. Assim é a vida, assim são nossos dias. Nossos lares são palcos transfigurados; e os artistas, que moram no palco, talvez façam o inverso: moram no foco de luz, e algumas vezes estão em residências. Lindo, não é?

A solidão de Piaf!


Lindo filme. E acho que a crítica, mesmo dizendo que é bom, precisa ficar se justificando que é narrativa das antigas, que não tem mirabolância estética, que é comportado como os bons filmes de antigamente. Que estranho: o moderno precisa deformar algo para ser moderno. Só contar a história não é moderno, risos. Quanta besteira. É ótimo e pronto. Ponto final. Ficar buscando o moderno é besteira. Passemos ao filme: a surpreendente cena onde Piaf, no restaurante, vê se aproximar o mito Marlena Dietrich. Todos se levantam e emudecem. A Diva vai chegando perto e, além de mudos e levantados, agora todos estão embasbacados, hipnotizados, enlevados. Piaf, pequena, Marlene, magra e altíssima. A câmera pega Piaf, que não mexe um músculo, de tanta emoção, através da silhueta, melhor dizer esfinge, de Dietrich. Do alto para baixo. Cinemão. Enquadramento que já diz tudo, nem precisa continuar. Mas continua: Marlene quer dizer que a canção de Piaf a transportou de volta a Paris. Ela, através da música, estivera, sentada ali no music hall, novamente nas ruas de Paris. Agradece, e vai saindo, sozinha como veio. Duas solidões, duas personalidades inatingíveis, que oferecem suas entranhas através da linguagem artística. O mais nos é impossível detectar. Divas, solitárias, geniais, abandonadas e abandonando-se no casamente com a platéia, com a arte. Pensei em Amália, Elis, Monroe, Matogrosso, Sosa, Montiel, Callas, Sayão, fabulosos e pelos cantos da alma, como se dissessem a si mesmas: calma, já vai passar!. Ah, as estrelas....



Segunda-feira, 15 Outubro, 2007

Estacões do Calvário Lacraio- A toupeira....

É preciso acalmar os ânimos de meus ciumentos leitores, e apaziguar todos os corações, depois que li a seguinte reclamação:

Pessoas alegres mais bem feinhas.
também pra que ser bonita e não ter espirito lacraiudo?Até que o Milton passa.É "simpátidérrimo".
É isso aí.Feios mais bonitos.
Leiloca

Passo não, Leiloca, passo não. Faço questão de não passar na tua lista. Me desmerece, me dizima, me acaba. Por favor, divina, me inclui fora desta tua lista. Preciso ser feio como meus companheiros, senão serei para sempre por eles apontado como uma pessoa capaz de figurar em tão desclassificada lista. Não aceito teu elogio, e te devolvo uma praga: que você seja feliz, encontre teu lugar no mundo, e um dia venha nos dizer que enfim, entendeu que o físico, é preocupação dos desmiolados. Saúde, divina (cruzes!)

Estações do Calvário Lacraio- II-Lobinho e cordeiros....


É preciso acalmar os ânimos de meus ciumentos leitores, e apaziguar todos os corações, depois que li a seguinte reclamação:

Nossa , quanta babação os tópicos do blog só se resumem a algumas pessoas , um chupando o saco do outro....rss
wolffeder

Wolf, my darling: chupar o saco do outro... Que delícia de proposta e de proposição. Serás uma delícia de proponente? Como será o teu saquinho, pequeno lobo? Vamos passar talquinho nele? Well, como posso deixar de publicar os eventos do Blog, meu amor? É blog porque é uma panela, um grupo alinhado, ou mais ou menos, que freqüenta a mesma praça. Quer entrar? Puxe uma cadeira. Quer fazer parte do cordão? Saia dançando, pegue nas mãos e convide os loucos a dançar. Acredite, pequeno lobo, você sempre será bem vindo, pois voc~e é parte disto aqui, e é inesquecível como sinônimo de um certo tipo de mundo, que sabemos existir, lá, além do arco-íris. Não faltarão vovós de bocas enormes (ui!) sempre bem abertas. Pela estrada a fora, eu vou bem sozinho, levando estes doces para o lobinho. Mas também quero ser a bruxa má do leste, que deseja o sapato vermelho de Dorothy. Te amo, Wolf, como semelhante e te entendo, pois felicidade é conquista interna, quando as chamas dos sonhos e vontades vão se tornando leves. Que a travessia te seja leve. Manda tua foto, que eu publico, com o maior prazer. Todos nós fantasiamos como será teu físico. Alguns se masturbam pensando em ti. São uns deformados, atraídos pelo perigo e pelo perverso. Inté, beautiful....

Estações do Calvário Lacraio! I- Tristinha...


É preciso acalmar os ânimos de meus ciumentos leitores, e apaziguar todos os corações, depois que li a seguinte reclamação:

esse blog é maneiro...mas vcs criam a maior panela. sempre leio e tenho medo de postar e ser esprinafrado..vários postam todos os dias, mas só alguns fazem parte do angu milton cunha. coitados dos outros..
uns só falam e perguntam por alguns..
o saleto grupo é fredi, bana, bia, renata, marcia, samile, mamba .o resto é escoria. tem uns entao q são dignos de pena, por tentar participar e necas...
fui...
TRISTINHA

Tristinha, moun amour (você tem chances de isto se tornar verdade), comente o que quiser, que não será espinafrada ou espinafrado. Até porque aqui não é espinafre, é angu. Grato pelo seleto, que é selecionado mesmo por ter coração engraçado, inteligente e sabedor das mazelas da vida, mas querendo celebrar. Não há escória, nem você nem ninguém o será. Há discordantes, dissidentes, despeitados, enfurecidos, de mal com a vida, sei lá. Mas este é um espaço democrático, e sinta-se bem vindo. Manda uma foto que publico.

Armadilha para turistas!


Me lembro de uma destas invencionices turísticas que caí: sem nada para fazer em Caxambu, eu e os amigos da Unidos da Tijuca, pegamos uma cherrete cujo cocheiro oferecia o ravissante tour para visitar o único galo com chifres do mundo. Pode? Foi um calvário chegar a uma fazenda horrorosa, um galinheiro arrazado e deparar com um garnizé tristíssimo com duas penas protuberantes, talvez coladas, próximas da crina. Quase choramos.

O que fazer, como agir?


No dia da criança, fui à quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel, apresentar pelo segundo ano o Festival do Guaraná, para a molecada de Vila Vintém. Só que achei as atrações meio barra-pesadas, pois, paralelo ao esforço da diretoria e presidência em dar presentes e alimentação, o desenrolar das atrações por mim apresentadas revelava o pior que o Funk ou qualquer movimento cultural pode ter: a agressividade, a revanche, a desforra, o confronto. Eu, alguns pais e mães e algumas crianças, atônitos com a quantidade de palavrões, de coro mandando tomar no c... e perguntando quem era prostituto e piranha ali, até que, inconformado, falei no microfone: “papai, mamãe, converse em casa com seu filho para não dizer palavrões, para tentar tratar seus semelhantes com mais educação e mais polimento, diga à eles que estamos tentando construir um mundo mais solidário e fraterno, uma vizinhança com mais respeito”. Esperei por dois segundo a vaia, que não veio. Muitos país disseram “é isso aí”, “muito bem”, e o mar de aplausos se formou. Nem tudo está perdido, graças à Deus.


Mulheres, primeiro!


Ainda tonto com tanto estímulo, indico para vocês o documentário “Ladies Please”, do GNT. É sobre as duas drags australianas que inspiraram o filme Priscilla, uma inclusive pai de um garoto, fabuloso menino perdido no tiroteio dos adultos. Duas frases para pensar: “Gosto de ser drag, pois a drag ri por último. No final, eles só podem saber o que realmente pensamos, se eles forem uma drag....”. E “obrigado Deus pela maquiagem....”. Leve, profundo, inquietante, denso, pueril, uma bobagem, uma tolice, um vendaval, uma tsunami de informações, um redemoinho, um “Mágico de Oz”. Divino, reconfortante, revoltante, um horror. Tudo aqui, agora, junto e misturado. Assistam. Tomem um engov. Saravá!


Domingo, 14 Outubro, 2007

Nós na fita!


A queridíssima Márcia Helena, bacanérrima, com Milton Cunha, no leque, Samille Divina Cunha, no chanel, e Bia, espremida para aparecer bem na foto. Amo as três, e celebro a amizade com vocês, queridos e queridas


Sábado, 13 Outubro, 2007

Autran imortal....


Vi Paulo Autran em Rei Lear. Ele nos colocou no bolso naquela sessão, como eu penso que ele colocava todas as platéias no bolso. Nada sobrava, nada era demais, tudo preciso, tudo consiso, tudo envolvente. No menos, a glória. Na técnica, a capacidade de repetir sem perder a verdade. E os demais atores flutuando em torno do mito, orbitando na firmeza do eixo gravitacional da força do centro. Órbitas de generosidade, órbitas do domínio de um ofício, capaz de hipnotizar multidões. Cremem o corpo, porque nosos incendiários aplausos, eternos, queimarão como fogo fátuo em nossas lembranças.


Sexta-feira , 12 Outubro, 2007

Que ninguém me ouça....


Nós, que trabalhamos na Cidade do Samba, e passamos lá o dia inteiro, como qualquer outro grupo humano que muito convive, acabamos criando nossos códigos, nossas futricas, nossas fofocas. Um grande grupo de alegres compadres e das alegres comadres. Dos serviços-gerais à diretoria, vamos vivendo com alegria e disposição, em meio àquele eterno clima carnavalesco. Há uma semana atrás, colocaram o Diabo para substituir uma alegoria. Funcionários evangélicos se benzeram, dizendo cruz-credo; outros acharam só uma alegoria colorida, e eu achei que era o auto-retrato daquele que vocês sabem quem é! Diabo na rua, explodiu a caixa de força da Beija-Flor com enorme estrondo, muito susto e muitas faíscas. Minutos depois da aparição do coisa ruim, carnavalizado. Normal. Mera coincidência. Voltamos a vida. Mas a varredora já estava olhando o troço com olho enviesado. Desconfiadíssima. Na mesma manhã, Machine, o funcionário-estrela-dançarino-passista, surge gritando que o matagal do estacionamento em frente estava pegando fogo. Fumacê enorme, corre prum lado, corre pro outro, chamas subindo, superstições crescendo, alguns já até jurando que viram a figura do Demo formada pela fumaça negra do incêndio. Comentamos que não era nada, só coincidência, mas já tinha gente se recusando a passar pela frente da escultura. Ontem à noite, estou eu no palco, eu, Galinha do Arco-Íris enfeitadíssima, clamando pela multidão enfurecida, quando, do alto e das luzes vejo um bombeiro passar correndo, carregando um enorme extintor vermelho. Como aquilo não era um número do Show, e como Carlinhos de Jesus não tinha me avisado nada sobre mudança no scripr do “Cidadão Samba”, logo pensei: “ih, olha ele aí de novo”. Um princípio de incêndio, com a explosão de uma luz. Gritei o meu “saravá”, a platéia respondeu, e partimos, um pouco assustados, para o desfile. Várias garçonetes do buffet tinham se escondido no banheiro, amedrontadíssimas com o sete-peles que teria dado uma piscadela para elas, iluminado à noite , quando fiz esta foto que publico agora. O desfile de carnaval foi passando na frente do Belzebu, e eu gritei para a 12 mulatas que formam a comissão de frente: “meninas, força na peruca, grampo no aplique, e cuidado com os saltos, para não torcer o pé”. Nisto, começam a explodir os fogos, que já explodem da mesma maneira há dois anos, e pasmem: depois da cortina chuva de prata, oito pontos de fogo, sobre a rampa, surgiram, e no chão, no chão, juro, no chão, na estrada, na encruzilhada da cidade do samba, sete pontos de fogo não apagavam jamais. Seu Elmo José dos Santos gritou com os bombeiros por mais um extintor, e eles correram para pegar. Fiquei do carro de som olhando tantos pontos que queimavam intensamente, e olhei o Satanás. Não creio em Bruxas, mas que este senhor já pegou fogo em plena Marquês de Sapucaí, ah isto já. Risos enigmáticos. Folclore do samba. Folclore?


Quinta-feira, 11 Outubro, 2007

Rumo ao Sal.... Com açúcar, com afeto!


Hoje todos de vermelho e branco para aplaudir a final do Salgueiro, e de quebra (ui!) ver o espetáculo desta gente linda e salgueirense (são, mesmo, não caíram de para-quedas). É o show do Carlinhos Coreógrafo, força da natureza, figura queridíssima, totalmente gliter, show e escândalo. Um pavão, um luxo, um esplendor. Estou lá na primeira fila para aplaudir tais estrepolias desta gente bronzeada que quer mostrar seu valor! Sarava, Academia!

Tribos!


Já pararam para pensar que as áreas urbanas das grandes cidades são terrenos selvagens, idênticos à savana Africana, onde manadas nômades se deslocam em busca de sobrevivência, sendo que na espécie humana isto também inclui diversão e arte? Pois é, pensei nisto porque, todo sábado, meio-dia, subo no palco da Praça do Mascate, coração do Saara carioca, e animo os freqüentadores (literalmente o chamado povão), daquele pedaço, quando meus alunos do Instituto do Carnaval recebem escolas de samba convidadas. Já foram a Abolição, a Santa Cruz a União da Ilha e o Boi. Este sábado é a maravilhosa Estácio de Sá e todas as demais virão até fevereiro. E aquela é a tribo do samba, a gente do pagode; e vez por outra vejo que um do funk, se desgarrou de seu grupo e veio parar ali, atraído por algo novo, que não sei bem explicar. Pensemos num grupo de antílopes, pastando, e um zebra, ali no meio deles, como quem não quer nada, a não ser aquela companhia momentânea. As listras pretas e brancas se destacam, ao mesmo tempo que se integram à paisagem. O boné, o óculos, o bermudão, o visual funkeiro está em dissonância harmoniosa com tudo aquilo. Mas assim é a vida, assim é a prática da existência.
Saí às sete horas da noite desta praça do samba, e fui buscar o carro na Gonçalves Ledo com Luís de Camões: foi aí que avistei outro grupo celebrando, outra manada, outra alcatéia! Eram os.... modernos. Existe isso? Só pára efeito de escrever a coluna. Em média trinta anos, misturando estilos, mas todos, absolutamente todos com cara de peido e paisagem. O que significa? É aquela cara de “não tô nem aí para você, você pode ser o que você quiser, que eu não me importo”. E como eu estava vindo de outra matilha, a do Samba, estava de camiseta com orixás bordada de strass, o que não deveria ser apropriado para ali, e sim para a Sapucaí; mas moderno que é moderno aceita tudo, permite tudo, e eu estava deslocadamente dentro daquilo. Também fiz cara de peido e paisagem, e fui entrando, sem saber no quê. Um negro magro, bonito e moderno, dizia frases de efeito, messiânico e revelador: “ame seu marido; ame seu amante...” Gostei. Achei... moderno. “Fé em Deus... Fé em Diabo”. Que ótima frase, esta: parece o Crivella, senador da religião que diz que carnaval é coisa diabólica, mas não perde a oportunidade de ir fazer um comiciozínho para 10.000 sambistas na Quadra da Portela, durante o lançamento da biografia da pecadora e endiabrada Clara Nunes. Leva uníssona vaia, que o imobiliza (graças a Deus!), e depois não sabe por quê! O diabo vaiou o Crivella.
Foi aí, voltando à selva, que entendi que estava na abertura da exposição de um artista modernérrimo, numa galeria de arte modernérrima, sábado à noite, num endereço modernérrimo e esquisitérrimo, como só o moderno sabe ser. Lado a lado com a zona de prostituição da Tiradentes, num antigo sobrado, ergue-se o centro de artes. Sem ser convidado, mas fazendo cara moderna, subi e me deparei com a exposição: qual não foi meu susto em ver as instalações e performances, que no meu tempo eram as obras de arte, mas que a modernidade trocou o nome. Pelo assoalho de madeira, encerado, deslizavam uns defumadores gigantes, em forma de pirâmide prata, que espalhavam um fumacê macumbal por todos os cômodos. Mas podia ser também coisa hindú, pois muito incenso dava ao ar a espessura da fumaça e um cheiro intenso e quase desmaiante. Olhei os robozinhos, que por várias vezes bateram no meu pé, e sozinhos, então, procuravam outro caminho, e pensei que aquela obra não podia estar na casa de alguém da terceira idade, meio cego e sem forças, pois o coitado cairia e se quebraria todo o tempo inteiro, tropeçando nas artimanhas da arte moderna. O cliente teria que estar em perfeitas condições para suplantar o obstáculo. Fui para uma sala ao fundo do casarão, onde encontrei grandes cestos, cobertos de enorme quantidade de arruda, de cabeça para baixo, pendurados no teto, rodando sem parar. Seria um ventilador de casa assombrada, para espantar os maus espíritos? Seria um odorizador de ambiente, cujas folhas poderiam ser trocadas, dependendo do gosto olfativo do cliente? Folhas de lavanda, folhas de louro? Não importava a resposta, fiz cara de peido, espanto e êxtase (todas modernas), e bati em retirada. Foi quando, na entrada, cruzei com jovens americanos, cuja moderna-mor exclamava: “where is the artist?”. Alguém traduziu: “Ela quer ver o artista!” Alguém trouxe o autor, e o rapaz que acompanhava a de língua inglesa, exclamou na língua do Bush uma frase que significa: “você joga um futebol muito bom!” (juro que eu não estava drogado, e juro que falo um inglês razoável). Sinceramente, não entendi o espírito da coisa, mas quer coisa mais moderna que isto? É moderno não falar lé com cré.
Moral da história: paletó mauricinho na Rio Branco, kuarup no Xingu, mulata em quadra de escola de samba, evangélicos, políticos de Brasília, etc: não são os outros que são esquisitos; nós é que não temos espelho em casa.


Quarta-feira, 10 Outubro, 2007

O segundo lugar da louca insana, descabida e incontrolável....


Meu mentor, Doutor Samuel Abrantes, me liga do Fundão e me diz que meu nome saiu publicado, e está afixado na parede da Pós-Graduação em Letras: Doutorado em Ciência da Literatura – Teoria Literária- Segundo lugar:Milton Reis Cunha Junior / Projeto “Faces e Interfaces do Discurso da Escola de Samba” – Nota 9.5 Muito feliz, Samuca me informa que a primeira colocada é uma aluna que tirou 10. Olha aí as poderosas acabando com a cara do povo. Quem duvida que o futuro é delas? Vamos em frente que atrás vem gente. Não sem antes contar para vocês que minha atual leitura é Crítica e Verdade, de Roland Barthes, e este, para responder seu mais feroz crítico, Monsieur Picard, que o acusa de “uma sexualidade obsessiva, desabrida, cínica” (alô, Lacraiudos, isto lembra algo ou alguém a vocês? risos) ele responde:
“não se condena porque pense, mas sim porque fala; é a possibilidade de entricheirar e imobilizar o doente na prática médica, que está em questão. Servidores comum da moral e da estética, se pretendem ponte cômoda entre o Belo e o Bem, discretamente confundidos com a palavra “gosto”, medida que tem a capacidade de fuga de uma miragem; quando me censuram por falar excessivamente da sexualidade, deve compreender-se que falar de sexualidade é sempre excessivo: imaginar, por um simples instante, que os heróis clássicos podem ser providos (ou não) de um sexo. Que a sexualidade possa desempenhar um papel preciso (e não aleatório) na configuração das personagens (...)”.
Portanto, personagens Lacraiudérrimos, avante em nosso sexo, samba e viadagem..... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


Terça-feira, 9 Outubro, 2007

Ela foi a Lacraia Mor! Evoé Súditos Lacraiúdos!


Preparem as produções!



Domingo, 7 Outubro, 2007

Dream-Girls do Samba!


Sempre amei a cantora de samba Cecília (a da esquerda, na foto do grande Diego Mendes), que acompanha todos estes anos de minha carreira no carnaval, os compositores concorrentes de samba-enredo nas disputas pelos palcos das escolas. Até que, naturalmente, comecei a chamá-la de “a bela Cecília” e o cognome pegou até que ela ficasse conhecida como a “Bella Cecília”. Só que este ano, na disputa da São Clemente, ela se superou: arranjou uma partner, tão bela, louca, elegante e perua, como ela própria. Levei meses para decorar o nome da acompanhante: toda noite era a mesma coisa, eu apresentava a Bela Cecília e como é mesmo o nome da outra bela? Vinha a resposta, no palco, na frente da multidão: É Rosilene, Milton, é Rosilene. Pois é, a bela Rosilene foi fazendo dupla com a bela Cecília, até que, no dia da final, me deu o estalo: São as Dream-Girls do samba carioca. Senão, vejamos: mulatas belíssimas, produzidíssimas, com direito a apliques de cabelo abissais, decotes idem, coreografias mirabolantes sobre o tablado, e carisma hipnotizante. Acho que deveríamos produzi-las profissionalmente. Acho que elas deveriam fazer shows nas quadras, acho que elas estão prontas. Só que é um meio muito machista. Só tem espaço para os cantores, as cantoras são tratadas como coadijuvantes, como back-vocals mesmo. Mas vou conversar com as duas belas, para fazer um show. Vocês vêm assistir? Preparem suas produções. Será na Noite de Carmem Miranda, na Quadra do Império Serrano, produzida por meus alunos do Instituto do Carnaval, no dia 14 de novembro, para ajudar a Serrinha a conseguir fundos para seu desfile, já que está apertado de grana para o Império Serrano.


Quinta-feira, 4 Outubro, 2007

Ah, se teu Katmandu fosse na Índia....


Olá Milton!! Primeiramente é um prazer estar lhe enviando este email. Trabalho na India (Mumbai), porém fico um mês lá e outro aqui no Brasil. Descobri em minha ultima viagem que os gays (travestis) tem um lugar específico para ficarem na cidade, não podem se misturar com o povo "normal". E passei por este bairro para fazer minha renovação do visto Indiano, e qual foi minha surpresa? Estavam todas lá, na rua, vestidas lindas com aquelas sarís coloridos e pedindo ajudas nos sinais de trânsito. E a lenda local diz que se vc não cooperar Eles ou (elas) lhe jogam uma praga. (rsrssr). A India é um país fascinante e ao mesmo tempo digno e pena.
Grande abraço!!
Obs: Tive o prazer de passar um final de semana com a Bia e alguns amigos dela na serra. (mas acho que não se lembrará de mim).
Helielson

Oi Helielson. Grato pelo e-mail. Não precisa explicar o que você foi fazer no bairro das travestis. Aqui neste blog cada um faz o que quer, sem dar explicações. Amei mesmo, a notícia da Índia. Agora, tô me remoendo com uma coisa: você e Bia Knor, na Serra, friozinho, vinho inebriante, lareira. Sendo sincero: vocês praticaram sexo? Ela fez a tocha cubana? Era suruba, era? Porque não me convidaram? Para ela não se lembrar de você, só se você não for marcante (ou talvez peru mínimo), porque ela a-do-ra homem. Muito estranho. Leva ela pra Índia. Ela vai adorar ver o Katmandú (ui!). Beijão, super-gato (nem sei se é, mas não perco a viagem).

Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!



No Site Setor1, me espantei com este comentário, na coluna Fala JCN (José Carlos Neto):

(...)Assim sendo, o carnavalesco Milton Cunha foi fundo em seu escrachado humor, no palco do Canecão, por ocasião da apresentação do enredo “O clemente João VI no Rio: a redescoberta do Brasil”. Todos nós sabemos, ele adora uma “pornô-chanchada” no desfile e se não for contido em suas criações, elas descambam, às vezes, para o lado grotesco e até grosseiro. Uma prova disso foi a comissão de frente criada para a União da Ilha, por ocasião do enredo que prestava homenagem ao saudoso Barbosa Lima Sobrinho. Isso sem falar no Nelson Rodrigues que ele fez na Unidos da Tijuca. Lembram?(...)
(...)Ao carnavalesco Milton Cunha só resta colocar o pé no freio. Ele garante que no desfile não vai satirizar ou esculhambar o grande Príncipe Regente e tampouco Dona Carlota Joaquina. Se assim não proceder, a São Clemente corre o risco de não colocar em caixa a verbinha prometida pela prefeitura. Vamos ver agora como a Mocidade Independente, que também está na bica para receber os dois milhões de contos de reais para narrar os 200 anos da chegada da Família Real, vai se portar diante dessa censura real do alcaide Cesar, o nosso prefeito.

Vai aqui minha singuela réplica, torcendo pela tréplica:
Divino decano Neto: eu não fiz, mas teria assinado com muito prazer, Nelson Rodrigues. Quem fez foi o ma-ra-vi-lho-so Chico Spinosa. Errar é humano, kkkkkkkkkkkk. Que bom que dois jurados me deram 10 na comissão das Drags Queens do Lima Sobrinho,na Ilha, que você o-dei-a, o que prova, pelo menos, que grotesco e grosseiro são pontos de vista individuais, e que ninguém detém a patente deles, né? Nem você, Zé. Mais kkkkkkkk. Discordo de que gosto de pornochanchada (Zé, é sem o hífen que se escreve). Acho este hibrido dúbio, e não gosto de mais ou menos. Sou depravado e ponto final. Doa a quem doer. Coloquemos assim que é mais a minha cara: sou chegado ao pornô assumido, te convido até para vir aqui em casa assistir (sozinho, infelizmente não poderei te acompanhar) o clássico “Rosquinhas de Chocolate”. Zé, é maravilhoso! As rosquinhas são.... você vai ver. Mais kkkkkkkkkkkkk. Por outro lado(ui!), Carlos, a-do-ro chanchadas: sou da turma da Dercy e do Dória, e daqui a trezentos anos, dirão que um dia, houve uma louca, na Sapucaí (tomara que lembrem de ti, Zé; mas se for na condição de meu crítico, não quero não, e peço às gerações futuras que não engrossem teu caldo pegando carona no meu. Quero brilhar sozinho, enterrado (ui!) de bruços, para contemplar a tal posteridade. Chega de kkkkkkk agora é gargalhada desvairada. Quanto ao Pé-no-Freio, maravilhoso, im-pos-sí-vel! Minha viatura só tem acelerador, e aproveito para te contar meu próximo enredo, que é justamente sobre caixa e verbinha prometida, assunto que você, graças a Deus não conhece, mas não posso deixar de te informar, mas já te sugiro tomar um lexotan, porque é tipo fio desencapado, mesmo; tipo fogo morro acima e água ladeira à baixo, ou seja in-com-tro-lá-vel. Vamos ao texto do Enredo Nitroglicerina Pura:
“era uma vez um grupo de senhores e senhoras que se achavam donos da verdade, detentores únicos da virgindade (queria dizer cabaço, mas tenho que respeitar os leitores) do samba. Posando de coitadinho e de tradicionais, extorquiam um dinheirinho (neste reino chamado de capilé) dos dirigentes e incautos, para falar bem das escolas de samba e de seus desfiles. Muitos caíam. Muitos questionavam e peitavam. Além disso, como também eram jurados de prêmios dados por órgão de comunicação, pediam contribuições em espécie para fazerem suas festas de aniversário, seus batizados (e que pena, jamais seus enterros), e prometiam que olhariam com bons olhos tal e tal quesito do prêmio. Tinha até a Maria Patuá, muito amiga do Mané Capilé (ou Mané Caraminguá, como queira), que matava uns bodes e umas cabras, nas quadras, em troca de dinheirinho. Eles prestavam tanto quanto a bicha carnavalesca, apedrejada e nenhum pouco santa, verdadeiramente pecadora e exagerada, que só queria aparecer (verdade verdadeiríssima, poderia dizer, assumidíssima). Ou seja, eles não valiam nada, tanto quanto a bicha. Poderíamos dizer que os telhados de vidro eram incontáveis, e que já estava mais do que na hora da bicha silenciosa contar o que viu e ouviu nestes 14 anos de reino da folia.

Gostou do enredo, Zé? Chama-se “Acelera, Milton Cunha”.
Bom carnaval pra vocês também!

Deusas da Canção....


Meu amor, deu babado! O tempo fechou no lançamento do livro Clara Nunes, Guerreira da Utopia, do jornalista Vagner Fernandes, no Programa Sem Censura, anteontem à tarde. Leda Nagle ia começar a entrevista, quando Alcione, engasgada, prestes a ter um troço, desabafou o que não podia mais ser guardado: “preciso defender Clara, que está morta e não pode contar como foi. Mas eu estou vivíssima e posso garantir: ô Bete Carvalho, tá na hora de você usar uma pulserinha de desconfiômetro, pois não é verdade o que você declara no livro, de que a Clara se apoderou do estilo que foi criado para você. Não é verdade que os vestidos brancos e o cabelo vermelho, era um visual para você Bete, e que ela roubou. Vai dormir com um barulho deste! Eu estava lá, acompanhei tudo isto, e Clara já usava este visual muito antes de você”. Como é de costume, para uma das mortas mais vivas do Brasil, referência de estilo, maravilha de carreira e inesquecível no coração de tantos fãs, a deusa dor Orixás estava lá, fazendo a terra tremer, marcando presença mesmo sem corpo presente. Outra coisa eu não esperava de Clara, só isto: ser o olho do furacão. O autor me explica a importância do grande radialista Adelzon Alves na vida de Clara, a estruturação da carreira, as apresentações para o mundo do samba, a incorporação do visual afro; mas o que me intriga e seduz, o que eu queria ter vivido, o que eu queria ter participado, era dos bastidores da vida artística tendo estas três estrelas, de igual porte, carisma e glamour, nos tempos de juventude, belíssimas, transitando de um lado para o outro, como se fosse muito normal ter três cantoras do quilate de Alcione, Bete e Clara, da mesma idade e mais ou menos da mesma proposta artística, flanando pelos programas e teatros da vida. Na verdade, elas reencarnam o mito das três mulheres de Xangô: a coquete, jovem e enfeitadíssima Oxum, cujos dourados nos enlouquecem; a decidida, guerreira e tempestuosa Yansã, cujo grená é impossível não ver; e a sábia, experiente e cautelosa Obá, cuja história de vida a credencia à passos mais certos, o que muito nos seduz. Três Deusas, três firmamentos e o Xangô que o destino as deu: a canção, a carreira artística, o público, o estrelato, o brilho da ribalta, o samba, o Brasil. Claro que sai briga. Claro que dá babado: imagina se três mulheres poderosíssimas não iriam se enquizilar umas com as outras, se isto seria um mar calmo? Bobabgem, é maremoto, é tsunami, e só nos resta aplaudir o legado de uma, e a fulgurante magnitude das duas sambistas que estão aí, lindas, louras e japonesas. Três brasileiras bacanérrimas, três vaidades, duas versões do mesmo fato. Portanto, às favas com a realidade, imprima-se a lenda, divulgue-se o mito. Marlene e Emilinha estão de volta, com a força do espontâneo, pois não agüentamos mais este mundo pré-fabricado de cantoras que não fedem nem cheiram, um mundo branquelo, anoréxico, que parece prestes a desfalecer. Sugiro que dêem caldo de mocotó para estas novas meninas que cantam, engordem as gazelas, para que a verdade que sobra nestas duas senhoras as contaminem. Salve Clementina, salve Elizete, salve Dalva, salve Jovelina, salve Ivone Lara, salve as empregadas domésticas que cantam com o pano de chão, salve as perucas de canecalon, salve as fofoqueiras das portas dos cortiços, que aumentam mas não inventam. Admiráveis mulheres que preparam o melhor feijão, só melhor, porque acompanhado de disse-me-disse, de roda de samba em volta do fogo.

Coisa Fina, finíssima....


Após o autógrafo de Marta Medeiros no novo livro de crônicas, subo com as amigas para jantar no restaurante metido a besta, coisa fina (risos), do segundo andar da livraria da Travessa, em Ipanema. Tudo muito bom, tudo muito bem, até que chegam nossos pratos: risoto de não sei o quê com não sei o quê, com bife de não sei o quê, que no meu tempo era bife à milanesa, mas que agora, nestas escalafobéticas cozinhas, viraram outras coisas. O cheiro do prato não agradou minha famosa amiga que colocou um pouquinho na boca. Ela me manda: “prova o teu!” Provo: o horror, o gosto de passado, o gosto de podre, o gosto terrível de azedo com requentado. Nada de mais, todos podem errar, se não fosse o resto da história: “Garçon, queremos devolver, está passado....”. Ao que a criatura retruca: “Não é verdade, é que o senhor não está acostumado com o gosto destas finas ervas com....” Será uma pegadinha? (penso num átimo de segundo); estou na novela de Braga e Linhares, estou na cena do restaurante do chef pedante, e já que sou Tony Ramos, encaro o script sem problemas: “estou acostumado sim, garçon, você não faz idéia das coisas que já coloquei na boca durante minha vida, querido. Cada coisa que até Deus duvida”. “É que nosso chef cozinha com um vinho....”. “Que dá gosto de podre nas misturas. Se não devolvo Antiquarius, se não devolvo Claude Troisgos, talvez fosse melhor se vocês trocassem este que se intitula Chef, por uma boa quituteira baiana...”. Nisto, uma mulher de cabelo vermelho (que depois me disseram ser a organizadora da noite brasileira em Montreux), entrou no babado: “ontem eu devolvi meu prato. Estava ruim!”. Aí uma senhorinha, três mesas depois, voz fininha, completou: “e minha amiga devolveu semana passada o dela, que não estava próprio para o consumo (quanta finesse, eu não sou fino!)”. Antes que a quarta reclamasse, bradei: “isso é que dá tanta gente não estar acostumado com a podridão da nouvelle cuisine!” E mais não foi dito!



Quarta-feira, 3 Outubro, 2007

De novo a vaca!


No Jóquei, lugar de cavalos, foi lançada a Parada das Vacas, cuja vaca Baiana dos meus amados alunos se chama “O Bloco da Vaca”, algo muito bem vindo aqui neste alucinado e desvairadíssimo blog. Na foto, meus três amados alunos, autores da baianíssima: Cremilde, a maravilhosa, Zé Antônio, o gostosão e John Michael, que precisa pedir um DNA pois pelo nome e pinta, deve ser filho de Michael Jackson. São uns amores, os três, e muito nos orgulhamos deste começo de carreira fulgurante. Que venham as vacas! (Ui!). Se vier junto uns veadinhos, eu agradeço.....

Este estranho mundo....

I
Intrigado porque ele me olhava intensamente, desde que começou o fervo na praça do Mascate, levei um copo de refrigerante e o ofereci para tão dinástica figura. Ele aceitou e disse: preciso falar com você! Eu respondi: aproveite agora e fale!. “Você é do marketing?”, me perguntou ele. “Mais ou menos. Podemos dizer que sim”, respondi eu. Ele então concluiu: “preciso de alguém do marketing para divulgar o meu problema: eu já ganhei na justiça o direito aos meus remédios, só que mesmo assim elas não me entregam os remédios”. Estranho Município, estranho Estado, estranho País que faz isto com seus filhos.