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Milton Cunha

Segunda-feira, 30 Março, 2009


Há um novo comercial sobre um carro, onde a sombra do sujeito quer sempre uma coisa diferente do que o corpo quer, portanto configurando uma personalidade confusa, equivocada, em processo de ebulição. Tudo, absolutamente tudo divide o sujeito e sua sombra. Até que aparece o carro. Os dois lados se entendem e concordam que o carro é maravilhoso, tudo o que precisavam para ser feliz. Engraçado, se não fosse trágico, pois vivemos o tempo quando o importante é ter, para ser. Tenha o automóvel mais lindo e se apazigúe, entre em sintonia consigo mesmo através da posse de uma máquina. É fora de você que vive o que lhe completará emocionalmente, conforme a frase final da peça publicitária: o carro que completa você! Houve um tempo em que plantar uma árvore, ter um filho, passar no vestibular, ou mesmo um casamento ou uma ação era o que enobreceriam o humano e o faziam pleno de si. Mas hoje, é este comercial emblemático que aponta para os tempos loucos da necessidade de comprar nossa completude. Sai o penso, logo existo, e entra o tenho, logo sou feliz!


Adorei a matéria sobre infertilidade no Dia de ontem. Só não entendi o garanhão dizer que faz filho no vento, na medida em que jamais soubemos de um vento grávido. De resto, adorei saber que a cópula custa cinco mil, e depois, no exame positivo de gravidez, mais cinco. Que transa cara, né não? E se a moçoila não engravidar, a segunda tentativa é de graça, ou ele cobra taxa de insalubridade por útero tão pouco fértil? A culpa deve ser do espermatozóide temperamental.


O oceanógrafo David Zee alertou no Sem Censura que exportar soja ou exportar carne bovina significa na verdade que o Brasil está exportando água, já que são necessários litros e mais litros para o cultivo e a criação. Como nós temos doze por cento da água doce do planeta, será nosso destino ser um dos grandes produtores mundiais de alimento. Portanto, lavar calçada e carro com água da mangueira, limpa, é uma loucura total.


Terça-feira, 24 Março, 2009


Recebi meus convidados de almoço-aniversário, domingo, sob rajadas de metralhadoras e assustadores estampidos que vinham do morro dos Cabritos, logo ali, na mata em volta dos prédios de uma Copacabana apavorada. De repente, equivocadamente, senti ser chic e possuir certo glamour ficar dizendo, para cada convidado que chegava: "a polícia invadiu o Tabajaras". Havia um certo clima Saraievo no ar: helicópteros em rasante, tiros em profusão e, das varandas da classe média, este conviver com o perigo e não mais ter horror à possibilidade de uma das balas atravessar o vidro iluminado pelo meio-dia. Drinks passando, e bandidos trocando balas com polícia. Fantasiei aquelas taças repletas de um vermelho quente e intenso, servindo o sangue dos envolvidos na invasão. Quantos estarão morrendo, neste exato momento em que garçons nos embebedam? É possível comemorar ao lado da guerra? Comidinhas e emboscadas nas vielas do favelão. Alguns presentes narrando a quantidade de policiais na esquina da Siqueira Campos, o corre-corre, o cerco ao morro. Fazer o quê? Manda todo mundo embora e fecha a casa? Mas e o direito de comemorar, fica onde? Pois as bandejas de quitutes iam passando e fomos aumentando o som para competir com o mundo real, violentíssimo, do além asfalto. Era preciso abafar os estampidos para que os convidados relaxassem. Mas de vez em quando um olhar, um suspiro e todos fingindo que não era do lado que a desgraça estava fazendo sua festa. É muito esquisito morar numa cidade que te obriga a fingir que não está nada acontecendo, porque no aniversário do ano que vem a coisa vai estar igualzinha e você não pode ficar cancelando as comemorações senão, velhinho, você não terá fotos nem o que recordar. Viver passando por cima do que está ao lado, única alternativa de encher o álbum de recordações. Que lou-cu-ra!


Quinta-feira, 19 Março, 2009


Já que o feioso Príncipe Charles declarou que se lembrava de ter dançado samba com uma mulher dramaticamente nua, chegou minha oportunidade de declarar igualmente que acho a Camila um trubufu dramaticamente vestido e penteado. Cruzes, Jeová, me abana! Graças a Deus que a Deusa Pinah pode, despida, enfrentar a multidão enfurecida. O problema está na bretã que, com todo o dinheiro do mundo, não consegue um lampejo de graciosidade e simpatia. A queixada da anglo-saxônica anula qualquer possibilidade de sedução. Se a nossa é a Cinderela negra que ao príncipe encantou, Camilinha, divina, só te restou o papel da madrasta, e não vem me oferecer o papel de uma das duas filhas legítimas encalhadas que não aceito não. Que saudades da Lady Di!
Dramaticamente nua ficou uma senhora negra, dentro de uma porta giratória, de um banco desconfiado de pretos e pobres. Imagina a humilhação você ter que tirar a blusa e mostrar sutiã, e depois, como se não bastasse este quase strip, vem a exigência do tease, pois tem que mostrar a calcinha! Que loucura! Me lembro de Marília Pêra presa numa destas ciladas, e se retirando solenemente pela calçada, para nunca mais voltar. Depois de receber inúmeras cartas, a conclusão: tem que ser uma diva das artes para haver desculpa. Esta senhora desconhecida não vai receber nem telegrama, e temos mais é que apertar o cerco por respeito à dignidade. Se a moda pega, gostaria de incentivar belíssimos negões a começarem a ficar só de cuecas para o deleite das caixas, minhas amigas, que não podem deixar de me convidar para tão imperdível espetáculo. Imagina Rocco Pitanga arrancando as vestes por entre os vidros da segurança bancária? Minha porta daria cinco mil giros e nunca mais pararia!


Terça-feira, 17 Março, 2009


Se as empresas podem fazer teste anti-dopping para checar se seus queridos funcionários beberam álcool, fumaram maconha, cheiraram cocaína ou usaram alguma substância ilícita (tipo disseram do Dado Dolabella no Camarote da Cervejaria), podemos supor que, já que a inciativa é para ajudar os dependentes a sair do vício, o congresso Nacional e as Câmaras de Deputados e Vereadores poderiam, no início de uma nova temporada de trabalho, aplicar um anti-dopping moral nos políticos eleitos, para tentar detectar se eles acham normal gastar a verba indenizatória em outras coisas, apresentar notas fiscais frias, praticar trabalho escravo em suas fazendas no norte e Centro-Oeste do país. Seria uma forma de colocar nossas barbas de molho, e tentar reduzir paulatinamente a dependência química destes ladrões e salafrários de terno e gravata. Claro que a Crise de abstinência viria, eles apresentariam deliriuns tremens em esfera nacional, estadual e municipal, porque uma vez tendo provado a mamata, a teta da vaca profana, fica difícil abandonar a falcatrua. Pesquisando (pesquiso por diversão, é ótimo, a gente se diverte horrores, vocês deviam tentar este passa-tempo) descobri que a população foi contratada pelo futuro professor Marquês de Sapucaí, naquela altura conselheiro do adolescente Dom Pedro II, para exigir que a maioridade do Imperador fosse antecipada, cantando pelas ruas do Rio a seguinte trova: "Queremos Pedro II, / Embora não tenha idade; / A nação dispensa a lei, / E viva a maioridade!". Como assim "a nação dispensa a lei", cara pálida? Pois é, este é o país da dispensa da lei, desde que isto interesse a uns e outros. Foi em meados do século retrasado, mas quer frase mais atual que esta? Aliás, se, por exemplo, a heroína permanece de 36 a 72 horas na urina do usuário, como estará o xixi de nossos parlamentares? A latrina pública precisa passar por exames toxicológicos incessantes, já que a corrupção é uma desgraça eterna. Sou capaz de jurar que a construção de Castelos e a não declaração de mansões de cinco milhões de Deputados, são facilmente detectadas em urinas de colarinho branco.

Nosso Núcleo de Estudos Superiores de Carnaval, da Universidade Veiga de Ameida, está felicíssimo: estamos começando a terceira turma de Pós-Graduação e festejando o Campeonato da União da Ilha do Governador, cujo Carnavalesco é nosso Professor Jack Vasconcelos. Imaginem na Aula Inaugural, a Bateria do Salgueiro invadindo a Academia do Saber! Alunos de outras áreas abandonando o almoço, para seguirem o barulho do Ziriguidum que vinha da quadra de esportes. O máximo tentar entender a mais importante manifestação do país, sob o prisma do Currículo e do Cânone Universitário.


Quarta-feira, 11 Março, 2009


Cena de uma Copacabana louca, que sofre de uma tensão pós carnaval/verão: uma mulher avança para cima de mim, trêmulo de fome, domingo de manhã, e grita: "senhor, senhor, preciso lhe fazer uma pergunta: o senhor estava na prisão e saiu a pouco tempo?". Num átimo de segundo tiro os óculos, fito mortalmente a louca, e com flamejantes pupilas, detono: exato, queridíssima. Saí ontem da cadeia depois de dez anos, porque matei uma mulher, e estou prestes a matar outra neste exato momento.
A feira da Siqueira Campos veio abaixo, e com medo de morrer a sirigaita desapareceu entre tomates e peixarias, e eu fui buscar meu caldinho de feijão para me acalmar.
Sabe como é, né? Com louco não se brinca.


Segunda-feira, 9 Março, 2009


Conflito de gerações era um problema a ser ultrapassado pelos pais de antigamente. Mas, se a menina de 9 anos do Recife, tivesse seus gêmeos, este embate seria coisa do passado, pois agora teríamos (ou já temos, sei lá) o conflito de mesma geração entre pais e filhos, fruto do crescimento e amadurecimento simultâneo, o que em si contradiz a necessidade de que um dê limites ao outro. O próprio pai ou mãe não teria limite nenhum, nenhuma formação emocional, nenhum repertório de vivência, e seria o grande amiguinho do próprio rebento. Devem estar contando com avós ou tios para fazer o papel dos educadores, só se for. Outro dia meu namorado Dudu de 29 anos (portanto 18 anos menos que este que vos escreve) me disse: "olha o flipper, que barato!". Eu respondi: "a-do-ro este golfinho". Ele indagou: "Você também via o seriado?". Me sacaneando, detonei: "amado, eu via As aventuras do Flipper, em preto e branco nos anos 70; esse aí que você gosta é As novas aventuras do Flipper, colorido, dos anos 80, e provavelmente a criança que adotarmos vai ver na próxima década As novíssimas Aventuras de Flipper, que provavelmente vai ser um golfinho robô ou clonado dos tecidos congelados destes antigos". Novas e novíssimas, neste caso, nos separam na linha do tempo e dão uma perspectiva de mudança e progresso. Se não de qualidade, pelo menos de passagem dos anos. É preciso certo distanciamento temporal para compreender que só muda de endereço e de tecnologia, mas tá todo mundo correndo atrás da mesma coisa. Meu flipper, teu Flipper, resumindo meu olhar mais antigo, mais longínquo. Se meu filho descobre o mundo ao mesmo tempo que eu, que posso oferecer-lhe? Companhia para juntos descobrirmos a vida. Não haverá diferença de posicionamento, não haverá aquele olhar bondoso (e orgulhoso) de reveladores da existência que os pais têm, ou deveriam ter. Tudo bem que estas peruas botoxizadas que vão pegar garotões com suas filhas patricinhas na boate, e se dizem amiguinhas de ficação das filhas, também não possuem este distanciamento necessário. Mas aí é caso de debilidade emocional, elas não sacaram que a fila anda e querem para sempre ser Polianas. Não se enxergam, ridículas, e irão para o caixão de visual adolescente e cérebro de minhoca. Mas não é disto que estamos tratando. Falamos que há um tempo para a maternidade e paternidade, e este tempo precisa incluir o passar do tempo, né não? A criatura ainda nem curtiu as conversas com os pais e já vai ter que conversar com seus filhos? Desconjuro.
Por que um feto tem porque tem que nascer? Porque toda vida tem o direito de nascer! Mesmo que fruto da desgraça, do desamor? Mas a menina quer dar a luz! Crianças dimensionam exatamente o que querem, ou querem porque querem? É a lei de Deus a não morte! Exato, mas se o corpo da mãe não está formado, não tem passagem, a morte se estabelecerá de um lado ou de outro. Quem morre, neste caso, segundo vocês? Isto é assassinato! Pode ser, segundo um raciocínio, mas por outro lado há os que achem assassinato o tal parto. São dois lados de uma questão delicadíssima, não tenho opinião fechada sobre nada, estou aqui para ouvir bons argumentos, refletir, ponderar, inclusive sem conhecimento de causa. Impossibilitado de gerar uma criança dentro de minha barriga, não me canso de imaginar esta como a maior e mais fabulosa das sensações que um humano pode ter. Nas tuas entranhas, um outro coração. Na tua barriga, a carne da tua carne cresce e, tão poderosa, se desprenderá e sairá andando sozinha, por aí. Que maluquice, quanto esplendor! Mas será que tudo isto está relacionado ao querer da mãe? Só é belo e grande quando a mãe e o pai curtem a notícia? Ou mesmo rejeitado o feto deve vir ao mundo? Penso, penso, e me perco no redemoinho das paixões. Como muito de vocês. A dúvida é humana!
Entretanto, contudo, todavia, os católicos praticantes (liderados pelo Presidente da Rapública) estão chiando horrores, e há uma voz que brada: mesmo sendo adepto dos dogmas católicos, achamos que a igreja tem que evoluir, tem que pensar moderno, pois a ciência e o homem andaram para frente. Ao que, corretamente, o Vaticano responde: consultem Teólogos, pois não é possível assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Ou será que pode?, devolvem os católicos do aqui e agora. Eu tinha certeza que um dia chegaríamos a este ponto de embate, pois conheço inúmeros fraternos semelhantes, que sempre foram à igreja e sempre disseram: mas será que esta postura é generosa como Jesus ensinou? Era só uma questão de tempo, mas o que eu jamais poderia imaginar era que traria a trágica afirmativa de Paulo Maluf "estupra mas não mata" para a crista da onda. A questão que revitaliza é: a menina mãe ou as meninas-gemeas? O que é pior (insanidade das insanidades) o estupro do padastro ou o aborto autorizado da mãe? Todos perdemos com a brutalidade, a humanidade e cada um de nós que temos que decidir valores de foro íntimo, tipo: a Igreja que representa meu Deus ou minha própria sensatez?
Hilary Clinton em seu artigo sobre as mulheres no mundo moderno nos conta sobre a menina afegã que recebeu um jato de ácido na cara, de homens que acham que mulher não pode estudar e pronto, e mesmo cega e desfigurada continuará indo ao colégio, com o total apoio dos pais. Nem tudo está perdido, ainda há pais na glória do que esta designação pretende enquanto educação e orientação para uma vida melhor. O que une ácido na cara com estupro desde os sete anos? Ambas são estórias sobre a insana dominação masculina, que pretende ser dono do feminino, corpo e alma. A mulher seria apêndice dos desejos varões, sempre disponível e depositária do desejo deles. Não estudar, não fechar as pernas, ficar calada, ganhar salários menores, pois Amélia é que era mulher de verdade. Digamos não, agora e para sempre, ao subjugo da mulher e a esperteza do machismo, que precisa de escravas para sua indelicadeza e desumanidade.


Sábado, 7 Março, 2009


Querido Milton,
Estava lendo no seu blog o post sobre Milk e achei que vc seria um bom personagem para uma matéria que venho alinhavando. Estou preparando para o Jornal O Dia uma entrevista com Dunga, técnico da Seleção. Na verdade, estou reunindo perguntas de personalidades das mais diversas áreas. Essas perguntas podem ser sobre futebol, sexualidade, religião ou qualquer coisa. Vc poderia fazer uma pergunta? É só dizer por aqui, que eu mando pra ele, tá?

Milton Cunha:
Com o maior prazer Marluci, aqui vai:
Dunga, você acha que nós, as bichas podemos ser grandes jogadores de futebol? Ou você acha que opção sexual define postura dentro do vestiário e vai dar saia justa, mesmo que o gay seja bom de bola?
Beijão.

Marluci Martins:
Muito obrigada, Milton... A matéria sai no dia 15.
sucesso!
bjs,
Marluci Martins

Queridos Lacraiudos,
o que pensam?
Qual a resposta de vocês e qual a resposta que acham que Dunga vai dar?



Deus salve o Império Serrano! Escola bamba de gente bacana que merece todo o nosso carinho e respeito.
Mas o que era aquele bando de.... de.... torcedores (para não usar outro termo) me agredindo vebalmente ao entrar no Canecão, ontem, na entrega do Estandarte de Ouro?
Querem ser respeitados? Respeitem....
Por que bradar: "coloquem a Viradouro no lugar do Império". Divina Viradouro, que nem tem nada a ver com o julgamento.
Humberto, amado presidente, converse com estes... estes... torcedores (para não usar outro nome).
Não é possível que o honrado Império Serrano tenha uma representação pública tão desclassificada.....
E pelo mor de Deus, retirem minha assinatura do abaixo assinado que pensei, ao assinar horas antes, fosse algo sério e respeitável.... E pensar que balancei a bandeirinha do Império por uma hora na porta do Canecão....
Na verdade, é deplorável ação....


Terça-feira, 3 Março, 2009

Mudando de assunto, corram para ver Milk, a voz da Igualdade, de Gust von Sant, cuja direção trata a homossexualidade de forma magistral, cinematograficamente falando. Luz e sombra, espelhos e reflexos, fade-in e fade-out transformando o que poderia chocar numa seqüência de imagens sensuais e provocantes. Achei incrível porque, jovem, fui à São Francisco e adorei ver aquela liberdade na Castro, com os casais homossexuais andando de mãos dadas e se beijando em público. Era o início dos 80 e eu, jovem, sempre imaginei que aquilo já tivesse nascido assim. Pois o filme-documentário revela o comecinho, com a polícia durante década espancando os gays, que não podiam nem ir à própria boate. Aliás, as cenas de abertura, reais, acho que anos 50, dos rapazes sendo colocados dentro dos camburões, presos, é impressionante. Dia a dia, degrau a degrau, conquista a conquista, e eles foram se elegendo e ganhando representatividade política para lutar pelos direitos civis de cidadão homossexuais em dias com seus impostos. Um filme maravilhoso com um Sean Penn arrebatador, sutil, delicado e convincente, que presta um serviço à humanidade revelando os discursos loucos e totalizantes da cantora ícone Cristã Anita, talvez o mais intrigante personagem do filme, porque ela realmente parece acreditar de coração que nós gays, não devemos existir, que somos umas pragas. Sua imagem, real, em vários discursos durante os anos 70, parece ser mais contemporânea do que nunca, já que temos aí um Papa que prega o mesmo que ela, quarenta anos depois. Eu que sempre me achei filho de Miss Itália, Rogéria e Valéria, estas duas sempre me contando do quanto tiveram que correr da polícia, agora me sinto um filho híbrido do também meu pai Harvey Milk, personagem título, militante dos direitos gays dos americanos, assassinado em 1978. Cláudio Nascimento, Luiz Mott, Carlos Tufvesson, todos somos irmãos nesta batalha brasileira de galgar os mesmos patamares de respeito e reconhecimento que esta moçada conseguiu lá atrás. A luta continua e não abaixaremos a cabeça nunca. Um filme imperdível para aqueles que amam a liberdade e são conscientes de que opção sexual não define caráter.


Claro que cabe explicação, sim: Jorge Castanheira está de parabéns, porque antes do carnaval pipocaram denúncias de desonestidade, só para balançar o coreto da Liesa e ele segurou o tranco, firme, pegou o microfone no jantar de sorteio dos módulos e mandou na lata: "senhores jurados sejam livres e responsáveis para dar a nota que quiserem, dentro de vossos padrões de exigência, para qualquer escola". Há um silêncio, todos se entreolham, os garfos da churrascaria não mais tilintam e todos seguram a respiração. Vem aí o julgamento. Houve um tempo em que este concurso de miss que o desfile é, era definido pela candidata que usasse o vestido mais luxuoso, não contando o chica-chica-boom da candidata. Hoje, mesmo envergando um Lacroix, com rendas e veludos preciosos e caríssimos, a miss vai ter que dar uma rebolada, e se a vestida de chita mandar melhor, esqueçamos a indumentária e premiemos o carisma da moça. Quem ganhou foi o desfile das escolas de samba, ao provar mais uma vez que os jurados estão no caminho certo, o da liberdade. Criteriosíssimos, distribuíram poucos 10.
Quer glória maior que premiar um artista deslumbrante como Renato Lage, que alia a uma estética impecável a máxima de que carnaval é espontaneidade? Pois foi esta a nossa conversa nos estúdios do Bom Dia Brasil, quando ele gargalhou sobre minha definição de desfile "força-tarefa", aquele onde o coitado do componente passa uma hora e vinte a montar e desmontar um treco, e não samba no pé. A resposta do Salgueiro veio na primeira ala, com um bando de negros lindos, gostosos e sensuais, que se apertavam num lado da avenida e, liderados pela estrela Carlinhos Coreógrafo, partiam balançando a pélvis para frente e para trás rumo ao outro lado da avenida, fazendo gays masculinos e mulheres gritarem em êxtase, pois aquilo lá era o paraíso. Heteros amantes do carnaval também aplaudiam, mas só quem gosta deste borogodó sabe do que eu estou falando. Num terreno de mulheres sensuais e maravilhosas, que a Sapucaí é, o triunfo foi de um bando de cuecas dançando maculelê. Depois desta subida de termômetro, um desfile alegre, solto e belo. Tudo o que precisamos para fazer o carnaval dos desfiles não perder a mão. Mais uma vez, a raça e a empolgação de uma nação sambista. Uma miss linda, bem vestida, e se apresentando na passarela muitíssimo bem. Até na hora do discurso.
Tinha também uma outra quebra de paradigma maravilhosa: a presidente da agremiação, Regina Duran, samba no pé, é alegre, jovial, sorridente, e boa administradora. Aglutina em sua simpatia a força de seus componentes. A-do-rei vê-la dançando funk sobre a marquise de sua quadra. Bom humor, deboche e celebração que só faz bem ao carnaval. Um tesão, também a dona Regina. É um sopro de frescor dentre as faces carrancudas dos presidentes homens. Interessa ao carnaval trazer à público a figura da presidente competente que não perde, com isso, a ternura e o remelexo dos quadris. Regina, ao lado da Deusa Viviane Araújo, a Rainha das Rainhas, e da senhora cozinheira negra da quadra, são mulheres magistrais que bem representam as calcinhas do morro da formiga, Resumo da ópera, homens e mulheres sambistas para todos os gostos e aplausos. Tendo humano soltando a franga, o resto vai, sob a batuta deste esteta impecável que Lage é. Beleza é importante, mas apresentação e samba mo pé são tudo para a sobrevivência do conceito Escola de Samba, que não pode se transformar em Escola Cênica, conceito que pode até estar embutido no outro, mas que não reduz nem resume a ele todo o resto. Queremos alegria, e isto o Salgueiro nos deu de sobra.
Só não entendi o julgamento da Miss tão sedutora quanto o Império Serrano. Não gostaram do vestido, do penteado, da maquiagem, do sapato? Mas ela tropeçou, caiu, não soube falar na hora da apresentação, foi isso? Mas nem Miss Simpatia dava pra ter dado pra ela? O Império é samba no pé, eu sinto falta dele, mas vou ver Miss tão maravilhosa em qualquer concurso onde ela se apresentar. Pode se apresentar nua, que sempre trará no corpo carimbado, na pele sofrida, as marcas de um povo sambista cheio de dignidade. Falta dinheiro, mas sobre nobreza para esta Miss das Misses.