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| Milton Cunha |
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 "Mas meu Deus, até no banheiro do palácio Guanabara tem pegação?". Quanta bobagem a minha, de achar que existem lugares onde não nasceu ninguém gay. Minha tola reação foi quando, chegando à posse da Comissão dos Direitos homossexuais do antenado Governo do Estado do Rio de Janeiro, eu quis ir ao toalete. "Esta porta aí" me indicou a simpática funcionária do protocolo, que nos orientava após a deslumbrante escada que dava acesso ao salão chiquérrimo da cerimônia. Tentei entrar e estava trancada. Aguardei 5 minutos conversando com os passantes e brinquei com a funcionária: "acho que alguém morreu aí dentro". Foi então que um barbudo engravatado me olhou lá de dentro do mictório, pela porta entreaberta, e voltou a fechá-la rapidamente. "Ah, tem alguém vivo lá dentro", falei eu cá com meus estrasses. Daqui a pouco o trintão elegante saiu, e como eu estava apertado, pulei prá dentro do banheiro. Eis que um outro engravatado elegante estava lá fazendo pipi, dissimulado assobiando e fazendo cara de paisagem, tentando me converncer de que dois homens estavam lá de porta trancada conversando masculinamente sobre a cotação da bolsa. Pois sim, bolsa só se for a Chanel. Muito azar dos pobrezinhos. Resolveram se agarrar justo na hora do estouro da boiada, quando mandaram aquela gente alegre e colorida passar à ante-sala do empossamento. Era uma visão inacreditável: os mármores do centenário palácio tremeram, ao ver subir as exuberantes Rudi e outras penteadas e maquiladas para a noite (às duas da tarde), e moças masculinizadas que não deixavam nada a dever ao Vitor Belfort. Claro que existiam uns poucos normais e gays, mas estes não contam numa hora destas, porque o colunista quer é o escândalo. Um grupo orgulhoso do momento que estávamos prestes a viver, pois acostumados aos maus tratos e à hipocrisia, enfim entrávamos pela porta da frente da democracia e éramos respeitados pelos que nos olhavam atravessado e a-pa-vo-ra-dos. Medo vocês podem ter, mas nos respeitem, somos cidadãos! Sobe os acordes do Hino Nacional e surge uma Jane de Castro contida, dramática, entoando o Hino Nacional Brasileiro de maneira profunda e estrelar, séria, sem esquecer jamais a diva que há dentro dela. Todos passados com a beleza do momento que enfim, chegou. Anos de luta e sangramento, outros tantos virão, mas começou! Começou um tempo de participação, impensável nos governos religiosos que antecederam este, e que tentavam instalar comissões de psicólogos para curar adolescentes gays, na Câmara.
O governador dá dois beijinhos na travesti-cantora, enquanto aplausos ensurdecedores ecoam entre espelhos e cristais, saudando as lágrimas do avanço. Benedita da Silva é contundente sobre a necessidade do respeito ao diferente, ela própria sabendo na pele do que estava falando. O mesmo homem que anos atrás disse que ela era feia, linda em seu biótipo de negra e tranças, é o mesmo que nos aponta como anormais, nas ruas. Não se pode ser outra coisa, que imediatamente surge o pedido de exclusão. Carlos Minc declara que AINDA não tem parceria homoafetiva com Sérgio Cabral Filho, mas que a parceria política lutando contra o preconceito é antiga. Gargalhadas gerais e nossa certeza de que só quem tem absoluta convicção de sua pulsão sexual, é capaz de não se importar e ainda sacanear sobre a condição. Estes que nos espancam, cuidado com eles. Espancam a si próprio no medo da descoberta. Ao meu lado, o lindinho prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh, direto do sertão do Cariri, com o sotaque mais carregado do mundo, me confidencia: Ó Milton, outro dia li um artigo seu que adorei...". E eu: "cruzes, prefeito, quanta paraibice....". "É verdade, sou de lá da Paraíba, Milton....". E antes que eu virasse Maria Bonita para tão sedutor Lampião, cabra-macho prá danar, surge Letícia Spiller num modelito apropriado cor de arco-íris, para dizer que acredita num mundo melhor, onde todos poderão ser livres de qualquer forma de preconceito. Nisto engata o governador para dar o tiro de misericórdia na história do banheiro governamental que contei lá em cima: "Conclamo todos os meus funcionários, da polícia, do palácio, dos bombeiros, da saúde, conclamo todos os funcionários gays do Estado a se assumirem, e a formar uma ala gay governamental na próxima parada Gay, na avenida Atlântica. Não tenhamos medo de ser o que somos, cada um na sua!". Aguardemos a ala dos assumidos do Palácio, quando irei até lá dar beijinhos nos meninos que se agarravam no escurinho do WC guanabarino. Escrevi até aqui para prestar tributo à Cláudio Nascimento. Nosso líder admnistrativo, diria até nosso líder político, que há vinte anos vem fazendo um trabalho de formiguinha junto aos órgão públicos, para viver o dia que viveu: aplaudido, abraçado, incensado, você Cláudio, merece tudo o que está vivendo. Longa foi a jornada noite adentro, nos soturnos tempos vividos. Que venha agora a luz de uma jornada, claridade adentro. Não foi fácil, não será fácil, mas viver é perigoso! Portanto, é sim, o nascimento de uma nova era carioca, onde gays, pretos, cadeirantes, índios, mulheres, velhos, crianças e sobretudo, todos os homens de bem, terão seus direitos assegurados. Se não temos direito à amar quem amamos, então é preciso repensar urgentemente a noção de direito. Viva o amor!
 Mas todo brasileiro não se lixa para o que estão fazendo os políticos que elegem? Porque o contrário não seria verdade? Inspirado na declaração do Deputado gaúcho Moraes, de que está se lixando para a opinião pública, o colega paranaense Ribas Carli atropelou e matou a tal da opinião pública. Passamos da palavra ao ato, tudo pelo desprezo ao Zé povinho. Ambos não tem nenhum medo do que poderia, mas que eles tem certeza de que não vai, acontecer. Tudo delinqüência que sabe que o cidadão não pode, nem deve, reclamar. Imagina se os débeis eleitores mudariam voto na próxima eleição, ou se a imunidade parlamentar não protegeria todos os erros cometidos pelo motorista, que os bombeiros dizem, estava com hálito etílico, mas que, os de direito, não fizeram o teste. Bafômetro é para o povo, a escória. Para eles sempre haverá previlégios. Nem precisa enfrentar avião cheio de gente que incomoda; nada, pega o jatinho do amigo governador e se manda. Aeroporto, fila e possíveis olhares é para quem está degraus abaixo. Portanto não sei se vocês percebem o verdadeiro dilema, que para mim é o mais importante da questão: o que é pior, declarar ou fazer? Porque declarar o que todos sabem, mas ainda assim ato de extrema coragem e sinceridade, é maravilhoso. Mas a covardia de matar os dois meninos e se deparar com as mães-leoas no dia seguinte, exigindo punição, é tarefa hercúlea. Vai levar anos, mas acho que ele escapa desta e se reelege. Fazer o que? Às famílias a dor. Parece que a opinião pública ainda não sabe que tem força e, mesmo não sendo diretamente afetada, precisa se unir para, índios do amazonas, pressionarem gaúchos dos pampas e vice-versa. Antes disse, cada região, estado ou cidade vai ter que descobrir e levantar seus próprios ânimos, e botar pra correr os salafrários. Enquanto ficar por isso mesmo, como tem ficado, acreditem, melhor os que dizem (se só dizem), do que os que fazem. Acorda, opinião pública, que lá vem eles!
 Gostei muito do "Simonal", que deu um duro danado para chegar onde chegou, errou na forma de cobrar um dinheiro que achava que roubaram dele, se deu mal, não desmentiu a mentira porque achava que poderia ser maior que o boato, e se ferrou mais ainda. Um deslize tolo, que ganhou dimensões inimagináveis e o condenou à mais emocionante das cenas: para não atrapalhar a ascensão de seus dois talentosos filhos, entrava no escuro dos teatros, ficava chorando atrás das pilastras, orgulhoso, e se retirava antes do fim. Muito forte! Imagina um pai sentir isso? Todos os comentaristas o descrevem como um malandro boa-pinta, mas eu acho que o cara era lindo e tinha sensualidade transbordante. Mulheres e gays hão de concordar comigo que ele tinha pegada e chamava na chincha. Como se isto não bastasse, mandava bem artisticamente e era ousadíssimo. Gostaria muito de entender o comentário do Sérgio Cabral, menosprezando o movimento da pilantragem, aquele suingue todo que o Simonal tinha e que Cabral despreza solenemente. Acho que Zeca, D2 e Seu Jorge são frutos desta postura, destre traço malandro de ser, que tanto nos encanta. A-do-ro esta pilantragem com talento.
 Eu sei que não pode ter tesão em Padre, que Deus condena. Mas minha Nossa Senhora, como eu fico diante da foto do galã embatinado, com olhos de vem cá meu nego, close-up de galã divulgando o próximo show? Tá difícil ficar neutro, ta feia a coisa, porque, sedentos depois de anos no deserto, diante da água fresca do oásis, o capataz do grupo grita: "controlem-se"! Como assim, controlem-se, cara pálida? Vamos agarrar o padre, gritar histéricos e histéricas como fazemos pelo Zezé de Camargo. Gostoso é gostoso, de astronauta à gari, e estamos conversados. "Lindo, tesão, bonito e gostosão" é só o começo. Pode contratar prá missa particular, lá no meu altar?
 Pedido público para a bela mulher de verdade, Rainha da Bateria da Mangueira 2010, Renata Santos: Nada de silicone, querida. Nem unhas postiças, nem cabelos de interlace. Você é di-vi-na como Deus lhe fez, e precisamos de mulheres reais neste mundo de ciborgs cibernéticos que estas rainhas se transformaram. Tire partido e proveito do fato de ser a única sem intervenções artificiais. Peça reportagens nos jornais, proponha enquetes masculinas para saber se você não é a tal. Imagina um homem poder ter uma musa do seu quilate nas mãos, sem apertar borracha? Coisa da primeira metade do século passado, quase objeto de museu, para simples apreciação. Um dia, Renatinha, você estará exposta ao lado de mamutes da era do gelo, como a última das boazudas só de carne-e-osso, do século 21. Intitule-se a anti-Angela Bismarck, ou seja, a anti-matéria plastificada; brade aos quatro cantos do planeta que seu pequeno seio (que você diz que seus amigos acham pequeno, mas eu acho que seus amigos não gostam de mulher, não, maravilhosa; eles devem ficar procurando joanete e celulite....) é o que chamava-se de seio-pera, fetiche de dez entre dez moleques heterossexuais de minha infância. Você, como brasileira, prova que o produto nacional é bum-bum (o seu é belíssimo, com um par de coxas de virar defunto em túmulo), e não precisamos nos render ao mito americano do air-bag. Mazaropi nunca será James Bond, e ponto final. Proponho um amplo debate nacional sobre a beleza natural, verdadeira, de Renata Santos. Quem não gostar que detone, quem achar que ali não falta nada que grite. Renatinha, empreendedorismo é perceber a brecha do mercado, a lacuna do que não existe (mas o povo deseja), e abrir o negócio bem ali. Tua praia é teu sorriso maroto e sereno, de saber-se real. Sai prá lá Pamela Anderson. A nossa não voltou americanizada.
 A estrela da temporada cinematográfica é o brutamontes Liev Schreiber, que nasceu para interpretar Shrek de carne e osso, mas está em cartaz em dois filmes interessantes, em ambos interpretando o irmão problemático dos dois mocinhos (aliás que mocinhos, porque Wolverine e 007 são pau (ui!) prá toda obra). Num, ele é o Dente de Sabre, mutante que rasga com sua pata a carcaça de um automóvel, como quem passa o dedo na manteiga; no outro é um judeu na floresta, que auxilia o irmão a salvar milhares deles, através de uma vida escondida entre as árvores. E a cena em que ele bate a cabeça no tronco até sangrar, desesperado chorando, ao ser avisado da morte da mulher e do filho, é soberba. Aliás, este filme chamado Um ato de liberdade, mostra como a noção do nosso Quilombo dos Palmares é atual e inspiradora: aqui foram nossos negros escravizados no interior de Alagoas, lá nas florestas da Bielo-Rússia, foram os perseguidos semitas, que assim que a civilizada cidade foi tomada por surto selvagem (escravocratas ou Hitler) vão procurar na selva o último resquício de sanidade e respeito à vida. Quem disse que bicho só dá na floresta?
 Putz.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....
 Mary Baiana do Salgueiro, e nossa musa Samyle Cunha, convidam para a FESTA DO RIDÍCULO dia23/05/2009 às 19.00hs e m frente a quadra do G.R.A.S Acadêmicos do Salgueiro. Enquanto o samba não começa a galera segue fazendo a festa. Não fique fora desta. Divulguem para seu amigos. Trazer : linguiça / ou asinha / ou carne / ou salsichão Bebidas no "Antônios Bar"
Ps: Milton falando: trazer linguiça.... isso não vai dar certo.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
 Gente, adorei a mulher do Marcos Paulo dizendo que "não será a última mulher de diretor a trabalhar na Globo". Verdade. Mas é o complemento desta frase que dá legitimidade à indicação ou não: "não serei a última mulher destalentada ou com talento (a escolha é de vocês) de diretor a trabalhar na emissora". Porque não seria o grau de parentesco que definiria a situação, e sim a propriedade do indicado para o cargo. Quando a atriz tem talento esquecemos quem é o marido, ela arrasa e pronto. Ruim é aquela que ao surgir na ribalta, dá a certeza de que só está em cena por nepotismo.
 Duas opiniões sobre anúncios: no primeiro, para vender lanchas de última geração, o anunciante lança mão de estratégia de quinta, e nivela o sonho de consumo náutico à uma loura mostrando o bundão, com cara de vem cá meu nego, e flor nos cabelos, naquela linha mares do sul. É um acinte à todas as mulheres enfileirá-las com objetos que seriam o "sonho" realizável e secreto de todos os homens. Será que é possível usar glúteos para vendar barco? Ou aquele traseiro estaria ali só para chamar atenção e fazer parar os olhos de possíveis compradores? Qualquer que seja a resposta, pobre feminino que terá que conviver até não sei quando com estes disparates. A lancha no lugar do penis, que já foi automóvel, e um dia será foguete. Mas o mito da nativa boazuda desfrutável, este parece imorredouro no desejo dos que compram lanchas, e no daqueles que sonham que ser homem feliz é tê-los; o segundo anuncia a oferta espetacular de sandália com abridor de latas na sola... Que diabo é isso? Quer dizer que você anda com a tal sandália pelos lugares mais imundos da face da terra e depois abre uma lata de ervilha com algo embutido na sola do pisante, é isso? Qual o agregado valor de uma chinela com abridor de latas na sola? Já sei, eles estão esperando a volta daquelas latas de maconha que apareceram flutuando nas praias do Rio, o que transformaria o abridor em produto de primeira necessidade na areia do apitaço! Fora isto, me inspiro nesta loucura para sugerir outra: que tal lançar um absorvente íntimo que já venha com vibrador embutido, este sim bem mais útil. As moçoilas todas saltitantes pelas ruas da cidade, nos dias de sangramento.
 Ney Lopes: Tudo isso porque um dia, em 1952, Jacques foi a Bangu. O que se não é um fato relevante no contexto do "Ano da França no Brasil", pelo menos pode dar um enredo engraçado, principalmente na cabeça e nas mãos de um Milton Cunha, por exemplo.
Milta Cunha; kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Eu, careca, de lecinho no pescoço, o Jacs Fath da Sapucaí. Impredível. E tá prometido ano que vem! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
 Visitando dona Regina Durães (que de dona não tem nada, pois é jovem e bela e sensual, portanto estou só atendendo ao protocola de tratar com a Presidente do Salgueiro), para transformar a Cidade do Samba no jeito "academia" de ser, reparo as mãos da líder feminina nos mínimos detalhes: plantas bonitas na entrada, piso vitrificado, organização, limpeza, silêncio, nada da balburdia de muitos assessores falantes e mal encarados, decoração antenada, enfim, há um clima de mulher de bom gosto que vai da portaria ao banheiro. Coisa de mulher? Nada. Já fui a outros barracões de mulheres presidentes e eles se pareciam muito com o dos homens presidentes. É coisa de administrador sensível ao bem-estar, seja ele homem, mulher, gay ou ET. Há um prazer, há uma confiança estampada nestes líderes cuja expressão facial diz: aqui somos felizes, prezamos pelo bacana. Tem casa de gente pobre que é um brinco, tem casa de gente rica que é um lixo. Dinheiro e poder não definem qualidade. E não é só limpeza e organização, não. Há administração pairando no ar, tipo dona-de-casa que sabe o que deve ser servido no almoço e conversa com a serviçal sobre o tempero. Mais ou menos amor pelo liderar: é disto que estou falando. Será que mulheres têm mais isto que homens? Alguns dizem que sim e Dilma já estaria se arrumando todinha para provar que isto é verdade. Dá um prazer danado percorrer estes territórios arrumados e com energia boa. Agora estou louco para ver quando o bicho (ou a bicha) pega perto do carnaval, e pensar sobre o que este ambiente agradável ajuda ou não no bom andamento desta loucura chamada escola de samba. Os outros bonitos que vi são Vila Isabel, Grande Rio e Tijuca. A beleza do carnaval vai além da avenida.
 A menina Maísa, espevitada garota de seis anos, prova que o medo tem razoes que a própria razão desconhece. Após resistir meses convivendo com a máscara facial e o cabelo do apresentador Silvio Santos, a pequena grita e sai correndo de um monstrinho com a singela cara do Michael Jackson. Será que contaram para a Maísa que o americano devora criancinhas?
 O sucesso de Susan Boyle, a meio-monga cantora inglesa que, ridicularizada ao entrar no placo do concurso inglês, sai glorificada por lágrimas e ovação, revive em nós a graciosa trajetória do patinho feio. Adoramos humilhados, nos colocamos do lado deles. Nós mesmos nos sentimos constrangidos com a feiosa tentando o estrelato. Mas quando vem o vozeirão, ou qualquer outro talento, admitimos que contra o dom, não tem físico que segure. E mais que isso, se o desnegonçado tem carisma, como a própria Susam, capaz de um horroroso rebolado cheio de charme, afirmando que ela não podia ser reduzida à sua idade, 47, pois isto só era uma parte dela, aí é sopa no mel. Todos já passamos por uma humilhação, e sabemos que é ótima revidar com calma e sair triunfante. Este caso acende em nossa memória toda a capacidade humana de superar obstáculos. E o prazer de viver para ver isto.
 Adoro ver todos estes musicais que contam as trajetórias deslumbrantes de nossos artistas, neste país abundante de talentosos músicos e cantores. Só que sempre é chover no molhado, cantando a carreira de bambas. Tá faltando algum louco montar "Conga La Conga, Gretchen fricklen the bum-bum"; ou talvez "Cachorro não, Waldick sim"; ou ainda "Branca de Neve e Nelson Ned, valendo por sete". Claro que Elis é bárbara, Nelson Gonçalves é divino e Cartola é o máximo. Mas sinto falta do lado b, da música fazendo gargalhar do inacreditável que ela pode ser. Tá tudo muito bom, mas morno. O que não invalida boas montagens, como a de "Tom e Vinícius", lá no Carlos Gomes: um punhado de grandes canções, uma direção eficiente e um elenco bacana, encabeçado por Marcelo Serrado numa excelente composição de Jobim, e por Lílian Walesca, uma estrela de primeira grandeza, ainda que o segundo nome seja do ator que interpreta Vinícius e o terceiro o de Guilhermina Guinle (que faz no máximo uma participação especial), pois quem arrasa quarteirão é esta negona que precisa de chance, e se souber atuar, pois cantar e presença de cena sobram na estrela, vai ser um arrasa quarteirão. Por que não fazer Jovelina Pérola negra, ou Clementina, e dar para Lilian Walesca sacudir o esqueleto? Vai ser um campeão de audiência.
"OS LOUCOS DA PRAIA CHAMADA SAUDADE" Milton Cunha Para Acadêmicos do Cubango, 2010 "Aos loucos, o Hospício! Aos incuráveis, a Colônia Aos pobres, o Trabalho". (o povo)
"mais louco é quem me diz que não é feliz; Eu sou feliz...." (o artista) "...o maior exemplo de que o Brasil é "Pinel" é o fato do seu Palácio dos Loucos ter se transformado No Palácio da Sabedoria!" (a Cubango) INTRODUÇÃO
Pelos corredores deste prédio passa muito do Brasil, dos últimos 160 anos. Para o bem e para o mal, este projeto civilizatório, primeiro Hospício, depois Universidade, com um hiato de abandono e planos de demolição do belíssimo palácio neoclássico, demonstra como o poder institucionalizado posiciona-se perante a sociedade brasileira e seus cidadãos. Mesmo com o discurso de criação, de dar conforto e tratar bem os insanos, demonstra a mesma divisão de classes opressora e a incapacidade de perceber a realidade do contexto social como mais doente que seus internos. Mais que isso, ao lado das terapias ocupacionais interessantes, pratica as camisas-de-força e eletro-choques. O descaso com o patrimônio e a insana vontade de apagar os feitos dos grupos predecessores, está presente na vontade de por abaixo o marco histórico da arquitetura nacional. Como Universidade, ninho de pulsação cultural criativa e rebeldia estudantil, vai demonstrar a violenta ação dos golpistas militares para controlar o pensamento e o saber, retirando a autonomia da instituição. Pelos corredores deste prédio passa os últimos grandes embates brasileiros entre a loucura de sua população e a tentativa de controle de seus governantes. SINOPSE DO ENREDO
O carnaval é uma loucura e o Brasil uma coisa de doido! A partir destas duas afirmações, a Acadêmicos do Cubango tece a sua Epopéia da Insanidade, para a folia de 2010: contar, através d'Os Loucos da Praia Chamada Saudade, em forma de desfile de escola de samba, os 158 anos do emblemático e belíssimo prédio que se ergue na esquina da Av. Pasteur com Venceslau Brás, Urca, Rio de Janeiro. Como neste país tudo acaba em samba, vamos começar pelo homem cujo nome denomina a avenida dos desfiles: o Decreto de Fundação do local, elaborado e assinado pelo Marquês de Sapucaí, professor e conselheiro do jovem Pedro II, foi promulgado pelo Imperador de 14 anos, visando construir um Hospício para doentes mentais, com espaço, conforto e claro, divisão de classes. O poder imperial constituído, batizou-o em 1852 de Hospício Pedro II, mas o povão logo resumiu na expressão "Palácio dos Loucos" toda a complexidade da majestosa edificação. O mesmo povo que, sabiamente, diz que "rico é maluco-beleza excêntrico, e pobre, pinel mesmo!". Coisas de uma nação galhofeira, de brilhantes sacações, que sempre tratou assuntos delicados de forma leve e espirituosa. Nascia a Psiquiatria Brasileira, tratando dos loucos da Praia da Saudade, depois conhecida como Praia Vermelha. Na Casa Grande de estilo Neoclássico, à beira da Baía de Guanabara, os internos se dedicavam às deliciosas terapias ocupacionais, paradoxalmente vigiadas pelas circulares torres de segurança, que chamavam-se Panópticos, cujos enfermeiros-guardas estavam sempre prontos para imobilizar os mais agitados. Tal repressão, muitas vezes confundiu discordância e contestação aos padrões estabelecidos pelo poder dominante na Nação, num período específico, com doença mental. Portanto, se passarmos os olhos pela linha do tempo percorrida por este Hospício que se transformou, talvez pela mesma vocação, na Universidade do Brasil (aí é que a população deitou e rolou....), as camisas de força no Segundo Império, bem podem se transformar em tanques do exército cercando o mesmo prédio, na ditadura militar iniciada no golpe de 64. Fogem loucos; e correm estudantes e professores, ninguém querendo a repressão. A imprensa desejando liberdade, neste ponto junta-se ao interesse da jovem doutora Nise da Silveira, que nos anos 30 foi presa neste endereço hospitalar, por interessar-se pela dita "literatura comunista", e, mais um pouco antes no tempo (início do século XX), à vontade do grande escritor brasileiro Lima Barreto que, negro e pobre, não podendo mais se dedicar aos estudos, mergulha em profunda crise existencial que o leva à internação no palácio, na época denominado Hospício Nacional de Alienados, e à escritura do seu "Diário do Hospício". Se a loucura é um ponto de vista, quais foram estes olhares durante este século e meio? Por exemplo, deposto o Imperador, o "Palácio dos Loucos", agora administrado pela nascente república, vai eleger que tipo de indivíduo para ser designado "interno"? O próprio ex-Imperador, dado à estrepolias sexuais, desejoso de passar mais tempo viajando pelo exterior que permanecendo no Brasil, adorador de múmias, esfinges e colecionador de sarcófagos egípcios, será que ele "batia bem da cabeça" ou viveria o "queixo de caju, imperador banana" (como os lelés da cuca o tratavam) num eterno surto insano? E quantos políticos atuais teriam parafusos-à-menos, esnobes de Brasília cujos tiques nervosos os fariam iguaisinhos aos loucos da Praia da Saudade, na Belle Epoque? Critérios à parte, além de admiráveis anônimos, o primeiro período republicano viu, no interior destas paredes, de imensos e luxuosos salões e corredores intermináveis, passar brilhantes brasileiros, guardados, além de loucos, como personalidades talentosas no coração de nossa gente: o Maestro Ernesto Nazareth e suas partituras musicais mágicas; os citados cadernos do literato Lima Barreto, que inspirava os companheiros de enfermaria a profetizar "...isto aqui está se transformando num colégio!"; o teatrólogo Qorpo Santo e sua inteligentíssima enciclopédia em forma de dramaturgia para encenação; o negão-armário bordador de delicadíssimos bordados, Mestre Sala dos Mares, líder da Revolta da Chibata, João Cândido..... (cuja loucura era pedir melhores tratos aos marinheiros); o artista plástico Bispo do Rosário, dado à visões psicodélicas lindíssimas como a abertura do teto de seu quarto e a aparição apocalíptica de sete anjos azulados que vieram informa-lhe que ele era O escolhido); e, do outro lado da linha da normalidade, tentando decifrar a esfinge, os "doutores de lesos", Juliano Moreira (sabiam que ele era negro?), Patrono da Psiquiatria Brasileira e a já citada Nise da Silveira, autoridade brasileira sobre o Inconsciente. É mole ou quer mais? Tem mais: com o advento de Vargas, a superlotação decretou a decadência e fechamento do Prédio, cujas assombrações de abandono foram pintadas, em magníficas obras, pelo grande pintor brasileiro Iberê Camargo. Mas faz parte do espírito nacional ser fênix, ressurgir das cinzas. Num lampejo de sanidade, Pedro Calmon lutou contra a demolição do prédio, liderou sua restauração e ali internou jovens alunos universitários. Como primeiro Reitor da Universidade do Brasil, o acadêmico substitui os eletro-choques e lobotomias por simpósios e pelestras; os neurolípticos por louza e giz; as freiras e enfermeiras por Mestres e Doutores. Gritos ainda, mas agora permitidos.... Se a modernidade democrática é "normal", a linha do tempo acusa os militares repressores da ditadura sessentista como "doentes". Pois a liberdade vivida pela instituição (antes psiquiátrica, agora do ensino) foi vista mais uma vez como Palácio dos Loucos, agora não mais pelo povo, mas contra o povo. Loucos eram os que não admitiam que os Generais e as Forças-Armadas poderiam mandar no país, torturar e matar. Louca era a caça aos comunistas. Loucura, ame-a ou deixe-a! Toda a festa foi se encaminhando para o funil do "é proibido proibir": no antigo prédio se realizou o primeiro show de bossa-nova do país, estrelado por João Gilberto, mas foi a "primeira nua do cinema nacional", La Bengel, que causou furor na meninada., que clamava: "não há nada de louco no sexo!". Mas os milicos não pensavam assim, e retiraram a autonomia da Universidade, aos moldes dos loucos que não podiam caminhar livres. Tiros, cassetetes e novamente, eletrochoques, agora assumidamente para tortura e revelação de segredos. O que era terapêutico, virou policialesco. O próprio país tinha corporificado as grades do Hospício, toda a nação vivia internada numa grande prisão para Alienados. Poucos ousavam surtar contra. Não precisávamos mais de um local específico, todos os brasileiros debatiam-se na loucura. Mas o foco de sanidade germinou e multiplicou-se, e o pensamento autônomo Universitário, na condição do Fórum de Ciência e Cultura, hoje vive lá. Dizem que vozes são ouvidas nos corredores, enquanto toda a população dorme. São sussuros de espíritos que lá viveram, alegres. São vozes de uma nação atormentada por indagar-se: somos normais? Então porque fazemos o carnaval? A loucura é federal, estadual, ou municipal? Isto sem contar na gargalhada que veio do além, atribuída ao fantasma do Marquês de Sapucaí, que adorou saber que uma parente do velho Doutor Pinel, enfurecida pelo nome do ancestral ter-se transformado em sinônimo de doente mental, ter exigido a troca do nome, o que só fez reforçar a denominação na boca dos loucos da praia chamada saudade, a saudade que sentimos de tempos que não vivemos, mas que desejamos conhecer e compreender; uma saudade mítica, imemorial. Portanto, levante-se fantasma desta praia chamada Cubango. Venha à avenida que hoje leva teu nome, para brincar e festejar os 158 anos do Palácio cravado na areia cintilante, sob tua influência libertadora. HISTÓRICO DO ENREDO
GÊNESE DESTE ÉPICO DA INSANIDADE Sejamos realistas, façamos o impossível: vamos rimar governo e poder com loucura e carnaval, coisa tão natural! Loucos e estudantes; alienados e reitores; que camisa-de-força os unirá? De Hospício à Universidade, (passando por Hospital e Instituto de Psiquiatria), a história da casa grande do caminho da Fortaleza da Praia Vermelha, contém mais de um século e meio de esperanças, de lutas, de passageiras derrotas e de glórias. O Hospício de Pedro II, além de ser o marco fundador da psiquiatria brasileira, iniciou a ocupação dos terrenos na orla da enseada de Botafogo e, passado mais de século e meio desta história (tão doida que reúne, no mesmo balaio de gatos, o Imperador Pedro II e o Doutor Pinel; o professor Sapucaí e o General-Presidente Castelo Branco), até hoje o prédio original existe, parcialmente restaurado, na esquina das Avenidas Venceslau Brás e Pasteur, estendendo-se em direção à Praia Vermelha (antiga Praia da Saudade) na Urca. A Universidade instalou-se no local em 1949 e lá permanece até hoje, mesmo depois da criação do Campus Universitário do Fundão. LEVÍTICO IMPERIAL Mas parece que tudo começou, mesmo, com Cândido José de Araújo Viana, o Marquês de Sapucaí (um fantasma que para sempre assombrará este palácio brasileiro de insanos) preceptor de português e literatura do jovem príncipe de apenas 14 anos, a quem atribui-se influência não pequena nas atitudes resolutas de Pedro II. Foi o Marquês (que "do sassarico é freguês", segundo referência da autoridade querida da Mestra Rosa Magalhães), quem assinou o decreto de fundação do Hospício, logo homologado pelo primeiro ato administrativo do jovem Imperador: o Decreto Imperial 82, de 18 de julho de 1841, que fundava um hospital destinado privativamente para o cuidado de alienados, e tratá-los de acordo com os conhecimentos "científicos" da nascente psiquiatria e segundo os ideais humanitários. Vendera a idéia da fundação do Hospício, José Clemente Pereira, que juntava as funções de Ministro de Estado com as de Provedor da pia constituição. Seria caso de internação? Foram dez anos de construção de pátios internos amplos, longos corredores, capela, salões, quartos. Planejado aos moldes de hospitais franceses, provido de espaços suntuosos e decoração de luxo, ficou popularmente conhecido como o "Palácio dos Loucos". A amplidão dos espaços, a disciplina, o rigor moral, os passeios supervisionados, a separação por classes sociais e diagnósticos, e a constante vigilância do alienado, representam o começo da psiquiatria no Brasil. Inaugurado em 1852 (quando haviam hospitalizados 144 pacientes, sob os cuidados dos Drs. José Antonio Pereira das Neves e Lallemont), a área existente entre a ponta da enseada de Botafogo e a pequena Praia da Saudade (Praia Vermelha) acabou sendo a escolhida para a edificação do Hospício, visto que situava-se, àquela época, em região tranqüila e bem distante do centro urbano da cidade. Na Capela Interna do Hospício, sagrada ao Padroeiro do Império, São Pedro de Alcântara, os ditos "normais" ficavam na nave central, enquanto os loucos ficavam isolados, no segundo andar da capela. Trocando as bolas... Prontuários encontrados nos arquivos do antigo Hospício de Pedro II evidenciam a subdivisão de classes sociais que pauta, à época, os serviços de assistência aos doentes mentais do manicômio. Enquanto os pacientes de primeira e segunda classes (os indivíduos brancos, membros da Corte, fazendeiros e funcionários públicos, os lavradores e serviçais domésticos), viviam em quartos individuais ou duplos e se entretiam com pequenos trabalhos manuais, jogos e leitura), os de terceira e quarta (pessoas de baixa renda, marinheiros de navios mercantes e escravos) eram indigentes, trabalhavam na cozinha, manutenção, jardinagem e limpeza. Estes últimos recuperavam-se com mais facilidade que os primeiros, que, paralisados pelo ócio, perpetuavam-se na internação. Os médicos da época passaram a tentar reabilitar os pacientes. No hospício, os alienados participavam de terapia ocupacional em oficinas de manufatura de calçados, artesanato com palha e alfaiataria, fundição de ferro, encanamento, engenharia elétrica, carpintaria, marcenaria, manufatura de colchões, tipografia e pintura; mas as arcaicas técnicas curativas eram baseadas em ópio, banhos, isolamento, cauterizações, sangrias e purgantes. Na época não haviam tratamentos biológicos, e a forma encontrada para controlar os pacientes mais agitados era trancá-los em quartos fortes e amarrá-los em camisas de força. Doido por sexo ("Pedro é Cauto, não casto", "Que loucuras cometemos na cama de dois travesseiros!"), maluco por viagens ao exterior ("quando descobriu o mundo, Pedro não quis mais parar"), defensor do regime que o deporia (em defesa da tese republicana, pesam escritos do próprio Pedro II. "Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador"), no Carnaval, a cidade chacoteava o Imperador sem parar: "Não é por certo / Boa moral / Trair a esposa / Com a Barral" ou "Eis o sota escravocrata / Do reinado da patota / Deste reino patarata / Eis o sota escravocrata! / Na sua nádega chata / Fotografou-se o idiota" ) a vida do fundador do grande hospício brasileiro parece ser igualzinha à que hoje é praticada pelos mandatários desta nossa loucura. MARTÍRIO REPUBLICANO Em 1883, Teixeira Brandão assumiu a Cátedra de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, sendo, por essa razão considerado o primeiro alienista brasileiro. Como diretor do Hospício de Pedro II (1886), desanexou essa instituição da Santa Casa de Misericórdia e, em 1890, fundou a primeira Escola de Enfermeiros e Enfermeiras do Brasil. Em 11 de janeiro de 1890, com o Imperador deposto e exilado pela recém instaurada República, o Hospício de Pedro II foi rebatizado como Hospício Nacional de Alienados. Com a laicização do Hospício, saíram as irmãs de Caridade e as suas agregadas, que exerciam grande parte dos serviços de administração e enfermagem. Mas a superlotação fez com que o atendimento se degradasse e as imponentes instalações ficassem precárias e descuidadas, iniciando uma história de decadência, e os cinco anos que antecedem a passagem para o século XX são marcados pelo caos administrativo, o que resulta em grandes críticas de intelectuais da época. Uma diversidade de acusações questionava o cotidiano e o modelo assistencial do hospício, o que originou uma série de publicações em revistas médicas por meio de crônicas, caricaturas, histórias em quadrinhos, sonetos e poesias satíricas. O Hospício abrigou personagens famosos das artes brasileiras, (alguns deles vítimas do preconceito, o que pesou na internação) tais como: o compositor Ernesto Nazareth, o Rei do Tango; o teatrólogo gaúcho Qorpo Santo, o precursor do Teatro do Absurdo, deixou textos de lógica impecável, que no entanto subvertiam os padrões, a exemplo dos nove volumes de Ensiqlopédia, seu testamento literário; o escritor carioca Lima Barreto, que era mulato suburbano carioca e pobre. Com a loucura do pai, Lima largou os estudos por um emprego humilde, para ajudar no sustento da família. E numa realidade que o distanciava dos sonhos, foi tragado pela loucura, mergulhando no alcoolismo para poder continuar a sonhar: Lima Barreto mergulhou na pobreza, na decadência, na loucura, sendo internado como indigente. Outra figura relevante no hospício foi o marinheiro João Cândido Felisberto, o "Almirante Negro", líder da Revolta da Chibata, em 1910. Um negão de quase dois metros de altura, valentíssimo, que, aprisionado, pirou. Geová, me abana: no hospital, este tremendo "armário" fazia delicados bordados, hoje expostos em São João Del Rey, MG. Que armário é este? Uma crise gigantesca surgia e só viria a ser solucionada alguns anos após, quando, Juliano Moreira assumiu as funções de Diretor do Hospício Nacional de Alienados, em 1903, quando reformou o velho Hospício Pedro II. Através de decreto oficial. O Pavilhão de Neirossífilis tornou-se o Instituto de Neurossífilis em 1927. Durante 28 anos, até 1930, quando é destituído pelo Governo Provisório de Getúlio Vargas, Juliano Moreira ocupou o cargo e sua liderança duradoura, aliada a uma obra prática e teórica importante, fazem-no passar a ser conhecido como Patrono da Psiquiatria Brasileira. Nise da Silveira começou sua carreira em psiquiatria neste Hospício em 1933. Ela morava num quarto do hospital e lá foi presa durante o Levante Comunista de 1935, em plena ditadura Vargas, por suspeita de ser desta corrente de pensamento político. Em 1937, muda novamente de nome, tornando-se Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, parte da reestruturação do Ministério da Educação e Saúde. Entre os internos mais conhecidos do antigo Hospital dos Alienados, esteve o paranóico-esquizofrênico Arthur Bispo do Rosário, cujo passado é praticamente desconhecido. Sabe-se apenas que era negro, marinheiro, pugilista, lavador de ônibus e guarda-costas. Nas vésperas do Natal de 1938 foi internado no Hospital, no Rio de Janeiro, após um delírio místico("Faltavam dois dias para o Natal de 1938. Era meia-noite e Arthur Bispo do Rosário descansava no quintal do casarão da família Leone, no Rio de Janeiro. De repente, a cortina preta que revestia o teto do mundo se rasgou sobre ele e deu passagem a sete anjos de aura azulada e brilhosa. Vinham do céu a seu encontro. Era um chamado); com diagnóstico de paranóico-esquizofrênico.Virou artista plástico e as exposições póstumas de seus trabalhos fizeram sucesso em vários países. AGONIA E MORTE, CAOS E FANTASMAGORIAS! Com a transferência do antigo pavilhão de observação para a Universidade do Brasil em 1939, criando o Instituto de Psiquiatria, o Hospital da Praia Vermelha passou a receber todos os doentes mentais indigentes, o que acabou por produzir uma segunda crise de superpopulação de internos. O prédio inaugurado por Pedro II estava decadente, mal conservado, e não tinha condições de abrigar os 3.000 doentes lá internados. Por fim, em setembro de 1944, concluiu-se a transferência dos internos da Praia Vermelha para outros hospitais. O grande pintor brasileiro, Iberê Camargo, conseguiu em algumas de suas telas admiráveis, fixar a angústia do velho prédio abandonado e em reforma. Nelas sentimos como sofriam aqueles muros, que fechavam o nada: extensos corredores, espessas paredes e salões de pé direito altíssimo, abandonados, escuros, poeirentos, cenário para assombrações brasileiras. Havia musica misteriosa ecoando nos corredores; pincéis que dançavam no torpor da escuridão-abandono; nós que atavam e desatavam fazendo tramas que seriam tecidos de lembranças; havia força no bordado cândido que tentava delicadas texturas; uma escritura da saudade que limava a miséria da psiquê. "Quantos somos? Quem somos?" Vozes e sussurros que ecoavam e ecoam nos salões de um país desconhecido, que quase não se vê. Espelho. Vultos passantes dobrando o silêncio cívico de paredes manchadas pela lepra do mal uso e do desuso, com pisos esburacados transformados em tropelias para ratazanas. Até o início de 1948, o destino do Palácio era incerto. Vazio, em ruína, o casarão da Praia da Saudade sensibilizou um homem vigilante do passado, que o colocara entre as instituições de valor histórico e artístico do Brasil. E os inimigos do Hospício não o puderam demolir. RESSURREIÇÃO DA FÊNIX Doado a Universidade do Brasil, a antiga sede do hospício só não foi demolida graças a Pedro Calmon (1902-1985), o primeiro Reitor. A partir de 1948 iniciaram-se as obras de restauração do Palácio, e em 24 de dezembro de 1949 estava parcialmente restaurado, quando foi inaugurado pelo Pres. Eurico Gaspar Dutra para ser a sede da reitoria da Universidade do Brasil. O hospício cedeu lugar à Universidade, precursora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e foi cenário tanto de conflitos militares durante a ditadura quanto de um antológico show que reuniu pela primeira vez os astros da Bossa Nova. Um marco definitivo aconteceu em 22 de setembro de 1959, com a Noite do amor, o sorriso e a flor, título do disco de João Gilberto, considerado o primeiro show de Bossa Nova do País. O espetáculo aconteceria na Pontifícia Universidade Católica (PUC), reunindo João Gilberto, Nara Leão, Os Cariocas, o conjunto de Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sylvia Telles, Johni Alf, Sergio Ricardo, Elza Soares, Astrud Gilberto, Trio Yraquitã, além de Tom Jobim e Vinícius de Moraes; mas o padre Laércio Dias Moura, reitor da PUC, acabou vetando o show, contrário à inclusão de última hora de Norma Bengell, que aparecera nua no filme Os cafajestes. Diante do impasse, o evento foi transferido para o Teatro de Arena da Faculdade Nacional de Arquitetura, na Praia Vermelha, hoje Teatro de Arena. A repercussão foi estrondosa. Atualmente, só permaneceram no antigo terreno pertencente ao Hospício de Pedro II, o Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Instituto Philippe Pinel (um decreto de 1965 do então presidente Castelo Branco, primeiro dos generais que governaram o país (1964-1966) após o golpe militar de 64, fez com que o antigo Hospital de Neurossífilis passasse a chamar-se Hospital Pinel. Há também episódios dramáticos, como o cerco do Exército em 1968. Grave sobretudo para uma universidade que já tinha brecado a intromissão dos militares, pós 1964, sob o pulso forte do reitor Pedro Calmon: "Polícia só entra aqui se for para fazer vestibular". Mas no dia 20 de junho de 1968 o quadro foi outro. Cerca de 150 estudantes se reuniram de manhã para solicitar audiência com o reitor Clementino Fraga. Queriam mais autonomia para a organização estudantil. Enquanto esperava, o grupo soube que o prédio fora cercado pelo Exército. No meio da tarde ouviram de Fraga que o Exército não entraria e todos ali estavam seguros. Por volta das 19h o mesmo reitor desabafou, impotente: "O Exército vai invadir!". Havia alguns líderes presentes, mas foi Wladimir Palmeira quem assumiu o comando. "Decidimos nos armar de paus e pedras e saímos para enfrentá-los", lembra a professora de Sociologia Nanci Valadares, que engrossava o time de estudantes. Muita gente foi presa. E mais grave: o confronto marcou o fim da autonomia universitária durante os anos de chumbo. No início dos anos 70, a reitoria da Universidade foi transferida para a Cidade Universitária, na Ilha do Fundão. Desde então o Palácio passou a abrigar o Forum de Ciência e Cultura (que lutou pelas diretas já, em 1983, e tem abrigado relevantes pensadores acadêmicos). O tombamento só saiu em 1972. Em 15 de julho de 1985, o então Hospital Pinel passou a chamar-se Hospital Dr. Philippe Pinel, conforme solicitação em carta endereçada ao Ministro, por uma cidadã brasileira parente distante de Philippe Pinel, que indignada com o fato de a palavra "pinel", sobrenome honroso de sua família, ter adquirido sentido ofensivo e estigmatizante, tornando-se vocábulo sinônimo de louco, instava o Ministério da Saúde a acrescentar à denominação do hospital o nome completo de Philippe Pinel e seu título médico de doutor. Com isso esperava que a população, mais bem informada, deixasse de utilizar o termo "pinel" com essa conotação pejorativa. Parece que não colou! É que pra doido, doido e meio.... Em 1° de Janeiro de 2000, a loucura foi municipalizada: através de Termo de Cessão firmado em 28 de Dezembro de 1999, o Instituto Philippe Pinel deixou de ser Unidade Federal, passando a ser administrado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, tornando-se Unidade Própria da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Assim como o mosquito da dengue, a loucura poderia ser federal, estadual e municipal.... LOUVOR PÓS-MODERNO Testemunha da vida quatricentenária desta mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de janeiro, o casarão hoje é o templo da ciência, um núcleo de brasilidade, uma arca histórica de tradições e uma das plataformas para a decolagem do Brasil maior. O Palácio da Praia Vermelha não é apenas o templo de nossa memória afetiva, mas o marco vivo de lutas e sonhos de várias gerações. Um século e meio é densidade de vida, que nos faz pensar o passado e prepara o desenrolar de novas perspectivas (que, o tempo nos ensina, só mudam de enfermaria!). No paraíso da loucura que o Reinado de Momo é, estabelecemos a celebração dos jogos de espelhos e reflexos que normalidade e loucura são, sempre presentes na linha do tempo. Os acontecimentos que acreditamos importantes, hoje, podem não ter qualquer traço no semblante da dona História, no futuro (o que de certa forma é desesperador para nossa fluida existência...), Sendo a Universidade um organismo aberto para a comunidade, nada mais justo que celebrar em Enredo Carnavalesco a história do Prédio da Universidade do Brasil, que já foi Hospício, Hospital e Instituto para Alienados e psicopatas! APOCALIPSE RECONFORTANTE "Deus criou o céu, os mares e a terra. Ele criou as plantas, os animais, os peixes e os pássaros. Os seres humanos, porém, Ele os criou à Sua imagem. Há momentos em que somos tratados com desrespeito, mas podemos estar seguros da nossa dignidade e do nosso valor, pois fomos criados à imagem de Deus. Um ou outro é abilolado, adoidado, alienado, aloprado, aloucado, aluado, alucinado, amalucado, avariado, azoretado, baratinado, biruta, boleado, cabeça-de-vento, delirante, demente, desajuizado, desatinado, descabeçado, desequilibrado, desmiolado, desnorteado, desorientado, destemperado, destrambelhado, desvairado, disparatado, doido, doidivanas, enlouquecido, exaltado, furioso, insano, insensato, lelé, leso, louco, lunático, maluquinho, mentecapto, pancada, pinel, porra-louca, tonto, transtornado, tresloucado, zureta, zonzo; mas tudo bem...." -Que atire a primeira pedra aquele que nunca surtou! -Sinceramente? O Brasil é coisa de louco! -"...loucos alguns, excluídos todos!" Milton Cunha Para Acadêmicos do Cubango, 2010
 GRBC "SAIAS NA FOLIA "
Saias na Folia é uma renovação de bloco em Niterói, será formado só por mulheres guerreiras, o objetivo principal é mostrar o valor e a capacidade da mulher. Criado no dia 8 de março de 2009, através de uma idéia um grupo de amigas resolveram unir as forças, e assim em bate papo saiu o nome Saias uma característica bem delicada e feminina, Folia já explica tudo, nossas cores são amarelo, lilás e coral. Viemos para abrilhantar o Carnaval de Niterói. A primeira apresentação do bloco será sábado com o BATIZADO DA BATERIA DO GRBC "SAIAS NA FOLIA " Dia 09 de maio de 2009 À partir das 13h. LOCAL: GRES Acadêmicos de Cubango Rua Noronha Torrezão, 560 - Cubango, Niterói Programação: 13h30min - Apresentação da Bateria Feminina Fina Batucada, da Escola de Música Villa Lobos 14h - Batizado da Bateria da Mestre Thalita do GRBC Saias na Folia 15h - Roda de Samba Sua presença é fundamental. Meryanne Cardoso Assessora de Imprensa - 9283-0434 GRBC Saias na Folia "A valorização da Mulher" Milton Falando: As loucas foram minhas alunas.... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
 Será que os povos aborígenes brasileiros sofreram os mesmos abusos sexuais e humilhação de valores grupais praticados pelos padres católicos, em colégios internos e intituições, que os aborígenes do Canadá? Uso a mesma expressão que as manchetes do Globo e Mail estão usando, porque acho que a deniminação índigena não é mais politicamente correto, pois é designação carregada de menosprezo e dominação cultural. Queridos, é escândalo de primeira página, com letras garrafais e fotos do líder aborígene canadense, com enorme cocar de penas de águia, sendo recebido pelo Próprio Bento XV no Vaticano, que, alarmado com a gravidade e quantidade de provas e relatos, não tardou em convocar os líderes aborígenes para um pedido de desculpas. Estava sendo uma queimação de filme para o povo do norte uma falta de posicionamento desta Igreja. Fiquei pensando que em país de primeiro mundo, até as lideranças indígenas tem mais respaldo político, consideração da opinião pública e organização para pressionar. Porque não é qualquer um que consegue tamanho arriar de calças do poder religioso, não. Mas a principal lição destas sociedades avançadas é que o multiculturalismo é uma realidade, todos os grupos tem que ser respeitados e ouvidos, cada um faz da vida íntima o que quiser, e todos tem direito à liberdade étnica. Como dizem os antropólogos modernos, as religiões são todas perspassadas pelo folclore, religião Católica incluidíssima, o que não faz da hóstia mais respeitável que o tambor do candomblé, nem Tupã menor que Alá. O Canadá está todo do lado dos aborígenes, e nem a palavra esquimó pode mais ser usada. Eles são um outro nome, que existe há mais tempo e com o qual eles se designam. Não aceitam mais a ingerência dos brancos, nem entregam nas mãos deles seus destinos. É de igual para igual e acabou. Até com o Papa.
 Nem nas religiões as pobrezinhas das mulheres servem para liderar. Um problema, as coitadinhas terem nascido mulher. Um fecha porta geral, uma consumição. Rezar missa? Virar Rabino? É ruim, hein! No máximo cuidar de enfermos, ser freira em instituição também de ensino, mas ocupar posição de homem, nem pensar. Deve ser por isso que Deus é masculino, e não temos uma Deusa poderosérrima. Fica tão óbvia a história de que as religiões são manipulações humanas para controlar os fiéis, que nem sei porque ninguém desconfia. Só que, me colocando no lugar das moçoilas, vejo que elas estão sempre na desvantagem. Não podem rezar missa, não podem entender tão bem da Torá como os meninos, enfim, são boas para matrimônio, maternidade e futilidade. Adoro as feministas que querem um lugar ao sol, neste mundo machérrimo. Dou a maior força e adorei ver o filme "Segredos Íntimos" que trata do delicadíssimo assunto de mulheres modernas, algumas lésbicas, vivendo num mundo de velho testamento. Até a cara dos senhores com longuíssimas barbas parece ter saído direto de uma gravura antiga. É impressão minha ou nunca pipocaram tantos documentos contra o povo judeu como recentemente? Senão vejamos: me lembro que lá pelos 60 ou 70 eles eram as vítimas e acabou. Mas daí veio a pisada na bola nos campos de Gaza, na última ofensiva, veio a foto do soldado com a estampa da palestina grávida e um alvo sobre o barrigão dela, embaixo a frase "um só tiro e dois alvos mortos", agora tem o filme Valsa com Bashir e este que citei, e me lembro também de Munique, de Spielberg, com um dos personagens gritando "ser judeu não é agir de forma insana por vingança". Enfim, tenho juntado uns cacos, e percebo que as denúncias se amontoam, o que só dá a eles, abandonando o estigma de eternas vítimas, um aspecto igualzinho ao resto da humanidade: um povo com grandezas e deslizes, humanos como nós. Voltando às mulheres, se elas abrirem uma igreja eu entro. As acho super capazes de fazer tudo, absolutamente tudo, o que estes sacerdotes fazem. Ainda de quebra, acho que melhoraria os índices de pedofilia e soberba.
 Uma mulher morreu hoje às 8 da manhã. Será sepultada à tarde, e não verei o corpo. Mas a cova dento de mim não será leve, pois um rio de lágrimas molha meus 47 anos de não amá-la, não compreendê-la, não viver nos seus moldes. E agora que ela morreu, só restam as lembranças. Quanta possibilidade jogada fora, quantos sórdidos sentimentos, quanta miserabilidade, quanta dor, quanta contorção. Sou menino de short azul colegial, blusa branca do colégio de freiras, penteado cabelo louro para o lado, meias altas brancas e vulcabrás preto. Sou maricas e minha relação com ela só piorará com o crescimento, até a ruptura do elástico, que, cansado de tanta incompreensão, enfim, estourará. Quem foi ela? Quem sou eu? O que fizemos de nossos amores, para onde foi nosso coração maternal e filial? Congelada na calçada, para sempre a jovem senhora de saia e blusa tubo, baton nos lábios finos e olhos que perguntavam para a existência, o que estávamos fazendo ali. Não que ela quisesse meu mal, mas em nome do que acreditava ser o bem, exigia outro de mim mesmo. Não pude dar a ela o que queria, ela não me deu o que desejei. Não foi uma vida, foi um redemoinho de inexplicáveis sensações. E agora que ela se foi, fico eu, sozinho, aqui a rodar, tentando recapitular a oceânica dor. Faria tudo de novo, cada embate, cada gritaria, cada desafio, cada torpor enlouquecido de que a felicidade só existiria longe dela. Como pode um filho necessitar desesperadamente da ausência da mãe para ser o que nasceu para ser, e isto, como o ar que respiro, inegociável, pois a outra opção é só o próprio desaparecimento? E agora que ela se foi, enfim a mais marcante das ausências. Lembro que uma noite ela foi até minha cama e me abraçou deliciosamente. Mas ali, fatal, já estava a distância impossível que marca os desencontros duradouros. Inimiga, megera, lutadora, tentadora, em nome de um bem, querendo no fim, o mal que é uma vida de fingimentos. Aos 45 do segundo tempo, dezembro agora, retornei e parei diante da velha grade de nossa juventude. A velha mulher, acabada, veio até o portão e exclamou: "deseja alguma coisa, senhor?". E foi repetindo, repetindo, olhando atentamente, até que baixinho, exclamou: "meu filho". E nos abraçamos e choramos copiosamente, durante a eternidade. A velha travessa 3 de maio, a velha Belém do Pará, a casa de nossa trágica epopéia. Agora tudo acabou, mas eu-fantasma vagarei pela existência buscando incessantemente a sinceridade. "Minha mãe, sou, fui, serei para sempre um veado, uma bicha, um pederasta.. Me perdoe de não ter negociado, é que não dava mesmo. Mas choro tanto por ter vivido esta única vida que nos deram, de mútuo desamor, e praguejo esta sociedade desgraçada que te obrigou a querer um heterossexual em vez de mim". Que gente é esta, mãezinha querida já morta, que te ensinou a moldar filhos em violentas situações? Mas não deve ter sido em vão, Cleonice da Conceição Pedrosa da Cunha. Das entranhas da mais profunda dor humana, esta que sinto, de não ter tido mãe, tendo-a, deve nascer dias de redenção, onde desejos filias não encontrem escudos de gelo e egoísmo. Que te seja leve, Rainha do Lar, porque a min, pesadíssimo, mas cheio de esperança.
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