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Milton Cunha

Quinta-feira, 29 Novembro, 2007

Para o leitor Cláudio


Recebi este Post, que já esperava, e só tenho a agradecer ao leitor Cláudio. Em consideração, vai aqui a resposta explicativa de meus atos:

Sem censura-FALSO?
A meses atrás o colunista Milton Cunha, postou uma msg de repúdio a declarações de Chico Anísio.
Milton Cunha pegou pesado e meteu o "pau" no humorista da globo.
Neste dia no Sem Censura, o colunista morreu de amores pelo Chico;quase se ajoelhou e beijos os pés?
Difícil de entender, aliás impossível.
Claúdio
Qua, 28 Nov 2007 22:49:41 GMT

Cláudio, eu meti o pau no homem, e não no artista. Só é impossível de entender se você achar que por trás de tanto talento como ator, não existe um homem, que por ser humano como todos nós, é contraditório e comete injustiças. Mas que isso, as merdas que a gente faz como humano, não anula o talento e a qualidade de nossa produção artística. Vamos às explicações: amo, adoro o ator Chico Anísio. Acho-o um dos maiores do mundo. Ele faz parte do meu repertório emotivo das lembranças infantis de admiração de um grande homem, que conseguia ser vinte em Chico City. “Isto é muito bom, isto é bom demais...”. Diante dele, ontem, e como não sou dono do programa, não estou lá para polemizar ou trazer minhas opiniões pessoais à baila (a menos que a amada âncora o solicite), representei os milhões de brasileiros que admiram o Chico. Elogiei a obra e a carreira, que aliás são inatacáveis, não é? Na minha coluna, no meu espaço, na minha casa, com os gays, que são minha tribo, aí sim, eu alerto que, apesar da grande obra, e da profunda admiração que tenho por ele como ator, acho-o como humano, preconceituoso, reprodutor da moral ocidental, e o que é pior, só no que se refere ao outro, aos gays, mas que quando o assunto é a folha corrida dele próprio, aí sim, ele não fez nada do que esta moral que ele defende manda. Num humano capenga, como eu e você, o talento extraordinário que o retira da multidão (neste caso, não mais como eu e você). O mais intrigante, Cláudio, é que ele é um artista que deveria ter o espírito liberto. Mas aí a gente vê que ser artista não é passaporte não, aliás, nenhuma profissão ou ocupação é passaporte para nada. Sabe, Cláudio, eu sofro o inverso disto que te contei sobre o Chico. Por ser um artista espalhafatoso, gay assumido na televisão desde os anos 80, muita gente não consegue ver talento no meu trabalho, pois odeia tanto a caricatura de mim mesmo que uso e vendo para ganhar dinheiro, que às vezes acho que muitos sequer olham minha proposição, me odeiam e ponto. Resta a pergunta, para você em especial e para todos os blogueiros: é possível amar a obra de um artista, mesmo discordando de suas posições pessoais? E pior ainda: Mesmo discordando do Holocaustro, é possível admirar a obra dos artistas que o apoiaram (aí eu sei que é mais discutível, pois não eram só opiniões, eram mortes em grande escala). Mas também não sou bonzinho não, sabe Cláudio. Faço cada merda que dá gosto: outro dia, aqui no Blog, caí de pau em cima da Rainha da bateria da Mocidade, a bela Tatiana Pagung, e cometi uma grande injustiça, destas que vou levar anos para reparar. Acusei-a de uma coisa que ela não fez, atrapalhar a exibição do primeiro casal de mestre sala e porta bandeira, o que não ocorreu. Quem atrapalhou foi o cantor. Como não me acho o rei da cocada preta, como me acho contraditório, difícil e complicado como todos os outros seres humanos da face do planeta, aí fica fácil ir tacando em frente, com erros e acertos. E isto também me ajuda a aceitar a limitação do Chico Anísio. Percebendo minha própria limitação. Todos queremos ser amados. O problema é que a gente acha que só nós queremos isso, que nós somos capengas e os outros são inteiros. Todos são capengas, querido Cláudio. Até os gênios, que como nós, peidam, suam e sofrem de amor. E são intolerantes, em alguns aspectos. Estou a sua disposição sempre, continue me vigiando, amado leitor Cláudio, continue me cobrando explicações, que elas sempre virão. E te respeito se discordares, educadamente de mim. Adoro a diversidade, adoro as várias formações, e acho algumas burrinhas, burrinhas. Mas não quero que ninguém morra, quero que todos cresçam.
Do seu, Milton Cunha.

Vergonhas de uma nação!


Segue o raciocínio: espancou porque pensou que fosse prostituta; prendeu na cela com homens, porque a menor era beleléu e disse que era maior; roubou e provocou a morte do turista porque o corpo estava possuído por uma “legiao”. Sacou o lance? O culpado são os outros, nunca nós. A empregada doméstica que grite que não é prostituta, os diabos que saiam deste corpo que não lhes pertencem, a presa que diga alguma coisa. O problema do mundo não somos nós, são os outros. O inferno é o outro. Eu sou anjo. Eu não tenho culpa, eu entrei de gaiato na estória.
Colocar a responsabilidade fora de nós parece ser o caminho mais fácil e mais usado. “Fora” é a máquina estatal; a rede desumana da pouca atenção que pais dão aos filhos; religiões oportunistas que se julgam hábeas-corpus para delinquentes. Ta difícil, mas vamos conversar sobre tudo isto.
Comecemos com a triste estória da menor paraense e suas quatro tias desalmadas: uma Governadora que sempre soube que mulheres dividiam celas com homens (falando sério, estou preparado para ouvir a seguinte explicação: mas as mulheres, com o feminismo, não queriam ser tratadas em iguais condições que os homens? Taí, agora elas conseguiram a mesma cela...); uma Secretária de Segurança Pública, ex-presidente da associação de direitos humanos (já estou até vendo a seguinte explicação: o sexo é um direito que deve ser exercitado dentro das celas....); uma delegada que encaminhou a menina para a cela dos 20 homens (aguardem que vem aí a pérola: Chapeuzinho Vermelho não enfrentou o lobo-mau, porque esta não enfrentaria os 20 caçadores?); e por fim a Juíza que recebeu os ofícios sobre a “custodiada” (interessante os termos em juridiquês, que anulam a humanidade, ou desumanidade, que está por trás de suas palavras, pois custodiado é um objeto sem afeições, sem coração e mente). Quatro fêmeas manda-chuva, engolidas pela trituradora que só fala por documentos, que só decide com quatro ou cinco assinaturas, incapaz de gritar a urgência da situação. Mas estou sendo preconceituoso, estou usando o sexo delas para me espantar, quando autoridade não tem sexo, tem é comando. E fizeram com a menina o que não gostariam que fizessem com suas filhas. Zero para as quatro incompetentes.
Viram a cena do Pastor 171 levando o delinqüente até a delegacia? Impagável, imperdível, espetacular. A primeira providência do pregador foi dar um banho de loja no ladrão: penteou-lhe os cabelos no estilo evangélico, abotou os botões da camisa de manga comprida até o pescoço, quase enforcando o cara, botou calça, cinto e camisa para dentro, sapato e meia, bíblia embaixo do braço, e apresentou-o como um troféu da ressurreição, a imagem do bom cristão. Sem esquecer que a cor escolhida para a vestimenta foi neutra: o cinza discreto, respeitável, de homem do bem. Nada lembrava o bermudão multicolor, sem camisa e descalço do visual do ladrão que estamos acostumados a associar ao rato de praia Na sociedade do espetáculo, até foragido da lei tem que pensar na aparência. Aliás, o pastor era melhor personal-fashion que pastor. Deveria abrir uma consultoria de imagem. E quando o pastor abriu a boca na delegacia, fazendo o delegado e os plantonistas ficarem de queixo-caído? Nem Jânio Quadros faria melhor! Ouve esta do Pastor: “quando a legião deixou o corpo, o corpo foi até o meu gabinete e implorou ajuda”. O corpo em questão era o do assaltante, que matou o turista embaixo do ônibus. E notem que não é mais a possessão de um espírito maligno, na semiologia das modernas palavras de pregação, trata-se do uso do termo “legião”, que fortifica mil vezes mais a possessão, pois o corpo luta contra um exército do mal. Impressionante. Quanto à sala do pastor, não é escritório, não é saleta, não é compartimento, não é nada, é gabinete. Palavra séria, respeitável, que nos remete direto à Brasília e seus gabinetes de políticos. E mais não foi dito, só algemado. Mas estou sendo preconceituoso, estou usando a religião deles para me espantar, quando crime não tem religião, tem é fora-da-lei. E fizeram com o turista o que não gostariam que fizessem com seus filhos. Zero para o pastor.
Tiro de misericórdia: “meu filho é uma criança, que está cursando a universidade, pensou que fossem prostitutas e errou”. Filhos que refletem a cabeça dos pais, filhos que acham que podem, se o outro humano for isso ou aquilo, decidir por seu espancamento. Se forem pretos, se forem japonês, se tiverem mais de 50 anos, se pesarem mais que 100 quilos, se forem judeus, se.... se.... se.... Se forem índio!
È para ti, Galdino injustiçado, índio queimado em praça pública. Tu, morto em brincadeira pelos que te imaginavam mendigo, e estão livres, tomando chopinho em bares da capital. Tu, primeiro habitante de uma nação de prostitutas e mendigos, chafurdada no non-sense de que vocês podem apanhar, queimar e morrer. Tu aborígene virado carne viva, bolhas de queimaduras de primeiro grau. Tu, filho da inconsciência, tu exemplo da mortandade passada em branco. Tu, mártir dos mártires de todos nós, brasileiros, assolados pelas loucuras desta terra varonil, vergonha que se pretende Nação....



Quarta-feira, 28 Novembro, 2007

Eu, batata!


Há um rapaz, leitor deste blog, que fantasia comigo. Ele gosta do Batatinha e quer que eu me pareça com ele. Como eu acho o Batatinha o má-xi-mo, e posso ser todos os homens e mulheres e animais e personagens que meus fãs desejarem, assim o faço: apresento a montagem onde provo e comprovo que sou a cara, o corpo e o loooosho do Batatinha. Esta é para você, amado leitor tarado, que fixou sua pulsão sexual, sua libido, nos quadrinhos de sua infância. Agora, se me chamar de Maga Patalógica meto (ui!) a porrada! Olha o respeito. Ass: Pateta!


Terça-feira, 27 Novembro, 2007

Putz....


Enquanto o pseudo-intelectual Diretor do Instituto do Carnaval da LIESA/Universidade Estácio de Sá não consegue ver dignidade no uso do linguajar popular no enredo histórico da São Clemente, o consagrado crítico João Pimentel, do Globo, escreve em sua análise sobre o samba-enredo: "A São Clemente vem com dignidade para tentar se manter entre as grandes escolas”. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Eu não disse? Nesse mato tem coelho.... Falta vínculo sambístico para este sambista de gabinete.


Segunda-feira, 26 Novembro, 2007

Arrasou Tijuca!


Meu Deus! Qual não foi minha surpresa ao ver toda a Diretoria de Harmonia da unidos da Tijuca, ensaiando na Av. Venezuela, na quinta que passou, toda ela patrocinada pela.... SAUNA GAY POINT 202. Moderno, abusado, visionário, debochado, irônico, incomodador, este é Fernando Horta, Presidente Português que a-do-ra uma polêmica. Não é o máximo? Que outro presidente faria o mesmo? Nem em sonho. Fernando Horta está com tudo, nem que seja na loucura. Decreto Fernando Horta o preferido pelos gays do Carnaval Carioca. Se isto não bastasse, ele é um tesão de cinquentão. Haja viagra.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Apetrechos tijucanos!


Aliás, soube que o negão gostosão Macula, marido de minha amiga Gata, que é da Harmonia da Tijuca, e é vendedor de produtos de limpeza, tem esta sauna como Cliente. Heterossexual convicto, não achou nada de mais no pedido dos clientes gays para que ele dançasse no queijo reservado ao Go-Go-Boys, durante uma de suas visitas para vender (ui!) apetrechos de limpeza.... Fez um sucesso e perdeu o celular, não se sabe em que condições de temperatura e pressão. Mas no dia seguinte a sauna fez questão de devolver-lhe o.... (ui!) apetrecho..... Coisas da vida!

Salve Bete Carvalho!


A deslumbrante Bete Carvalho, no Canecão, recebendo os aplausos e a fina flor da Bahia: Riachão, Margarete Menezes, e uma Oxum que esqueci o nome mas que se tornará famosérrima no Brasil inteiro, pois grande cantora é. O samba de roda baiano é homenageado por La Carvalho, e o Canecão delira com tanta qualidade. Sarava, Bete, você arrasou!

Iguais!


Eu e meus amados semelhantes.... No show, no palco, na diversão... Reparem a cara do menininho em primeiro plano, fazendo careta para a lente de Bia Alves... Aliás, fotógrafa digna de Fatumbi....


Sábado, 24 Novembro, 2007

Esse blog só fala viadagens e carnaval! kkkkkkkk


Deu Vila Isabel no Concurso de Miss Gay Cidade do Samba/Farias Bar, um concurso não oficial, da pá virada e do barro remexido, que os funcionários dos 12 Barracões fazem comigo, no meio da rua, uma loucura. A passarela era a carroceria de um caminhão, e eu me senti mambembe em Bye, Bye Brasil! Candidatas, ou cão-didatas hilárias e inacreditáveis. Tudo de bom, e nada, nada como o povão. É a glória, é o máximo. A vencedora é a loura de sainha e top rosa. Já a negona de vermelho é Miss Salgueiro, segunda colocada, cuja performance abalou: entrou de maluca na praia, atrás do guarda-sol virou mulata e saiu sambando na areia da praia. Aplaudidíssima. A terceira foi a horrenda Joelma do Calipso, candidata da Beija-Flor, que levou a platéia à loucura com sua paródia da cafona cantora paraense. O outro sou eu, que já me coroei, porque não sou bobo nem nada, adoro uma coroa, adoro uma coroação. A outra é Samylle, eterna Musa Gay de todos nós, Rainha em nossos corações e mentes. Inesquecível.


Quinta-feira, 22 Novembro, 2007

Um assalto mequetrefe!


E já que fui abandonado pelas autoridades de segurança de meu país, estado, cidade; entregue às própria sorte, mesmo; e não me custando nada partir para a sacanagem, pois já me custou as jóias, seria cômico se trágico não fosse; e se eles que recebem para isso não estão preocupados, porque que eu cortaria meus pulsos, choraria ou me revoltaria? Eu não! Eles que morram do coração com o deboche de todos nós, que temos a obrigação de sobreviver a tais presidentes, governadores, prefeitos, fazendo o maior barulho. Pois eu, estrela de mim mesmo, protagonista da galhofa nacional, sofri um assalto mequetrefe, nem um pouco a altura de meu glamour. Para mim, assalto que se prezasse, e que a gente depois pudesse contar publicamente, teria que ter helicóptero, pistolas prateadas e marginais que despertassem em nós paixões inesperadas. Portanto, se arma bonita é a versão psicanalítica do pênis, e se a Síndrome de Estocolmo é coisa para sueco, só me restou sentir o Complexo Tupiniquim, novo conjunto de conceitos que designam uma perturbação psicológica típica dos cariocas que, como eu, estão decepcionadíssimos com os assaltos fuleiras, coisa de terceiro mundo, mesmo, aos quais fomos submetidos.
É que os marginais não têm mais a liturgia do cargo, nem se dão ao trabalho de dizer “mãos ao alto!’, são uns mal-educados que não dão a deixa correta para que possamos continuar a cena rumo ao clímax. Estou decepcionadésimo com meu primeiro assalto, pois, como o sutiã, esperei por ele anos e deu no que deu (sem duplo sentido).
Semana passada, rumo à TVE para participar do grande prazer intitulado Sem Censura, três da tarde, sinal da Mem de Sá com Inválidos, o sinal fecha, uma van é a primeira da fila, sou o segundo carro e atrás de mim uma fila imensa de automóveis. Gente para tudo que é lado, quando algo, alguém, uma coisa dura (ui!) bateu com muita força no vidro, prestes à quebrá-lo. Sequelado, disse para mim mesmo: gente, que coisa pouco educada! E ao olhar o que provocou tamanha grosseria, percebi o esquálido mulato, cara de fuinha no que sobrou de seu semblante dentro do capacete de motoqueiro, e sobre uma moto zero cilindradas, o lambisgóia, me apontando o mais caído dos revólveres (tipo espoleta) anuncia, em voz fina e ridícula: baixa o vidro. Pensei que não deveria fazer como o William Bonner, que desafiou o ladrão, e ainda impressionado com a feiúra e falta de avanço tecnológico do revolver, velho e de metal fosco escuro, fiz o que o horroroso e desprovido de sex-appeal assaltante ordenou. “Pulseira, relógio, anel... Rápido, rápido, antes que eu estoure os teus miolos”. Enquanto fui tirando tudo, o gatuno olhava rapidamente para a frente e para trás, para checar se os milhões de transeuntes fariam algo. Quase que eu disse: olhar pra quê, amorzinho? Ninguém tá nem aí, quem vai perder tempo com um roubo sem catiguria! Sem contar que achei um vexame a possibilidade de meus pedaços de miolo ficarem espalhados por aquelas calçadas e asfaltos sem pompa e circunstância. Imagina, meu carro e minha roupa todos sujos de sangue? Nem estava usando cor que combinasse com vermelho. Não dá, né platéia?. “Abre tua carteira e passa o dinheiro. O dinheiro, anda, rápido, rápido...” Larguei meu celular de 3 mega bites de memória, peguei a mochila de última geração italiana, abri a carteira Hugo Boss, e exibi o compartimento de dinheiro. “Todo o dinheiro, todo, me dá todo....” Vendo que ele não era uma vítima da moda, como eu, que ele não ligava pára minhas grifes, e já percebendo que o lap-top não era de seu interesse, pois a inclusão digital ainda é lenta, neste país, juntei todas as notas e entreguei-lhe, quando neste momento senti sua mão gelada. Enquanto ele guardava todo o roubado em sua mochila, que não estava nas costas e sim no peito, eu disse: “agora vai, moço...” Pode? Nem Madre Teresa de Calcutá faria melhor ou pior. Desde quando vítima dá dicas para assaltante? Na verdade, eu queria é que ele fosse logo embora, pois eu tinha muito medo de que um João Valentão aparecesse, quisesse tomar as minhas dores, e começasse um tiroteio. É que nos meus sonhos, o primeiro assalto não acabaria em morte. Já estava de bom tamanho meu sofrimento, quando o mequetrefe larápio mandou-me partir sem olhar para trás, o que fiz, mas olhando pelo retrovisor e vendo que ele permanecia parado, esperando o próximo carro, mas toda a fila de carros não andava de jeito nenhum.
Não sei mais o que aconteceu, cheguei ao estacionamento público, e contei o ocorrido para os manobristas, que me disseram que todo dia é a mesma coisa, que estes assaltos são tombados pelo patrimônio público ali do Centro. Dão mais que xuxu na serra, são mosca de padaria, arroz de festa e a coisa mais sem graça de tão repetitiva. Um fracasso de público e crítica. Fiquei indignadéerimo, pois eu sonhava com um furto exclusivo, assalto raro, sem a possibilidade da vulgar repetição.
Para a falida saúde pública, quem pode que adquira um plano de saúde. Como planos deste tipo não existem para a falida segurança pública, o jeito é pedir emprestado os seguranças que escoltam as autoridades, Protegem, e me renderiam bons amantes.
Ah, sim: não, não quero pena de morte, não quero que o motoqueiro seja eletrocutado, não acho que todo mulato é mau-caráter, que os pobres, negros e favelados são a doença do país. Em frangalhos, com minhas carnes trêmulas, continuo achando que a ausência das benesses do Estado, como educação, saúde e saneamento, provocaram esta situação. No dia em que a população menos favorecida for favorecida, as coisas vão melhorar. Esperava um assalto James Bond, deu Mazaroppi na cabeça. De quinta, aliás, como esta coluna.


Quarta-feira, 21 Novembro, 2007

Há muito tempo, nas águas da Guanabara!


Enfim, vai ser inaugurada a estátua do Mestre Sala dos Mares, o divino João Cândido. O mais hilário é que esta escultura não encontrou logradouro fácil, pois a Prefeitura do Rio achou que ele não tinha condições estéticas de figurar em praça pública. E pouco importa a beleza da alma, dos ideais, e mesmo a identidade física da negritude... Todos ao Museu da republica....

Dia do maravilhoso Zumbi!


Adorei na cerimônia do Dia da Negritude, o Governador Cabral anunciando que a História da África será conteúdo programático obrigatório nas escolas do Estado. Disse ele: além de História de Portugal e da Europa e das Américas, nossas crianças se orgulharão da história do Continente Negro. Saravá!

Mais indignação sobre as pérolas do.... macabro!


Mais protestos sobre a pseudo-erudição, cuja vítima maior é a alegria do Carnaval. Quem escreve é o Primeiro destaque da Mocidade Independente de Padre Miguel, Maurício de Paula:

Jamais! Um coordenador do Instituto do Carnaval poderia tecer tais comentários sobre nossos artistas da cultura popular...Do mesmo modo em que reclamou das letras,foi infeliz no modo de dizer de criticar.Acho até que seja algo pessoal e, não à agremiação...

Olha! Senti-me como no Teatro Municipal de São Paulo em 1922...O que diriam nossos modernistas? Ficariam estarrecidos com tais comentários e diriam:
- Porra!Lutamos em quebrar barreiras, mesmices,valores...e, em pleno século XXI, encontramos "ISSO"?...

• “Letra pobre, com imprecisões históricas, gírias descabidas e pretensiosas. O que é “fechou geral” num enredo histórico? E “Maria Louca ´arrazô` no visual”?”
• “O erro começa no enredo. É difícil fazer bom samba sobre a história do gás. É tirar leite de pedra. Samba pobre e arrastado...”
• “A melodia, em certos momentos, lembra a do samba do ano passado, que foi composto pelos mesmos autores. Apesar disso, e de algumas palavras soltas, sem concatenação de idéias, sem tornar claro o enredo um tanto confuso.”.

Pensei que o samba enredo se resolvesse na avenida com o cortejo carnavalesco, ou seja, o desfile...É ASSIM, ENTÃO, EU POSSO SER JULGADOR DO QUESITO EM QUESTÃO E NÃO IR À AVENIDA, BASTA COMPRAR O CD...E FAZER O JULGAMENTO EM QUALQUER LUGAR...E ENVIAR PARA A LIESA...É PIADA...SÓ POSSO CRER NISSO...

A SORTE É QUE TIVEMOS AULA NO INSTITUTO DO CARNAVAL, COM PROFESSOR VICENTE, QUE NOS ENSINOU QUE NÃO É NADA DISSO...SALVE SÃO VICENTE A PRIMEIRA CIDADE DO BRASIL...É HISTÓRICO...RSRSRSRSRSRSRSRSRS...

"O convite de Foucault é que, através da investigação dos discursos, nos defrontemos com nossa história ou nosso passado, aceitando pensar de outra forma o agora que nos é tão evidente. Assim, libertamo-nos do presente e nos instalamos quase num futuro, numa perspectiva de transformação de nós mesmos. Nós e nossa vida, essa real possibilidade de sermos, quem sabe um dia, obras de arte ou quem sabe? Professores de universidade”.
Chega! Cansei... Apenas...decepção!
Ass. Maurício de Paula, professor e ex-aluno do Inst. do Carnaval.

Cade vocês....

Estou no Centro Cultural Banco do Brasil. Sou o mediador da mesa Preconceito e Hip Hop.
Nenhum Lacraio na platéia. Solidão.
Cadê minha clack
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


Terça-feira, 20 Novembro, 2007

Idéias de Bia Alves, a caridosa.....


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
Chaplin / O grande Ditador

Ah, sim. Peguei amizade com o delete. Estou deletando a maldade. Beijos. Me liga


Segunda-feira, 19 Novembro, 2007

Eu vi a Mangueira entrar!


Depois de ter subido toda a ladeira com a Mangueira desfilando, a maioria do tempo ao lado da bateria, mas tendo dado fugidinhas para beijar a bandeira de Marquinhos e Giovana, na cabeça (ui!) da Escola, e tendo ido até a última ala para beijar a destaque Tânia Índio do Brasil, quase chegando no Palácio do Samba fui puxado violentamente pelo braço: era Belo, o cantor quem me vira na multidão e resolvera me catapultar para a categoria “dentro do curral do Ivo e Gracyane". Belo gritou aos seguranças: “é o Milton, ele pode....”. Eu sissi, quer dizer missi, que dizer, veado mesmo, cumprimentei o cri louro e abracei a gostosona: seus peitos são duros como dois abacates suculentos. Eu sussurrei-lhe no ouvido: “bicha, um peito é um peito, que é um peito. O resto é estória...” Ela, simpaticíssima e gostosérrima, caiu na gargalhada e caímos no samba. Fui madrinho da bateria da gloriosa Mangueira por dois minutos. E foi ótimo.
Chega de palhaçada, hora do sério, seríssimo: fui para ver um ensaio, e vi um espetáculo. Da partida ao final, que show meu Deus, que show! Ivo Meireles repaginou a dura bateria e conferiu-lhe uma modernidade, uma soltura e uma leveza que é um torpor quando somado à força humana, energia concentrada da Estação Primeira. Convenções rítmicas endiabradas, a bateria abre, passa de um lado a outro, levanta tambores, enfim, apronta misérias, estraçalha a concorrência, e mostra que vem para a luta com um plus, algo inesperado. Se antes era só a força da escola, agora tem show descoladésimo da bateria, que é um assombro. E é aí que ninguém segura este rolo compressor: não tem estrela certa, ela vai passando a triturando todos os corações, que só aplaudem e aplaudem e aplaudem. Estou impressionadíssimo, e parabenizo Ivo pelo borogodó da renovada Bateria da Estação Primeira de Mangueira. Creio em Deus Pai Todo Poderoso! Vejam, para crer!


Domingo, 18 Novembro, 2007

Divina esta opinião!


Publico só a parte final da resenha de Luís Carlos Magalhães, que não conheço, mas que transborda emoção e verdade em suas palavras sobre o mundo do samba. Nenhum outro jurado chega à metade de sua profundidade, coerência, amor e consideração sobre os sambistas compositores. Leiam este pedaço, mas leiam tudo na página do julgamento, é di-vi-no! Aliás, vou pedir que meus alunos do Instituto do Carnaval o leiam (risos). Quem sabe isto não aplacará nossa vergonha.... (Mais risos)

É muito bonito nos sambas quando a comunidade da escola fala de si própria. Fala de suas coisas, de sua história, do orgulho de suas cores. É esse o momento maior deste samba e desta safra. Isto porque, neste caso, a escola assim procede, exalta-se a si, em absoluta harmonia, absoluta coerência e absoluta fidelidade ao outro enredo sendo desenvolvido, em um primoroso jogo atemporal de palavras, de significados, de fatos, sobretudo de lugares e pessoas com mesmo nome, utilizando um pequeníssimo espaço para contar que a nossa Maria, a “...Leopoldina será nossa Imperatriz” (aqui com duplo sentido o nobiliárquico e o da escola de samba), e que ela Leopoldina ...” - a Imperatriz – “... será também nome de trem...” - ramal da Leopoldina – “... que passa em Ramos a nossa estação ...” por onde passa o trem que vai parar na “...estação do coração...” a estação da gloriosa Imperatriz Leopoldinense, que fica em Ramos, a estação que no carnaval se transforma em Império, no Império da nação leopoldinense “...onde imperam milhares de Marias e Joãos”.

Pérolas de Bruno Filippo!


Bruno Filippo é mais incisivo: " Letra pobre, com imprecisões históricas, gírias descabidas e pretensiosos. O que é "fechou geral" num enredo histórico?", questiona.

Resposta ao questionamento:
Respondendo a sua descabida pergunta, gírias contemporâneas num enredo que narra um conjunto de acontecimentos históricos ocorridos há duzentos anos, mostra o ponto de vista de um narrador que está narrando uma história passada, mas com o linguajar de seu tempo. E em nenhum momento este narrador diz que naquela época se falava assim. Ele, o narrador, fala assim. Ele diz que a Cerimônia na Corte “fechou geral”. Ele diz que Maria, a Louca, “arrasou no visual”. Quem narra é a São Clemente, hoje. Somos nós, Clementianos. E somos cheios de malandragem, gíria e irreverência.
Mas entendo que quando for você e outra escola, isto não passará nem perto da narração. É um direito de vocês serem assim, mas é um direito nosso também assim o ser.
Quanto a afirmação de imprecisões históricas, já que você não as cita, para que a gente possa saber quais seriam elas, ficamos poupados de mais esta pérola de sua capacidade de raciocínio.
Agora que já te expliquei, e achando que você compreendeu, respeito o fato de você achar que o Desfile das Escolas de Samba, evento popular sobretudo das comunidades pobres do entorno do Rio, não deva usar gírias muito utilizadas por estas mesmas populações na descrição de suas narrativas. É uma opinião, é a sua opinião. Mas não gosto desta obrigatoriedade de só fazer deste jeito que você gostaria.
Abaixo este carnaval chato e politicamente correto que você parece querer. E talvez seja esta cobrança de seriedade que tenha detonado este desfile que já foi bacanérrimo, solto.
Viva o povo, a galhofa, o carnaval e o deboche....


Quinta-feira, 15 Novembro, 2007

Baile da Carmem no Império!


O que eu gosto nestas festas de carnaval que os alunos do Instituto do Carnaval promovem, é a volta da fantasia de salão, o folião se preocupando com o que vestirá, como nos bons tempos. Adoro o clima família, amigo do Império Serrano, e acho que esta escola foi perfeita para sediar o evento dos alunos: Carmem Miranda é sempre inspiradora. Acho também que eles acertaram ao costurar atrações díspares, cujo fundamento era a pequena notável. Deu certo, foi um baile que ficará em nossa memórias. Parabéns alunos.

Estou passado!


Fiquei apavorado com os acontecimentos da situação carcerária em Minas, quando um preso filmou outros três sendo sevidiados sexualmente por outros, submetidos a humilhantes torturas, enfim, um inferno, e quando a autoridade carcerária foi indagada a se pronunciar sobre a situação disse: “Vamos averiguar se houve ilegalidades, como o celular que filmou tudo isso entrou na prisão?”. Como diz Leda Nagle, culpam a janela pela paisagem. O ruim do fato não é o fato, mas a filmagem dele. O ruim não é o que aconteceu, mas o celular. Trágico. O bom é que ela não muda o foco: para onde correr é loucura total o sistema carcerário.

Elba, a Piaf sertaneja.


A coluna é sobre o triunfo de Elba Ramalho no Canecão, mas em tempos de bonecos desinteressantíssimos, sem sustância, tipo Alemães do Big Brother, sempre que surge um bofe nota dez, a mulherada e a gayzarada agradece, ajoelhados (ui!). Portanto, quando Elba chamou ao palco o gostosão Diogo Nogueira, para cantar com ela, na noite de domingo, todos os interessados e interessadas começaram a se cutucar, na platéia: estávamos defronte de um homem normal e cheio de molho, suingue e ginga, que herdou o vozeirão do pai (o inesquecível João Nogueira), a beleza da mãe, e em cena é o diabo que veste Prada ou qualquer grife, pois elas não interessam, a gente quer é ver o divino nu, na capa da G Magazine. Uma unanimidade o malandro, que nem precisava, mas canta muitíssimo bem. Diogo Nogueira já, para Presidente da república dos homens gostosos.
A coluna é um tributo à trajetória bacanérrima de Elba Ramalho, mas quando ela começou a brigar com o ponto eletrônico do retorno, e pediu vários momentinhos para ajeitá-lo, eu concluí que este fora o fim-de-semana da revolta dos pontos assassinos (e aí então entendi porque Ney Matogrosso se recusa terminantemente a usá-lo). É que na sexta-feira, já tinha visto a maravilhosa Alcione, no finado Metropolitan, depois de mil reclamações no microfone, jogar o tal do ponto longe, e o contra-regra entrar para catá-lo em cena. Ao ver que o objeto que deveria ajudar, não parava sossegado no ouvido das nordestinas, pensei cá com meus strasses: mas que roubada! Marrom esperneando e Elba sem conseguir fazê-lo parar O proscênio fica limpinho, sem as medonhas caixas de retorno, que sujam qualquer cena. Mas se é para infernizar a audição de tão gloriosas cantoras, abaixo o ponto, e viva o retorno.
E já que a coluna é para parabenizar Elba Ramalho, lá vai: na escuridão do Canecão, e sem a cortina abrir, a paraibana canta, à capela, suas recordações de um nordeste ensolarado, reluzente, vivo. No mágico palco surge a loura vestida de boneca de pano, dos folguedos de nossa imaginação, talentosamente caracterizada pelo mago brasileiro das nervuras e pontos preciosos, o paraense Lino Villaventura. De dourado transparente com aplicação de minúsculas flores e cristais, Elba encarna a boneca de saia armada, mas não se deixa engessar pela alta costura. Usa cada detalhe precioso a seu favor e espontaneamente, como a gostamos, se acocora, pula, roda e nos faz entender que elegância é naturalidade. Desfia um rosário de músicas antigas e novas, tira o bolero, encanta a audiência com uma presença cênica apaziguada, totalmente bem resolvida. Bonita físicamente e serena na medida certa, Elba vai ganhando todo mundo, até que se retira no meio do show para a troca de roupa. Neste pequeno hiato, a competente banda, multicultural, dos metais da Orquestra de frevo do Recife ao carioca negão Fofão, e um sanfoneiro Paulista de primeira linha, ataca com um versão meio Nino Rota de uma música de cordel, e preenche o palco de forma magnífica na ausência da estrela maior.
La Ramalho retorna num vestido branco, justo, de onde explondem folhos lindos pelas laterais: é a melhor representante da exuberância da mulher cinquentona brasileira, que mata um leão por dia. E ao cantar modernidades contundentes como raps sociais e políticos, Elba nos faz entender sua sintonia com Nossa Senhora: rapidinho canta o manto da padroeira e sola a Ave Maria, mas é só isso, um pontuar de crença pessoal e um oferecimento generoso à platéia de uma pitada de sua crença. Nada de mais, nada forçando a barra. E o que é mais importante, junto canta a música que diz que travestis, crianças, cozinheiras, todos merecem uma vida melhor. Ela que já foi louca, agora é santa. Mas uma louca que sempre rezou e uma santa no salto 15 cm. de strass. A mulher Elba, inteira, íntegra, dando um passo à frente na sua carreira, mostrando-se evoluindo, caminhando, e, como ela mesma diz durante o show, cheia de estórias. A melhor é a do teste para a Ópera do Malandro, quando Chico Buarque pergunta para ela se ela é a Lúcia (personagem) e a doida responde para os olhos azuis: não, sou a Elba. E ela é misturada, vai do frevo ao lamento, do maracatu ao chão de giz, nos fazendo rir e lagrimar. Estamos diante de uma como nós, contraditória, sincera, disposta a lutar. Não foi fácil, nada vem de mão beijada, conta com naturalidade a fome e o frio que passou, quando um pedaço de pão era seu banquete, por alguns dias. Esta é a brasileira Elba Ramalho, com muito mais acertos que erros, em fulgurante carreira de cantora popular do Brasil. Gralha do nordeste, cotovia da catinga, Madona do cerrado, Piaf sertaneja, não importa; está tudo revisitado no palco do Canecão, onde, no cenário, bandôs de rendas sobem e descem, servindo de fundo para belas projeções de imagens. Eles bem representam a gangorra da vida, a grande roda do destino, o maravilhoso vai-e-vem de referências, que a alquimista Elba sempre soube ferver com maestria.


Quarta-feira, 14 Novembro, 2007

La Ramalho, a Elba!


Elba Ramalho, a divina, mandando muito bem no Canecão. Perfeita como a bela cinquentona brasileira, a paraibana revisita sua carreira e lança novas canções, esplêndidas e socialmente comprometidas com o Brasil de agora. Ta com tudo, La Ramalho.

Diogo, ah, Diogo.... kkkkkkkkkkkkk


Colírio para olhos e ouvidos, dupla indicação, é preciso que os médicos passem a receitar Diogo Nogueira na veia (ui!) para todos os que desejam esta melhora oftalmológica (ui, de novo!). Lindo, gostoso, malandro, normal, grande cantor, super repertório, enfim, bacanérrimo. Tesão, em todos os sentidos, se é que vocês me compreendem, e eu sei que vocês me compreendem. Sarava. Que calor! Filisteu, me abana! Meus sais da Tailândia....


Terça-feira, 13 Novembro, 2007

Festa de Lançamento dos Sambas Enredo- 3


Na loucura de uma noite tão mágica e tão fabulosa, como a noite de lançamento do CD dos Sambas de Enredo das Escolas de Samba, magistralmente promovida pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, no palco da Cidade do Samba, uma imagem me arrebatou pelo lirismo e deslocamento de sua proposta: na noite de beldades Rainhas e Madrinhas, na disputa acirrada de gliter, confete, glamour: uma senhora de nome Guezinha, presidente de ala da Estação Primeira de Mangueira, senhora normal nas possibilidades de se ser, senhora, sambista, trabalhadora, ou seja, produzida dentro dos padrões de uma dona de casa de cinqüenta anos, Guezinha subiu no palco com uma sombrinha de frevo, durante a apresentação da estação Primeira de Mangueira, e mandou ver em alegria, determinação, samba na ponta da língua e gingado na sola do pé. Sozinha, num canto do palco, ela hipnotizou meu olhar e me jogou na mais profunda das reflexões: “meu Deus, será que em tempos de coreografias que anulam a virtuose individual dos sambistas, ainda será possível o samba produzir senhoras, em futuras gerações, que só queiram se divertir e sambar no pé para defender as cores de suas escolas?”. Me perguntava isto porque, a caminho do palco para ver as apresentações, me deparei com barracões ensaiando seus carros alegóricos para o desfile 2008. E vi de tudo, menos gente sambando. Gente sentada, gente deitada, gente ajoelhada, gente batendo palma, gente abrindo e fechando leque, gente empurrando portas, gente marcando 1, 2, 3 , 4 e 5 e 6 e 7 e 8. A praga semeada pelo magnífico Paulo Barros, disseminou-se em filhotes copistas, que esmigalham a alegria do carnaval sobre a alegoria, e as transformam em cenas, que são espetaculares, mas não guardam mais a verve do samba no pé. Sem dúvida, serão belíssimas imagens, de grande efeito visual, com gente vestida com lycra e maquiagem padronizada, levantando braços e pernas em seqüências milimétricas e deslumbrantes. A dança, a evolução, a garra, o desempenho espontâneo, que venha no chão, isto se a maioria das alas não vierem ricamente coreografadas, formando belíssimos desenhos no chão. Será que velhas passistas como Guezinha, da Mangueira, que não se enquadram em coreografias, que não têm o phisique de rôle destes jovens bailarinos, que são os que agüentam passar pela Marquês de Sapucaí abrindo e fechando coisas, com uma cara tristinha, tristinha, será que elas serão senhoras robóticas que daqui a alguns anos subirão nestes palcos do samba para exibir preciosas coreografias? Não que eu não goste deste tipo de espetáculo, mas não o considero narrativa de escola de samba, ou o considero um passo além da narrativa de carnaval, espetacular e hipnótico visualmente. Mas não samba no pé, alegria de escola de samba, na espontaneidade que me acostumei a ver. Admiro Paulo Barros pela inovação, pela proposição de um aspecto a mais no espetáculo. Virtuose dele, de um artista genial, que alastrou-se como erva daninha e ameaça transformar o espetáculo numa interminável sucessão de coreografias. Nele, é beleza de uma proposição autoral. Nos outros, desolado quadro para esvaziar um caminho traçado belo por seu único, na mão do criador Paulo, e não deve, de jeito nenhum, virar a tendência, que, infelizmente, já virou. Prefiro o desfile com muito samba no pé, e Paulo aprontando das suas.

Festa do Samba Enredo=2


Na maravilhosa festa de lançamento do CD dos Sambas de Enredo das Escolas de Samba do grupo especial, a mais bela mulher, e mais bem vestida, e mais charmosa e com mais carisma, e sem um pingo de vulgaridade (tão presente nas fitas que se chamam minissaias, das bundudas louras cuja água oxigenada embraquece-lhes o cabelo) foi Natália Guimarães, Miss Brasil e agora, Rainha da Bateria da poderosa e querida Unidos de Vila Isabel. Mas o que tem de lindíssima, tem de troncha na hora de dançar, e nem falo em Sambar, porque ali só dá para dizer dançar. Samba nem perto. Ela evolui tipo dança do siri, mesmo. Pernas e braços vão abertos, um para cada lado e um em cada ritmo. Mas não importa, é linda, e é isto que o público quer (será?). É deslumbrantemente bela, simpática e carinhosa com a comunidade, a ponto de pegar a passista Dandara pelas mãos e levá-la para a frente do palco. Simpatia dez, mas que é desengonçada, ah isso é. Mas quem vê desengonço é veado e mulher. Homem heterosexual só quer ver a mulher e pronto. E isso, Natália é prato cheio. Banquete de trezentos talheres. Mas que é beleléu na hora do ziriguidum, ah isso é!

Lançamento do CD Samba Enredo 1


Mil vezes mais bonita a festa da Liesa de Lançamento do CD de Samba Enredo na Cidade do Samba, do que no Canecão. Multicolorida, em casa, a multidão de sambistas riscou de poesia o chão de nossa sede. Que nunca mais saia de lá, e que o samba nunca perca esta diversidade, de certa hora focar no enredo e no carnavalesco, em outra destacar os músicos e compositores e mestres sala e porta bandeiras. Muito lindo ver que tem espaço para todo mundo, e que glamour e estrela é o que não falta. A única cena estranha da noite foi o cantor oficial da Mocidade não permitir, um momento sequer que o casal de Mestre Sala e Porta Bandeira se apresentasse no proscênio do palco. Três passadas da música e nas três, o casal em segundo plano, atrás dele, que não arredarou pé. Mais estranho ainda é a ausência de alguém da harmonia que desse um toque, ou alguém da diretoria que desse um simancol no distraído. Talvez Marcela Alves devesse fazer como a Giovana, da Mangueira, que ao entrar com Marquinhos em cena, e perceber que Luizito não sairia da frente dela, tacou a bandeira em cima do cantor, enrolou ele mesmo, empacotou o cantor, que gentilmente percebeu que era hora de deixar se exibir o pavilhão. Agora já sabemos o truque: bandeirada neles, meninas!




Domingo, 11 Novembro, 2007

Os homossexuais e a Bíblia!- 5


Sobre o bom texto de Eugenio Sales “O Homossexualismo e a Bíblia”, publicado no Globo deste Sábado, quando nossa preferência sexual é questionada à luz dos dogmas católicos, e portanto, bem fundamentadas segundo esta doutrina, e não no preconceito falsamente universal, de que somos pervertidos porque somos, e ponto final:

Eugenio-“Diante dessa exposição do ensinamento sobre a homossexualidade, o cristão não pode apoiar as manifestações ruidosas em defesa dos homossexuais, sob o pretexto de defendê-los de agressivas atitudes.(...) Sem dúvida, é estranha a posição de autoridades que participam dessas ruidosas manifestações”
Milton- Essa foi pro Sérgio Cabral, não foi, não, Eugênio? Mas olha, querido, não é estranha a posição dele, não, porque a outra posição seria a hipocrisia política, além da religiosa. É que nesta igreja da política, o Governador tem que dar satisfação de suas atitudes para nós, fiéies que pagamos impostos, ou dízimo, como queiram. Igualzinho a você que tem que dar satisfação aos fiéis que partilham de teus dogmas e ajudam a manter tua instituição de pé, o Governador recebeu votos de nós, gays assumidos, e tem que lidar com a nossa problemática. E ao Contrário da tua igreja, Eugênio, a igreja política não tem mais dogmas, todos eles caíram. Como o nossa voto é importante para elegê-lo, ele tem que comentar nossos direitos civis. Sabe o que é estranho, Eugênio? As bancadas religiosas quererem legislar Brasília e Brasil. Tudo bem que vocês tenham seus dogmas dentro dos templos de vocês. Não temos nada com isso, é direito de vocês não usarem camisinha, porque católico só transa com o mesmo parceiro. Mas eu não sei se vocês já perceberam, aqui fora, tem um monte de brasileiro que não discordando plenamente de vocês, também discorda veementemente de uma série de outros pontos. Como o governador sabe que 20 por centro da humanidade é gay, vai ter que lidar com isso, a menos que haja algum plano secreto de fanáticos para nos dizimar. Repetindo: dentro dos templos, façam e digam o que quiserem. Vai e ouve quem quer. Dentro do Brasil, mandamos nós, população diversa, país laico, nós, burrinhos e ovelhas desgarradas que estamos tentando acertar, sem dogmas. Quanto ao ruidosa, de “ruidosas manifestações”, nós aprendemos com vocês, católicos. Vai dizer que vocês são silenciosos? Nada, faz séculos que vocês são barulhentíssimos. Me lembro de vocês, padres, em volta das fogueiras, queimando minhas amigas mulheres, ditas bruxas, porque queriam ser donas de seus destinos. Me lembro de vocês, bispos, invadindo e dizimando as aldeias indígenas no Brasil de ontem. Me lembro de vocês, nos navios negreiros, escravizando os que, segundo vocês, eram negros e não tinham alma. Me lembro de vocês, nazistas, nos marcando com o triângulo rosa nos campos de concentração. Vai me dizer que tua coluna semanal no Globo não é baruilhenta? E daqui a cem anos, me lembrarei de vocês, cardeais, que estarão nos pedindo perdão, como hoje o fazem para os grupos anteriormente citados. Guarda o teu perdão para você. Ser gay não define caráter, Eugenio. Ser católico e heterossexual, também não. Ser humano, isto sim, define caráter. Não sou da tua turma, e reinvindico o direito de ser, humano.

O Homossexualismo e a Bíblia!- 4


Sobre o bom texto de Eugenio Sales “O Homossexualismo e a Bíblia”, publicado no Globo deste Sábado, quando nossa preferência sexual é questionada à luz dos dogmas católicos, e portanto, bem fundamentadas segundo esta doutrina, e não no preconceito falsamente universal, de que somos pervertidos porque somos, e ponto final:
Eugenio- “Por isso Deus os entregou, segundo o desejo dos seus corações, à impureza, e eles mesmos desonraram seus corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém”.
Milton- Mas Eugênio, não é possível que vocês reduzam a glória da honradez de meu corpo ao fato de eu transar com A, B, C, ou D. Independente de com quem eu transe (menos crianças e animais silvestre protegidos pelo IBAMA, obviamente), meu corpo é honradíssimo porque sou um corpo fraterno, caridoso, bondoso, respeitador da família heterossexual ou marciana, ou diluviana, qualquer família de amor verdadeiro. E sou consciente de que 20 por cento da humanidade gosta do que eu gosto, e dentro deste porcentagem podemos formar duplas de amor e honradez, como meus irmão heterossexuais. Transar com A, B, C ou D, é uma pequena e maravilhosa parte da minha vida, que não define o todo, no sentido da honradez e do caráter. Porque não define esta parte nos heterossexuais também, e nem em ninguém. Honradez não é prática sexual. É bondade no coração. Fora isto, já que o Criador me entregou a uma vida honrada, bacana e digna que eu tenho, agradeço à ele. Não gostaria de ter ficado preso à um criador que tivesse uma verdade que significasse a minha mentira, a minha não vida, o meu não-gozo. Muito estranho este criador que colocou em mim meu maravilhoso desejo homossexual e que acha que eu só seria honrado se eu não praticasse o meu desejo. Cilada das ciladas, trapaça das trapaças, repondo com minha prática homossexual e meu humanismo incomensurável. Fraternidade acima de sexo!

O Homossexualismo e a Bíblia!- 3


Sobre o bom texto de Eugenio Sales “O Homossexualismo e a Bíblia”, publicado no Globo deste Sábado, quando nossa preferência sexual é questionada à luz dos dogmas católicos, e portanto, bem fundamentadas segundo esta doutrina, e não no preconceito falsamente universal, de que somos pervertidos porque somos, e ponto final:
Eugenio- O homem que se deita com outro homem, como se fosse uma mulher, ambos cometerão uma abominação”.
Milton- Deixa eu te contar uma coisa, Eugênio: eu não me deito com homem como se me deitasse com uma mulher. Mesmo que você reduza toda a glória de se deitar com outro ser humano à penetração, ainda assim eu te diria que eu não penetro um homem como eu penetro uma mulher. E como já fiz os dois, te digo: deitar com a mulher é a glória, por respeitar-lhe o total da personalidade e penetrar isto, inclusive seus orifícios. Deitar com outro homem é a glória, por respeitar-lhe o total da personalidade e penetrar isto, inclusive seus orifícios. Quem não entender isto, penetra só orifício, sem perceber que este orifício pertence a um corpo, que pertence a um maravilhoso universo humano. E aí este, independente de ser homossexual ou não, penetra qualquer orifício sem pensar em humanidade. Proponho que a gente mude este texto bíblico. Melhor seria dizer: o homem que se deita com outro homem, como muitos maridos heterossexuais fazem com suas mulheres heterossexuais, desrespeitando-as, objetificando-as, não respeitando-lhes o espírito, os direitos humanos, estes gays são inumanos como os heterossexuais que o mesmo fazem. Porque senão, Eugênio, o ensinamento de “homem que se deita com outro homem como se uma mulher fosse" reduz o maravilhoso deitar de um homem e uma mulher à penetração, sem diálogo, sem descobrir as almas, e aí não vale, este universo é muito sórdido para nós, humanos evoluídos, né não? E como somos evoluidíssimos, eu e você, usemos de nossa capacidade de abstração e postulemos sobre as lésbicas, maravilhosas mulheres não contempladas no machismo bíblico: “a mulher que se deita com outra mulher, como se homem fosse....”, bom, estas acreditam o contrário, elas querem retirar dos seus desejos estes homens, então elas fazem justamente o retirar do universo masculino. Se deitam com mulheres como se mulheres fossem, mulheres que não desejam homens, e que na hora do sexo os querem bem longe. Estas mulheres desejam a ausência do pênis, se sexo significasse presença de pênis. O que sabemos, não é verdade.

O Homossexualismo e a Bíblia-2


Sobre o bom texto de Eugenio Sales “O Homossexualismo e a Bíblia”, publicado no Globo deste Sábado, quando nossa preferência sexual é questionada à luz dos dogmas católicos, e portanto, bem fundamentadas segundo esta doutrina, e não no preconceito falsamente universal, de que somos pervertidos porque somos, e ponto final:
Eugenio- Assim, não pertencem plenamente à comunidade cristã, aqueles que escolhem o que lhes agrada, isentando-se de obedecer à doutrina íntegra, dentro das limitações humanas”
Milton- Então, esses aí não pertencem PLENAMENTE, mas pertencem em parte, né não, Eugênio? Tem uma pedaço da humanidade que chama a isto de hipocrisia religiosa. É o pertencer em parte, apontar a ferida dos outros e não assumir as suas. Declarar que não faz, ou pedir perdão semanalmente por o fazer, e sair novinho em folha para refazer tudinho. De qualquer maneira, estes que pertencem em parte, parecem ser os que ocupam o papel mais difícil da estória: concordam em parte com os ensinamentos, mas não poder questionar, de jeito nenhum, os dogmas que não concordam. Tipo assim: ou permanecem, ou são obrigados a declarar que permanecem católicos, ainda que não façam tudo o que a Doutrina manda. Gays e camisinha e fidelidade e celibato são a parte mais visível deste pertencer em parte. Sexo, sempre o sexo, que não deveria, portanto, ser chamado de sexo, e sim de humano, já que parece ser o âmago do humano.

O Homossexualismo e a Bíblia- 1


Sobre o bom texto de Eugenio Sales “O Homossexualismo e a Bíblia”, publicado no Globo deste Sábado, quando nossa preferência sexual é questionada à luz dos dogmas católicos, e portanto, bem fundamentadas segundo esta doutrina, e não no preconceito falsamente universal, de que somos pervertidos porque somos, e ponto final:
Eugenio- “Podem usar plenamente o nome de Cristão somente aqueles que buscam por em prática, na sua vida, os ensinamentos de Jesus Cristo”.
Milton- Pois é, né Eugênio, mas eu e você sabemos que entre o buscar e o realmente por em prática, vai uma diferença enorme, porque o discurso do buscar, muitas vezes esconde uma semvergonhice de dizer que busca mas não faz. Por exemplo, milhares de casais buscam praticar a fidelidade que prometem no altar, mas milhares passam a vida traindo e buscando. Portanto buscar é hipócrita e safado, né não? Acho melhor dizer que cristão é aquele que vive como cristão e ponto final. Quem não trai, quem não usa camisinha, quem... faz tudo o que o cristão tem que fazer. Esta história de buscar, na maior parte das vezes é só balela pra não perder os fiéis, né não, Eugênio? Porque se a gente disser que só pode ser cristão que viver como cristão, pra quê o perdão da hóstia, né não Eugênio? O bacana, de ser este cristão de discurso, é que você pode cair na gandaia, e ir comungar na missa seguinte, que tá perdoado. Uma boa estratégia para renovar os votos dos que precisam e devem continuar a ajudar a instituição a se manter de pé, né não?


Quinta-feira, 8 Novembro, 2007

Descanso para as vítimas da desumanidade!


Na semana que passou, enfim, os filhos do cogumelo descansaram. Amaldiçoados pela intensa luz dos vinte sóis causada pela Bomba de Hiroshima, inclusive os que evaporaram no epicentro do calor de 4.000 graus, não puderam retirar do chão as manchas escuras que seus corpos deixaram, última comprovação de que um dia estiveram sobre a face da terra. Eram em vida e morte, pesadelo da não consciência da passagem ao além, os filhos dos megatons, incinerados juntos, no milionésimo de segundo que durou a cruel cena. Sem enterro, sem listagem, sem lágrima de um parente próximo, o bando vagou por 62 anos, na cratera de 400 quilômetros; a grande panela da desumanidade, onde nossos sonhos d’um planeta melhor foram cozinhados, junto com a trinitita, massa verde transparente que restou dos metais fundidos no fundo do tacho.
Há seis décadas, a velha bateu o mesmo bolo, incessantemente, sem nunca aprontar a massa. A noiva, sempre com o buquê na mão, vagou dizendo sim, sim, sim, em farrapos! E as crianças brincaram eternamente de roda, sem nunca cansarem de repetir a mesma coisa, nem suas mães chamarem-nas de volta para casa.
Neste buraco, que sobreviveu nos corações dos pacifistas e homens de bem, envolto por espessa bruma de urânio 235, a digna Enola serviu o chá para os velhos, mulheres e crianças da bomba, desde que faleceu, há anos atrás. Eles sabem que ela não tem culpa da homenagem (?), de ter tido seu nome inscrito pelo filho, no bico do avião. Mas inferno uns dos outros, perdição de para sempre estarem ligados pela dor e expressão atônita da não compreensão de porquê os humanos fazem isto, o destino do além os obrigou a conviver, até que o protagonista da cena, a eles se juntassem. Só descansariam em conjunto. Era dela o papel mais difícil, o único confuso, misterioso e não muito bem explicado. Enola não se encaixava em nenhuma das categorias, vítimas ou algozes.
Contracenando com os mesmos rostos desfigurados pelas ondas de calor, narizes dissolvidos, bochechas em ossos; as mesmas fatias de pele penduradas, como cobras em mutação, eles aguardavam. Só a dor que não era mais a mesma, pois até quinta passada, viviam o hiato da espera, que não é do mesmo sabor do acerto de contas.
De repente, todo o tilintar de xícaras de chá e colheres parou abruptamente. “Ele está chegando!”. A mulher, trêmula, com o bule fumegante, ao levantar os olhos, exclama, mãe amorosa e aflita: Paul, filho! E correu para abraçá-lo, antes que a multidão de setenta mil mortos fizesse alguma coisa. Os japoneses que vagavam neste lugar, onde eu e você jamais estivemos, mas supusemos, de repente se alvoroçou com a chegada que poria fim a décadas de repetição de seus atos do momento do inferno. Havia chegada a hora de encontrá-lo: Milhares para olhar a cara do transportador da morte. Com que pose entraria ele naquele lugar? Se revolatria? Aceitaria o fardo de encontrar os mortos?
Sem pensar em respostas, a mãe conduziu o filho para as apresentações de um a um, quando enfim, após apertar a mão do piloto, os amaldiçoados íam consumando seus atos, que não acabavam até então. O homem que abastecia o carro, enfim viu o tanque encher. Como está minha menina Sueko? A velha que batia o bolo, bacia e colher sobre o colo, enfim pode servir um pedaço dele para seu velho que esperava e esperava. Takashi perdeu sua casa? E seus pais, seus parentes, seus amigos? Ah, o menino perdeu sua cidade... E iam desaparecendo, junto com as manchas no solo, que só gemiam e partiam.
- Eles não querem vingança, Paul, não querem assombrá-lo. Só querem olhar n