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Milton Cunha

Sexta-feira , 17 Abril, 2009


Na popular premiação de melhores do ano do Faustão, Valverde arrebata sobre Cabral. Sem problemas, visões de mundo. Papel de gatinha esganiçada engraçadíssima triunfa sobre o de mulher madura oprimida, que se rebela no final contra o opressor. Dois papéis incomparáveis, mas concurso é concurso. O que eu estranho é a resposta de Ísis ao apresentador: "Quando você caminha neste túnel dos premiados, o que passa pela cabeça?". "Os amigos... a família... a vida toda....". Bacana, Ísis. Isso deve passar mesmo. Mas teu maior trunfo é bater a imbatível Lílian. Tipo assim, divina: você é bacana, mas La Cabral é excepcional. No primeiro grito de "chega" dos filminhos de apresentação, ele já tinha ganho tudo, tudo. Fora isto, Carmo de La Vecchia ao lado de Fagundes e Benício para melhor ator é a do ano, né não? Ah, o maravilhoso mundo da Vênus Platinada.....


Quinta-feira, 16 Abril, 2009


Com a ventania de sexta-feira da paixão, meu chiquésimo ombrelonne italiano branco voou pelos ares de Copacabana, e aninhou-se a vinte metros de altura, na copa verde de uma árvore, sobre a calçada da Santa Clara, prestes a desabar sobre os transeuntes. Um perigo, pois é pesado e poderia causar acidente. Chamado os bombeiros para o resgate, meu porteiro, um colunista social de primeira, explicava para todos os que passavam, o motivo da sirene e das lanternas, escadas e cabos: "o guarda chuva do seu Milton Cunha voou e pendurou-se....". Vejam vocês, a sina continua: ombrellone de napa off-white, automático, você pode adquirir por 800 reais. Teu porteiro reduzi-lo a um guarda-chuva, isto não tem preço. Me lembro de minha fênix gigantesca e bela, do casamento da imperatriz chinesa Chang Li Chang, que, ao ser levantada para posicionamento em cima da alegoria sobre Macau, da Unidos da Tijuca, provocou o seguinte comentário no meu chefe da ferragem: seu Milton, veja se a sua galinha está no lugar certo... Nada como a voz do povo para detornar a sanha do artista. Ao descer de meu puleiro, vestido de frango assado, atrás doCordão do Bola Preta no carnaval 2008, a negona entusiasmada bradou: "Milton, você tá lindo de.... tartaruga....". Putz.


Quarta-feira, 15 Abril, 2009


Gente, como fala esta Tiã Viana (não sei o nome, mas como é filha do deputado Tião, está batizada). Viajou para o México e gastou $ 14.758,07 de ligações. Vamos destrinchar isto: a tagarela, nos últimos 7 centavos da conta disse: "pai eu te amo, estou bem e o México é lindo". Nos 758 reais seguintes, ela narrou todas as descobertas arqueológicas, a história do guerreiro Atualpa, as belezas das praias de Cancun, a cafonice de Acapulco e a ida aos estádios da copa de 70, em Guadalajara. Tá de bom tamanho, passou mais tempo no aparelho que nas visitações. Precisamos agora de hipóteses para os 14 mil restantes da conta. Que diabo é isso, Tiã? Se um pacote ida e volta com hospedagem e pensão completa custa 7 mil, daria para ter levado teu interlocutor telefônico junto, e nem precisaria tanto desperdício de impulso. Criatura, larga este aparelho e vai viver a vida real. As vibrações desta são muito melhores que as daquele.


Terça-feira, 14 Abril, 2009


Adriano está certíssimo. Não se sente bem na Itália? Não acha a menor graça em ser Imperador? Cai fora queridinho. Tem horas que nenhum tagliateri é melhor que rabada com agrião. E não se sinta nem melhor nem pior que niguém. Não acredite nesta balela de que a Europa é que é chique, e de que voc~e não sabe o que é bom, trocando Milão pela Vila cruzeiro. Divino, se teu destino é o sobe e desce do teu barraco, te joga com força total. E já me metendo, concordo contigo: que vidinha mais desinteressante, que mundinho mais babaca este do jet-set internacional. E nada contra aqueles que adoram. Boa sorte, Deus os ajude, sejam felicíssimos, mas não vem me dizer que só ali que se pode ser feliz, que vou dar sonoras gargalhadas. Não sei porque, mas me lembrei do milionário que nos convidadava para champagne e caviar na Gávea, casado com famosa atriz, e que sempre que eu os freqüentava dizia: "não levo fé em nada disso aqui. Esta gente está fingindo felicidade". E era um esquema confortabilíssimo: íamos de um lado pra outro no jatinho particular dele, hospedávamos em andares exclusivos nos 5 estrelas da vida, cruzávamos o Caribe como que vai a Nova Iguaçu; e eu lá, só sabendo que era contagem regressiva para a bomba-relógio explodir. Havia tristesa no fundo daqueles olhares. Mas como não era comigo, ia empurrando com a barriga, sempre consciente de que meu mundo não era aquele. Pois bem: ele foi abduzido numa certa manhã, desapareceu, virou poeira cósmica, o corpo nunca foi encontrado, disseram que ele mudou-se para um paraíso fiscal, fez plástica, deixou todo mundo no vácuo e se mandou. Hoje a atriz é estrela pornô, e salve-se quem puder. Tava na cara que aquilo não era feliz. Mas que fingíamos maravilhosamente, isto é certo. Solidário ao negro gato jogador, dou um conselho: tá difícil? Manda tudo à merda, deita no colo de quem te ama de verdade, e não procure agradar à opinião pública, porque, meu amor, quem nasceu pra brioche sem alma, nunca vai chegar, nem entender a glória, de uma boa bisnaga amanteigada com mortadela. E ki-suco (argh!), bem roxo!


Terça-feira, 7 Abril, 2009


"Os loucos da praia chamada saudade" é o enredo que criei para a Acadêmicos do Cubango, queridíssima escola de Niterói, do Grupo de Acesso do carnaval da Sapucaí, para o carnaval 2010, dedicado à mestra Rosa Magalhães. É sobre o palácio dos loucos (assim o povão o denominava no segundo império), construído por documento assinado pelo Marquês de Sapucaí e homologado pelo jovem imperador, seu aluno, criando um deslumbrante hospital em estilo neoclássico para cuidar de alienados, inaugurado em 1852. O Hospício Pedro II até hoje está de pé, lindo prédio na esquina da Pasteur com Venceslau Brás, Urca. Só que agora é a Universidade do Brasil, o que tem tudo a ver: loucos, reitores, alunos, professores, enfermeiros, eletrochoques. Um país de alucinados, uma história maluquérrima. Que começa com um imperador que adorava múmias e sarcófagos, e deve terminar com um prefeito sambando com uma vassoura. Exemplos é que não faltam. Eu mesmo estou aí para não deixar mentir. Depois a praia ficou conhecida como Praia Vermelha, e lá é o berço da Psiquiatria Brasileira (gente, sabiam que Juliano Moreira, o Patrono disto tudo, e diretor deste Hospital por muitos anos, era negro? levei um susto; a história nos esconde ou embranquece muitos mitos). Por lá, na primeira república, passaram admiráveis brasileiros, de um lado ou outro da linha da normalidade, uns pacientes, outros doutores: o maestro Ernesto Nazareth; o escritor Lima Barreto, que lá escreveu o Diário do Hospício; o teatrólogo Qorpo Santo, o mestre sala dos mares, Antônio Cândido, líder da revolta das chibatas, dado (ui!) a fazer delicados bordados, o que para um negão de dois metros é uma belezura; e a estrela das artes-plásticas Bispo do Rosário; bem como a admirável doutora Nise da Silveira. No fechamento dos anos 40 o grande pintor Iberê Camargo o retratou em belas telas. Pedro Calmom foi o primeiro Reitor e grande benemérito. Lá aconteceu o primeiro show de bossa-nova do país, estrelado por João Gilberto e a proibidíssima nua Norma Bengell, de Os Cafajestes; e foi lá que os tanques cercaram e prenderam na ditadura o líder estudantil Vladimir Palmeira. Recentemente, a parente do doutor Pinel mandou um pedido para que não se usasse o nome do tio como sinônimo de loucura. Mais uma que não colou, na história da municipalização da loucura, pois assim como o mosquito da dengue, a camisa-de-força e a discriminação aos insanos pode ser federal, estadual ou municipal. O Prédio abriga hoje o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, é lindo, e a visitação é grátis.


Sábado, 4 Abril, 2009


A platéia petrificada sabe que vive um momento histórico. Para poucos (pelo preço e pela dificuldade de tanta coisa dar certo, reunidas); e pelo glamour da própria atividade teatral, ao vivo. Corte cirúrgico de Wagner Moura para operação de Aderbal Freire Filho (que se deixa um ou dois nós da cicatriz mal dados, triunfa nos outros muitos nós bem amarrados), na cirurgia em que se transformou a encenação de Hamlet, em cartaz no Oi CasaGrande. A rainha-mãe podia ser melhor, mas não compromete. A cena do afogamento de Ofélia, Georgiana Góes, é deslumbrante. Perdemos uma ou outra fala dos coadjuvantes, mas a sacada da câmera e do telão de vídeo são sensacionais. E tem Wagner cuspindo aos borbotões, e cusparada de três horas e meia de Shakespeare há de se aplaudir pelo bom uso da saliva (dizem que as fãs mais afoitas, levam vidros de laboratório para colher a secreção do ídolo, ui!) Ninguém passa ileso pelas frases lindas da tragédia do Príncipe. Há de ter disposição. Só que Moura além disto, tem talento magnífico e diz Hamlet com maestria de saber tudo aquilo, humano: filho quer vingar pai, se passando por pinel, arma um plano, se dá mal e morre. Não sem antes levar consigo o que há de podre no mundinho da Dinamarca; muito safado vai com ele. A platéia, respeitosa, fica se dizendo, telepaticamente: "como este menino é bom!". Quanto à discussão sobre verso ou prosa para separar loucura e sanidade do persongaem, que está sendo travada entre o diretor e a papisa do bardo, considero irrelevante: quando o filho confessa à mãe que fingiu loucura por conveniência, tudo está subtendido. Tudo é consciente, portanto fronteiras vão e voltam. Mesmo que escrita em duas formas, bastaria uma inflexão para loucura ser sanidade e o contrário, possível. Melhor deixar assim mesmo, que dá para entender tudo e pensar em muito mais. Não aprisiona, não é chato, não é empolado, solene; e nem se leva a sério, no sentido de que aquilo não seria a vidinha que vivemos, linda e complicada. Aquilo acontece em todo o lugar, e está embalado para presente, sem ser pretensioso. Uma geração de atores que honram nossos velhos senhores de forma magistral: Lázaro, Selton, e Wagner. Saravá, talento! Merda pra vocês! Acho que Ziembisky e Dulcina estão orgulhosos, no céu!


Que graça terá ser eleito para a Câmara, se não pode mudar a decoração do Gabinete, pois agora tem projeto para obrigar todos eles a serem padronizados? Gente, vocês têm que entender que a graça do mundo, Congresso incluído, é a diversidade. Muito chato tudo bege com madeira envernizada e esquadria de alumínio. Assim não dá! Que outra diversão terá o pobre político congressista? Imaginem cada gabinete refletindo a alma do deputado? Fantasiem, e não fiquem com medo, um gabinete com dólares nas cuecas espalhadas ou enquadradas nas paredes; ou então aquele que gosta de castelos medievais, colocando armaduras e espadas na porta de entrada; ou um afro-descendente usando toalhas do povo zulu ou mesmo uma girafa, viva, sempre de pescoço abaixado, dentro da sala, étnica? Quer glória maior que um porta-perucas bem no meio do gabinete? Com as tintas para bigode ao lado? E piranhas e agendas de piranhas? Não sejam tímidos, meninos e meninas. Peguem leve, deixem soltar os bichos, porque a bicha, Clodovil já soltou. Aquela naja dourada segurando o tampo de vidro da mesa central é inesquecível, e bem fazem os assessores do falecido, de querer tombar a cafonice e cobrar ingresso pela visitação do que seria mais um atrativo de Brasília. O que é Niemeyer e seus projetos diante daquele rococó antoniesco, que só uma mente desvairada seria capaz? Queridos, depois que o monstro da Áustria teve a idéia de cobrar pela visitação do porão-jaula onde ele prendeu a família por uma vida, porque não fazer a ponte-aérea entre as duas atrações? Tipo pacote bizarro, onde o museu sobre os maiores assassinatos macabros da humanidade, de Londres, pode ser a terceira perna. Garanto que não vai faltar maluco interessado em dar uma olhadinha.


O que faz uma possível babá, com blusa de paetê, empurrando um carrinho vazio pelas calçadas de Copacabana, às 11 da manhã, no meio da semana? Brilhosíssima, eu acho que ela deixou o bebê na Rave ou Vibe (nome das festas moderninhas que duram mais de uma noite) e voltaria para buscá-lo mais tarde. Que estranho todas estas mulheres reluzentes de lantejoulas escamando suas vestes, coisa antigamente sinônimo de carnaval. Pois a folia invadiu o resto do ano, coalhando as ruas de tecidos reluzentes e paetizados, uma praga enfeitada e engraçada. Foi-se o tempo da descrição, agora, mais é mais e ponto final. Viúva Porcina é que estava certa.


A mulher negra e gorda chegou com um bebê de colo no balcão, onde eu comia mini-empadão de-li-ci-o-so e finíssimo com minha amiga. "Moço, me dá um dinheiro pra eu almoçar com meu filho?". Respondi, solicitando à balconista: "Claro senhora. Dá um empadão e um refri para ela!". "Não, eu quero é comida. Me dá dinheiro pra eu comprar quentinha. Aqui não tem comida...". Pacientemente, continuei: "Senhora, se isto aqui que estou comendo não é comida, é o quê, então?". Ela aceitou: "Tá bom. Me dá de camarão e uma coca". Chegou o segurança que pediu que ela esperasse lá fora. Ela disse que não, que poderia estar roubando ou traficando, mas estava pedindo comida. O segurança subiu o tom e mandou-a não alongar a conversa, e que não tentasse crescer na situação, para o bem dela. Empada e coca-cola em punho, a pedinte olhou para minha amiga, fitou-a, e rispidamente concluiu a situação: "vaca!". Não me fiz de rogado e, já saindo, exclamei para as atendentes: "O boi se despede: adeus, cabritas!". Tá cada vez mais difícil de lanchar neste pasto.