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| Milton Cunha |
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O DIA: "Há uma diferença enorme entre quem transa muito e quem sofre de dependência sexual. O primeiro pode passar a noite inteira de sábado no motel, que não será classificado como dependente. Já o segundo é capaz de fugir do trabalho no meio do expediente só para aplacar o seu desejo. O indivíduo precisa procurar ajuda quando a dependência começa a interferir na vida familiar ou profissional", afirma Aderbal Vieira Jr. Em outros casos, mais extremos, admite o psiquiatra, se faz necessário recorrer ao uso de remédios. Principalmente se, além da dependência sexual, o paciente apresentar também outros distúrbios psiquiátricos, como depressão ou síndrome do pânico. "Não falo em cura porque a dependência sexual não é doença, mas em modificação de um comportamento que causa sofrimento ao indivíduo", ressalva.
Buraco (ui!): Assim como colecionei fotos de vocês, lacraiudos, na infância, agora peço declarações, absolutamente adultas, sobre este importantíssimo tema da vida moderna: Vocês sentem, sentiram ou acham que sentirão compulsão por sexo? Quando é desejo e quando é compulsão? Pode vir quente, que eu estou fervendo.....
Desde a operação de Roberta Close, o sumiço de uma vara não provocava tanto rebuliço no povo brasileiro. Mas atire as primeira pedra aquele que nunca andou procurando uma varazinha sumida por aí. Difícil é achá-la, mas sempre, na história da humanidade, a pobrezinha da vara sumida foi a culpada de todos os males, do complexo de Édipo à inveja do pênis. Vivemos o ano da métrica forte: começou com a polêmica dos 4 centímetros, do esparadrapo da outrazinha que fez a São Clemente descer, e eis que agora surge algo ainda menor e capaz da redenção da Nação: 1 centímetro é a glória de Maggi, a grande garota propaganda que reafirma que caldo de galinha dá muita sustância, e paciência e água benta, cada um usa quanto quiser. E a filinha dela está certíssima: cada um deve escolher a cor da sua medalha de ouro, que deve sempre representar a emoção do agraciado. A minha, por exemplo seria cor de rosa-choque. A da garotinha seria prata, e acho que a medalha de ouro do Collor seria roxa. A de Lula seria vermelho-PT. Saravá! A pergunta que não quer calar: estes quatro anos não foram suficientes para fazer o treinador e a Daiane reduzirem o impulso ou retirarem uma cambalhota, já que a pobrezinha sempre termina fora do quadrado? Alguém precisa dizer pra ela que tem que ficar dentro do perímetro estabelecido. Mais uma: porque será que os negros africanos são sempre os melhores nas corridas de longa distância? Agora que deu Kênia na cabeça, confesso que sempre tive a fantasia de que, como eles fazem quase tudo à pé, isto deu à eles mais resistência que aos urbanóides brancos. Será? Tanta coisa que pareceu, mas não era, fizeram-me desconfiar que até o fog de poluição, constante sobre Pequim, era fumaça de efeito especial, para melhorar o rendimento da iluminação, tipo fumaça de palco, mesmo. Uma cidade em constante prontidão para qualquer canhão potente de foco de luz.
 Isabel, a redentora, ficou passada com o professor que dá aulas de ciência na colégio que leva seu nome. Ela, que libertou os escravos, e portanto conhece bem os métodos desumanos de feitores e senhores de engenho, reconheceu no torturador maluco, disfarçado de docente, os mesmos métodos de por em risco a vida alheia. Jovens submetidos ao horror de respirar gás-carbônico, com suas cabeças enfiadas em sacos plásticos. Um professor que não tem noção de seus métodos, do cuidado que lidar com turmas em processo educativo requer, e mais que isso, aulas que parecem a tortura do treinamento insano de militares e policiais, que a gente já se acostumou a ver em reportagens escabrosas. Há um quê de sadismo nestes investidos de algum poder, que submetem seus comandados às suas loucuras e prazeres danosos. Precisam ser controlados, porque senão, só farão continuar sua escalada perversa de arriscar a vida de inocentes.
Sabe este tiroteio e pânico na porta do Salgueiro? Pois meu assistente Wilson, que mora próximo da quadra, há meses reclama com a direção da escola sobre o vandalismo dos grupos que após o baile promovem arruaças no entorno da agremiação. Ele já teve seu carro danificado pela ação dos desajustados, e parece que o problema só se agrava e agora já temos tiros e mortes. Pedra cantada, era só esperar pelo pior. E o engraçado é que nenhuma autoridade faz nada. Estes grupos circulam sem fiscalização, todas as vizinhanças deste locais problemáticos denunciam, e nada é feito. Esperar pelo pior é o calvário de quem mora na região, e não adianta contar com polícia. Chamem o ladrão, ou melhor, tais funkeiros.
A professora-doutora Beatriz Resende, da Uni-Rio, me diz que o problema não é a religião, mas sim a escalada dela para colar no Estado, e em nome das crenças de um grupo, querer legislar a vida de todos. E como algumas práticas religiosas são excludentes, condenando os que dela não fazem parte, à desgraça e à danação, teríamos uma legislação não para os cidadãos, mas sim para fiéis. Isto coloca em cheque a noção de que todos somos iguais perante a lei, independente de raça, sexo, religião, conta bancária. Se a bancada católica ou evangélica do Congresso Nacional, barra a legislação que daria aos gays direitos civis semelhantes aos dos héteros, temos a posição religiosa organizada enquanto força política e com poder de legislar sobre a vida de nós, gays que não nos interessamos por práticas religiosas. E organizadíssimos economicamente, tais grupos compram canais de televisão e se armam cada vez mais de uma propaganda de demonização dos demais tipos de existência. Começaram chutando santos de outras religiões e parece que agora proíbem terreiros de cultos afros nas comunidades mais pobres. Não pensem que não chegará até vocês, porque daqui a pouco, escolherão o time para o qual você deve torcer, o filme que você pode assistir, e, o que é pior, a pessoa na qual você terá que ter tesão.
Não deixem de assistir o sensacional DVD Inclassificáveis, de Ney Matogrosso. A ousadia está de volta, no velho-jovem da MPB, que parece ser o único a ter coragem de comentar os tempos atuais de forma contundente e fantasiadíssimo, mostrando-se um clown da modernidade. Seguríssimo em cena e com repertório afiado, tudo é bacana na filmagem do show. E tem a mão do diretor, que usa e abusa dos brilhos para diluir a imagem do cantor em seus pingos de cintilância. Um luxo, sobre o lixo brasileiro pré-eleições.
A caixa da loja popular de departamentos me oferece: "o senhor pode pagar em oito vezes, com a primeira daqui a cem dias e a última é de graça!". Já me vendo velinho e de bengala, pagando a sétima prestação, provavelmente com juros extorsivos, para justificar tamanha benevolência, disparei: "cruzes! Até lá a terceira guerra mundial já estourou, o mundo acabou e o carnê dissolveu!". A espirituosa do balcão me devolveu: "pelo menos vamos morrer elegantérrimos, lindos". Vale tudo para empurrar um crediário.
A voz que nunca mais verei, pois de tanto acalanto, não chegava aos ouvidos, ia direto ao coração de minhas imagens, de menino sonhador. "É doce morrer no mar...". Aquela voz, aquela melodia, aquele som tinha o poder de me paralisar. Mistério, ventania, vagas ondulantes, luar prateado, canoas navegando em minha alma, sempre que Dorival entoava as lendas e mistério da Bahia. Eram os anos 70, e aquele senhor-gato era a mais perfeita tradução do talento de nosso cancioneiro popular. Sua voz inconfundível me fazia ver coqueiros se dobrando ao vento, areias cristalinas. Era ele aparecer e eu já via o Abaeté e o Farol da Barra. Mais que isto, ele era um cantor normal, que parecia ter vida como a da minha família, parecia ser bom pai e gente boa. Ele podia morar na casa ao lado. Ele encarnava o paizão bacanérrimo, cheio de estórias para contar, e ainda, de quebra, podia pegar o violão e ninar com boi da cara preta, ou cantarolar na cozinha a mais especial seresta do mundo. Sempre invejei os maravilhosos Dori, Danilo e Nana, porque, espetaculares em suas produções musicais, tiveram a mais preciosa jóia quando criança, o que deve ter sido fundamental na glória posterior de só fazerem coisa boa: criancinhas, conviveram com aquele arquétipo paterno, que além da proteção, boa-guarda e atenção e carinho, ainda ouviram Maracangalha assim como quem não quer nada, como se fosse o "atirei o pau no gato". Sei que a gente sempre idealiza a casa dos outros, sei que supervalorizamos o outro. Mas me dêem um desconto aí: imagina ter o "algodão" como pai? É de cortar os pulsos. Talento absurdo, cheiro de acarajé, cabelos brancos de sapiência, lirismo transbordante, tudo configurava o grande músico como o "pai projetado da nação", até porque foi ele quem compôs a música que nos daria a mãe da pátria, a baiana de Carmen Miranda perguntando "o que é que a baiana tem". Pois, parodiando, agora está responmdido "o que é que o baiano Dorival tem?" Tem lugar eterno em nossos corações. Agora, enfim, morreu o quarto e último Ogã de Mãe Senhora, a maior de todas as Yalorixás, segundo o falatório dos terreiros do Brasil. Imaginem o quarteto sentado ao lado dela, no templo de Olorum: Jorge Amado, Caribe, Pierre Fatumbi Verger e, recém chegado, o maravilhoso Dorival. Eles levaram a poesia brasileira para Aruanda, o paraíso dos que desencanaram. Transformaram o Axé-Opô-Afonjá no quintal do Brasil. Contando a Bahia, fizeram a cabeça de todos nós. Sinto saudades do universo de Dorival, sinto falta da magia que ela despertava em mim, quero de volta o tempo da Baixa do Sapateiro. A voz que nunca mais verei. Perco o pai de minha imaginação de paisagens distantes, felizes, apaziguadas.
Enquanto a fisionomia de Phelps se contorce, desfigurando o rosto em músculos de horror supremo, maior que todos, mais medalhista que Hércules, comemorando a superação no revezamento, e me assustando, pois é quase o incrível Hulck na borda da piscina, fazendo tremer o tal do cubo d'água, chega o choro de nosso pequeno herói louro, Cielo. Adoro. Nosso dileto hino, de nossa pequena aldeia abandonada, toca singelo, pois quase nunca ouvido por aquelas bandas, e no mais alto dos pódios, (não tipo Himalaia, mas tipo Pico da Bandeira, mesmo), sobe nosso representante emocionadíssimo. Aquelas lágrimas? Pingos de "das tripas, coração". Medalha de perrengue, de falta de patrocínio, de dureza, de falta de incentivo, do limão, uma limonada. Enquanto China desenvolve projeto de 119 medalhas, injeta apoio, investe pesado, por aqui, a sensação de milagre, superação absurda, oásis de virtuose acidental. É fogo morar no país cujo projeto, até agora é num número abaixo de 10. Eles, centena, nós, nem uma dezena. Saravá! Para bom entendor, o chororó de nosso menino-peixe diz tudo!
Bom é viver no sapatinho: aproveita daqui, se dá bem dali, erra lá, e vai-se indo. Muito incenssamento é prejudicial à saúde, porque esconde a possibilidade de falha. Tipo milionário se achando o rei do mundo, vem um câncer, pumba, detona a festa. Já vi vários. Só estamos aqui tentando, correndo atrás. As sete poderosas já tinham se apresentado na final do solo, a Shawn americana carismática e poderosa tinha arrasado, a última a se apresentar era uma tal romena, mas o jogo já tinha sido decidido. Como quem não quer nada, nem passando perto do estrelato, a garota vai acertando tudo na maior normalidade, e a nota? Mas quem é esta romena ousada, capaz de virar o jogo? Ouro pra ela, pra desconsiderada, pra última. Risível tanto desprestígio e tanta glória. Malandro que é malandro na hora manda ver. E o jamaicano olhando pro lado e não vendo nenhum competidor, perde a empolgação e sozinho corre para a linha de chegada com a cara de "pô, assim não dá, esses caras têm que chegar mais perto de mim!". Moral da estória: não se leve tão a sério, dê uma banana pra quem te acha o melhor ou o pior da face da terra. Quando você menos esperar, tudo muda. Viver é perigoso, e ao mesmo tempo, facílimo.
Os Bofes: "Beleza é fundamental. Porém, olha só que coisa ... O carnavalesco da Viradouro, o lacraiudo Milton Cunha, está defendendo que mulheres "normais" possam disputar o lugar da beldade Juliana Paes. Eu sou contra!!! Acho que mulher feia não pode ser rainha de bateria. Assim como não se assobia e chupa cana, cego não dirige, cadeirante não joga futebol ... São coisas incompatíveis."
Os gays: O Daniel, do Blog Samba da Rede, é gato, mas não entende nada de mulher! É por isso que elas preferem nós, veados. Nós conseguimos ver a vedete que dorme em cada uma delas. Somos capazes de fazer de uma normal, uma rainha de bateria. Estes bofes só querem degustá-las (as normais) no escondido, e sonham com as deslumbrantes e inacessíveis passando um segundinho na frente deles na Marquês de Sapucaí. Vidas desperdiçadas esperando para sempre um deslize da estrela. Longe, distantes. Sonharão o resto do ano com aquilo, enquanto pegam Marias e Joanas, minhas queridíssimas, nos outros 364 dias. Prefiro mil Zés, Joãos e Pedros Pedreiros normais, a um Gianechinni de vídeo. Homem bom é o que samba ao meu lado, na quadra. Homem bom mora em favela. Viva homem que sua e que tem pegada. Gente normal é que sabe transar. Gente muito endeusada só faz pose de São Sebastião. Fazer o quê, né? Deixa estes bofes bacanas e sambistas continuarem querendo Rainhas gostosas e de Olimpo. Encabeço a campanha das bichas sambistas: Rainha de Bateria é neguinha do morro, deslumbrantésimas, e a-ca-bou.... Beijos, Daniel gato....
Fico surpreendido com a indelicadeza de inúmeras pessoas que não querem que as não belas participem do Concurso que está elegendo a substituta de Juliana Paes à frente da Bateria da minha amada Unidos do Viradouro. Como se o mundo fosse só das bonitas. Pois eu adoro as feias e as normais, as que não se enxergam, as que não tem espelho em casa e se acham di-vi-nas... Tem coisa melhor que as que não se deixam abater e enfrentam, estrelas delas mesmas, a multidão? Elas se sentem a rainha da cocada preta e acabou, e eu as amo. Sem estas, as bonitas não teriam sucesso. E tem mais: samba é coisa de povão, e o povão não nasce Juliana Paes. Pode se transformar em Juliana Paes, isto sim. Eu peço aplausos, dou força, porque sei que no máximo, dali, sai uma Raíssa, garota normal de Nilópolis, que há anos está sendo burilada, tem melhorado muito, mas, menina normal de comunidade, ela atesta a grandeza de nossas mulheres que pegam trem e são balconistas. Se querem as deslumbrantes, as preparadas, então não devem procurar num concurso de quadra de escola de samba. Freqüentem a gravação da Malhação. Ali estão as com potencial, inclusive para fazer o povo rir com a falta de simancol. Não são gostosonas mas podem ser comediantes, ora bolas. Só uma vai ganhar, mas o importante é vê-las tentar e perceber que tem muita mulher normal bacanérrima. E que a mulher-melancia ajudou muito na auto-estima das gordinhas, fazendo inclusive com que estrias e celulites enfrentassem os holofotes sem pudor algum. Avante, mulheres reais do meu Brasil. Viva nosso povo de carne, osso, e coragem!
"Mas como eu faço para pagar o táxi de volta?" me interrogou a chinesa num português construído com muito esforço. "Não faço a menor idéia, Ling, mas relaxa que brasileiro é assim mesmo. Daqui a pouco eles chegam". E não é que a de Beijing tinha mesmo a impressão de que brasileiro não chega na hora em compromisso nenhum? Lenda ou verdade, toda a equipe da Rede Brasil, que tinha nos convidado para comentar a abertura das Olimpíadas, eu falando de cenários e figurinos, ela para falar da cultura de seu país e uma outra esportista, que também não tinha aparecido, a verdade é que a transmissão já tinha começado há mais de meia hora e nada dos mais interessados aparecerem. Brasileiro que sou, acostumado que com as trapalhadas da produção de meu povo, fui pedindo uma mesa defronte do telão, no café da manhã do chic hotel da Barra, solicitando café e me acomodando. Sou o tipo do sujeito que não perco a festa só porque a decoração não chegou. Não tem tu, vai tu mesmo, e depois de certo tempo, você aprende a tirar leite de pedra, fazer da adversidade, estória para contar. Tipo assim: se dali não piora, relaxa e goza. Não aumenta o teu martírio. E lá estava eu, lindo, refastelado no break-fast, vendo a chinesinha ficar, de amarela que era, branca de pavor. "Será que fomos sacaneados?" Primeiro respondi que não e depois pensei que "sacaneado" é palavra fundamental, que o estrangeiro logo aprende, porque eles acham que isto aqui é o país da sacanagem. Mas, brasileirada, se ponham no lugar da Ling: diante do telão, você vê seu país celebrar pontualmente a glória da civilização, e do outro lado do mundo marcaram contigo e não aparecem? Imediatamente me imaginei convidado da tv chinesa para comentar a transmissão do carnaval, a Beija Flor já desfilando e eu lá, esperando os atrasados, apavorado. Adorei os tambores iluminados, que ao vivo deve ter sido lindíssimo, mas o recorte da tv é ruim porque revela que alguns integrantes erram a coreografia, o que deve ser imperceptível a olho nu, mas o enquadramento no vídeo pegou vários levantando a mão na hora errada. De qualquer forma, toda a disciplina e precisão, que fizeram dos orientais famosos, estavam lá. Um espetáculo sempre fazendo questão de revelar os humanos por trás do desempenho marcial. O tapete iluminado estava o máximo, já aquela cena dos remos dos barcos não me impressionou muito, não. Mas o ponto alto foi, do fosso do gramado (aliás, este ninho de pássaro, mais que estádio esportivo é lugar para grandes shows, parece um mega teatro) emergir o globo terrestre, deslumbrante. Me perguntei quem era o travesti de longo cabelos que cantava ao lado do cantor chinês, e descobri que a soprano inglesa Sarah Brigton está deformada de tanto botox. Ela está a cara da Cristina Kirchner e da Gretchen. Podem montar um trio sertanejo, que vão fazer o maior sucesso. Eis que a equipe de televisão chegou, trazendo a medalha de prata em Atlanta no vôlei de praia, Mônica, simpaticíssima. Assistimos juntos do meio pro fim a transmissão, e o que era nosso presidente sem o paletó, na tribuna de honra? Abafa o caso. Tecemos os comentários para os espectadores e todos foram embora para suas casas, como se o atraso nunca tivesse existido. Aliás, além de atrasados, somos um povo que achamos que não precisa dar explicações sobre nada. Tudo embutido na expressão "a gente se fala", que quer dizer "se nos encontrarmos ocasionalmente de novo, nós nos falaremos". Portanto, a gente não se fala!
Tenho sido assolado pela lembrança que sempre volta à minha cabeça, daqueles cem primeiros dias do governo Sérgio Cabral. Será que aquilo foi só um show, para marcar na lembrança que o governador subia morro, enfrentava bandidos, era "caxias" no trabalho? Porque o que está aí, agora, não bate com as promessas de melhorar a nossa segurança pública. Alhos não têm mais a ver com bugalhos. O marketing foi bom, ele passou dias arregaçando a manga e mandou bem, mas agora está parecendo que ele jogou para a galera, fazendo média.
Não tem ingresso? Vai pra porta, grita, esperneia, paga mico, mas entra. Lá dentro você vai entender: Simone e Zélia celebram a liberdade, o bom gosto e as possibilidades musicais em espetáculo imperdível. A viril Duncam traz a carismática estrela de volta a seus melhores momentos. A cigarra está linda em cena, exuberante no visual (digno da diva que ela é), mas acima de tudo ela retoma sua graça, frescor e soltura passeando pela cena de forma catalisadora. Magnética, ela devolve generosa para a discípula a bola, que Zélia chuta com força e precisão para fazer inúmeros gols de placa. Tudo é bom e chic no "Amigo é casa". A direção da Paes Leme mantém o clima de intimidade, de receber na sala para uma cantoria, e as duas entram e saem na maior leveza. Só um timaço de fêmeas para conseguir resultado tão óvulo (que aliás, pode ser a esfera branca pendurada entre os esticados tecidos, sinuosos e brancos, que fazem curvas pelo cenário, lindo e iluminado com delicadeza de craque). Amigas, amantes da vida e do bom cantar, as "cabelinhos curtos" cantam bem, se fazem acompanhar por uma banda estranhíssima pois os instrumentos são improváveis, tipo zabumba e sanfona, e daí, desta novidade, as cantoras arrancam sons e versões modernérrimas para coisas que desde sempre ouvimos. A novidade é surpreendentemente bem amarrada, e todos vivemos até hoje esperando para ver e ouvir o encontro das meninas, com certeza parceiras de outras encarnações. Se fosse sexo grupal eu estaria dentro, pois os peitos de Simone e a tatuagem da Zélia são tesões tesudos e inesquecíveis. Não é isto, mas é quase isto: havia fina sintonia, sensualidade, mão naquilo, aquilo na mão, uma coisa de tão bom e de tão respirável sedução. A atmosfera da estréia foi deliciosa, como só as competentes sabem montar. E sozinhas ou em dupla, aplausos, aplausos e gritos histéricos para as excitantes. Simone pede que todos os elogios exclamados sejam no plural, mas mesmo no singular, a saudação embute Zélia, onipresença na releitura da vitalidade. Portanto vá para a porta, ajoelhe-se diante da bilheteira, grite aos seguranças que você também é filho de Deus, invoque Exu, fantasie-se de Amy Winehouse, mas assista. Vendo aquilo, a humanidade há de compreender que não há nada melhor no mundo do que as pessoas serem o que são, sem precisar mentir, fingir, esconder. Um espetáculo inteiro, não hipócrita, feliz e sincero. Tipo assim: fora a qualidade artística, irrepreensível, há qualidade de vida nesta residência.
Num dos silêncios profundos do show, quando a reflexão que as duas cantoras nos levam, e que é maior que a histeria dos fãs, ou a vontade de aplaudir, a maravilhosa louca Ângela Ro Ro leva um lenço até o nariz e dá a maior e mais sonora escarrada de que se tem notícia na história da humanidade. E como amigo é casa, a deslumbrante compositora provoca risinhos de cumplicidade e olhares apavorados dos que estavam em transe. Faz parte do jogo receber amigos diversos em casa tão democrática. Até escatologia terá vez, e na hora que Simone e Zélia interpretam a Ro Rô desculpamos qualquer deslize, porque a letra explica tudo: "sou a mulher que contesta a sociedade".
Bem na minha frente, a mesa da belíssima e terna Cristiane Torloni. Filas para fotografar e incensar a diva, que bem merece. Mas eu não tenho olhos para La Torloni, porque eu amo sua mãe, e não desgrudo meu olhar, hipnotizado, da figura de Monah Delacy. Enigmática, a ruiva traduz a ambiance das Dietriches da vida: sobrancelhas arqueadas, nariz finíssimo, olhos de Capitu, ar de abandono e suspeita de força interior que permitirá bote incrível, fico silencioso admirando a grande atriz que me fascina. Não resisto e digo-lhe baixinho: "eu amava você na Sombra dos Laranjais". Educada, agradece discretamente. Monah e seus veludos de uma outra era, Delacy e suas peles de feras exóticas. A ruiva é minha imagem de sofisticação na medida certa.
Reverenciado pela cantoras, que do palco o chamavam de "anjinho barroco da música popular brasileira", o autor da música título de espetáculo (ao lado de Capiba) o divino Hermínio Bello de Carnvalho, foi delirantemente aplaudido por todos nós. E na sua letra, ele elogia a casinha que o João de Barro constrói para sua família, e que permite o paralelo que o genial autor faz, com as necessidades que uma boa amizade precisa ter: paredes fortes, portas largas, etc. Tudo isto para dizer que esta semana, alguém me contou que quando o passarinho João de Barro descobre que sua fêmea o traiu, ele fecha calmamente toda a esfera de barro, e ela, talvez sentindo-se culpada, sei lá, não se mexe no longo processo de fechamento da clausura, e ela morre seca e esturricada lá dentro com o passar dos dias. Cruzes, esta foi a semana em que João de Barro esteve presente em minha existência, para o bem e para o mal. Casa boa, forte e resistente, mas de uma crueldade passional que detesto. Será que este pássaro é assim mesmo? Será que vou virar ornitólogo? Quantas dúvidas cruéis.
Mas minha maior dúvida é se Rock Hudson morreu ou não? Explicando: os galãs gays da cena brasileira, que não podem ser descobertos (mesmo tendo sido meus amigos na juventude, tendo namorado meus amigos), porque ninguém pode saber que eles são gays? Porque o público os hostilizaria? Mas porque este mesmo público não hostiliza o galã que deu uns tapas na cara da mulher? Quer dizer que ser gay não pode, mas ser violento pode, é isso? Muito esquisito a vida particular do galã que bate na mulher não interferir na carreira e nos papéis dele e o fato do outro galã amar um ser do mesmo sexo o impossibilitar de interpretar homens que amam mulheres. Não avançamos quase nada, ainda. Por isso este candidato homofóbico que agora está posando de ex-pastor que aceita os gays, inclusive contratando a ex-quentinheira para fazer jantares para gays famosos engrossarem o caldo, não nos convence. Agora que precisa do nosso voto nos aceita? Pois sim, quem não te aceita somos nós, humanos livres, cumpridores de nossos deveres e com direitos de cidadãos. Se amigo é casa, esteja desconvidado, pastor, de freqüentar a minha. Xô quentinha!
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