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Milton Cunha

Sexta-feira , 30 Janeiro, 2009


Enquanto ele transava com a garota de programa, que fingia ser de outro ramo e mais que isso, fingia ter afeto por ele, ela perguntava a cada volta de prazer comercial: "quando é que nós vamos passear no shopping?". Pode? Agora me responde como uma ereção vai resistir a um banho de éter destes? Anti-tesão, em vez de gemer, exclama estratégias para arrancar presentes, além do dinheiro "para o táxi". Sai mais caro que um programa profissional combinado, e os tolinhos ainda acham que enganam, o que às vezes acontece, mas na maioria das vezes, o parceiro tem seu instinto de auto-preservação aguçado e cai fora. Isto tudo me vem à cabeça, porque ouvi uma criatura dizer: "coitada da fulana, tão bonita e jovem, tem que agüentar este velho por tanto tempo!". Ao que respondi: "coitado dele, que tendo todo o dinheiro do mundo e tão pouco tempo lhe sobrando, podendo ter todas as mulheres do mundo aos seus pés, foi se apaixonar por uma só, e decidiu ter filhos e curtir a vida em família". Na verdade, coitados de nós, que olhamos as relações com este olho de quem é mais novo ou mais bonito, sem querer saber se tem amor ali dentro. Estamos de fora, não participamos da grande roda do amor, e só nos resta julgar e julgar. Vocês acham que as pessoas se apaixonam, se amam e ponto final, independente de físico e desempenho, ou conta-bancária ajuda? No meio do debate, a lindíssima garota que estava dentro do carro disse: "ah, eu mesmo sou prova viva: só gosto de homem barrigudinho e mais velho, não quero ninguém sarado e da minha idade". Justamente nesta semana, dois pesquisadores ingleses (destas pesquisas-inúteis que infestam o mundo), vêm a público concluir: homens ricos fazem as mulheres chegar mais ao orgasmo que homem pobre. Será? Ou será que mulher de rico finge mais e melhor? Estes pesquisadores não devem conhecer o Teobaldo da Vila do João, pobrezinho que de pobrezinho não tem nada, porque a fila de espera de interessados e interessadas que gostariam de experimentar é e-nor-me! A partir de quanto, o prazer é garantido? Moral da estória: bem faz minha manicure que sempre que quer fazer sexo declara "minha cachorra está latindo e eu tenho que dar ração para ela....."


Fui dar palestra para o povo do carnaval de Vitória, Espírito Santo, e ao mostrar a planta da alegoria numero 4 da Viradouro, que homenageia o dendê, que sai da panela de moqueca da mãe baiana e vai parar no motor como bio-diesel, a grita foi geral: "Milton, moqueca só a capixaba. O resto é peixada!". Fique passado com a rixa, capaz de ânimos exaltados em defesa da não utilização de batata baroa, dendê e pimentão (coisas do Pelourinho....) na verdadeira, única e exclusiva moqueca brasileira, que segundo os próprios, é a capixaba. Engraçadíssima a briga, que de tão séria já está virando negócio de estado, pois estão tentando tombar a receita da iguaria e pedir exclusividade de denominação. O que vocês acham? Conseguem diferenciar uma da outra? Qual a mais saborosa?


Terça-feira, 27 Janeiro, 2009


Barack é um tesão, Michele é um tesão, e graça a Deus o glamour voltou à Casa Branca. Saudades de Jack Kennedy, do charuto do Clinton (com a divina Hilary embutida), saudades de gente interessante à frente dos Estados Unidos. Parece que agora tudo voltou, com força e pimenta total. Os jecas do Texas se mandaram, com sua visão limitadíssima do mundo, e um certo ar respirante de intelectualidade e fraternidade sopra esperançoso. Bom ver multidão alegre, chorando, balançando bandeirinhas e aplaudindo. Chega de vaias e críticas intermináveis para presidentes e políticos em geral. Maravilhoso participar, se Deus quiser, do início de uma nova era. Acho que quando Rosa Parks não se levantou do assento para brancos, no Ônibus em Montgomery, acho que ela viu o vulto de Obama num futuro possível. Que bom que ele chegou lá. Mas quero mesmo é bater palmas para os que, acorrentados, chegaram nestas terras de novo mundo e contruíram nações e possibilidades de mudanças. A gloriosa frase de Caetano Veloso em Milagres do Povo: "quem descobriu o Brasil foi o negro que viu a crueldade bem de frente e ainda assim, produziu milagres de fé no extremo ocidente". Acho que dá para levar este pensamento para os Estados Unidos e festejar intensamente os que açoitados, superaram a dor e impuseram-se, sem revanchismo ou ódio. Um presidente negro nestas fotos do G8 sempre tão louras. Não é nada, não é nada, é sim um grande passo de justiça e humanidade.


"O corpo, só com camisa, foi encontrado amarrado por cadarços na mureta dos arcos da Lapa, apresentando marcas de violência sexual". A primeira coisa que nos vem a cabeça, ao ler tal notícia é "ih, o veado tava fazendo pegação e se deu mal". É muito comum, e temos que nos vigiar muito para não reproduzir o preconceito, automático, quando lemos estes relatos. Atribuir à vítima a facilitação da desgraça ocorrida é um erro recorrente. Quantas vezes já ouvimos falar das roupas provocantes que a vítima usava na hora do estupro, tentando responsabilizar a estuprada pela insanidade do cara?
Nunca é demais tocar nestas feridas do "desde que o mundo é mundo". Nada justifica a barbárie criminosa.


Segunda-feira, 19 Janeiro, 2009

Eu pedi alface e me deram capim! Falta preto no big-brother. Passando o olho nas fotos dos selecionados, e não vendo negões e negonas divinos e maravilhosos, não vejo minha gente, minha mistura, meu grupo, meu país. É muito engraçado a tv não ver o Brasil real, cheio de afro-descendentes. Eles devem pensar que preto não dá ibope, que ninguém quer ver uma casa onde a miscigenação esteja presente. Só pode ser esta a explicação. Outro dia li que a jovem e linda atriz negra pedia mais papéis não estigmatizados para os atores negros. Aí pensei: "ai, que chorumela. Não existe mais só papel de bandido e cozinheira favelada para os atores afro-desecendentes. Como por exemplo..... como por exemplo...." só consegui pensar em três exemplos, num universo de centenas de papéis oferecidos. Não chegava nem a um por cento. Então precisa ter cota, mesmo. É preciso dizer para as tvs que somos um país mulato, sim. Acho esquisitíssimo só ter pela clara, no máximo parda, no show de realidade. Quando disse para mim mesmo que Taís Araújo fora escolhida como apresentadora do Superbonita, tentando me convencer de que isto era o máximo, logo descartei este atenuante, porque a mulata é a tal e é a tal desde sempre na cultura brasileira, no campo relacionado com a beleza física. Mas ninguém a associa ao pensamento intelectual. Insisto que falta uma visão de mulher preta intelectual no Saia-justa, por exemplo. É preciso ouvir a voz da negritude neste programas sobre o cotidiano, as grandezas e mazelas às quais nossas mulheres são submetidas. Já pensaram quão enriquecedor isto seria? Acho que não ouvimos a voz desta grande parcela da população. Nós não os selecionamos para a casa do Brasil. Eles não são palco, serão platéia. Eles não são retratados na ficção, serão apenas consumidores dos produtos oferecidos. Eles só sabem sambar e correr na maratona. Não nasceram com o dom de estudar. É isto que está embutido nesta ausência de peles pretas na nossa telinha. Um mundo irreal, perverso, que alcança seu ápice na jaula de vidro montada no shopping, onde a família pode passear e comer algo na praça de alimentação, observando os vinte babacas presos na gaiola. Vai me dizer que não é o mesmo circo dos horrores que tanto sucesso fazia expondo mulher-barbada, deformados e esquisitices humanas de outrora? É sim, só que agora disfarçado de concurso. Me admiro dos pais que reforçam em seus filhos tal admiração de ver humanos enclausurados.


Selecionei para ver apenas dois desfiles do Fashion-Rio, porque é um universo que me enfastia rapidamente, este, da Moda. E como as duas propostas que me interessam estava juntinhas no último dia, Márcia Ganem e Complexo B, parti com alegria para me divertir, convidado pela Kassu/Firjam, a quem agradeço pela oportunidade de confortavelmente admirar dois espatáculos bonitos. As roupas da Ganem são tramas esburacadas em tecidos crus, fazendo com que as manequins pareçam bárbaras medievais, andando por nossas ruas. A-do-ro o artesanato que Marcia propõe. E no fginal de seu desfile, querendo passar uma mensagem de união, a estilista costurou uma grande centopéia de tecido e fez todas as manequins entrarem em fila, enfiadas no grande corpo. Lindo de morrer. Não é para qualquer uma, mas a uma que a escolher será única na multidão. E Complexo B, mais que grife, é desfile-acontecimento porque sempre Beto Neves tem uma bossa carioca para detonar a mesmice. Agora era a Lapa, lugar que freqüento e que amo, pela diversidade das tribos. Até eu, naquele caldeirão, pareço normal com minhas plumas e paetês. Muito isopor de cervejinha e picolé da areia formavam o cenário para que os manequins (muitos, muitos negros e mulatos) desfilassem roupas bacanérrimas, joviais e diferentes. Meninos lindos, másculos, que quando se aproximavam da platéia, só aí percebíamos que eles estavam com sombra de purpurina e enormes cílios postiços de vedetes. Desconcertante. Surgiu uma bela mulher com casaco de pele, rebolou e eu perguntei: "quem é esta jovem atriz que quer ser famosa?". Como a resposta não veio, me lembrei de um travesti que tinha sido convidado e só aí a ficha caiu. A gostosona era o próprio traveco-estrela. Um luxo. Uma aparição. Mas ainda viria o grã-finale, o arremate do talento, a presença carismática avassaladora: Milton Gonçalves de malandro, da rainha diaba. Um torpor, um transe, uma ovação ao grande ícone da resistência brasileira. Senti saudades de Ruth de Souza, neste momento. Tomara que a velha dama esteja bem. Foi um sucesso este último desfile do Fashion-Rio. Perfeito para deixar uma mensagem de esperança e alegria nos corações dos povo das roupas.


Sentei ao lado da querida Isabel Filardis. Eu disse: "Isabel, eu li alguma coisa sobre problema de saúde relacionado à você!". Ela respondeu: "meu filhinho, Milton. Nasceu com uma deficiência neurológica rara, que o impedia de esboçar qualquer emoção. Só quinze por cento destas crianças sobrevivem e se recuperam. É o caso dele. Agora ele está com cinco aninhos e já está começando a falar. É lento mas está indo. Agora ele já chora e ri....". Entre tantos elogios que lhe fiz, conto-lhes que disse a ela que graças a Deus ela achara um homem decente para ser seu companheiro em jornada tão sufocante e que deve ser horrível para a mãe, todas leoas, de não reconhecer no filho as emoções de aprovação ou reprovação que são o único desejo materno de felicidade: entender a cria. Ela me apresentou sua menina mais velha, Luz, e definiu-a como azeite-de-dendê. Ou seja, tempero apimentado puro. Já o mais novo, de nome Islâmico lindo, é considerado o azeite-doce. Donde se conclui que Isabel tem uma família temperada e saborosa, como sempre deve ser, pois só muda de endereço os problemas, mas a felicidade deve sempre prevalecer sobre o drama.


Sabe o que mais me surpreendeu na cara nova da Dilma Roussef? O fato dela ter feitos as operações entre natal e ano-novo, período em que ela saiu de circulação. Que coragem, hein? Quando voltou nos primeiros dias do ano, já estava repaginada. O mundo inteiro vendo trenó, renas e papai-noel, e a criatura envolta em gazes e ataduras, vendo bisturi e mesa de operação cirúrgica. Enquanto cantávamos adeus-ano velho, feliz ano-novo, a presidenciável cantava adeus ruga-velha, feliz esticada-nova. Quanto à parte da música que diz: que tudo se realize, só nos resta rezar para que junto com os drapeados da derme, tenham ido embora os agouros de um ano de aperto. Acho que os políticos machos também deveriam dar uma esticadinha, aproveitando o ensejo da Dilma. O que será que Dona Marisa achou, né não? Porque mulher faz plásticas para as amigas, que sempre comentam: "arrasou no lifting!". Falsidades à parte, o olho de peixe morto que ela tinha abriu e agora são redondinhos, vivazes, como todo peixinho ornamental precisa exibir.


A jogadora de futebol Marta estava lindíssima na entrega do premio da Fifa, na Suíça, esta semana. Destrói desta forma o mito de que o futebol masculiniza as garotas, porque o que está retratado é uma gata elegantérrima, que acertou no cabelo e na maquiagem, e com uma expressão sedutora cheia de feminilidade. E olha que a concorrência foi barra-pesadíssima, porque ela tinha ao lado o gato-gatérrimo Cristiano Ronaldo. Se ela bobeasse só dava o cara. Mas Marta roubou a cena e mostrou que jogo é jogo, mas fora dos gramados ela bate um bolão maior ainda.


Segunda-feira, 12 Janeiro, 2009


Réquiem à maior cilada da ceia de natal: há um panetone, testemunha ocular dos excessos de fim de ano, adormecendo na geleira do refrigerador. Quantos outros abandonados, não tocados, restarão nos milhares de freezers brasileiros? Mais que guloseima, decoração. Ninguém o come (ui!). Mas sem ele não é Natal. Seco, duro, pouco apetitoso, diante dos outros molhadinhos, na mesa insana da ceia, defronte da missa do Galo, outra abandonada, passando na tv. Panetone e missa do Galo, as roubadas do 24 à noite. Já sei, o Panetone é o impávido colosso da santa ceia. Agora, coberto com papel prateado, é quase uma monte everest no congelador. Acho que temos medo de jogá-lo fora, pois ali está a esperança, nem que seja de emagrecer, no ano que se inicia. Está na hora de lançarem a dieta panetone, que incomível, fará todos morrerem de inanição. E como não o damos em tempo hábil, já era. Coitado, abandonado. É tipo lei que é lançada mas não pega: existe, tem que estar lá, ainda que ninguém a cumpra. A rabanada, proletária e caseira, acaba com a pose da madame da ceia. Ninguém a toca, ela morre virgem, diante da outra, desejada, disputada. Deve ser horrível ser mulher-panetone, a indevorável, tia velha. Bem que a grande fábrica produtora faz comercial emocionante na tv, diz que há décadas acompanha o natal da família brasileira (quiçá, mundial), mas acredito que haja um cemitério dos panetones jamais saboreados. Para onde vão os panetones fantasmas que sobrevivem, aos montes, no 25? Para o mesmo lugar para onde vão os anãos, que nunca foram vistos sendo enterrados, ou as cabeças de bacalhau.


E o hífen? Como vou sobreviver sem saber o que leva e o que não leva este pentelho? Nunca mais serei o mesmo diante de uma palavra que possa ou não levar hífen. Sempre tremerei. É uma ameaça à minha capacidade intelectual e também à minha descrença de que, maduro, não ligo para mais nada destas bobagens ditadas de cima pra baixo. O que será que leva os velhos filólogos a recussitarem as letras que nunca morreram? Sempre vivi com o divino W, o maravilhoso y e o borocochô k, e agora eles são oficiais. Como assim? Quer dizer que o nome do meu amigo Wagner era uma farsa? Eles tem toda razão, porque nunca desconfiei disto? Confessem: quantas horas os senhores perdem por dia para decorar estas regras? Nós, que já vivemos tantos mudanças monetárias, tantas criações de novos estados da federação, nós que já sabemos que quase tudo o que aprendemos na escola primária, no tempo que depois fazíamos exame de admissão (kkkkkkkkk) para passarmos para o ginasial e depois o científico (kkkkkkkkkkkk) já não temos mais a ilusão de saber as regras do mundo, né não? Só de sobreviver, já está ótimo. Lembram do trauma da tabuada? Deus meu, o que era a decoreba da tabuada? Cortando os pulsos de tanta inutilidade para a vida, cujo ápice é o momento de tirar a roupa e sentir a aprovação no olhar desejante do companheiro (mesmo que de mentira), brado: "sai pra lá, hífen! Vai catar coquinhos-do-brejo, com hífem ou sem hífem...."


A moda do ex-prefeito Cesar Maia, de deixar um animal em baixo da mesa do sucessor, no caso, o elefante branco musical, pegou. Enfim um não factóide, seguido de pronto no município de Almadina, nas terras do sem fim da Bahia. O recém-eleito (leva hífen?) José Raimundo ia sentar em cima de uma cobra, e isto não tem nada de suposição gay, não. Alguém deixou um ofídio do tipo coral, venenosíssimo, mas graças ao bom, antes que a desgraça se consumasse, mataram a cobra e o prefeito mostrou o pau (cruzes!). Sempre soubemos pelo noticiário que os políticos deixavam piranhas para os sucessores, já que as agendas das cafetinas sempre foram um legado preciosíssimo que rodava de mão em mão, nos subterrâneos do poder. Sabíamos dos veadinho de Pelotas e Campinas, sabíamos do ranário do Barbalho, dos bois voadores de Brasília. Agora, cobra coral, é um pouco demais, é tentativa de homicídio.


Estávamos todos numa mesa chiqérrima, na deslumbrante festa de 40 anos da bela Agla Dondo, nos jardins do Museu Histórico e Geográfico, na praça XV, magnificamente decorado pelo mago Antônio Neves da Rocha. Mesas redondas de 10 lugares, eu e minha acompanhante e mais 3 casais, que nunca vi mais gordos. Um jovem senhor engravatado começa a narrar em voz altíssima suas peripécias da noite anterior: "o veado do Pedro tomou três uísques, convidou a Paula, mulher dele, para pegarem a lancha e partir para Angra, e não ficarem no Rio. Vão estragar a programação. Aquele viado....". Dois segundos de pausa, puxei a respiração, vi que a deixa chegou, me levantei e solene, disparei: "criatura nova-rica e mal-educada, se veado ele fosse, portanto divino, inteligente, chique e deslumbrante, ele não admitiria ser amigo de um desclassificado cafona que nem você, que ainda utiliza a designação viado para qualificar heterossexuais que não fazem o que você quer que eles façam. Aliás, vou começar a usar o teu nome para designar cretinos que ainda acreditam que todo viado não é bacana. Tomara que nesta festa não existam outros "renatos" para estragá-la. (para a mulher dele) Minha senhora, como a senhora teve coragem de casar com um "renato"? Com licença....". Puxei minha acompanhante e parti para a pista de dança, deixando para trás a mesa me aplaudindo e gagalhando da cara do tal Renato. Pode? Barbeiro no trânsito, gritam "veado". Perde o gol, gritam "veado". Faz algo que não agrada, gritam "veado". Pois sim, comecem a gritar heterossexual babaca, que cabe melhor na expressão. Voltando à festa, paramos para admirar uma mala enorme Luis Vuitton sobre a mesa central e minha acompanhante, desligada, exclamou: "deve ser para guardar os presentes!". E eu: "não, divina, é o bolo. É para ser comido, daqui a pouco vamos devorar esta mala belíssima". E assim foi feito, na hora dos parabéns, quando a divertidíssima milionária aniversariante, espirituosa, pegou o microfone: "eu falei para meu marido aplicar na bolsa, ele não ouviu, a bolsa correta é Luis Vuitton e não a outra, que faz ele perder tanto dinheiro...". Moral da história: dinheiro é para quem sabe usá-lo, revestindo tanto poder de humanidade, afeto, bom humor e visão de mundo. Tem rico bacanérrimo, os outros são apenas pobres de espírito, que até conseguem comprar avião, mas jamais decolarão da pequenez torpe que os aprisiona em almas pequenas e preconceituosas. Conta bancária não define caráter!



Segunda-feira, 5 Janeiro, 2009


Casa de ferreiro, espeto de pau: Eduardo Paes baixou inúmeros decretos importantíssimos, que o ajudarão a moralizar a administração da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, e horas depois, os carros de seus convidados para a posse e festinha, no Palácio da Cidade (São Clemente com Real Grandeza), estacionavam em filas duplas e até na curva, todos guardados pela presença atenta da polícia municipal e estadual, tipo tudo oficial mesmo, "nós podemos, nós mandamos, e vocês que se explodam, metam o rabo entre as pernas e agüentem o caos". Claro que era primeiro de janeiro, poucos nas ruas, claro que eles estavam felicíssimos e claro que ele manda e pronto. Mas quem paga o salário desta gente somos nós, e temos que fazer a pergunta que não quer calar: se o senhor pode, eu também posso? Porque, a priori, nada, nenhuma lei, lhe permite, ou aos seus convidados magnatas, não cumprir as mesmas normas às quais eu sou obrigado, né não? Parece que decretos são para nós, cidadãos não convidados para a festa, e parece que eles flutuam numa outra esfera de possibilidades que não é a nossa. Mas que o exemplo é péssimo, lá isso é. Mais de trinta carros atravancando o trânsito, e está explicado porque as mães que buscam seus filhos na saída dos colégios, ali do lado, também se acham no mesmo direito de parar o fluxo nos horários de rush, que coincidem com a saída de seus pimpolhos da escola. Sinceramente, voltamos aos ladrões das doações de flagelados: se o de cima faz, porque não podemos fazer? É preciso admitir que lei, aqui, são para os outros. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Mas não crio juízo porque não sei o que ele come!
Depois de seis anos passando o Reveillon com os divinos André Ramos e Bruno Chateaubriand, anfitriões de primeiríssima, este ano resolvi cantar: "voltei, aqui é meu lugar!". Comprei uma mesa por 150 no quiosque de meu amigo Almir, bem em frente ao palco, vesti uma bermuda branca e chinelos, e fui sem camisa, porque o calor era de matar, passar minha virada (ui!) povão. Na mão, meu pequeno Exu baiano, que me guardaria como mensageiro e abridor de caminhos. Me diverti horrores, porque as pessoas olhavam a-pa-vo-ra-das para meu boneco, depois me encaravam com olhos de "ele é praticante do vodu Jamaicano, e vai espetar esta coisa com mil agulhas pontiagudas. Desconjuro!". Como eu estava confortavelmente sentado, mas sem fita divisora, vi muitos cariocas lindos, homens e mulheres, crianças e adultos, pretos e brancos e cafusos, ricos e pobres, gordos e magros (como nosso povo é bacanérrimo!). Não é que eu pudesse chamar aquilo de tumulto, era um salve-se quem puder. Um ou outro batedor de carteiras, diante de meus olhos metendo a mão nos bolsos dos turistas, até que "ele" chegou. Ele era um maluquete, parafuso a mais, que implicou comigo. Repetia, sem parar, cutucando todos que tentavam passar: "conhece ele? É famoso. Trabalha na Record. É famoso, conhece ele?". Eu fazendo que não era comigo, até que a mulatona elegante num vestido caro, mas barraqueira, chegou acompanhada de seu gringo branquelo (acho que isso dava a ela a sensação de poder e de ser especial). Ao ouvir o texto do desequilibrado, a gloriosa por fora, mas com interior de baixaria, bradou: "não vem encher o saco não, hein! Caguei para quem ele é ou deixa de ser! (e virando para mim, aos gritos) quanto é que tu pagou pra ele pra ficar te promovendo?". Quem estava em volta deu um princípio de vaias na desclassificada, e o doidinho avançou na minha mesa, com força, e pegou um sacolé (sim, eu confesso que a-do-ro sacolé da Taís de Ipanema, que mora na Pavuna) e começou a beber minha bebida. Me levantei e fiz minha parte na cena: "bebe, exu! Bebe! O exu tá com sede!". Virando para a negona: "e tu Pomba-gira, também quer beber? Táqui teu sacolé!". Gritaria, gargalhadas, e os fogos começaram a explodir. Belo visual, muita fumaça, e mais um ano que eles não conseguem sincronizar fogos com música, que acabou cinco minutos antes, deixando o restante das bombas explodirem melancólicas, com o locutor gritando "viva o ano-novo" para sempre.
Martnália foi a melhor das atrações, empolgando a multidão e fazendo-a dançar só músicas espirituosas e conhecidas da malandragem. Um sucesso! Depois fui passear pela pista de dentro da Atlântica, atrás de restaurante (descobri que não existe à la carte no Reveillon, todos reservados); e vivi a experiência de ambulâncias com sirene ligada estarem ao meu lado, o que é insuportável e arrepiante, pois a dor vai na alma. Um incômodo exemplar. Depois vi várias macas passando, sobretudos com mulheres jovens deitadas, desmaiadas ou chorando. O povo gritava: "glicose! Glicose! Glicose!", e pensei: "gente, como elas estão bebendo!". A fila no posto de primeiros socorros era enorme, e ainda tinha uma mesa onde os coitados tinham que preencher ficha. Que roubada, passar mal logo ali.
No começo da primeira tarde de 2009, matei o ano-novo e fui ao cinema, ver o aclamado Barcelona de Woody Allen, cineasta sempre bem vindo, leve e denso como a vida. É que as festas de fim de ano me dão um fastio gigentesco de oba-oba, excesso de panetone e peru à califórnia, e preciso de um pouco de cultura, logo depois. Adorei o programa, e fiquei pensando no problema da personagem loura, chamado de "insatisfação crônica". É que ela, mesmo feliz, casada com um casal (isso mesmo, ela transa na boa com o marido e a mulher, às vezes os três juntos, às vezes papai e mamãe), depois de alguns meses deseja dar um tempo, precisa de mudança, e não é por infelicidade. É por insatisfação crônica. Igualzinho a mim, e a muitos de vocês, se pudessem pular fora e deixar tudo pra trás, né não? Ainda bem que tem gente que gosta de compromisso, senão o mundo seria um eterno carnaval, com amores que só duram até a quarta-feira de cinzas. No caminho de volta para casa, o tumulto na porta do Palácio da Cidade, que abriu lá em cima meu escrito. Boa sorte, novo-prefeito. Ano que vem, em vez de Copacabana Palace, compre uma mesa num quiosque, pegue seu santo de fé, e vá ver, de perto, o que pode e o que não pode para os pobres mortais da areia. Talvez isto lhe afaste do festeiro da Disney que o senhor quer importar, e em vez de Mickey, quem sabe o senhor nos ofereça Joãosinho Trinta. Acho que já enchemos o saco com os Portzparcs da vida. Será insatisfação crônica?