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Milton Cunha

Domingo, 30 Novembro, 2008


Era uma vez a tribo dos bravos guerreiros africanos, que acreditava que a natureza produzia energia, e que todos os homens deveriam ficar atentos aos chamados do cosmo.
Ala Número Dois- Energia Africana, Setor 2

A Viradouro realmente acredita, que a sobrevivência do Orixá africano, é a maior prova de que o aniquilamento cultural planejado pelo branco colonizador, não deu certo.
E não dará nunca, porque o Orixá nos fala da força, do poder e da energia contidas na natureza.
Vento, planta, cachoeira, lama, trovão, tudo é vida sagrada, que moverá a vida do futuro. Sempre moveu o homem. Agora move a moderna tecnologia.
É preciso dar ouvidos às velhas Yalodés. São baianas, são mães do samba, são nossas riquezas.
Estes ensinamentos foram guardados a sete chaves, com devoção e religiosidade, pelas mães da Bahia, sempre preocupadas em preservar os Orixás, sua sabedoria, e conseqüente ensinamento dos mortais, de todas as raças e crenças, de que a natureza tem poder.
Fantasia denominada Rendas da Anunciação, segundo setor.


Segunda-feira, 24 Novembro, 2008

Curto e grosso: Cláudia Leite não quer um filho gay como eu, porque gay sofre muito. Sem problemas, eu também não quero uma filha gonçalense imitando baiana, clone eterna da original e verdadeira estrela morena, de quem ela será para sempre, sombra. É que este tipo de menina hetero sofre muito. Bobagens à parte (o que atesta o nível de inteligência da argumentação), o fato é que querer filho gay, independente do nível intelectual, ninguém quer. E como não tem explicação plausível, é só preconceito mesmo, recorre-se as mais mirabolantes fórmulas de explicação. Exemplo: eu, Milton, não quero ter filho pedófilo nem espancador de mulher, nem "maníaco do parque". Como eu explico isso? Eu odeio esta gente, acho psicopatia deplorável. E, sinceramente, ela acha gay deplorável, porque só pode ser gerado na barriga das outras. Ainda na argumentação dela, o sofrimento gay, você conhece hetero que não sofre muito? Deus, os leucêmicos, os miseráveis infelizes no casamento que passam a vida a fingir, os sem-grana em condições desumanas de vida, os existencialistas que acham a condição humana um inferno? O problema é querer tipificar nós gays com um sofrimento exclusivo, isto é tolice. Nosso sofrimento é a burrice humana que, hipócrita, acha que nosso sofrimento é maior que, por exemplo, o das mulheres hetero, grupo extremamente marginalizado pelo machismo irracional que as escraviza em dependência econômica doméstica. Com certeza nós gays, sofremos. Mas o que dizer de vocês, heteros, nesta carnificina à qual vocês se submeteram? Tudo certo, tudo bom, vocês são os maiorais. Mas chegará o dia do juízo final, quando à vocês será cobrado justiça e amor, e não julgamentos de dar ou comer. Sofremos por estar neste tiroteio e pronto, como todo mundo. Também sofremos por nos sabermos indesejados por nossas mães (isto sim o tiro de misericórdia em nós). Porque o vizinho nos indesejando? Sinceramente, cagamos pra isso. Queremos é ser criados com afeto e noção de amor paternal, para depois, crescidos e gays amados pelos familiares próximos, irmos em frente dizendo: "não vem bancar pra mim o hetero resolvido que nós, gays, também viemos de uma família hetero e sabemos que só muda de endereço, meu bem!".
Eu, feto gay, repudio tuas considerações. O que faz um feto quando se sente indesejado? Se auto-aborta? Continua a gestação e parte para a luta? Fico pensando no sentimento dos fetos gays, que ouvem suas mamães dizerem "não desejo que meu filho seja gay porque vejo o preconceito que meus amigos gays sofrem, e isto não é nada bom". Eu, feto gay, um dia declarado por minha mãe nestas bases de raciocínio pouco generoso e mandão que agora Cláudia encarna, só posso dizer que abandonei-a assim que pude. Porquê que minha mãe nunca me perguntou se mesmo gay, eu era capaz de uma amor imenso? Na sua torcida de não acreditar que eu era gay, minha mãe passou por cima da minha imensa capacidade de amá-la. Sempre a vi só como uma mulher mãe que gostaria de fazer desaparecer em mim minha homossexualidade. Mas eu só queria que ela entendesse que, independente de macho, gay, ou fêmea, as criancinhas são lindas porque nelas o universo se revela encantador e esperançoso. Mas não adiantou de nada. Elas só queria saber se eu daria ou comeria. Agora que ela está morrendo e pede para eu perdoá-la, só consigo pensar que a desgraça não é a morte dela, é eu ter sobrevivido à isto tudo. Mais fácil é bater as botas e dificílimo é continuar vivendo e ter que pensar em tanto desamor. Quantas mais terão que ser abandonadas pelo seus filhotes, porque serão mães que acham que tem o direito de legislar sobre o desejo do filho? Cláudias Leites-mamães à parte, é preciso ser Miltons Cunhas-filinhos, para falar de um outro ângulo, de uma outra visão. Indesejados, nascemos com este desejo homossexual, que não orgulha mamãe nem papai, e na explicação tosca deles, para o fato de não terem orgulho de nós, olhamos incrédulos para os imbecis genitores, com cara de "sinto muito, é isso e pronto, só me resta viver e morrer gay". Não adianta ir bem no colégio e tirar boas notas, não adianta ser bom menino, pois ainda assim alguns pais nos pedem (ou obrigam) a disfarçar, e parece que a hipocrisia os satisfaz mais que a verdade de transarmos com o mesmo sexo, felizes e realizados. Quem são estes senhores e senhoras que nos aniquilam, que em nome de uma proteção maternal e paternal, querem que não sejamos o que nascemos para ser? E pior que isto, torcem por tal ou tal sexualidade, como se isto fosse direito deles. Somos seus filhos, portanto universos independentes, e só cabe à nossos genitores, a torcida pela nossa felicidade. Em vez de declararem "quero meu filho pleno, bom caráter, capaz de um amor imenso", tudo o que conseguem declarar é "ai, não, gay não, e não é por preconceito, não, é por pena do que eles sofrem!". Saiu de moda o antigo e assumido "prefiro assaltante que viado?". Achava melhor esta frase.
Escrevo tudo isto de madrugada, depois de encontrar Márcia Lávia, carnavalesca do Império Serrano, e, ao me apresentar seu filho gato adolescente, na festa de lançamento do cd dos Sambas de Enredo, na Cidade do Samba, quando elogiei o garoto pela beleza e por parecer descolado, a mãe declarou, em alto e bom tom, orgulhosíssima, "não, este é macho!". E aí parei para pensar: "quantas mães gritariam aqui sobre o filho não macho, o gay?". Nenhuma. Macho significa a resolução da dor. Vai comer todas e portanto será bem resolvido, bacana. Se gay fosse, iria passar por todo o calvário que todos os gays amigos destas mães passam. Mas vem cá, não é um calvário ser apresentado pela mãe orgulhosa como macho? O que isto subentende? O que isto embute? Deus que me livre ser macho nesta terra de machos pit-boys que espancam humanos em boates, que puxam os cabelos das meninas com uma indelicadeza dignas de brucutu. Será que é o raciocínio destas mulheres que tem levados seus meninos à esta monstruosidade de comportamento com as fêmeas?
Portanto, aproveito esta coluna, para dizer para a deslumbrante mulher (e não a artista) Cláudia Leite: não espera daqui à sessenta anos para pedir perdão para teu filho. Assim que ele nascer, bate a descarga em todas estas tuas declarações, e, a cada dia, reafirma teu amor incondicional e teu apoio à mais plena realização que um humano pode almejar, que é ter caráter, ter espírito fraterno e saber que, transando com árvore, parede, periquito ou papagaio, a grande viagem humana é, através da própria vida, libertar o espírito dos tolos preconceitos que tentam nos reduzir à meros orifícios. A alma não é pequena, e, portanto, tudo valerá à pena.
Mãe é aquela que pede saúde e paz para sua criança. O mais, pertencerá ao insondável território do desejo. Inclusive daqueles desejos que dizem ser Ivete Sangalo a única, original, definitiva e verdadeira bombshell baiana. Tudo mentira. Tem espaço para tudo e todos. Até para os não desejados. Que a Nossa Senhora do Bom Parto te proteja, querida. Mesmo que ela seja gay, ou hetero, ou preta, ou índia!


Quarta-feira, 19 Novembro, 2008


Gente, não é por nada, não, mas um dos grandes astros do pornô nacional virou pastor evangélico. Da pá virada e do barro remexido, há cenas com homens, árvores, travecos, mulheres, animais, tudo disponível na internet. Fique pensando, cá com meus strasses, que isto está quase virando uma produtora artística, em vez de igreja, tal o número de ex-modelos, cantoras rebolativas e similares pecaminosos, que depois de terem feito tudo, absolutamente tudo na vida, encontraram Jesus, que só não pode apagar as provas disponíveis, revistas pornográficas e filmes incluídos. Acho legal eles terem a segunda chance. O problema é que metem o pau (ui!) nos atuais em exercício pleno da profissão que, mais jovens, apresentam os requisitos básicos que o mercado exige para tais profissões. É tudo tipo processador de laranjada, que suga, suga e cospe o bagaço fora. São as pessoas que viraram suco, são os centrifugados pela existência. E como todos têm o mesmo, deixa eu procurar a palavra mais branda, perfil artístico, não me espantará nada se os vermos reunidos numa grande produção surubática tipo "recordar é viver", que pode ser também o título da igreja que eles fundarão, em breve, num cinema próximo de você! Neguinho já tá sacaneando e adicionando a designação de pastor no título dos filminhos por ele estrelado na internet. Acho que a moral da história, é velhíssima: quem tem telhado de vidro, não joga pedra no do vizinho.


Esta semana participei do Simpósio de Carnaval e Cultura da UFRJ, no salão Azul da Reitoria, e para nosso júbilo e Reitor anunciou para 2009 a abertura do curso Superior de Carnaval desta prestigiada Universidade. Acho que é passo definitivo para a consolidação deste moderno mercado de trabalho profissional, que precisa cada vez mais de formação intelectual e capacitação artística. Sem que isto signifique em absoluto a perda da sabedoria popular, exemplificada, por exemplo, nos sábios versos de Jorge Melodia, preto-velho iletrado do morro do Borel, que faleceu recentemente, autor desta crônica que não pára de ecoar em meus ouvidos: "lugarejo sem saúde, onde a maior virtude era viver de armação, Macunaíma anti-herói idolatrado, aqui tudo foi tramado pra virar esculhambação - todo mundo pelado, beleza pura, todo mundo pelado, mas que loucura, ninguém segura a perereca da vizinha, é um barato a buzina do Chacrinha". Salve, querido sambista, obrigado por tudo....


Segunda-feira, 17 Novembro, 2008

Isabelita dos Patins voltou passada com a nota de dois reais na mão, num shopping em Salvador. Foi quanto uma senhorinha lhe deu, como forma de pagamento pelo santinho (flayer, sei lá) que "a drag-queen mais amada do Brasil", como ela se auto-intitula, distribui sem parar. Não se cansa de distribuir, esteja onde estiver, do balcão do aeroporto à porta de loja. Vira deboche rapidamente, e Iglesias, o cavalo masculino (corpo que recebe e hospeda a entidade) de Isabelita, leva tudo com muito bom humor. Estávamos todos numa caravana gay, que partiu do Rio para ser júri do Miss Gay Bahia 2009, realização vitoriosa de um negão lindo de 2 m. que se traveste em Bagagerie Spielberg. O máximo da diversão. Duas candidatas em traje típico me marcaram para sempre, pois num átimo de segundo, e com um mínimo de investimento, conseguiram fazer o Teatro Vila Velha parar e pensar sobre dois piriclitantes assuntos da modernidade. Só grandes humoristas, com olhar ferino sobre o real, fazem tão bem o que as duas fizeram: Miss Brasília adentrou a passarela vestida de tailleur executivo feminino, risca de giz, classuda como poderosa dos negócios, tendo blusa rosa e gravata mais rosa ainda. Cabelos lisos avermelhados, maquiagem discreta e postura de poder. Nada de mais até aí. Sobre tudo isto, a.... faixa presidencial brasileira. Uma versão gay do Presidente do Brasil, trazendo à tona uma imagem possível mas pouco montada, já que sempre pensamos no líder com visual masculino ou feminino, e enchendo de estranheza a possibilidade de um Presidenciável híbrido, travesti. O máximo da modernidade, o cúmulo da clareza, e por instantes, não sabíamos se ríamos, se chorávamos, se aplaudíamos. Mas muito bacana a imagem. Esquisitíssima. Inesquecível. Chegará o tempo de vermos na real. A outra, miss Rio Grande do Norte, resolveu homenagear os pequenos entregadores de jornal da capital, Natal. Bicileta rodando, a maluca entrou na cena sem que ninguém entendesse nada, na hora de acionar o descanso para deixar a bicicleta e ir distribuir o jornal para o público, este não funcionou. Tentou três vezes, viu que ia pagar mico, fez um "ah", deixou a bicleta no chão e saiu serelepe homenageando o primeiro emprego de muitos jovens. Talvez seja isto que exemplifique a máxima: "só um veado para tanto despacho....".


Ainda Salvador, no domingo caminhei do hotel até a concha acústica do Teatro Castro Alves para ouvir a Orquestra Sinfônica de São Paulo, de graça. Programa imperdível para um humano que acredita que a vida só tem graça se, no sábado, tendo folia gay, descompromissada e feliz, é preciso no outro dia, dar um pausa no coração, e deixar a erudição entrar. Só temos a ganhar sendo ecléticos e livres de preconceitos. Surge o engraçado Maestro John Neschling, que começa agradecendo o patrocinador, pois é de uma complicação enorme fazer turnê com duzentos músicos, uns que não comem carne, outros não comem vatapá e alguns que.... comem tudo e todos. Risadas gerais, o primeiro número emociona e cala as seis mil pessoas que lotavam a concha, e no intervalo subi e comi acarajé, quando eles atacaram de Wagner e, comida de orixá na mão e som alemão no ouvido, bradei: "viva a miscigenação, salve o sincretismo baiano". Depois de Carlos Gomes e de sua hora do Brasil, digo O Guarany, o maestro pergunta ao microfone se alguém quer fazer uma pergunta. Um homem levanta a mão, vai até o púlpito e diz "oi, sou Luiz Mott, fundador do grupo Gay da Bahia, professor da Universidade Federal da Bahia (neste momento teve que esperar os aplausos para ele cessarem) e quero agradecer em nome do povo baiano, que está aqui para provar que não somos só axé e pagode. Voltem sempre que nós todos estaremos aqui, e que bom que vocês vão executar um compositor gay, Stravinsky". Não se fazendo de rogado, o maestro toma o microfone e diz: "infelizmente não tocaremos ele neste programa, mas com certeza um dos outros que tocamos deve ser enrustido, então, sintam-se homenageados....". Delirantes aplausos para o momento mágico de humor nacional, que deve ser o que dizem ser "coisas da Bahia".


Sexta-feira , 7 Novembro, 2008

Qual foi o mais próximo do inferno que vocês já se aproximaram? Estou falando daquela visão da morada do demônio que temos desde criança, tipo o Jardim das Delícias, do Bosch, ou o inferno de Dante. Lembro também da barca do inferno do Gil Vicente, todas expressões do imaginário das profundezas. Pois eu fui à boate The Week, e aquilo é muito próximo do que configuro a garganta do diabo. Quase senti o cheiro do enxofre. Muita fumaça, muita luz, muita gente digamos, desocupada, que se ocupa em vender ou trocar o corpo por benesses. Muitos braços para o alto, muita bebida, muitas coisitas mais e a certeza de que aquela não é minha praia e eu me incluo fora desta. Tiro de misericórdia, Lacraia e Serginho em cena dantesca, de cortar os pulsos, tal o mais baixo do baixo nível, um assinte ao bom senso. Eles se acham engraçados, mas são escatológicos e cruéis. A coisa mais branda e possível de ser publicada é quando Serginho canta (canta?) que "se você não está gostando da vadia mostrando a calcinha no palco, é porque tu és viado!". Como assim, cara pálida. Não é possível que todo homem que goste de mulher admire o objeto de seu desejo ser tratado da forma mais grosseira e degradante que se possa imaginar. Com certeza tem homens que gostam da sordidez, se sentem atraídos pela quinta catiguria. Mas devem existir moços que não achem esta a melhor forma de expô-las. Isto posto, tem algum problema para vocês se eles forem veados? Fica parecendo que os homossexuais são uma praga a ser combatida, pois não admiram tal espetáculo de desamor. Antes veado que babaca. Confesso que ao meu lado um casal lindo e jovem estava ultrajado com tudo aquilo. Gente, é de chorar de ruim, um desserviço à educação, polidez, generosidade e fraternidade. Um horror em vida!

"Isso também passará", diz a sábia e velha Maude para seu jovem amante, que grita desesperadamente que a ama e que não poderá viver sem ela. Ah, o tempo, e a absoluta certeza de que língua não tem osso, e que palavras o vento levam. Ela já viveu tudo o que queria, e como tomou algo que já a está levando à morte, ela tenta aclamar o menino que ainda tem muito para viver e aprender. O confronto da ansiedade e da prontidão de uma pensar iniciante, e a placidez do consumado, duelam magistralmente no "Ensina-me a viver". Interessante pensar que a juventude e impulsividade do jovem ator e produtor fizeram com que ele tivesse a loucura do seu personagem, e procurasse a divina Glória Menezes, na cara e na coragem, para convidá-la para estrelar a montagem, seu sonho. Graças a Deus que existe o despudor jovem, a coragem e a obstinação. Outra coisa que me chama a atenção é o gosto dos dois maluquinhos por freqüentar velórios, e é num destes que eles se conhecem. Velórios são engraçados pelo drama profundo neles embutido. Mas são certezas em todas as vidas, e o ritual e desempenho dos envolvidos no ato de velar o corpo, pode provocar cenas inesquecíveis. Acho que loucos se identificam com a loucura de um velório, e se sentem por eles atraídos. Um grande espetáculo, montado com charme e dinâmica. Todos os atores estão muito bem, mas que prazer ver a deusa Glória Menezes, senhora de talento e domínio de cena, arrasar num personagem tão comovente. Terminei um casamento, e quando o companheiro saiu por uma porta, saí pela outra, peguei o carro e fui ao teatro que sempre me socorreu, junto com o cinema, a desvendar os intrincados mistério do viver. Vocês tem toda razão, isto também passará!


Terça-feira, 4 Novembro, 2008

Me lembro da sonora gargalhada que dei há anos atrás, quando, folheando a Caras, li que a então apresentadora Babi (não direi atual atriz porque a classe não merece) declarava que, mais que amar o namorado que naquela ilha a levava de jet-ski pelos mares de Angra, mais que amar, verbo que não dava conta de tudo o que sentia por ele, mais do que dizer "eu te amo", pouco e pequeno, ela dizia "eu te vivo". Quase me mijei nas calças, de tão descartável que tudo aquilo me pareceu. Quanto mais tentam ser profundas, mais estas celebridades patinam na superfície de um mar que elas supõe feito de declarações e palavras, e não de sentimentos e ações. Me perguntei: "então vai viver até quando, querida? Encomenda teu caixão, isto não dura um verão". Hoje, trezentos homens depois, ela ainda deve declarar para eles, no silêncio da alcova "eu te vivo". Ela tem todo o direito de amar e namorar quem quiser. Problema dela. Mas na medida em que isto vira um espetáculo, cujo ingresso compramos ao preço da publicação na banca, nós, que só amamos e não "vivemos" nossos companheiros, temos todo o direito de dar umas gargalhadazinhas com o canhestro texto, não é mesmo? Não que o nosso texto não seja ridículo como todos os sofríveis textos e declarações de quem está apaixonado. Só que para os famosos, cada paixão rende um convite para lua de mel grátis, variando de castelo à ilha, e em troca é preciso permutar fotos e paixões por manchetes profundas que tornariam aquela efeméride amorosa num acontecimento de conseqüências filosóficas. Hoje o eu te vivo está na lata do lixo, tudo continua normal no reino do superficial, e me lembrei desta estória porque era tanto, mas tanto amor, tanto projeto de casamento de Dado e Luana, que a delegacia era favas contadas para o happy end deste amor nitroglicerina. "Homem da minha vida", "mulher da minha existência", e nós lá, leitores, espectadores, agüentando firme, pagando para ver. "Termina em tapa?", "não, estes viverão felizes para sempre...". E eu não ouso acusar o público, não acho que a culpa é dos iletrados. Só se compra o que está à venda, inclusive eternos amores fakes de quem usa relacionamentos para divulgar carreira. Como não vejo nada demais nesta louca indústria do troca-troca de parceiros de celebridades (ui!), como não levo a sério, sigo dando gostosas gargalhadas deste circo das paixões provisórias. O amor é líquido, meu cérebro não é penico, e chegará a hora deles reatarem e me convidarem para padrinho do enlace, defronte do juiz. Irei vestido de "nem tudo que reluz é ouro, nem tudo o que balança, cai".