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| Milton Cunha |
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Perfeita a celebração do espírito natalino pelo Bento XVI: quer coisa mais fraterna que comparar nós, gays e filhos de Deus, com as florestas tropicais? Tudo bem que eu tenho este DNA de Carmem Miranda, onde sempre cabe mais uma palmeira ou um abacaxi; mas daí a dizer que salvar as matas virgens seria, para ele, tão importante quanto salvar a humanidade da prática homossexual, me parece uma supervalorização de questão tão.... tão.... gozada! Um doce, esta criatura santificada, né não? Mas alguém precisa explicar pro supremo sacerdote que a importância da selva é justamente a bio-diversidade. Muita coisa viva diferente, vivendo em paz, cada qual com seu cada um. Precisamos aprender com as folhagens, que nos ensinam que tem lugar para tudo e todos, dos vermes aos deuses, e já que a maioria vai continuar se reproduzindo, mesmo, da forma papai e mamãe, a perpetuação das espécies estará garantida. Além disso, temos que garantir a felicidade que vem da verdade interior de cada ser vivente. Lá tem macaco, boto, borboleta, árvores diversas, insetos inimagináveis. Tem até boto-cor-de-rosa, como este que vos escreve. O que não significa dizer que não existam mariposas que transam com outras mariposas do mesmo sexo, ou mesmo uma árvore que sinta desejo de não transar com árvore, mas sim com as águas do igarapé. Todos têm direito sobre seus desejos e sexualidades. Precisamos parar de temer o diferente, porque o mundo não é gay, e os heteros não precisam se preocupar com a premissa: "todo mundo vai virar gay!". Não, não vai acontecer porque não vai, e pronto. Desde que o mundo é mundo que é assim. Nos deixem em paz, porque nós temos deixado vocês viverem em paz há milênios. Parem de nos demonizar, parem de nos perseguir. Há coisas mais importantes a fazer, para o bem da humanidade, seja lá que sexo ela pratique. Que insistência, que fixação em pênis, ânus e vagina, meu Deus. Porque nós gays seríamos a destruição da humanidade, se respeitamos pai e mãe, se somos cumpridores de nossos deveres? Será porque exigimos nossos direitos? Será que os católicos acham que só existem ônus, e nenhum prazer? Talvez seja isto que explique a hipocrisia destes fervorosos que são flagrados diariamente fazendo o que todos fazem: correr atrás de suas realizações mais íntimas. Quanto a "ouvir a linguagem da criação", ouço-a diariamente. Respeito-a, mas não a pratico, no sentido estrito de transar com mulheres. Rezo do meu jeito por todas as famílias, sempre que encontro uma grávida, carinhosamente saúdo-a com "paz para seu bebê", não cobiço (só um ou outro, mas me controlo, porque ninguém é de ferro; mas vai dizer que isto os católicos também não o fazem?) e admiro homens casados que amam suas mulheres, estarei sempre pronto a ajudar um idoso, não humilho subalternos no serviço, contribuo com creches e asilos sempre que posso, dou bom dia aos porteiros e vizinhos, mas em nenhum momento nego o que há de mais profundo em minha alma, minha atração por homens. Ciente de que não fui criado pelo sexo praticado entre iguais, que não sou produto carnal do amor homossexual, nem por isso me acho merecedor da frase de que "para salvar a humanidade é preciso exterminar o comportamento homossexual". E confesso que preferiria a morte, a sobreviver tendo que me casar com uma mulher e ter filhos com ela. Não, obrigado. Não nasci para o fingimento, e se a outra opção católica é a abstinência, sinto muito mas a-do-ro sexo com nascidos iguais a mim. A linguagem da criação vai continuar, ela é linda, mas não é a minha praia e pronto. A expressão ecologia-humana é interessante, porque ecologia seriam as relações entre o meio ambiente e a vida, tão diversa e maravilhosa. Leopardos negros, pintados, pintosas, jaguatiricas, onças, tudo felino, mas tudo tão belamente variante. Narizes de batata, cabelos pichain, fios lisíssimos das orientais, árabes-mamelucos, nada disso me leva ao fundamentalismo do dizer papal: "quem não dançar conforme a nossa música, está fora". Se fosse fora do baile dele, eu até aceitaria, mas ele prega que eu estou fora da ecologia humana, e que eu tenho que desaparecer para salvá-la. Ui! Muito forte. Me excomungar e me proibir de entrar em seus templos, acho até que ele tem este direito, porque no fundo de minha alma não aceito seus dogmas, mas eu, ao contrário dele, não acho que seria uma salvação para a humanidade protegê-la contra o pensamento dele. As pessoas podem acreditar no que quiserem, mas não podem ser excludentes. Quem não pensar igual a mim não precisa desaparecer. Porque aí elas jogam aviões contra edifícios, em nome de Deus. Este tipo de mensagem religiosa é barra pesada, porque põe dois lados em pé de guerra. U-ó! Não é metafísica superada, mas é incompleta, a igreja só contemplar como aceitável falar da natureza humana como homem e mulher dotados de sexualidade única. Gays são homens e mulheres dotados de outra libido, que não aceitam fingir para agradar ou se encaixar em tal metafísica. Existimos para exemplificar que esta metafísica propõe a mentira e a dor de se ser o que não se é. Proponho a metafísica da liberdade, onda cada um conta o que gosta, e a partir daí criaremos o sistema filosófico que não vai associar gosto sexual à qualidade do espírito. Nem todo hetero presta, nem toda a bicha é desumana. O que se faz na cama não define caráter nem humanismo. "Desvio, irregularidade, ferida....". Ferir é a palavra de ordem das declarações do Vaticano. Ferir no âmago, dilacerar corações. Inquisição do terceiro milênio, cruzada anti-gay, absolutismo não esclarecido. Já foram mulheres-bruxas queimadas, já foram índios do novo mundo catequizados e dizimados, já foram negros africanos sem alma escravizados em nome de Deus. O alvo agora somos nós, gays, que desaparecidos, salvaríamos o mundo (que tenta tolamente só salvar oceanos, baleias e florestas), e segundo a máxima cristã de agora, têm que focar nesta nova salvação. Era tudo o que se precisava no final de um ano de intolerância e dor, que começou com um "porque não te calas?" do rei rico para o terceiro-mundista com cara de bugre, e terminou com uma sapatada ao cachorro-louco. Muitos outros exemplos de intolerância religiosa virão. Mas não podemos confundir as divinas e generosas ações do Criador com a manipulação humana de suas grandezas que as igrejas são. Há luz, há energia, há amor pairando no ar. Que 2009 seja repleto de democracia, verdade, liberdade e respeito à diversidade. Que arara não precise agir como periquito para poder pertencer ao grande espetáculo da criação. Somos criaturas de um criador maravilhoso, independente de religiões, e teremos sempre que honrar seu magnânimo exemplo de entendimento e riqueza de formas de vida. Ele criou a multiplicidade. De famílias, inclusive. Cristo, Alá, Tupã, Olorum, Buda, Nzambi, todos os Criadores de mãos dadas, brincando de ciranda em volta do planeta terra, na noite de ano-novo, para garantir o mais precioso bem guardado pelos corações venturosos: o bem, sem olhar a quem....
A grita contra os ladrões de donativos para os flagelados é muito próxima de nossa indignação, contra as comissões que tem que ser pagas em todos os níveis de administração pública para que tudo, absolutamente tudo, ande, né não? Pegar fraldas que ajudariam desabrigados é igualzinho a pegar dez por cento da verba para levar água e esgoto a quem não tem, estou certo? Desde que nasci ouço, vejo no noticiário, tenho conhecimento da corrupção, que não é uma elocubração teórica não, é tanto em dinheiro que sai dos projetos de, por exemplo, construção de rodovias, que senão não anda. O que falta na política e sobra na vida real é a velha mãe gritando "devolve"!. Tinha que ter um monte destas mulheres e destes senhores recolhendo de volta para os projetos, os donativos que são surrupiados dos nossos impostos, em nome da "taxa de liberação". Lembram daquele escândalo de trinta anos atrás, do político que ganhava em cima dos projetos de levar água para os sedentos do sertão? Estes foram os professores, a quem faltou a matriarca gritando "desgraçado, roubando pirulito da boca de criancinha"! Que bom que nem todos foram alunos destes mestres do desvio, mas precisamos de mais fiscais em cima.
Deus proteja-os e vossas famílias, e os homens venturosos e as mulheres de bem, neste Natal 2008 e para sempre!
E quanto mais a fã me amava, mais o xixi escorria! Como assim? Pois vou lhes contar: a tal da pista não vip da Maddona era uma cilada no quesito mictório (também não dava para ver quase nada, porque o povo pulava e levantava a mão o tempo inteiro, então é para quem quer dançar, porque assistir que é bom, só um ponto louro de vez em quando, lá longe, que devia ser o cabelo da divina). Cheguei, olhei, tomei uma cerveja num copo enorme e parti para o local sinalizado como banheiro masculino. Vinte e três pessoas na minha frente e nada da fila andar, durante minutos. E era só a primeira vontade! Concluí: "estou perdido, isto aqui vai ser um inferno". Foi quando veio a idéia do xixi de 750 ml, que coubesse no copão da que desce redonda. Pedi a meus três companheiros de empreitada que, um ficando em minha frente e dois no lado, fechassem qualquer possibilidade de visão de quem estava "de fora". Levantei os olhos aos céus, fiz cara de paisagem tipo "ó Deus, será que o senhor não está vendo isto?" e rapidamente enchi o copo. Fui com ele levantado bem longe de mim, colocá-lo num cantinho perto da grade, para que ninguém o encontrasse (pois um louco e alucinado poderia terminar a noite bebendo-o). Quando estava quase lá uma mulher pula mo meu cangote, aos gritos emocionados de "eu te amo, eu te adoro, eu te assisto, eu sou sua fã". E ela me chacoalhava muitíssimo e eu tentava manter o copo equilibrado ao longe e ao alto, e sentia um líquido terrivelmente quente escorrer pelo meu braço e respingar um pouco. Agradeci tanto amor, percebi que meu plano não era perfeito, e cheirando a ácido úrico me recolhi a minha insignificância, batendo em retirada na terceira música. Se é um sofrimento ir ao banheiro, não conseguiria me divertir. Trezentos reais jogados, literalmente, no vaso sanitário. Saiu na urina.
Oi, amados. Que o saco do papai noel seja um escândalo e o perú de natal e-nor-me! Para comemorar o final de ano, este buraco (ui!) estará realizando a confraternização anual "Miss Gay Cidade do Samba 2009", nos asfalto da esquina encruzilhada do Farias Bar, encontro lítero-musical de alucinados que realizar-se-á (ui!) na próxima terça, 23, às 19 horas. Nossa musa e eterna miss Samiillllyyeeellllyyy Cunha (aff) será a grande homenageada, neste evento que congraça gente de todas as raças. Uma baixaria inesquecível, quando a rural de Bia, Bana e Renata estacionará triunfal e será depredada pela multidão alcoolizada e ensandecida. Quem viver, verá! Reze para sair! A volta dos que não foram e, apesar de não ser bebado, o meu não tem dono. Saravá. Espero vocês!
 E já que não se chuta cachorro morto, penso neste apagar de luzes da era Cesar Maia, o rei deposto que vê seu reino ser abandonado por todos os bajuladores de plantão, estes mesmos que bajulam agora Eduardo Paes, e subitamente não me contenho e exclamo: "gratíssimo Cesar, em nome de todos os sambistas do Rio de Janeiro, pela nossa terra prometida, que parecia que nunca ia chegar, e que, pela tua loucura empreendedora chegou e nos fez, profissionais do carnaval, dar este passo que nos levou da pré história dos antigos e desgraçados barracões, para a era da gestão empresarial, quando o dito maior espetáculo da terra enfim descansou e encontrou uma estrutura digna para fazer de camarim". Como a vida é gangorra, como já vi João Trinta, o magnífico, ser Deus e o Diabo neste reino, como já vi o nosso maior mestre ficar em penúltimo lugar, perigar o rebaixamento, e ser esculachado e demitido em plena Sapucaí, sei que um dia o jogo muda e você, novamente rei da cocada preta, sempre saberá que nós sambistas te amamos, te aplaudimos, te incensamos com nossas benesses de alegria e desejo de saúde. Não significa votos, significa gratidão humana. Quanto a mim, pessoa, adoro um prefeito que samba enlouquecido com vassoura em punho, varrendo a folia enlouquecido pelo torpor do ziriguidum. Você é dos meus, e te desejo vida longa. Quanto aos puxa-sacos, calejado que és, deves dar uma sonora gargalhada e saber que daqui há quatro anos eles jurarão a ti, amor eterno novamente. Tudo por uma vaguinha no serviço público. Igualzinho carnaval depois da quarta-feira de cinzas: daqui a algum tempo, começa tudo de novo, zerando as probabilidades.
Alguém precisa avisar para este povo que adora mesclar notas de dinheiro com cuecas e roupas de baixo, que o último grito em Paris são as poderosas libras esterlinas. Não fica nem bem os ultrapassados dólares e euros, coisas de coleções ultrapassadíssimas, tipo do tempo do mensalão, mesmo. Já foi, já era. Quanto a explicação de que se trataria de um empréstimo de um amigo para aplicações no comércio de não o que lá, por favor, poderia nos dar o endereço desta criatura que é o mais benevolente companheiro do mundo? Última consideração: imaginem o volume do borogodó do moço, com aquele monte de notas estufando a frente de sua cueca, provocando a falsa impressão de que ele ela era bem-dotadérrimo. Quando você vai ver, berimbau não é gaita e para não perder a viagem, tudo o que restará é transar com os valiosos tufos. Literalmente, um peru valioso, um peru de ouro, definitivo para este período natalino. Aliás, esconda umas notas no peru da ceia e quando os convidados as encontrarem, grite: se os mensaleiros podem, o peru de natal da ceia brasileira também será cuecão de notas.
Uma cidade onde não se escorrega em cascas de banana; são as milhares de cascas de manga que são o perigo. Muitas, muitas mangueiras, lindas e frondosas, que à noite recebem poderosos focos de verde, transformando a noite amazônida num encantamento sem fim para o turista, que parece percorrer trilhas ao mesmo tempo selvagens e urbanas. Estou em Belém do Pará, depois de dezoito anos, e confesso que percorrer as ruas de minha infância e juventude é paradoxal, de profunda angústia e depois, enorme contentamento. Mas como me disse Lucia Nobre, foi a única vida que tive, e portanto foi assim e agora o que faço deste amargor? Foi isto e pronto, passou, acabou, bola pra frente e agora a vida é outra, todos envelhecemos, e vamos comemorar o fio que nos resta. A cidade está limpa, cuidada, há um clima de progresso e desenvolvimento que acompanha a beleza e atrações que sempre remetem ao rio-mar, tem sempre uma garça, um cocar, um boto. Até os ônibus que circulam pela cidade são estampados com vasos marajoaras, cestos de bacaba, índios e animais. Uma maravilha de marketing estético e informativo. A grande atração da cidade é a revitalização dos armazéns do porto, aqui Docas, que realmente é exemplo para todo o país de como transformar lixo em luxo. Tomara que o novo prefeito do Rio consiga. Estou aqui porque esta é a única forma de se chegar ao Amapá. Que loucura não ter vôo direto para a terra que fez o Criador se orgulhar. Tem que se passar por outra capital para depois alcançar Macapá. Viemos muitos do carnaval Carioca, dar palestras e treinamentos para o pessoal do carnaval daqui. Tem sambódromo; liga das escolas presidida pela destemida Majô; disputa acirrada e um rei momo que se chama Sucuriju, nome de ofídio. Não resisti, quebrei o protocolo diante das autoridades estaduais e municipais, na cerimônia de abertura, e mandei: "muito me intriga a origem de um nome humano que remete à lenda da cobra-grande; seu Sucuriju, a sua cobra é e-nor-me, é isso?" Diante da explosão do riso da platéia, devolvi: "pois lhe apresento a versão carioca da anaconda negra, nosso mestre-sala Rogerinho, da Unidos da Tijuca". O próprio não se fez de rogado e ambos, cobras no bom humor, saíram rodopiando pelo salão, que era uma gigante maloca indígena. O máximo. Depois fomos cozinhar um pouco (não é que seja quente, é o próprio inferno escaldante, sempre pronto a nos transformar em canja) no Marco Zero, o monumento que marca a passagem da linha do Equador. Com a marca no chão, você abrirá as pernas sobre ele e terá uma perna no Hemisfério Norte e a outra no Hemisfério Sul. Não serve de nada, só para palhaçadas mesmo, que nosso grupo-folião tirou de letra.
A pressa e tantos afazeres me fazem ter vontade de sair correndo do consultório do idoso médico. Mas a fala mansa, as boas estórias de quem viveu e sonhou, e minha auto-vigilância de que, na verdade, só estou correndo atrás de minha própria velhice, me fizeram ficar sentado diante dele e ouvir. Me conta que, contratado por uma multinacional do gás para examinar e diagnosticar os pobre-coitados carregadores de botijão, todos, muito jovens e com as colunas completamente debilitadas, ele, ao afastar por diagnóstico quarenta funcionários que estavam em estado grave e de alto risco, foi dispensado solenemente pela companhia, pois dava prejuízos. Pagou o preço de ser criterioso numa função capitalista exploradora que só pretende mascarar, quando o exame será só teatro, e todos devem estar em condições de serem burros de carga. O doutorzinho denuncia que a falta de fiscalização das autoridades competentes, que deveriam fazer tais empresas só permitir que seus trabalhadores carregassem x botijões por dia, calmamente, acaba dando grandes prejuízos nacionais, pois, muito jovens e incapacitados fisicamente, e sem formação para exercerem funções intelectuais, tal massa, tal rebanho de explorados, terão que passar o longo resto da vida no estaleiro, bancados pelo INPS, que somos nós mesmos, a nação. O ônus é nosso, e a falta de humanidade e cobrança de que os carregadores corram e corram, acaba destruindo-lhes a saúde. Por que a fala do velho médico me interessa? Porque ela nos ensina que correr e correr é para o bem e para o mal. Batemos metas, cumprimos prazos e cronogramas, mas qual o custo, que preço estamos pagando ou pagaremos lá adiante? A coluna cervical é só metáfora para pensarmos nos sustentáculos de nossas existências que estamos triturando porque estamos empilhando cada vez mais e mais botijões, logo ali na dispensa da vida. Fiscalizar é a palavra-chave, e neste caso o fiscal somos nós, de nós mesmos, e das pessoas que estão ao nosso lado e que temos intimidade e gostamos. "Fulano, dá só uma paradinha, bota a música cafona de natal e ajuda tua mulher a montar a árvore. Pendura nem que seja uma bola só, criatura. Suspende teu filinho do chão e juntos, coloquem o cometa ou o boneco do papai-noel lá no topo. Não vai doer". O experiente médico volta cinqüenta anos atrás e, duas frases, já está na sorveteria da Tijuca com a bela morena que tanto lhe interessava, e que, para conseguir levá-la para o sorvete, teve que usar sua irmã como ponte. Deixo-o falar sozinho e penso: "que delícia, um tempo em que sorveterias eram o máximo, um tempo quando irmãs eram usadas como álibi para que um encontro fosse normal. Deus, um tempo sem balas perdidas na Tijuca, Deus, cinqüenta anos atrás, um tempo sem eu, Milton. Que glória, um mundo sem eu atazanando a vida de ninguém. Quase o paraíso em terra!". Naquela noite, ele viu um disco voador, descreve a sensação de observar os movimentos do prato fundo prateado nos céus do Rio de Janeiro de 1958, e diz que até hoje olha para o céu e nunca mais viu coisa alguma. Cinqüenta anos olhando para o céu e esperando! Neste momento eu e você, leitor, já estamos torcendo o nariz para o doutor velinho. Gente que viu disco-voador e coisa e tal, bando de maluquinhos, etc. Somos terríveis, somos cartesianos, somos anti-emoção. Somos perdedores. Quem perde somos nós que nunca vimos um disco-voador. Detesto esta sensação de nunca ter experimentado o frio correndo meu ser, de tanta emoção por avistar óvnis, depois da prosaica sorveteria com o moreno dos meus sonhos. Que sorvete estes lunáticos tomam? Porque são capazes de todo o amor do mundo, e eu, miserável, debato-me em angústias existenciais? Larguei o velho doutor para lá e fui refletir sobre minha existência. Não agüentei o amor desmedido de minha cachorrinha Amy Wainehouse por mim. Passei dois meses cuidando da cãzinha bebê, mas a pug pinoteava tanto, me amava tanto, fazia tanta festa sempre, às quatro da manhã inclusive, quando eu chegava arrasado do samba, que eu não agüentei tanto amor e tanta dedicação. Que espécie de ser humano sou eu que rejeita o maior amor do mundo, o amor canino? Pois não agüentei mesmo. Desejoso, algumas vezes de ficar sozinho, mergulhado em minhas profundas reflexões de "ser ou não ser", lá vinha a feliz canina pinotear ao meu lado. Mordia tudo, e eu lhe dizia: "vá, me deixe, vá ler um livro. Vá ler Sócrates ou qualquer existencialista, criatura". Mas ela não era dada à leituras, e tive que dá-la. Era muito cocô e xixi o tempo inteiro, e eu não tenho talento para tanto excremento pela casa. Cuidar é um dom, dar atenção é um talento, parar e escutar é uma dádiva. Precisamos correr atrás disso tudo, precisamos nos abanar e dizer: menos, menos. Mas entre minha sanidade (sanidade?) e a cã, escolhi eu. Quem a adotou tem uma doação infinita para os bichos, e eu não pertenço à enfermaria de São Francisco de Assis. Admiro-os profundamente, mas sou sincero comigo mesmo e com os animais, e humildemente, reconheço: não sei cuidar deles. Minha enfermaria é outra, acho que pertenço à tribo do velho doutor, que talvez tenha sido um conto de natal em minha vida, destes filmes quando um personagem bondoso aparece do nada, fala com a gente, e desaparece na neve. Não nevou naquela consulta, mas jamais voltarei lá, porque tenho medo de descobrir que humano tão doce e angelical, foi só uma fantasia minha. A esperança tem que sobreviver, vamos olhar para o lado e reunir os amigos. Ele me contou também que todos os anos a turma de formandos de 1960 se reúne em confraternização. E ele só se acha velho quando olha os amigos, acha-os velhos e sabe que os amigos acham o mesmo dele. Mas quando ele se olha no espelho, se acha bem apanhado, consistente e ainda dando para um bom caldo. Mas reconhece que os amigos não estão tão bem quanto ele. O melhor presente de fim-de ano que posso almejar para vocês, é este espelho do velho médico. Um espelho generoso, mágico até. Ele está aí dentro da casa de vocês, ou dentro de vocês mesmo. Um espelho que fornece imagens positivas e revigorantes, para enfrentar com garra o ano que virá, certamente, o melhor de nossas vidas. Consultem-se com velhos doutores, é ótimo para a saúde!
Que gente atrasadíssima, meu Deus! Olha isso, do site Carnavalesco: "Vale lembrar que o metrônomo é usado pela maioria dos mestres de bateria do Grupo Especial e funciona como uma espécie de monitoramento da bateria. O SRZD-Carnavalesco vai utilizar o metrônomo, apenas como mais uma fonte de informação para os internautas sobre os ensaios técnicos das escolas.". Meu amor, nós, as bichas, já utilizamos tal instrumento há décadas, no mundo do samba. Claro que para uma finalidade mais envolvente, eu diria, mas de qualquer forma, um instrumento utilíssimo e imprescindível. "Aquele lá é 25". "Pois aquele é baton naná, menos que 12". "Quase uma anaconda negra de 30". Sempre monitoramos o metro mais cobiçado do ziriguidum. Ousaria dizer que sempre tratou-se de um perumetrônomo, que agora será utilizado para outra medição. Mas deu salve os contadores que sempre percorreram tal comprimento (ui!) com maestria e precisão milimétrica. "20 é marca nota dez", o que acham?
 A moderna química brasileira, que em laboratório pesquisa a produção de biocombustível, é herdeira destes ensinamentos africanos que vieram parar, com os navios negreiros, nas praias da Bahia. Depurar o verde e dele arrancar força, isto liga a milenar oralidade negra e a moderníssima busca de novas formas de energia, através da natureza.
O pilão é símbolo de como se pode arrancar das plantas o fundamento, o axé, o poder dos vegetais. Esta química ancestral, denominada Ewe, produziu receitas mágicas de vida e morte.
 "Oi, aqui é Deus, e eu gostaria de falar com João Pimentel, crítico de música do jornal O Globo". "Claro, Deus. João, telefone pra você. É Deus!". "Oi, Deus, pode falar!". "Querido, eu estou te ligando pra te dizer que o ano passado eu realmente me orgulhei de, como Criador, ter criado, o Amapá e Macapá, patrocinadores da Beija Flor, na letra do samba que você tanto elogiou, mas o problema é que este ano a letra do samba da Viradouro tá dizendo que eu mandei buscar na mata, a proteção do Bio-combustível da Bahia, patrocinadora da Escola de Niterói, e gostaria que você desmentisse esta informação através da sua crítica, porque não fica nem bem usar o nome do senhor em vão, sobretudo numa escola que no ano passado ficou em sétimo lugar". É preciso que o grande público perceba que há uma indulgência, um puxa-saquismo da "inteligência comentarista do carnaval carioca" (e aqui dou a mão à palmatória, o próprio Daniel Pareira de O Dia também adere ao coro), que não vê nenhum problema na liberdade artística de algumas escolas divinas e poderosas, e esculhamba a mesma articulação em outras. Não é sobre a Liga que escrevo, nem sobre seu júri, nem sobre o direito da Beija de exercitar a viagem carnavalesca. Denuncio aqui que certas Escolas podem e outras não podem segundo as criaturas que "forman opinião na imprensa carnavalesca". Pois vem do apimentado crítico musical João, a mais contundente linha direta com o Deus Olorum que se tem notícia na história da humanidade. Ao afirmar que "o samba da Viradouro é políticamente correto, mas Olorum não disse isto, não", ele se arvora porta voz e detentor da fala de Deus, portanto um de seu único (quiçá só ele) representantes, na terra dos homens e guardador de suas verdades. Tentando atacar minha sandice de afirmar "que o Criador disse", ele tansforma-se no oposto, no que afirma que "o divino não disse". Será que podemos ter certeza do discurso de Deus? Ou isto é derivativo? Explicando: Olorum é entidade suprema de uma cultura basicamente oral, portanto sem escrituras, cuja plêiade de Deuses, os Orixás, encarnam manifestações de forças da natureza. Um é a energia do vento, outro da cachoeira, um outro da lama, outro do trovão, e tem um, Ossanha, meu amado Deus das ervas, que diz que das plantas virá a salvação de todos os males. Como a cana que produz etanol é planta, e como mamona, dendê, girassol, pinhão manso e canola são plantas que produzem bio-diesel, na minha maionese carnavalesca de amar a negritude, e de tentar sempre puxar a brasa para a sardinha da inteligência da mãe pátria terra da vida, a África, eu concluo, (com um dinheirinho da Petrobrás, é claro, me patrocinando e me dando condições de um super espetáculo, porque ninguém é de ferro), que os pretos são o máximo e que o feixe de conhecimento Yorubano sempre cantou a pedra de que, há milênios, era preciso respeitar a ecologia, a natureza, e arrancar das forças equilibradas da paisagem, como a chuva e o arco íris, seu fundamento, seu axé, seu poder (aqui é preciso dizer que eu leio, admiro muitíssimo, e sempre bato cabeça para o Ney Lopes). Mais que isto, acredito sinceramente que a tecnologia moderna de crer no mistério do cosmo (tipo física quântica e química transcendental), que tudo isto é tributário do magnífico pensamento negro. Insisto em ir além do exotismo de dança e esporte. Acredito na ciência de Ewe, acho que toda a semiótica moderna já estava lá, na imagética africana. Tem também quem ache que eles só eram burrinhos e limitados, dançantes e bom de corridas tipo São Silvestre. Bio é vida, seres viventes. Combustível é força motora, produtora de energia. Claro que isto pode ser só a Petrobrás bio-combustível. Mas no discurso afro-descendente que a Sapucaí é, (ou deveria ser), isto pode ser, no desfile de carnaval, ensinamento ancestral que sempre foi pule de dez para os negros escravos que vieram para a Bahia. Mais um detalhezinho: Pimentel, Pimentel, politicamente correto é noção que norteia branco soberbo (nem sei qual a cor de tua pele, pois não te conheço, mas não é desta que falo, trato de um certo ponto de vista que vai se achar umbigo da hermenêutica, centro da glória do pensar, sobretudo quando isto coincide com o ponto de vista da super-campeã) que pensa que a história do pensamento e da inteligência humana começa quando alguns ocidentais engendram este conceito. Imagina se os divinos africanos se importam se são corretos ou incorretos politicamente. Ele são isto há milênios, e pronto! Pois sempre que um preto velho se senta à sombra do frondoso baobá, despreocupado dos tolos que se acham referência, e perto da chama da fogueira na noite dos tempos, começa a contar para sua aldeia que há glória no búzio, que a água salgada dos oceanos tem poder, ele está manifestando a fala de Olorum, que manda buscar na natureza, sim, a proteção de toda a vida humana. Simples assim. Se o dim-dim é bom? É ótimo, porque mais e mais descendentes de africanos estarão cantando sua extraordinária cultura na avenida. Nós, Viradourenses, detentores de teu troféu abacaxi, não perdemos a oportunidade de te agraciar com nosso Troféu Xuxu: aquele que se acha o máximo, mas que, no fundo, no fundo, se ressente de gosto. Continua tentando. Apimenta que melhora. Aliás, e a propósito, ano passado a deslumbrante Beija Flor de Nilópolis contou que os Fenício, Hebreus, Sumérios, (quase todos os povos do globo) vieram fixar residência no querido Amapá (que deu também uma graninha), fazendo de Macapá, antes de Cristo, a primeira cidade-dormitório de que se tem notícia na história da humanidade, e todo mundo a-do-rou. É impressão minha ou são dois pesos e duas medidas? E tenho que confessar que falo de cadeira confortável, porque mesmo sem ala de baianas, no desfile da Beija que fiz em 1996, sobre Bidu Sayão, ninguém da crítica viu ou criticou, e eu a-do-rei a pimenta nos olhos dos outros. Agora está ardendo um pouco. Mas vai passar. A divina Magalhães, la Rosa, elogiadíssima, me confidenciou: "Milton, ele adorou meu samba, mas diz que meu enredo são os 50 anos da Imperatriz. Não é não! Meu enredo é o bairro de Ramos e sua importância para a configuração do Rio. O cinqüentenário até entra, mas não é o enredo, não!" Outra pergunta: o samba preferido, o guardião da virgindade, o deslumbre Lendas da Sereias, do Império Serrano, que cita Ogunté, "a que veste o azul noite, cristal, verde e branco, a que traz um abebê, mas esconde-o nas costas quando puxa a espada de guerra, usa capacete, peitaça, adê, escudo, adornos com seus tons de azul noite, verde e prateado, traz em seu adê as sete estrelas da noite". Como pode uma sereia destas flutuar com tanto ferro e aço e pedra, e ainda assim ser rainha do mar? Se mora no mar, não deveria usar um modelito de lycra da Lenny, mais levezinho, não? Que coisa mais inexplicável, a bonita morar no fundo do mar, e abdicar do neoprene. Será que falta um Nizan Guanaes na vida da coitada? Coisas dos pretos africanos. Fabulosos. E eu estou com eles. Tem coisas no mundo que não precisam de explicação. Incluído aí o carnaval e seus delirantes enredos. E seus sambas. E sua gente bamba bacana. Bando de pretos, como eu, fazendo a alegria da nação. E ai que alguém diga que não sou africano. Viro bicho. Ou bicha, sei lá! E não sou politicamente correto, não. Eu sou é esperto! Vai rodar, rodar, e acabar como começou, na África. Olorum manda!
Eu sei que este espaço aqui é só para elogios - e os figurinos da Viradouro estão lindos mesmo. Mas sobre as críticas ao enredo, cada vez que se manifesta sobre a crítica parece que vc quer se colocar acima de qualquer coisa que ofusque seu brilho. Pergunta: E no resultado dos desfiles em que tantas vezes fostes injustiçado? Pq não nunca se pronuncia quanto a isso? Jonas Porque a crítica é poposta para discussão, Jonas. É pensamento em exercício. Já o resultado é soberano. Gostou, gostou, não gostou, não gostou. Ficou em quinto, ficou em quinto. Discordando de você, a crítica não ofusca meu brilho. Ela é escada, ponte, para o meu pensar, o meu refletir. É aí que brilho: como humano pensanter, articulado, capaz de rebater ou sugerir um outro ponto de vista. Eu, você e todos os humanos, deveremos engrossar o caldo do pensar, e nenhum de nós será totalizante, palavra final, dono da verdade. São versões, pontos de vista. E isto é que é interessante. Não é só para elogiar, não. Pode cair de pau (ui!). Mas se for só para dizer que eu sou feio, aí, no mesmo nível, eu vou me declarar belíssima, né não? Tiro de misericórdia: não quero me colocar acima de nada, não, Jonas. Tem vezes que fico por baixo, e é ótimo..... Ui, de novo.... Venha sempe e dê sua opinião, seja ela qual for, amado.... Saravá.....
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